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Série | The Good Place

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Preciso fazer um rápido comentário sobre a primeira temporada dessa série produzida originalmente pela Netflix e exibida pela emissora norte-americana NBC.

Trama surpreendente, episódios breves, pitadas de humor inteligente e situações criativas, protagonizadas por personagens bem construídos. Essa é a fórmula bem-sucedida de The Good Place, cujo enredo gira em torno de Eleanor Shellstrop (Kristen Bell, de Veronica Mars), uma “fraude”, um “erro de cálculo” na classificação das almas boas que, após a morte, são levadas a habitar o lugar bom, uma versão do paraíso montada pelo “arquiteto” Michael (o ótimo Ted Danson, da franquia Três Solteirões e um Bebê).

Personagens 

As aventuras de Eleanor são compartilhadas por sua “alma gêmea”, Chidi Anagonye (William Jackson Harper), o que torna tudo muito interessante, porque, se Eleanor foi, em vida, a espertinha sem muitas noções de honestidade, seu contraponto é uma alma gêmea que, em vida, era um professor de filosofia moral. O contraste entre ambos é um dos maiores acertos da série, com Chidi e sua importante missão de tentar “recuperar moralmente” a alma de Eleanor.

O núcleo de protagonistas é ainda integrado pela ex-filantropa Tahani Al-Jamil (Jameela Jamil) e o monge Jianyiu (Manny Jacinto), outro inusitado casal de almas gêmeas. Ou seja, Eleanor é a estranha no ninho. O ápice dessa diferença se dá com a descoberta de uma outra Eleanor, exemplo de boa conduta em vida, mas que, depois de morta, foi levada por engano ao “lugar ruim”. Uma troca infeliz, que, aparentemente, custaria um alto preço para os dois lados.

O roteiro muito bem elaborado e cheio de referências (sem dúvida, Chidi bancando o Cyrano de Bergerac com Tahani é um dos momentos mais bacanas da série) consegue estabelecer uma trama mais promissora a cada episódio, culminando com um final de temporada digno de uma série já consolidada por público e crítica. Fiquei com uma ótima impressão de The Good Place e bastante curiosa para ver como a equipe da série pretende manter o ótimo nível desta primeira temporada.

The Good Place – Primeira temporada
Criação: Michael Schur
Ano: 2016
País: EUA
Gênero: Ação/Crime/Drama
Duração: 13 episódios (cada um com média de 22 minutos de duração)

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Série | Os Defensores

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Terminei de assistir ao último capítulo da primeira temporada de Os Defensores com certo alívio. A meu ver, a proposta inicial da série (um tanto ousada, inclusive) foi cumprida: juntar quatro heróis que já haviam aparecido em séries individuais em uma mesma trama com coerência. Sim, houve alguns problemas no processo, mas creio que todo o público que, anteriormente, já havia acompanhado as duas primeiras temporadas de Demolidor (Charlie Cox), e as primeiras temporadas de Jessica Jones (Krysten Ritter), Luke Cage (Mike Colter) e Punho de Ferro (Finn Jones) já esperavam por isso.

Enredo

Uma das coisas que fizeram com que a série de fato conseguisse entregar o que seus produtores haviam prometido foi um enredo coerente, nem que para isso fosse necessário criar “subnúcleos” entre os protagonistas. Aproveitando o gancho dos Heróis de Aluguel dos quadrinhos, Luke e Punho de Ferro rapidamente se ajustaram, mas foi a interação totalmente apoiada no contraponto entre Demolidor e Jessica Jones o elemento que garantiu a dinâmica de alguns episódios.

Há vários pontos interessantes a serem pensados em relação ao enredo. A ideia básica é muito boa, é coerente a forma como os quatro protagonistas se veem em “uma mesma encrenca”, mas é inevitável não pensar que o pequeno número de episódios (apenas oito) é insuficiente para estruturar satisfatoriamente uma trama com vários heróis que vinham de atuações protagonistas. Alguma coisa seria sacrificada. Ou algumas.

Infelizmente, houve o subaproveitamento de personagens coadjuvantes muito bons, como Karen Page (Deborah Ann Woll), do “núcleo Demolidor”. Ficou uma coisa bastante artificial ela protagonizar diálogos um tanto óbvios (o que não é aceitável, dado que se trata de uma mulher bastante astuta e inteligente), chegando até a bancar a inconveniente em várias situações.

Outro ponto bastante estranho foi a trajetória do Tentáculo, grande vilão da trama. Composto por quatro “pilares” (isso não é mera coincidência – quatro vilões, quatro heróis), eu comecei a desenvolver o raciocínio um tanto óbvio (estou usando muito essa palavra neste texto, eu sei) de que cada herói seria confrontado por um dos vilões do Tentáculo, então ver Colleen Wing (Jessica Henwick) fazer o que fez (estou tentando não dar spoilers) no último episódio me deixou, de certa forma, chocada, porque Bakuto (Ramón Rodríguez) tinha sido superior ao Punho de Ferro (Finn Jones) em vários combates anteriores – ou seja, onde está a lógica? Colleen conseguiu fazer o que o Punho não conseguiu?

Ponta de luxo

Sigourney Weaver como Alexandra, coração do Tentáculo, também teve uma participação competente, porém encerrada prematuramente, a meu ver. Os roteiristas poderiam ter se valido mais da boa interpretação da atriz para conferir mais força à trama, mas, em vez disso, preferiram destacar a presença de Elektra (Élodie Yung) – que já está merecendo sua própria série, diga-se de passagem. Afinal, são muitas contradições dentro de uma mesma personagem, então, penso que seria o caso de desenvolver uma série individual para o “amor assassino” do Demolidor.

Enfim, nada é perfeito. A iniciativa é válida, e eu gostaria que Os Defensores continuasse em outras temporadas, mas com maior número de episódios – a despeito das agendas individuais das outras séries (talvez isso possa ser administrado de forma competente pela Netflix, não sei).

Os Defensores
Criação: Douglas Petrie
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Ação/Crime/Drama
Duração – Temporada 1: 8 episódios (cada um com 1 hora em média)

 

Série | Punho de Ferro

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Este post entra aqui com bastante tempo de atraso, porém ainda antes do mês de agosto, quando a Netflix disponibilizará a primeira temporada de Defensores, o projeto que reunirá Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro em uma mesma série.

Impressões 

Não tenho background dos quadrinhos para falar sobre Punho de Ferro, infelizmente, portanto registro aqui apenas minhas impressões em relação à série em si.

Danny Rand (Finn Jones) é o alter-ego do herói protagonista da série, um jovem que, por ter passado muitos anos isolado em uma cidadela do Himalaia, volta aos EUA para retomar seu lugar e descobrir a verdade sobre a morte de seus pais.

Algumas coisas me chamaram a atenção ao longo dos 13 episódios da primeira temporada da série. A inocência de Rand me pareceu verídica em relação à trajetória do personagem e achei especialmente interessante o modo como essa inocência se encaixa com a insegurança do personagem para afetar a estabilidade de seus poderes.

Da mesma forma, o núcleo dos Meachum, ex-sócios dos pais de Danny Rand nas empresas, contribui positivamente para uma releitura da vilania da série, uma vez que o antagonismo vai migrando entre personagens da família Meachum ao longo dos capítulos.

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Por último, as participações de Colleen Wing (Jessica Henwick), como uma misteriosa companheira para Danny; da enfermeira Claire Temple (a ótima Rosario Dawson); e da advogada Jeri Hogarth (Carrie-Ann Moss), estas últimas “alinhavando” a relação entre as séries dos personagens que vão se reunir em Defensores foram, definitivamente, boas cartadas da Netflix, produtora e emissora de todo esse núcleo da Marvel.

Chuva de críticas

Pelo que notei, entre esses personagens do núcleo Marvel/Netflix, Punho de Ferro foi o aquele cuja série mais sofreu críticas por parte do público especializado. Observações negativas foram desde a interpretação de Finn Jones como protagonista, até mesmo aos efeitos especiais da série. Parece-me, entretanto, que o maior problema de Punho de Ferro foi chegar ao fim de sua primeira temporada sem se firmar em seu próprio universo. Foi o último personagem a chegar, mas ainda está repleto de arestas a serem aparadas (alguns desses problemas constituem conflitos pessoais do herói que até são coerentes), reparos estes que não vão acontecer antes da estreia de Defensores no mês de agosto.

Punho de Ferro
Criação: Scott Buck
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Ação/Crime
Duração – Temporada 1: 13 episódios (cada um com 52 minutos em média)

Cinema | Mulher-Maravilha

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Eu cresci lendo gibis e revistas sobre histórias em quadrinhos. Era muito comum – e desestimulante também – ler reportagens que faziam previsões muito pessimistas sobre a possibilidade de levar para os cinemas especificamente dois personagens: Wolverine e Mulher-Maravilha. Foi, portanto, muito bacana ver os anos passando e constatar que as previsões – nos dois casos – estavam erradas.

No caso da Mulher-Maravilha, foram mais de 70 anos até que a indústria cinematográfica fosse capaz de fazer jus à personagem feminina mais icônica do mundo dos super-heróis. Criada por William Moulton Marston em 1941, Diana de Themyscira, princesa, amazona, semideusa, foi, durante muito tempo, o único contraponto feminino em um mundo dominado por homens, por heróis. Por isso mesmo, em muitos momentos, foi motivo até mesmo de piadas, embora, mesmo secretamente, nas mentes de muitas meninas, ela alimentasse a emancipação feminina. O seu “sacrifício” foi reconhecido: Mulher-Maravilha é embaixadora honorária da Organização das Nações Unidas (ONU), tem o seu dia – 21 de outubro é o Dia Internacional da Mulher-Maravilha – e é, até hoje, uma das maiores representações femininas da cultura pop mundial.

Cinema

Tudo isso constitui motivo mais do que suficiente para alimentar muita expectativa em torno do filme da princesa amazona. E a produção dirigida por Patty Jenkins não decepcionou os fãs. Da série de TV protagonizada pela bela Linda Carter nos últimos anos da década de 1970, até a aventura estrelada pela atriz e modelo israelense Gal Gadot, Mulher-Maravilha cresceu em conteúdo, ganhou conotação social importante, e alcançou papel de destaque nos debates em torno do empoderamento feminino.

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Linda Carter, a Mulher-Maravilha na TV

Em termos cinematográficos, o filme tem se mostrado uma experiência bem-sucedida (mais de 500 milhões de dólares arrecadados em bilheteria até o momento) também por seus méritos técnicos, bem como aqueles diretamente relacionados ao processo de transposição positiva de um personagem das histórias em quadrinhos para a sétima arte. Gal Gadot ressignifica o conceito de Mulher-Maravilha, atualiza sua feminilidade, para isso em muito auxiliada por uma equipe eficiente, que soube aproveitar as referências da personagem original e trabalhar em cima de uma matéria-prima que já era muito boa.

Ganha força no filme o misto de inocência e força concentrada na Mulher-Maravilha personificada por Gal. Ela não esmaga o Steve Trevor interpretado por Chris Pine, porém envolve toda a estrutura do filme de forma muito marcante, sem medo de imprimir o seu toque à personagem.

Todas as mulheres do filme se unem na missão de dar poder ao sexo feminino. Seja pela habilidade marcial de Hipólita (Connie Nielsen) e Antiope (a excelente Robin Wright, da série House of Cards, é uma atração à parte nas batalhas da ilha de Themyscira), seja na tímida participação da secretária Etta (Lucy Davis), ao mesmo tempo cômica, mas esforçada em seu ofício. O antagonismo da Dra. Maru, na pele de Elena Anaya, constitui a primeira barreira, mesmo que indiretamente, no caminho de Diana.

O mal em toda parte

Sem dúvida, é um ponto forte do filme a maneira pela qual o mal disseminado na humanidade é retratado. Ao contrário da ideia ingênua de Diana, Ares, o deus da guerra e a personificação do mal, não está apenas encarnado no militar alemão Ludendorff, mas está presente em cada ser humano, o que confere força ao verdadeiro Ares, capciosamente oculto sob outra identidade. A complexidade demonstrada pelo enredo, ao fazer a heroína perceber que não é possível, literalmente, exterminar o mal pela raiz é uma das grandezas do filme, o que o faz ultrapassar o maniqueísmo simples.

Ao confronto entre bem e mal, contrapõem-se as cenas de humor e de romantismo discreto protagonizadas por uma princesa Diana que é livre para viver suas emoções (não apenas as suas lutas) – mais um passo na direção de um exercício de feminilidade que deve ser a inspiração de toda mulher.

Ficha técnica
Mulher Maravilha
Direção: Patty Jenkins
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Aventura
Duração: 2h21min
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Elena Anaya, Lucy Davis

Série | Tokyo Diner, Midnight Stories

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Uma pequena nota sobre esse seriado tão singelo. A concepção de Tokyo Stories… me lembrou demais a ideia do mangá Gourmet (já resenhado aqui), de Jiro Taniguchi & Masayuki Qusumi. E me trouxe ainda mais lembranças dos anos em que trabalhei em um jornal para a comunidade japonesa no Brasil. Toda semana, publicávamos uma receita de culinária asiática no suplemento de variedades (no qual eu trabalhava). Ou seja, muita memória afetiva e profissional envolvida.

A ideia dos episódios é simples: o pequeno restaurante do “Mestre” – forma pela qual o protagonista é referido pelos frequentadores – é o ponto de partida para as mais diversas histórias que, em episódios de menos de 30 minutos cada, contam um pouco da vida de seus clientes. O Tokyo Dinner funciona da meia-noite às 6 da manhã e, apesar de ser um estabelecimento trivial para os padrões da culinária japonesa, tem público fiel.

O segredo da série, aliás, está na simplicidade, nas histórias do dia a dia de uma sociedade asiática tipicamente moderna, com suas peculiaridades e seu interessante hábito de relacionar o ritual da alimentação do prato favorito a um grupo de memórias afetivas que confere à série um grupo de episódios com histórias bastante interessantes. A comida favorita é o fio condutor de capítulos importantes de cada personagem que dá o tom de cada episódio de Tokyo Diner – Midnight Stories.

Relação dos episódios:

lamen;
corn dog;
tonteki;
omuraisu;
tamago;
umeboshi e vinho de ameixa;
fondue chinês;
– batata-doce refogada;
– presunto empanado;
– macarrão de ano-novo.

Para quem quiser entender mais sobre no que consiste cada prato listado acima, recomendo pesquisa no site do jornal ontem eu trabalhei, o Nippobrasil, que conta com uma seção bem legal sobre culinária oriental.

Trata-se de uma ótima série para encerrar um dia atribulado, com uma pegada sensível e que cria com o espectador uma relação que o faz aguardar, com o grau ideal de ansiedade e espera, as próximas temporadas.

Tokyo Diner, Midnight Stories/Shinya Shokudo
Criação: Yaroo Abe
Ano: 2009
País: Japão/EUA
Gênero: Drama
Duração – Temporada 1: 10 episódios (cada um com duração de 25 minutos em média)

Série | Luke Cage

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“Antes de ser à prova de balas, ele é negro.” Esta foi uma das frases emblemáticas que, em mais de uma ocasião, marcou a trajetória do herói da Marvel Luke Cage, que ganhou a primeira temporada de sua série pela Netflix, rede de produção/distribuição de conteúdo de filmes e séries via streaming para assinantes.

As críticas à série foram muitas. Contrariamente às suas predecessoras, Demolidor e Jessica Jones, o ritmo da trama de Luke Cage começa de forma bastante morosa. O elenco é predominantemente negro, e os episódios são premiados com uma trilha sonora realmente muito boa. Tudo bastante coerente dentro da proposta oferecida pela série.

Confesso que assisti aos primeiros três episódios apenas impulsionada pela necessidade de conhecer melhor o personagem – que, aliás, combinou bastante com Mike Colter, que já o tinha apresentado em alguns episódios de Jessica Jones –, mas, de um dado momento em diante, eu me lamentei não ter tido a chance de ler HQs de Luke Cage antes ver o seriado.

Viés social

Como um diferencial em relação às produções individuais de Demolidor e Jessica Jones – os quais, ao lado de Cage e de Punho de Ferro, vão compor a série derivada Defensores (com estreia prevista para o segundo semestre deste ano) –, Luke Cage apresenta um acentuado teor sociopolítico. As constantes referências a personagens históricas da luta pela emancipação e igualdade racial, como Malcolm X e Martin Luther King, por exemplo, atribuem peso ao conteúdo dos episódios. Palmas para o roteiro bem estruturado e destemido, no que se refere a tocar em assuntos delicados, como raça, religião, criminalidade e política. Cage é um herói que carrega o peso de suas origens no Harlem, conhecido reduto sociocultural negro norte-americano, e de sua raça, fatores ainda vistos como socialmente agravantes.

A consistente personagem interpretada por Rosario Dawson, a enfermeira Claire Temple, mais uma vez atua como elo entre as séries, acumulando participações em Demolidor, em Jessica Jones e, agora, em Luke Cage. Se no seriado de Jessica a participação de Claire teve um gancho bastante artificial, em Luke Cage ela se revela crucial para o percurso do herói, atuando em 9 dos 13 episódios da temporada, superando de longe a participação da detetive Misty Knight, interpretada por Simone Missick, a qual eu espero que seja melhor aproveitada na segunda temporada, bem como em Defensores.

Apesar de ser uma criação da Marvel e de vir do mundo das histórias em quadrinhos, Luke Cage mantém fortemente os pés no chão, em uma realidade dominada por preconceitos tão mundialmente conhecidos ao longo de décadas, e suas pitadas de fantasia são diluídas em um drama interno extremamente humano. Seu heroísmo esbarra antes em suas deficiências como ser humano, para depois alcançar sua dimensão como super-humano. Que venha a segunda temporada.

Luke Cage
Criação: Cheo Hodari Coker
Ano: 2016
País: EUA
Gênero: Ação/Crime/Drama
Duração – Temporada 1: 13 episódios (cada um com 1 hora em média)

Série | Stranger Things

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A fórmula tinha tudo para dar certo: visual retrô da década de 1980, com um grupo de crianças nerds como protagonistas, um enredo cheio de elementos de ficção científica, temperado com a trilha sonora de nomes como The Clash, David Bowie, The Smiths e outros astros. Deu certo.

Com apenas oito episódios, os Duffer Brothers (os gêmeos Matt e Ross, roteiristas e diretores) emplacaram a nova sensação do momento no concorrido mundo dos seriados: Stranger Things – um título bem sugestivo para um argumento que gira em torno de experimentos de laboratório, teorias científicas de mundos alternativos e criaturas melequentas como aliens, tudo isso alinhavado por um grupo de crianças carismáticas que tentam, com toda a inocência da idade, resolver um mistério proposto já em seu primeiro capítulo: o desaparecimento do garoto Will Byers (Noah Schnapp).

Para completar a fórmula de sucesso da série, mais dois elementos foram fundamentais: a aposta de trazer de volta ao show business grandes atores surgidos nos anos 80 e que praticamente desapareceram de forma tão retumbante quanto se consolidaram como promessas: Winona Ryder, que interpreta de forma brilhante Joyce Byers, a mãe desesperada do garoto desaparecido, e Matthew Modine, muito eficiente no papel do “vilão” Dr. Martin Brenner.

Tudo foi pensado de maneira bastante coerente para que Stranger Things se tornasse um sucesso de forma tão rápida. Os episódios trazem a dinâmica dos saudosos filmes da melhor fase da Sessão da Tarde e do Supercine, como Os Goonies, Os Garotos Perdidos, ET e até mesmo Curtindo a Vida Adoidado, entre outros. Há uma problemática envolvendo protagonistas que cativam o espectador – no caso da série, adoráveis garotos nerds auxiliados por uma menina que é praticamente uma X-Man (telepata e telecinética); bem como um mistério alimentado a cada novo capítulo, com ganchos criados cuidadosamente para incitar cada vez mais a curiosidade do público.

Fontes

Stranger Things bebe principalmente nas fontes de Steven Spielberg, Stephen King, John Carpenter e Joel Schumacher e pulveriza em seu enredo referências de grandes clássicos, como ET, Rambo, Alien e jogos de RPG – a referência clara a Dungeons Dragons logo no primeiro capítulo é bastante destacada. São constantes também as menções a super-heróis de histórias em quadrinhos, ficção científica e alienígenas, elementos que constituem o grande interesse dos amigos Will, Lucas (Caleb MacLaughlin), Mike (Finn Wolfhard) e Dustin (Gaten Matarazzo), os quatro garotos escolhidos a dedo para segurar a atenção do público, com a ajuda da estranha “El”, ou Eleven, a garota-superpoderosa (Millie Bobby Brown) – sem dúvida, as crianças são a grande sacada da produção.

A série, como um todo, é muito bem ambientada – a trama, oficialmente, ocorre em 1983, na cidade norte-americana de Indiana. Para dificultar a solução do enigma e dar mais emoção ao processo de desenvolvimento do enredo, David Harbour interpreta o intrigante delegado Jim Hopper, afetado pela perda prematura de sua única filha, vítima de um câncer, e entregue ao álcool depois da dissolução de seu casamento – elementos que tendem a atrapalhar a realização de seu trabalho como policial.

Mais uma vez, a Netflix – rede distribuidora de Stranger Things – acerta ao incluir a criação dos Duffer Brothers em seu catálogo. A recepção da série foi extremamente positiva, e uma nova temporada já foi confirmada, com previsão de lançamento para daqui a dois anos. Contudo, com um elenco fortemente baseado em crianças, não se sabe como isso será resolvido em uma nova temporada, dado o rápido crescimento dos jovens atores. Mais um mistério para aumentar a expectativa pelo retorno da série.

Stranger Things
Criação: The Duffer Brothers
Ano: 2016
País: EUA
Gênero: Aventura/Ficção
Duração – Temporada 1: 8 episódios (cada um com 50 minutos em média)

HQ | Mulher-Gato: Cidade Eterna

Uma nota rápida para esta bela graphic novel publicada entre novembro de 2004 e agosto de 2005. Há bastante tempo eu não lia nada da DC Comics e confesso que achei interessante a aventura da vilã mais charmosa de Gotham City na bela Roma, em busca de pistas sobre o seu passado.

Meu conhecimento em termos de Mulher-Gato não ia além da superficialidade. Lendo, porém, essa história da premiada dupla Jeph Loeb & Tim Sale (quem aí não se lembra da série de TV Heroes, cuja primeira temporada é simplesmente espetacular?) muitas coisas começam a fazer sentido. Uma origem que remonta a uma tradicional família mafiosa italiana pode explicar muita coisa da conduta de Selina Kyle, e Loeb/Sale, muito bem assessorados pelo editor Mark Chiarello, estabeleceram algumas diretrizes que são plausíveis para a história da Mulher-Gato.

Não vou dar spoilers aqui, mesmo porque esta graphic é bastante antiga (mas só agora tive a oportunidade de lê-la), contudo, achei genial a presença constante de Batman na história, porém de uma forma que não tirou o brilho da protagonista. A solução encontrada por Loeb para isso foi duplamente inteligente: primeiro, porque não se pensa em Mulher-Gato sem Batman; segundo, porque, da forma como se dão as aparições do Homem-Morcego no decorrer da história, a figura do herói ajuda a dar força ao enredo e acentua o caráter psicológico dos conflitos de Selina.

Quanto à arte, sou fã do trabalho de Tim Sale. Tirando alguns exageros típicos de seu traço, gosto da forma como ele soluciona principalmente as sequências de luta entre Mulher-Gato e Mulher-Leopardo, sem deixá-las excessivamente contorcidas.

No mais, achei desnecessário tanto romantismo por parte do assassino de aluguel Christopher Castillo. Pra mim, esta foi a parte incoerente da história.

Em tempo: dois pontos positivos – a dinâmica do Charada, como contraponto constante ao galante Christopher, e a implacável e imprevisível Louisa Falcone. Vale a leitura.

Mulher-Gato: Cidade Eterna
Jeph Loeb (roteiro) & Tim Sale (arte)
Dorival Vitor Lopes & Hélcio de Carvalho (tradução)
Panini Books / DC Comics
165 páginas

TV – Especial | A autorreferência em Supernatural

Dean e Sam em meio às garotas: elenco do episódio FanFiction, número 200 da série

Eu tinha começado a escrever este post há pelo menos um ano e larguei o arquivo inacabado. Coisa feia. O grande gancho para eu retomá-lo foi, mais uma vez, a brincadeira autorreferente que constituiu o grande mote do episódio ducentésimo de Supernatural, intitulado FanFiction, que foi ao ar nos Estados Unidos na semana passada. E, mais uma vez, a ousadia criativa da equipe de roteiristas resultou em algo extremamente interessante.

Tornou-se muito comum o uso da metalinguagem como recurso diferencial em filmes e livros. Entretanto, em Supernatural, algo ainda mais peculiar vem ocorrendo: a autorreferência na história (perdoem a redundância, mas ela é necessária!). Bem, antes de entrar em detalhes, vamos a algumas definições:

Metalinguagem
“Metalinguagem é a propriedade que tem a língua de voltar-se para si mesma, é a forma de expressão dos dicionários e das gramáticas. O significado do termo, entretanto, ampliou-se e hoje o encontramos associado aos vários tipos de linguagem. […] O discurso metalinguístico tem sido largamente usado nos quadrinhos e na publicidade em busca ora de uma organização lúdica do pensamento ora de um trocadilho bem-humorado, capaz de capturar a atenção de um eventual consumidor.” (Thaís Nicoleti, consultora de Língua Portuguesa)

Autorreferência
“Autorreferência é um fenômeno em língua natural ou linguagem formal que consiste de uma oração ou fórmula que refere-se a si mesma diretamente ou através de alguma oração ou fórmula intermediária, ou por meio de alguma codificação. […] A autorreferência também ocorre na literatura quando um autor refere-se a sua obra no contexto do próprio trabalho. Exemplos famosos incluem Don Quixote de Cervantes, Jacques le fataliste et son maître de Denis Diderot, Se una notte d’inverno un viaggiatore de Italo Calvino, muitas histórias de Nikolai Gogol, Lost in the Funhouse de John Barth e Sei Personaggi in Cerca d’Autore de Luigi Pirandello.” (Wikipédia)

Ou seja, quando saímos daquele universo da atriz da novela das 9 que diz “ah, fulana, mas isso é coisa de novela, agora é só aguardar as cenas do próximo capítulo”, ou seja, metalinguagem (exemplo bobo e simples, eu sei, mas com ele fica facinho de entender a ideia) e entramos no mundo que cita a si mesmo dentro de seu próprio contexto, chegamos à autorreferência, cujo exemplo mais do que eficiente existe aos montes em Supernatural.

Pelas minhas contas – sou um pouco esquecida, mas creio que seja mais ou menos isso –, na terceira temporada da série, surgiu um personagem-chave nesse negócio da autorreferência: trata-se de Chuck Shurley, o profeta do Apocalipse. Chuck – que fez, inclusive, participação especial no episódio 200 – tem visões e as registra. O caso é que, sob o pseudônimo de Carver Edlund, ele ganha dinheiro com uma série de livros que tem como enredo… as aventuras dos irmãos Winchester, ou seja, os protagonistas da série. Isso mesmo, Supernatural existe dentro da série – com este nome, inclusive – numa série de livros muito bem vendida entre os nerds aficionados por histórias de terror, graças às narrativas de Chuck, que correspondem ao que acontece nas vidas de Sam e Dean (que também têm esses nomes nos livros).

O personagem Chuck transforma a vida dos irmãos Winchesters em livro

Resumindo: na série, Sam e Dean são, ao mesmo tempo, personagens fictícios para a instância dos espectadores, e “fictícios-fictícios” na instância dos personagens da própria série, pois os irmãos veem a si mesmos como ícones da literatura geek em livros populares no mundo retratado na série. Será que consegui me fazer entender?

Capa de um dos volumes escritos por Chuck sob o pseudônimo de Caver Edlund

O interessante é observar o impacto estrondoso que a descoberta de que suas vidas são o enredo de uma série de livros tem nos protagonistas. É como se Sam e Dean se sentissem “invadidos” por terem episódios de suas vidas narrados para toda uma comunidade de fãs que não só os “acompanham” ao longo de vários volumes escritos e publicados por Chuck, como também aguardam ansiosamente pelo próximo livro. E isso acontece paralelamente à espera que nós, espectadores, temos em relação aos personagens. É a ficção da ficção, pode-se dizer.

Só que nada disso é tão incrível ou novo. Por exemplo, quem lê os livros de Arthur Conan Doyle sobre Sherlock Holmes sabe que seu fiel amigo John Watson costuma registrar de forma escrita as aventuras do famoso detetive. Contudo, o efeito é diferente em relação a Supernatural, porque Holmes não se vê como um personagem nas mãos de quem lê as narrativas de Watson, coisa que acontece com os Winchesters. Ou seja, a dimensão da autorreferência na série tem uma profundidade muito maior e arriscada, porque, apesar da complexidade de tudo isso, o espectador não se confunde.

O caso é que não posso deixar de notar a extrema habilidade que a equipe de roteiristas de Supernatural tem por conseguir montar uma “história dentro da outra”, ou seja, uma que dialoga com o espectador e outra que dialoga com os próprios “espectadores ficcionais”, personagens da própria série criados para ser fãs do Dean e do Sam dos livros.

Um reflexo disso fica muito claro no episódio “Time for wedding!”, da sétima temporada, quando Becky Rosen, uma fã incondicional da série de livros de Chuck apaixonada por Sam, sequestra o caçula dos Winchesters e se casa com ele, fazendo uso de uma poção para dominá-lo. Além de hilário, esse episódio é bastante elucidativo em relação às diferentes dimensões da autorreferência, pois Becky demora para entender que o Sam personagem dos livros, pelo qual ela criou uma paixão idealizada, não poderia correspondê-la na esfera da “vida de verdade”.

Eu acho tudo isso muito curioso, criativo e inteligente. Um artifício e tanto dos roteiristas. No último volume de Supernatural que Chuck publicou (isso até o momento), percebemos que ele registrou a trajetória de Sam e Dean apenas até o momento em que o irmão mais velho vai parar no inferno, ou seja, o equivalente ao fim da terceira temporada. No entanto, agora, no aniversário da série, os roteiristas prepararam uma nova “armadilha” para os espectadores, fazendo com que um grupo de garotas de um colégio apenas para meninas transformassem a trajetória dos Winchesters em uma peça teatral. FanFiction gira em torno da subversão do gênero dos protagonistas, que são encenados pelas alunas, da forma como elas interpretam aquilo que leram ao longo dos livros publicados por Chuck e, é claro, de um “monstro” que precisa ser combatido para que a peça possa ser encenada.

Dean e Sam com as alunas que os interpretam na peça escolar de FanFiction

O episódio ducentésimo da série é especial por vários motivos. Pela ousadia de fazê-lo protagonizado por meninas, algo que não é usual no universo de Supernatural; pela sensibilidade que não se transforma em pieguice na história; e pela reconciliação tão inusitada e tão necessária para os Winchesters – ninguém percebeu que eu gostei do episódio, né? Chega de spoilers! Paro por aqui 🙂

Releitura | A marca do Zorro

É simplesmente incrível como eu me lembrava de tão poucas coisas de um livro do qual gostei tanto. Poucas coisas mesmo. Tudo bem que faz mais de quinze anos que o li pela primeira vez, mas A marca do Zorro, do escritor norte-americano Johnston McCulley, é um livro irreverente, divertido e um ótimo passatempo, com algumas interessantes críticas à sociedade que habitava a missão de San Juan Capistrano, onde se localizava Pueblo de la Reina de Los Angeles, parte do México controlada pela Espanha na primeira metade do século XIX.

O caso é que cresci assistindo ao seriado Zorro que a Disney produziu no fim da década de 1950. E adorava tudo, principalmente o ótimo e lindo Guy Williams (1924-1989), é claro! No texto introdutório desta edição que li da Panda Books, há, inclusive, um bom texto introdutório com a informação de que Williams é considerado o melhor Zorro de todos os tempos, superando até mesmo Douglas Fairbanks, astro que protagonizou a primeira montagem do personagem para o cinema.

Na história original, Zorro é o alter ego de Don Diego Vega, herdeiro de um dos clãs mais poderosos da região. Don Diego decide vestir o “manto da raposa” para lutar contra as injustiças cometidas pelos militares espanhóis em sua região, coisa não muito fácil de ser feita quando se é membro da alta “aristocracia” e tem uma história de família pela qual zelar.

Guy Williams como Don Diego e Zorro

No caso do Zorro, vale destacar algumas críticas abertas às administrações corruptas, ao tratamento dos religiosos no cenário de colonização, da suposta superioridade dos mexicanos de ascendência europeia em relação aos demais e também aos índios nativos, fatos dos quais, enfim, eu não lembrava. É claro que McCulley precisava compor um contexto ideal para justificar a criação de um herói com a digna função de lutar contra a opressão, mas creio que, em minha primeira leitura, nada disso tenha me marcado profundamente. Eu tinha lembranças realmente muito superficiais de Zorro, possivelmente muito influenciadas pelo seriado da Disney, que eu adorava na adolescência. Agora, não vejo o livro de forma tão básica. Em uma segunda e mais atenciosa leitura, torna-se perceptível que os estereótipos e os preconceitos arraigados em uma sociedade de mentalidade colonizada tiram um pouco do brilho do herói de capa e espada, mas, ao mesmo tempo, justificam a sua existência.

 “Era uma concessão perguntar a ela, e Lolita percebeu que essa rara oportunidade estava sendo concedida por causa da corte de Don Diego. Ela hesitou um pouco antes de responder.

– Acho que será bom – disse ela. – Gostaria de visitar o povoado, pois raramente vemos alguém aqui na fazenda. Mas as pessoas poderão fazer comentários sobre mim e Don Diego.

– Bobagem! – exclamou Don Carlos. – Poderia haver algo mais natural do que visitarmos os Vega, uma vez que nosso sangue é quase tão bom quanto o deles e melhor que o dos outros?” (p. 82)

 

Heroísmos e aventuras fantasiosas à parte, o mérito da criação da “Maldição de Capistrano” – outra forma pela qual Zorro é constantemente referido na história – é levantar questões relacionadas à colonização espanhola no México, ao choque religioso e à opressão vivida pelos índios e também pelos missionários da região.

 

“Pouco tempo depois, Don Diego partiu. Bernardo cavalgava uma mula, logo atrás dele. Correram pela estrada principal e logo alcançaram uma pequena carroça ao lado da qual caminhavam dois franciscanos. Levavam frei Felipe, que tentava esconder gemidos de dor.

Don Diego colocou-se ao lado do veículo quando este parou. Subiu nele e apertou as mãos de frei Felipe nas suas.

– Meu pobre amigo – disse ele.

– É apenas mais um exemplo de injustiça – disse o frei. – Por vinte anos, nós, das missões, estivemos sujeitos a ela, e essa perversidade só está aumentando. O santificado Junipero Serra invadiu essa terra quando outros homens e, em San Diego de Alcála, construiu a primeira de muitas missões, deixando assim um império ao mundo. Nosso erro foi termos prosperado. Fizemos o trabalho e outros colheram os frutos.” (p. 131-132)

 

Embora a história criada por Johnston McCulley não tenha forte cunho histórico, nem conte com uma grande pesquisa – pois a ideia primordial, que motivou o surgimento de Zorro, foi a criação de leitura para rápido consumo, com o intuito de levar entretenimento para leitores da década de 1920, ainda muito fragilizados pelos estragos da Primeira Guerra Mundial –, o personagem Zorro tem grande valor no contexto da cultura de massa da primeira metade do século XX, por abrir espaço para uma série de heróis que, mais tarde, fariam estrondoso sucesso como mascarados em busca de justiça e proteção ao povo, nas histórias em quadrinhos, na televisão e também no cinema.

A marca do Zorro
Johnston McCulley
Tradução de Lilian Somavilla Bomfin e Y. Cecília E.V. Levy
Panda Books
2000