Galeria | Nighthawks (Falcões Noturnos)

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A primeira vez que tive contato com essa obra do norte-americano Edward Hopper (1882-1967) foi em um vernissage da escola de artes onde minha irmã estudava desenho clássico. O melhor amigo dela apresentou, nessa ocasião, uma releitura de Nighthawks (Falcões Noturnos) e eu fiquei hipnotizada por esse quadro.

Essa obra é um marco da produção artística da primeira metade do século XX. Pesquisando a respeito, li que Hopper começou a pintar Nighthawks logo depois do bombardeio de Pearl Harbour, em 7 de dezembro de 1941. Se essa informação for real, faz todo o sentido com o espírito de melancolia que o quadro passa. Há um jogo de luz e sombra que mostra um ambiente externo completamente vazio, e ilumina o interior de um bar no meio da noite, onde a luz protege seus poucos e solitários fregueses. Entretanto, é um traço marcante a falta de conexão entre as quatro figuras humanas da cena, em um misto de desilusão e vazio.

Os traços são extremamente limpos, a escolha de cores é muito definida e é possível dizer que o diferencial de Nighthawks está mais naquilo que o quadro consegue inspirar em seus espectadores, pois não se trata de uma composição rebuscada, ou impactante. Entretanto, a magia de Hopper está na elaboração de uma obra-prima que, por meio do silêncio, consegue exprimir uma série de significados apenas retratando uma típica cena da vida urbana noturna.

A maior obra de Hopper inspirou, ao longo das décadas, muitas releituras não apenas no mundo das artes plásticas, como também no cinema e na televisão. Os Simpsons, Lego, Gottfried Helnwein, com seu quadro Boulevard of Broken Dreams, de 1984, entre tantas outras homenagens só consolidam a importância de Nighthawks no cenário da arte mundial do século XX.

Uma curiosidade sobre o quadro reside na localização do restaurante. Todas as fontes que consultei divergem sobre esse assunto; contudo, todas elas concordam que a esposa do pintor lhe serviu de modelo para a elaboração da única personagem feminina do quadro.

Nighthawks
Artista: Edward Hopper
Localização: Instituto de Arte de Chicago (EUA)
Ano: 1942

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Clássico | Diva (José de Alencar)

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Depois de tantos anos sem ler uma obra típica do Romantismo brasileiro, a experiência de leitura de Diva (1864) deve me valer, ao menos, um singelo comentário neste espaço.

Que interessante foi, depois de tanto tempo, deparar-me como leitora com a prosa de José de Alencar (1829-1877) que, muito longe de banalizar as relações amorosas, antes idealiza em níveis estratosféricos o amor em si.

A jovem Emília é a heroína que sucede Lúcia (de Lucíola (1862)) e precede Aurélia (de Senhora (1875)). Elaborando a protagonista de Diva, Alencar “treina” a construção de uma personagem feminina, rica e que, a princípio, não toma conhecimento dos assédios masculinos, faz pouco de seus pretendentes e está disposta a estabelecer o conflito consigo mesma em relação aos seus sentimentos e à maneira sobre como lidar com eles. O auge desse processo será, sem dúvida, alcançado com Aurélia, que ainda trará consigo, como respaldo para suas atitudes, o enfrentamento de um problema de inferioridade social que problematiza com mais profundidade o seu contato com o amor.

Com Diva, José de Alencar usa de recursos narrativos interessantes e também estabelece um vínculo intrigante entre seus perfis femininos urbanos. A história é contada por meio de carta de Augusto, o pretendente de Emília, a Paulo, amante de Lúcia em Lucíola. Bastante inovador, no contexto daquele momento, essa relação entre personagens de enredos diferentes (os dois rapazes ficam amigos em uma viagem de navio após o romance de Paulo com Lúcia), bem como essa forma de contar a história, que acaba incluindo o leitor na intimidade dos amigos, como participante espectador da trama que se desenrola sobre o relacionamento de Augusto e Emília.

Diva
José de Alencar
Editora Ática
Décima edição – 1998 (Cotejado com a terceira edição revista pelo autor em 1875)

Distopias | Fahrenheit 451

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Foi há coisa de uns três meses, com o lançamento da revista de livros Quatro cinco um (comentada aqui), que eu me lembrei de que tinha na estante o livro que inspirou o título da revista – ainda não lido.

Resolvi ler o livro antes de me dedicar ao primeiro número da revista e a leitura do clássico escrito por Ray Bradbury me deixou tão embevecida, que passei a agradecer pelo lançamento da Quatro cinco um só pelo fato de isso ter me motivado à leitura de um livro há dois anos esquecido na minha estante.

Trata-se de um enredo envolvendo uma sociedade distópica, resultado de um governo totalitário, que oprime os cidadãos que mantêm o gosto pela leitura e, principalmente, que dispõem de exemplares em suas casas. Nesse contexto sociopolítico que associa a infelicidade aos questionamentos proporcionados pelo hábito da leitura, os bombeiros constituem o elemento opressor, responsável por incendiar os livros apreendidos (vizinhos, conhecidos e mesmo parentes denunciam-se uns aos outros) e prender os leitores.

Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma.” (pág. 76)

Momento histórico

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Bradbury escreveu sua obra-prima no cenário mundial pós-Segunda Guerra em 1953. Originalmente chamado The fireman, o livro veio depois dos aclamados Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (publicado em 1932), e de 1984, de George Orwell (de 1949).

Contudo, o pai dos romances distópicos não é nenhum desses tão famosos autores. Nós, escrito pelo russo Yevgeny Zamyatin (1884-1937) entre os anos de 1920 e 1930, é o primeiro livro conhecido desse gênero. Além desses, outros enredos distópicos também viriam ao conhecimento do público mais tarde, como Metropolis (pelo filme de Fritz Lang, em 1927), Laranja Mecânica (pelo livro de Anthony Burgess, de 1962, e transformado em filme por Stanley Kubrick dez anos depois) e O Conto da Aia, de Margaret Atwood, publicado em 1985.

Montag, o bombeiro

As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo, mas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver, noventa e nove por cento delas está num livro. Não peça garantias. E não espere ser salvo por uma coisa, uma pessoa, máquina ou biblioteca. Trate de agarrar a sua própria tábua e, se você se afogar, pelo menos morra sabendo que estava no rumo da costa.” (pág. 107)

Um bombeiro que começa a se interessar pelos livros que deveria incendiar é o ponto de partida para a revolução na sociedade até então tão controlada do enredo de Ray Bradbury. Os questionamentos de Guy Montag ultrapassam o nível do aceitável, quando o bombeiro começa a se dar conta do vazio que tomava conta de seu casamento, bem como de sua falta de perspectiva em relação à sua profissão – tudo isso a partir de pequenos diálogos estabelecidos com sua vizinha Clarisse no trem, ou andando pelo bairro, diariamente, na volta do trabalho. Afinal, qual era o sentido de queimar livros e de viver com uma mulher que nem se lembra de quando o conheceu?

A versão de Truffaut

Mais de dez anos depois, o prestigiado François Truffaut levou para as telas do cinema a adaptação do romance de Bradbury. A produção vale pelo caráter de divulgação e de estímulo ao interesse do público pelo texto original, sem dúvida. Entretanto, o cinema sofre pela concisão necessária a obras que pedem um alto grau de complexidade de construção, como é o caso de Fahrenheit 451.

É incrível como o livro consegue transmitir mais emoção do que o filme no ápice da trama, com a fuga de Montag. Outra grande perda foi o fato de Truffaut ter suprimido da versão cinematográfica o Sabujo, a temida criatura robótica algoz de todos aqueles que contrariavam os interesses da ordem dominante. Mesmo assim, é interessante ver como o diretor francês transformou em imagens alguns signos interessantes do livro de Bradbury, como o carro dos bombeiros, por exemplo.

Obra-prima

Sem dúvida, Fahrenheit 451 foi uma de minhas melhores leituras neste ano. É um livro notável, capaz de falar ao coração de todo aquele que ama a Literatura, dá valor aos livros e encara o processo de leitura como um momento de abertura de perspectivas, de incremento da visão de mundo e de problematização das questões da existência.

Para mim, o ponto alto da história foi a maneira encontrada pelo autor de preservar os livros em um contexto totalitário. Trabalhar o pensamento e a reflexão sobre aquilo que se lê, tendo como ponto de partida a assimilação das obras clássicas da Literatura mundial, constitui o objetivo que deveria nortear qualquer atividade de leitura. Não se trata apenas de ler, mas de buscar maneiras de refletir sobre o que foi lido, de empregar um tempo precioso para aperfeiçoar o pensamento. É isso. E muito mais, é claro!

Fahrenheit 451 (livro)
Ray Bradbury
Globo de Bolso
2014 – 214 páginas

Fahrenheit 451 (filme)
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut e Jean-Louis Richard, a partir do romance de Ray Bradbury
Ano: 1966
País: Estados Unidos
Gênero: Ficção científica
Duração: 112 minutos
Elenco: Oskar Werner (Guy Montag); Julie Christie (Linda Montag/Clarisse); Cyril Cusack (Capitão); Anton Diffring (Fabian); Alex Scott (homem-livro)

Irmãos Encrenca | O caso do sabotador de Angra

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História originalmente publicada em 1981, este livro, apesar de sempre figurar entre as aventuras dos Irmãos Encrenca, curiosamente, não conta com a participação de Marco, Eloís e Isabel. Na verdade, o único vínculo que essa história apresenta com o arco restante das aventuras dos irmãos é a presença do Inspetor Nicolau, personagem que também participa de histórias do trio.

Entretanto, como não li todos os volumes das aventuras dos irmãos, apenas fazendo pesquisas depois de finalizar o livro pude entender que O caso do Sabotador de Angra é a ponte para introduzir os simpáticos garotos carentes Tic-Tac e Acetato – protagonistas dessa história – no universo dos Irmãos Encrenca. Em O esqueleto atrás da porta, um dos últimos livros da série de Marco Isabel e Eloís, a autora “viabilizará” o encontro entre os dois meninos órfãos e os três irmãos que dão nome à série consagrada de Stella Carr. Agora tudo faz sentido.

Sobre o enredo

Mais uma vez, a autora elabora uma história envolvendo questões ambientais e governamentais, tudo, é claro, com uma dinâmica intensa e toques de humor diretamente relacionados aos diálogos das crianças do orfanato chamado Lar da Boa Vontade, um triste local chefiado pelo falso benemérito chamado Bepe. Portanto, se desta vez não temos os divertidos diálogos entre Marco, Eloís e seus amigos, em O caso do sabotador de Angra, são os órfãos os responsáveis por dar um toque infantil e brincalhão à trama, por meio de situações bastante verossímeis do universo das crianças.

Neste volume, a questão ambiental é representada pela importante discussão do programa nacional de energia nuclear, suas responsabilidades e implicações. Stella Carr se vale de um momento histórico (início da década de 1980) no qual esse assunto ainda era uma incógnita para a sociedade brasileira e elabora um intrincado enredo – esta é a mais complexa história do arco até o momento –, com uma construção literária bastante consistente, para discutir esses pontos com seus jovens leitores.

– Que tipo de gente tentaria explodir uma usina nuclear?

– Não sei dizer, inspetor, não sou psiquiatra. Mas gostaria de saber o que leva um homem a esse gesto de total desespero.

– Ele chama a si mesmo de ‘justiceiro’. Tenho muito medo do fanatismo. A história está cheia de crimes e massacres executados por justiceiros.

Ficaram os dois em silêncio.” (p. 24)

Um pouco de fantasia

O toque fantástico do livro fica por conta da curiosa Loja de Estranhezas, comandada por Caio Porfírio Carneiro, e pelas misteriosas aparições de Polípedes, o mágico, ambos personificações de amigos reais da autora, homenageados nas páginas de seu livro.

Assim como aconteceu com a leitura de O fantástico homem do metrô (comentado aqui), eu também não tinha muito boas recordações de O caso do sabotador de Angra – muito provavelmente porque a complexidade da trama deve ter me deixado um tanto perdida em minha primeira leitura (quando eu tinha uns desatenciosos 13 anos, acho…). Hoje, na releitura, as peças ficaram bem mais claras, e pude constatar que, com este livro, Stella Carr atingiu o ponto alto das aventuras de Marco, Eloís e Isabel.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o sexto livro da série: O segredo do Museu Imperial!

O caso do sabotador de Angra
Stella Carr
Editora Moderna
118 páginas – 1992

Leitura | Quem matou Roland Barthes?

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Roland Barthes, brilhante filósofo, sociólogo, semiólogo etc.

Preciso, ainda que brevemente, fazer um registro da leitura desse excelente livro. Confesso até que me senti constrangida durante sua leitura. Primeiro, porque, mesmo tendo lido algumas sinopses sobre ele previamente, eu o subestimei. Segundo, porque se trata de um livro que vai muito além de uma mera trama policial.

O que me chamou a atenção foi o insight do jovem autor francês Laurent Binet de transformar personalidades reais em protagonistas de um romance. O nome de Roland Barthes na capa já me motivou à leitura. E saber que teóricos como Julia Kristeva, Michel Foucault, Roman Jakobson, Jacques Derrida, Umberto Eco, entre tantos outros estudiosos com os quais me deparei em meus estudos de pós-graduação e mestrado, faziam parte do enredo me deixou ainda mais intrigada.

Binet encarou o desafio com muita competência. Com seu livro, fez não apenas uma homenagem à história recente da França – questões sociais e políticas permeiam toda a história, e dados reais sustentam a trama de Binet –, mas também soube abordar (até onde me compete dizer) tópicos da Linguística e transformá-los em substrato consistente de seu livro.

A história

O ponto de partida do romance de Binet se dá com um fato real: o atropelamento que viria a ser a causa da morte de Roland Barthes (1915-1980). O motivo: a possível existência de uma sétima função da linguagem, a qual estaria em posse de Barthes naquele momento – aí Binet começa a escrever a ficção em cima da realidade.

A suposta sétima função seria a mais poderosa de todas e estaria diretamente relacionada à arte da retórica – o Clube Logos, um dos pontos fortes do livro, responsável por sequências memoráveis da história, também foi uma grande homenagem a Aristóteles – e daria ao seu detentor possibilidades inimagináveis. Aí Binet confere à arte do discurso o status de maior arma de todas, e não apenas na esfera política.

A trama do livro viaja entre países – França, Itália, Estados Unidos – e mostra, de forma até um tanto satírica, a elite da intelectualidade mundial daquela época (início dos anos de 1980). A prosa de Binet é rica em referências, e a leitura do livro me motivou a buscar novamente, entre as minhas coisas, reportagens, livros de Roland Barthes, entrevistas de Julia Kristeva, minhas anotações sobre Linguística, bem como os livros de Aristóteles e de Umberto Eco. Seria possível passar meses e meses debruçando-se sobre seu tema. Trata-se de um livro publicado no centenário de nascimento de Barthes (ótimo tributo) e que não se esgota em si mesmo, mas estimula o leitor à pesquisa sobre vários pontos de sua trama.

Quem matou Roland Barthes?
Laurent Binet
Companhia das Letras
Tradução de Rosa Freire d’Aguiar
2016
416 páginas

Breves comentários – Agatha Christie: O mistério de Sittaford

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Esse livro chamou minha atenção desde que li a sinopse e soube que, desta vez, a Dama do Crime usaria de “expedientes esotéricos” em seu enredo.
O que a tradução chamou de “mesa girante”, mas que também encontra equivalentes na “brincadeira do copo” e na “tábua dos espíritos”, por exemplo, foi o ponto de partida para o assassinato a partir do qual se desenvolve toda a trama. Um chamariz até interessante, porém não mais do que isso.
Personagens muito interessantes, como a intrépida Emily Trefusis (que me lembrou a Budle de “O segredo de Chimneys” e “O mistério dos sete relógios”), a Sra. Percehouse e o ambicioso jornalista Charles Enderby contribuem para deixar a história mais dinâmica, muito embora a leitura tenha me deixado a impressão de que, neste livro, Agatha Christie só precisou rechear a história de informações e confundir o leitor para a ideia dar certo.
Dessa vez, a motivação me pareceu fraca, e a argumentação não sustentou muito bem a história. Na verdade, tive a impressão de que Emily Trefusis se tornou maior do que a trama em si (o inspetor Narracott desaparece completamente diante da astúcia da moça), o que talvez até justificasse o aproveitamento da personagem em outras histórias, assim como ocorreu com Budle. Infelizmente, parece que Agatha Christie não levou essa ideia adiante, e Emily ficou apenas nas páginas do enredo de Sittaford.

Série | Punho de Ferro

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Este post entra aqui com bastante tempo de atraso, porém ainda antes do mês de agosto, quando a Netflix disponibilizará a primeira temporada de Defensores, o projeto que reunirá Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro em uma mesma série.

Impressões 

Não tenho background dos quadrinhos para falar sobre Punho de Ferro, infelizmente, portanto registro aqui apenas minhas impressões em relação à série em si.

Danny Rand (Finn Jones) é o alter-ego do herói protagonista da série, um jovem que, por ter passado muitos anos isolado em uma cidadela do Himalaia, volta aos EUA para retomar seu lugar e descobrir a verdade sobre a morte de seus pais.

Algumas coisas me chamaram a atenção ao longo dos 13 episódios da primeira temporada da série. A inocência de Rand me pareceu verídica em relação à trajetória do personagem e achei especialmente interessante o modo como essa inocência se encaixa com a insegurança do personagem para afetar a estabilidade de seus poderes.

Da mesma forma, o núcleo dos Meachum, ex-sócios dos pais de Danny Rand nas empresas, contribui positivamente para uma releitura da vilania da série, uma vez que o antagonismo vai migrando entre personagens da família Meachum ao longo dos capítulos.

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Por último, as participações de Colleen Wing (Jessica Henwick), como uma misteriosa companheira para Danny; da enfermeira Claire Temple (a ótima Rosario Dawson); e da advogada Jeri Hogarth (Carrie-Ann Moss), estas últimas “alinhavando” a relação entre as séries dos personagens que vão se reunir em Defensores foram, definitivamente, boas cartadas da Netflix, produtora e emissora de todo esse núcleo da Marvel.

Chuva de críticas

Pelo que notei, entre esses personagens do núcleo Marvel/Netflix, Punho de Ferro foi o aquele cuja série mais sofreu críticas por parte do público especializado. Observações negativas foram desde a interpretação de Finn Jones como protagonista, até mesmo aos efeitos especiais da série. Parece-me, entretanto, que o maior problema de Punho de Ferro foi chegar ao fim de sua primeira temporada sem se firmar em seu próprio universo. Foi o último personagem a chegar, mas ainda está repleto de arestas a serem aparadas (alguns desses problemas constituem conflitos pessoais do herói que até são coerentes), reparos estes que não vão acontecer antes da estreia de Defensores no mês de agosto.

Punho de Ferro
Criação: Scott Buck
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Ação/Crime
Duração – Temporada 1: 13 episódios (cada um com 52 minutos em média)

Cinema | Mulher-Maravilha

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Eu cresci lendo gibis e revistas sobre histórias em quadrinhos. Era muito comum – e desestimulante também – ler reportagens que faziam previsões muito pessimistas sobre a possibilidade de levar para os cinemas especificamente dois personagens: Wolverine e Mulher-Maravilha. Foi, portanto, muito bacana ver os anos passando e constatar que as previsões – nos dois casos – estavam erradas.

No caso da Mulher-Maravilha, foram mais de 70 anos até que a indústria cinematográfica fosse capaz de fazer jus à personagem feminina mais icônica do mundo dos super-heróis. Criada por William Moulton Marston em 1941, Diana de Themyscira, princesa, amazona, semideusa, foi, durante muito tempo, o único contraponto feminino em um mundo dominado por homens, por heróis. Por isso mesmo, em muitos momentos, foi motivo até mesmo de piadas, embora, mesmo secretamente, nas mentes de muitas meninas, ela alimentasse a emancipação feminina. O seu “sacrifício” foi reconhecido: Mulher-Maravilha é embaixadora honorária da Organização das Nações Unidas (ONU), tem o seu dia – 21 de outubro é o Dia Internacional da Mulher-Maravilha – e é, até hoje, uma das maiores representações femininas da cultura pop mundial.

Cinema

Tudo isso constitui motivo mais do que suficiente para alimentar muita expectativa em torno do filme da princesa amazona. E a produção dirigida por Patty Jenkins não decepcionou os fãs. Da série de TV protagonizada pela bela Linda Carter nos últimos anos da década de 1970, até a aventura estrelada pela atriz e modelo israelense Gal Gadot, Mulher-Maravilha cresceu em conteúdo, ganhou conotação social importante, e alcançou papel de destaque nos debates em torno do empoderamento feminino.

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Linda Carter, a Mulher-Maravilha na TV

Em termos cinematográficos, o filme tem se mostrado uma experiência bem-sucedida (mais de 500 milhões de dólares arrecadados em bilheteria até o momento) também por seus méritos técnicos, bem como aqueles diretamente relacionados ao processo de transposição positiva de um personagem das histórias em quadrinhos para a sétima arte. Gal Gadot ressignifica o conceito de Mulher-Maravilha, atualiza sua feminilidade, para isso em muito auxiliada por uma equipe eficiente, que soube aproveitar as referências da personagem original e trabalhar em cima de uma matéria-prima que já era muito boa.

Ganha força no filme o misto de inocência e força concentrada na Mulher-Maravilha personificada por Gal. Ela não esmaga o Steve Trevor interpretado por Chris Pine, porém envolve toda a estrutura do filme de forma muito marcante, sem medo de imprimir o seu toque à personagem.

Todas as mulheres do filme se unem na missão de dar poder ao sexo feminino. Seja pela habilidade marcial de Hipólita (Connie Nielsen) e Antiope (a excelente Robin Wright, da série House of Cards, é uma atração à parte nas batalhas da ilha de Themyscira), seja na tímida participação da secretária Etta (Lucy Davis), ao mesmo tempo cômica, mas esforçada em seu ofício. O antagonismo da Dra. Maru, na pele de Elena Anaya, constitui a primeira barreira, mesmo que indiretamente, no caminho de Diana.

O mal em toda parte

Sem dúvida, é um ponto forte do filme a maneira pela qual o mal disseminado na humanidade é retratado. Ao contrário da ideia ingênua de Diana, Ares, o deus da guerra e a personificação do mal, não está apenas encarnado no militar alemão Ludendorff, mas está presente em cada ser humano, o que confere força ao verdadeiro Ares, capciosamente oculto sob outra identidade. A complexidade demonstrada pelo enredo, ao fazer a heroína perceber que não é possível, literalmente, exterminar o mal pela raiz é uma das grandezas do filme, o que o faz ultrapassar o maniqueísmo simples.

Ao confronto entre bem e mal, contrapõem-se as cenas de humor e de romantismo discreto protagonizadas por uma princesa Diana que é livre para viver suas emoções (não apenas as suas lutas) – mais um passo na direção de um exercício de feminilidade que deve ser a inspiração de toda mulher.

Ficha técnica
Mulher Maravilha
Direção: Patty Jenkins
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Aventura
Duração: 2h21min
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Elena Anaya, Lucy Davis

Revista | Quatro cinco um

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A iniciativa de tentarmos novamente fixar a existência de um título voltado para o mercado de livros no Brasil, por si só, já tem mérito. Essa é a proposta da Quatro cinco um, novo título mensal cujo nome é uma remissão direta ao romance Fahrenheit 451, obra-prima do escritor norte-americano Ray Bradbury (1920-2012). Ela tenta suprir o vazio deixado pela Entrelivros, título editado pela Duetto, sob o comando do jornalista e crítico Manuel da Costa Pinto e que, durante dois anos (de 2005 a 2007), lançou edições bem interessantes, voltadas para o público amante da Literatura.

Sob a proteção da equipe da Revista Piauí, que não apenas colaborou com questões logísticas, mas também ofereceu apoio editorial ao novo título, a Quatro cinco um tem o difícil desafio de sobreviver em um mercado editorial fraco, em um país que não preza a leitura e que atravessa um período de forte recessão econômica.

Estrutura

Seu formato tabloide e sua organização editorial lembram a concepção de publicações estrangeiras, como a London Review of Books e a The New Yorker Review of Books. Seus textos apresentam um pouco da densidade de suas inspiradoras e seguem um pouco da lógica de distribuir assuntos entre seus colaboradores com o intuito de tirá-los de sua zona de conforto. Nesta primeira edição, não é incomum ver gente assinando resenhas cujos assuntos não necessariamente fazem parte do escopo de seus autores – Eduardo Jardim, por exemplo, é autor de um livro sobre Mário de Andrade, mas assina a resenha de um título sobre Hannah Arendt. Essas interessantes combinações resultam em textos que fogem à zona de conforto e encorpam a publicação.

Fiz a experiência de ler a edição procurando pelos assuntos que me interessavam. Bom sinal: li praticamente toda a revista, à exceção de uns dois ou três textos. A Quatro cinco um é dividida por assuntos e, no fim, apresenta um listão com lançamentos distribuídos em 20 áreas diferentes. E, muito embora eu não tenha gostado da escolha da matéria de capa, sobre a produção literária de Elena Ferrante, entendo perfeitamente a opção editorial que reflete a tendência nacional do mercado, uma vez que essa autora italiana é campeã de vendas no Brasil atualmente.

Pretendo acompanhar as próximas edições para ver o caminho que a publicação vai trilhar. Desejo vida longa à revista Quatro cinco um. Em um país como o nosso, nunca é demais tentar falar sobre livros.

Revista Quatro cinco um
Periodicidade mensal
Lançamento: Maio de 2017
40 páginas
R$ 17,00

Livro & Filme | A Delicadeza

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É sempre polêmico falar de obras adaptadas da literatura para o cinema. Pessoalmente, sempre me posiciono a favor desse tipo de transposição, porque esse processo não apenas estimula o interesse pela produção original, como também permite uma nova interpretação (uma ressignificação) da obra.

No caso de livros que, em sua essência, já são muito bons (este é o caso aqui), é ainda mais complicado aceitar o desafio de transformá-lo em filme. O escritor francês David Foenkinos aceitou correr esse risco, roteirizando e dirigindo o filme inspirado diretamente no romance de sua autoria.

Apesar de esses breves comentários não terem como objetivo a comparação estrita entre livro e filme – sabe-se que as linguagens têm as suas peculiaridades –, não posso deixar de observar que o ponto mais forte do livro é justamente a linguagem literária que o autor não consegue, como roteirista e diretor, imprimir ao filme, mesmo com as singelas e equilibradas interpretações de Audrey Tautou e François Damiens como o casal protagonista Nathalie e Markus.

História

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O enredo é simples: após uma viuvez prematura, a jovem e competente economista Nathalie precisa retomar sua vida e superar o vazio deixado por um casamento feliz. A delicadeza preconizada no título da história é o combustível do romance: está em uma grande quantidade de detalhes com os quais Foenkinos constrói a transição entre um amor interrompido bruscamente e a aparição de um novo sentimento a partir de um ato completamente despido de premeditação por parte de Nathalie.

É curioso observar como o recurso visual acaba minando a magia que a leitura impulsiona por meio de detalhes, verdadeiros toques de sensibilidade que constituem todo o diferencial do livro. Coisas como o assunto da notícia de jornal que Markus estava lendo quando Nathalie chega ao café para encontrá-lo, ou o resultado da rodada do campeonato francês de futebol na noite em que Nathalie recusa a investida amorosa de Charles, o diretor da empresa na qual trabalha, são suprimidos pelo Foenkinos roteirista e diretor, ou seja, perdem-se no fluxo de imagens que tornam simplista a autenticidade do Foenkinos escritor nas páginas de seu livro.

Por outro lado, a tentativa de contar, em menos de duas horas, uma história que não é óbvia e que é recheada de nuances e sutilezas – o leitor/expectador partilha com Nathalie de sua confusão sentimental e descobre junto a ela seus novos objetivos de vida –, faz do filme uma adaptação que, a seu modo, também tem a sua beleza e, é claro, o seu valor.

Mesmo com as limitações do cinema enquanto estimulador da criatividade da obra adaptada, a experiência de ver um romance como A Delicadeza em forma de filme (com o título também mais óbvio de A Delicadeza do Amor) é válida, porque seu resultado no cinema é um esforço intenso de veiculá-lo ao livro que o originou. E, para aqueles que gostaram da história, a oportunidade de vê-la em diferentes linguagens artísticas é enriquecedor. Talvez Foenkinos tenha pensado nessa possibilidade, quando levou seu livro para as telas do cinema. É muito mais produtivo pensar nos dois resultados (livro e filme) como complementares, do que compará-los buscando a superioridade de um sobre o outro.

A Delicadeza (livro)
David Foenkinos
Tradução de Bernardo Ajzenberg
Rocco
2011 – 191 páginas

A Delicadeza do Amor (filme)
Direção: David Foenkinos e Stéphane Foenkinos
Roteiro: David Foenkinos, baseado em seu próprio romance
Ano: 2012
País: França
Gênero: Romance
Duração: 104 minutos
Elenco:  Audrey TautouFrançois DamiensBruno Todeschini, Mélanie Bernier, Joséphine de Meaux, Pio Marmai