Arquivo da categoria: Releitura

Série Vaga-lume | O segredo dos sinais mágicos

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Achei bastante significativo me deparar com uma releitura com temas tão atuais. Sérsi Bardari não teve medo de usar a trama de O segredo dos sinais mágicos para tratar de assuntos como o preconceito racial, o preconceito contra as liberdades da mulher e o culto religioso.

– … Você está por fora, cara! Tua cabeça é pré-histórica. Imagine, pensar que uma garota é fáci só porque ela se veste à vontade!? Onde já se viu? Eu sei, foi o seu pai quem lhe ensinou isso, não foi? Que mentalidade atrasada, meu Deus!… E tem mais, violência não está com nada. Grosseria não conquista ninguém.” (pág. 54)

Mais uma vez, a Série Vaga-Lume mostra seu valor, ao tratar, por meio de um enredo muito bem elaborado, de temas que precisam ser discutidos com os jovens leitores.

Contexto e trama

Um dos pontos fortes do livro é a interdisciplinaridade. O segredo dos sinais mágicos é uma história que pode ser explorada de forma conjunta por professores de Língua Portuguesa, História e Educação Artística, o que, aliás, poderia render trabalhos bem interessantes.

O autor utiliza os cenários da Bahia e de Lisboa para desenvolver o enredo protagonizado pela jovem negra Janaína e por Jorge, o sobrinho branco de Fátima, a madrasta portuguesa garota. O sincretismo religioso dos orixás africanos com os santos portugueses é o grande toque do mistério que envolve a investigação pela busca de um tesouro que pode salvar o futuro financeiro da família portuguesa de Fátima e Jorge. Para isso, contudo, as pistas estão nas mãos de Janaína.

Essa leitura é uma ótima oportunidade para retomar pontos da história de Portugal e compreender melhor um pouco da história dos negros, por meio de sua religião e seus significados. A cada ponto da investigação de Janaína e Jorge em busca do tesouro, o autor amarra pontos que relacionam, de alguma maneira, Brasil e Portugal.

Desdobramentos 

Considero muito válida a leitura desse livro de Sérsi Bardari, autor que publicou, pela própria Série Vaga-Lume, outros títulos que mesclam questões históricas com religião, mitologia e esoterismo.

Em tempos tão intolerantes, levar aos jovens assuntos tão delicados é, sem dúvida, uma maneira inteligente de abordar questões sócio-históricas importantes.

O segredo dos sinais mágicos
Sérsi Bardari
Editora Ática
1993 – 111 páginas

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Neil Gaiman | A bela e a adormecida

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Uma nota rápida sobre essa releitura belamente ilustrada, que mescla dois dos contos de fadas mais famosos: A bela adormecida e Branca de Neve e os sete anões.

Essa breve leitura me lembrou uma atividade que fiz durante a minha pós, quando tivemos de reinterpretar algum conto de fada e escolhi justamente A bela adormecida. É sempre bastante interessante trabalhar com esse tipo de exercício de escrita e tive justamente a impressão de que Neil Gaiman estava jogando consigo mesmo enquanto punha em um mesmo contexto Branca e Bela, deixando que elas conduzissem a história e posicionando-se também como um espectador que aguarda para ver onde tudo vai acabar.

A subversão dos papéis de Bela e de sua bruxa (desculpem o spoiler) foi o grande toque dessa releitura, e centrar toda a solução do problema no embate entre as próprias mulheres conferiu à versão de Gaiman um toque bastante pós-moderno (que, aliás, caracteriza a sua produção literária). Trata-se de uma ideia muito bem articulada, com o uso cuidadoso de cada elemento, como o sono, o despertar, a presença dos anões e por aí vai. As peças vão se encaixando em um ritmo muito leve e com bastante coerência.

Ver Bela e Branca juntas também me lembrou a ótima série de quadrinhos da Vertigo chamada As mais belas fábulas, criação da ótima equipe de Bill Willingham, que não apenas revitaliza todo o universo dos contos de fada por meio da linguagem e da estética das HQs, como também contribui para preservar e estimular o interesse permanente pelas origens dessas personagens tão tradicionais.

A bela e a adormecida
Neil Gaiman
Ilustrações de Chris Riddell
Tradução de Renata Pettengill
Editora Rocco
2015
72 páginas

Irmãos Encrenca | O caso do sabotador de Angra

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História originalmente publicada em 1981, este livro, apesar de sempre figurar entre as aventuras dos Irmãos Encrenca, curiosamente, não conta com a participação de Marco, Eloís e Isabel. Na verdade, o único vínculo que essa história apresenta com o arco restante das aventuras dos irmãos é a presença do Inspetor Nicolau, personagem que também participa de histórias do trio.

Entretanto, como não li todos os volumes das aventuras dos irmãos, apenas fazendo pesquisas depois de finalizar o livro pude entender que O caso do Sabotador de Angra é a ponte para introduzir os simpáticos garotos carentes Tic-Tac e Acetato – protagonistas dessa história – no universo dos Irmãos Encrenca. Em O esqueleto atrás da porta, um dos últimos livros da série de Marco Isabel e Eloís, a autora “viabilizará” o encontro entre os dois meninos órfãos e os três irmãos que dão nome à série consagrada de Stella Carr. Agora tudo faz sentido.

Sobre o enredo

Mais uma vez, a autora elabora uma história envolvendo questões ambientais e governamentais, tudo, é claro, com uma dinâmica intensa e toques de humor diretamente relacionados aos diálogos das crianças do orfanato chamado Lar da Boa Vontade, um triste local chefiado pelo falso benemérito chamado Bepe. Portanto, se desta vez não temos os divertidos diálogos entre Marco, Eloís e seus amigos, em O caso do sabotador de Angra, são os órfãos os responsáveis por dar um toque infantil e brincalhão à trama, por meio de situações bastante verossímeis do universo das crianças.

Neste volume, a questão ambiental é representada pela importante discussão do programa nacional de energia nuclear, suas responsabilidades e implicações. Stella Carr se vale de um momento histórico (início da década de 1980) no qual esse assunto ainda era uma incógnita para a sociedade brasileira e elabora um intrincado enredo – esta é a mais complexa história do arco até o momento –, com uma construção literária bastante consistente, para discutir esses pontos com seus jovens leitores.

– Que tipo de gente tentaria explodir uma usina nuclear?

– Não sei dizer, inspetor, não sou psiquiatra. Mas gostaria de saber o que leva um homem a esse gesto de total desespero.

– Ele chama a si mesmo de ‘justiceiro’. Tenho muito medo do fanatismo. A história está cheia de crimes e massacres executados por justiceiros.

Ficaram os dois em silêncio.” (p. 24)

Um pouco de fantasia

O toque fantástico do livro fica por conta da curiosa Loja de Estranhezas, comandada por Caio Porfírio Carneiro, e pelas misteriosas aparições de Polípedes, o mágico, ambos personificações de amigos reais da autora, homenageados nas páginas de seu livro.

Assim como aconteceu com a leitura de O fantástico homem do metrô (comentado aqui), eu também não tinha muito boas recordações de O caso do sabotador de Angra – muito provavelmente porque a complexidade da trama deve ter me deixado um tanto perdida em minha primeira leitura (quando eu tinha uns desatenciosos 13 anos, acho…). Hoje, na releitura, as peças ficaram bem mais claras, e pude constatar que, com este livro, Stella Carr atingiu o ponto alto das aventuras de Marco, Eloís e Isabel.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o sexto livro da série: O segredo do Museu Imperial!

O caso do sabotador de Angra
Stella Carr
Editora Moderna
118 páginas – 1992

Irmãos Encrenca | O fantástico homem do metrô

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Curioso. Esta é a releitura de um livro do qual eu não tinha muito boas lembranças, mas, como estou revendo todas as aventuras dos Irmãos Encrenca, e esta é a quarta aventura do trio, embarquei nessa leitura e desfiz todas as impressões daquele meu primeiro contato com o livro.

O fantástico homem do metrô é uma história interessante, inteligente e, sem dúvida, acrescenta mais uma peça no quebra-cabeça da trajetória de Marco, Eloís e Isabel, pois, neste livro, a autora defende a causa ecológica, com uma trama que privilegia a preocupação com a natureza, em um enredo que mescla as intrigantes sociedades secretas, os lobbies governamentais, ficção científica e personalidades reais, como Marcos Rey, Ruth Rocha, Álvaro Alves de Faria e outros grandes nomes.

“– Já pensou se houver uma sindicância para apurar de onde vieram essas coisas?
– Ninguém pode nos culpar, Doutor Marmilho, pela invasão da cidade por um bicho que não existe – respondeu Silésio exasperado.
– É porque você não é político! Já pensou perder as eleições por causa de um fantasma e de um bando de monstrengos?
– De que eleições o senhor está falando, senhor diretor?
– Eu sou candidato à academia de candidatos a futuros candidatos e já estou praticamente eleito!
– Meus parabéns, Doutor Marmilho.” (p. 95)

Por esse trechinho já dá para perceber o tom irônico e bem-humorado que Stella Carr utiliza para conduzir a história.

Dois fatores me chamaram especialmente a atenção durante a leitura. O primeiro deles tem a ver com o recurso narrativo empregado pela autora. Além de mesclar personagens fictícios com pessoas reais, Stella Carr brinca com a metalinguagem, como no momento em que o ilustrador Jesus Dias é atacado pelas criaturas mutantes no momento em que trabalhava na produção das ilustrações para o livro – supostamente. Essa “jogada” da autora torna a narratividade da trama extremamente interessante, além de aproximar o leitor do processo de composição da obra.

O segundo ponto desafiador desse livro foi o momento no qual Eloís recusa o convite da Ordem da Chave e da Estrela – desculpem o spoiler. Ao dizer “não” para o sábio grão-mestre, a autora corre um alto risco e põe um de seus protagonistas em uma delicada situação, pois, em tese, ele perde uma chance direta de lutar pela preservação da natureza com o respaldo das ordens secretas. Contudo, o jovem, ao lado dos irmãos, opta por continuar oferecendo ajuda a causas justas “sem ser em segredo”. É muito interessante observar essa fuga da obviedade, afinal, depois de toda a investigação empreendida por Marco, Eloís e Isabel, poderia ser uma solução natural que um deles se tornasse um representante das novas gerações no Conselho dos Invisíveis.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o quinto livro da série: O caso do sabotador de Angra!

O fantástico homem do metrô
Stella Carr
Editora Moderna
111 páginas – 1992

Série Vaga-lume | Spharion

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Muitos anos depois do primeiro contato que tive com este livro – na estante de casa, depois que meus irmãos o leram para a escola –, eu o retomo para uma releitura que foi, em certa medida, um processo revelador.

Não lembrava que a autora, a ótima Lúcia Machado de Almeida, usava o mesmo Inspetor Pimentel de O Escaravelho do Diabo para investigar os casos ocorridos em Diamantina, nesta aventura que leva como título o nome do vilão, e não o do mocinho. Spharion é um homem com poderes mentais sobrenaturais, potencializados com o uso de aparatos científicos, e que utiliza suas habilidades com objetivos megalomaníacos. Só o fato de o livro, voltado ao público infantojuvenil, levar o nome do vilão já me parece um tanto “subversivo” para a época em que ele foi lançado – fim da década de 1970. E, sem dúvida, isso torna tudo muito mais interessante.

A autora promove uma espécie de embate entre a ciência e o inexplicado, ao criar um protagonista com dons paranormais, chamado Dico Saburó. Ao rapaz cabe a missão de encontrar Spharion e parar seus planos. Há uma forte atmosfera de mistério no enredo, e as ações do antagonista são executadas de forma que ele se mostra cada vez mais sombrio. Esse é um ponto positivo do livro e que contribui para “fisgar” o leitor.

No entanto, o que me decepcionou nesta releitura foi o fato de que a rica pesquisa empreendida pela autora, com conceitos físicos e também de mineralogia, foi frustrada por um fim bem singelo. O confronto entre Dico e Spharion é antecedido por um capítulo no qual várias páginas do diário do criminoso são reveladas e, dessa forma, explica-se ao leitor as motivações, os planos e a forma como vilão pôs em prática seus objetivos. Entretanto, o confronto entre Dico e Spharion é muito rápido, sem diálogos – pressupõe-se que ambos estão duelando em nível mental, então suas falas também devem obedecer a esse nível – e funciona como uma espécie de anticlímax, porque abrevia uma luta esperada pelo leitor durante todo o decorrer da história e que poderia ter sido mais bem elaborada. A sensação de aguardo por um combate “de verdade” entre o bem e o mal fica no ar e é inevitável. Infelizmente.

Mesmo assim, com este livro, a autora ganhou o Prêmio Brasília de Literatura, em 1980. E, em 2013, essa obra foi relançada, junto a outros nove títulos, com o novo projeto gráfico que a Editora Ática preparou para comemorar os 40 anos da Série Vaga-Lume, bem como as versões dos livros em formato digital.

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Lúcia Machado de Almeida
Editora Ática
1979 – 126 páginas

Leituras | Balanço de 2016

Primeiro post de 2017 e é hora de comentar as leituras do ano anterior. Em janeiro do ano passado, publiquei uma pequena lista de livros como meta para 2016 (que pode ser consultada neste link). Entretanto, apesar dos 58 livros lidos nos últimos doze meses, essa lista não foi totalmente contemplada. Isso porque li títulos emprestados e também outros que fazem parte de projetos deste blog, como a bibliografia policial de Agatha Christie, as aventuras de Maigret e a série Discworld, por exemplo.

Também em 2016 foi tempo de consolidar o projeto de releitura de obras infantojuvenis que fizeram parte do meu desenvolvimento como leitora. Fazem parte desse projeto os títulos da Série Vaga-Lume, dos quais todas as aventuras dos detetives Léo, Ângela e Gino foram resenhadas. Terminando a saga dos jovens detetives de Marcos Rey, comecei as acompanhar novamente as aventuras dos Irmãos Encrenca, Marco, Eloís e Isabel, criados por Stella Carr (aventuras que ainda estão em andamento aqui no blog) e continuo resenhando títulos da Série Vaga-Lume.

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As quatro aventuras dos detetives de Marcos Rey resenhadas em 2016. Crédito da foto: Blog Estação com Cor

Durante o ano passado, também fiz leituras de obras recomendadas pela Tag Experiências Literárias – aliás, fazer parte de um clube de assinatura de livros é algo pelo que toda pessoa fascinada por livros precisa passar. E vieram da Tag algumas das melhores leituras que fiz em 2016. Tenho uma categoria para a Tag aqui no blog, para consultas em caso de interesse.

Da lista inicial proposta no início de 2016, foram lidos os seguintes títulos:

Se vivêssemos em um lugar normal (Juan Pablo Villalobos) (comentado aqui);

Um teto todo seu (Virginia Woolf);

Convergente (Verônica Roth);

Coisas Frágeis 2 (Neil Gaiman);

O chinês americano (Gene Luen Yang) (comentado aqui);

Lavoura arcaica (Raduan Nassar) (comentado aqui);

O falcão maltês (Dashiell Hammett) (comentado aqui);

Contos de amor, loucura e morte (Horacio Quiroga);

Quatro (Verônica Roth).

Infelizmente, não cheguei a fazer resenhas sobre todos eles aqui no blog – a falta de organização não me permitiu. Mas perdoem, porque vou falar brevemente sobre algumas delas agora.

Contos

Em 2016, li apenas três livros de contos: Doze contos peregrinos (Gabriel García-Marquez), recomendado pela Tag; Coisas Frágeis 2 (Neil Gaiman) e Contos de amor, loucura e morte (Horacio Quiroga), esses dois últimos presentes na minha meta inicial para o ano.

Dos três livros, o que menos me marcou foi o de mestre Gaiman, infelizmente. Coisas Frágeis 1 é realmente superior ao seu sucessor e preciso admitir que fui realmente envolvida pelos contos de García-Marquez e do uruguaio Quiroga. Há, de fato, algumas narrativas excelentes nesses dois livros.

HQs

No ano de 2016, voltei a acompanhar um pouco do universo das histórias em quadrinhos. Li várias coisas interessantes em revistas mensais do Mickey (trabalhos da Disney italiana) e novidades da Marvel, Vertido e DC.

No âmbito das graphic novels, três destaques: O chinês americano (Gene Luen Yang); Bordados (Marjane Satrapi) e Batman Noël (Lee Bermejo).

Sobre Bordados, embora eu tenha lido várias resenhas não tão positivas sobre esse trabalho quanto as que li sobre Persépolis (também comentado aqui), reconheço nessa singela história um trabalho menos pretensioso e não tão elaborado quanto a obra-prima de Marjane, mas muito interessante, principalmente no que se refere à importante tarefa de falar sobre o papel da mulher no Oriente Médio.

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Já o Batman Noël de Lee Bermejo é uma releitura poderosa de Um conto de Natal, de Charles Dickens. Um respiro criativo no ambiente massivo das histórias em quadrinhos, utilizando-se de uma fonte clássica da literatura e com um visual simplesmente espetacular, ainda mais valorizado pelo trabalho da colorista italiana Barbara Ciardo.

Pretendo incluir os livros não lidos da lista de 2016 – sete títulos – na programação de leitura de 2017. Por precaução, provavelmente não vou elaborar uma nova lista, mas devo prosseguir com todos os projetos do blog e conciliar, sempre que possível, as leituras dos livros emprestados.

Dois pontos positivos das leituras de 2016 foi a diversidade de assuntos que consegui contemplar (mas isso ainda pode ser melhorado) e também a periodicidade – pela primeira vez, em mais de oito anos de blog, consegui, ao longo de um ano inteiro, postar um texto por semana, algo que também pretendo manter em 2017.

Irmãos Encrenca | O incrível roubo da loteca

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Se a leitura de O enigma do autódromo de Interlagos já me deixou empolgada (como relatei aqui), nesta terceira aventura dos chamados “Irmãos Encrenca” (Marco, Eloís e Isabel), Stella Carr se supera na elaboração de uma trama inteligente, bem-humorada e repleta de termos que marcaram uma época.

Mais uma vez, a narrativa é muito bem amarrada, com eventos que intrigam o leitor mais e mais, conduzindo-o rumo a uma aventura dinâmica e intrigante ao mesmo tempo.

A partir de uma linha cruzada (será que ainda ocorrem linhas cruzadas hoje em dia?), ao ligar para seu amigo Tico, Marco ouve uma estranha conversa que sugere um golpe aplicado no prêmio da Loteria Esportiva. Esse é o pontapé para ligar os jogos da seleção brasileira, a bilhetes “premiados”, cremes de massagem adulterados, um cadáver que, em menos de 24 horas, vai parar em quatro carros diferentes e investigador que pode não ser o que parece ser.

Daí por diante, a história nos conduz a uma espiral de acontecimentos envolventes, senão pela intrincada trama, pela imersão na rotina de um Brasil do fim dos anos de 1970, com as pessoas fazendo ligações de orelhão, enviando cartas para caixas postais, publicando anúncios em jornais para localizar pessoas, enfim, vivendo com costumes impensáveis em relação à vida que temos hoje. As mudanças sociopolíticas que o Brasil viveu nos últimos 30 anos não apenas mudaram completamente o panorama social do País, como também se refletiu em um fazer literário que contextualiza as tramas infantojuvenis em um patamar completamente distinto.

Nessa perspectiva, é extremamente enriquecedora a leitura desses livros que marcaram uma fase brilhante da nossa produção literária para os adolescentes. E Stella Carr é, sem dúvida uma de nossas maiores representantes nesse quesito, preocupando-se não apenas em criar histórias interessantes para os leitores em idade escolar, como também reforçando a importância dos valores de caráter de seus personagens.

“- Que é isso, mano? Homem não chora!
Eu respondi bravo:
– Chora, sim. Chora porque tem vergonha na cara. E quando alguém pisa nessa vergonha, a gente chora. E eu arrebento o focinho de quem disser que eu não sou homem por causa disso!” (pág. 130)

Durante o processo de releitura e pesquisa para fazer esses comentários aqui no blog, tive acesso a duas edições diferentes desse livro: uma de 1985 e outra de 1992. Esse tipo de comparação é bastante interessante, porque possibilita verificar atualizações e revisões que a autora pôde fazer entre uma edição e outra. Por exemplo, a de 1992 já conta com uma frase final que foi acrescida em relação à edição mais antiga:

“E então, alguns meses depois, o Brasil perdeu a Copa na Argentina…” (p. 109)

Interessante é que, mesmo com a revisão/atualização da obra na mudança de editora (a primeira edição que eu li é da Editora Pioneira; a segunda, da Editora Moderna), Stella Carr manteve a identidade da obra em um marcador de tempo visível logo no título do livro: “loteca” é uma palavra que já não é empregada na linguagem cotidiana há vários anos. Uma solução possível – porém nada viável – seria a troca por “loteria esportiva”. Contudo, tanto a autora quanto a editora tiveram o bom senso de preservar a ideia original (mesmo porque qualquer alteração poderia acarretar problemas com o registro original). Afinal, um título como esse já oferece um ótimo ponto de partida para análise sobre mudança de vocabulário e modificações na língua portuguesa ao longo do tempo. É a literatura dando a sua contribuição para um estudo mais abrangente sobre língua e sociedade.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o quarto livro da série: O fantástico homem do metrô.

O incrível roubo da loteca
Stella Carr
Editora Pioneira
131 páginas – 1978

Série Vaga-lume | Deus me livre!

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– É a chamada especulação imobiliária, disfarçada em explosão demográfica. Com a desculpa de que não há moradias para todos, os poderosos ditam a regra, engaiolando o povo em apertamentos, em vez de apartamentos – Eduardo continuou.

 – É a crise. Fé nela e pau na gente… – desabafei.” (pág. 89)

Esse diálogo, tão atual, foi escrito em 1984, quando o Brasil, ainda sob o governo do General Figueiredo – o último dos militares a governar o País –, sofria para lidar com uma inflação totalmente descontrolada, que arroxava os salários da população e comprometia ferozmente a qualidade de vida de seu povo. É incrível como, lido isoladamente, esses fatores: explosão demográfica, especulação e moradia – ainda se mostram como problemas sociais no Brasil de hoje.

Esse é o mote central da trama de Deus me livre!, ótima história de Luiz Puntel para a Série Vaga-Lume. O livro conta a história de Tinho, injustiçado por causa de uma atitude impensada e que vai precisar de toda a fé em Deus e nas pessoas dispostas a ajudá-lo para provar a sua inocência e retomar a sua vida.

Como praticamente todo enredo da Vaga-Lume, a leitura é ágil, repleta de elementos muito ricos para o universo infantojuvenil, com direito até mesmo à função metalinguística, quando o protagonista, aparece na biblioteca lendo O mistério dos cinco estrelas, outro famoso título da Série Vaga-Lume de autoria de Marcos Rey (e já comentado aqui).

Além da atualidade dos problemas tratados em Deus me livre!, como a posse da terra, a crise da moradia e as desigualdades sociais, também chamam a atenção a trama bem amarrada criada por Luiz Puntel, que envolve elementos bíblicos e da mitologia egípcia, tudo “temperado” com uma linguagem muito clara e bem desenvolvida, com pitadas de inocência típica da juventude brasileira da década de 1980.

Trata-se de uma leitura mais do que recomendada, repleta de temas transversais para desenvolvimento em sala de aula ainda nos dias de hoje. Assim como outros livros infantojuvenis que venho resenhando neste espaço do blog, Deus me livre! Não foge à regra e dilui, no decorrer de sua leitura, diversas informações que tornam sua experiência literária muito bem aproveitada. Um exemplo disso é quando um dos personagens dá explicações sobre uma das históricas pirâmides do Egito:

– Imagino o porquê do seu espanto, menina. Você está diante da foto da Grande Pirâmide, um monumento de mais 130 metros de altura… – e o doutor Mustarela apontou o pôster.

– Tudo isso, doutor?! – exclamou Graziela, sabendo que demonstrar interesse é a melhor psicologia para ganhar a simpatia de alguém.

– Exatamente. É o mesmo que um prédio de quarenta e quatro andares, meninas. São dois milhões e trezentos mil metros cúbicos de blocos de pedra, simetricamente colocados uns sobre os outros. A base da Grande Pirâmide é equivalente a dois campos de futebol e, se o volume dela fosse de pedra britada, daria para fazer uma estrada de cinco metros e meio de largura, trinta centímetros de espessura, indo de Roraima a Porto Alegre.” (pág. 78)

Quando foi lançado, em 1984, Deus me livre! recebeu o prêmio da Biblioteca Internacional para a Juventude, de Munique, na Alemanha, que, anualmente, seleciona as publicações mais importantes de cada país, conforme informações na folha de rosto deste volume da Série Vaga-Lume. Precisa dizer mais?

Deus me livre!
Luiz Puntel
Editora Ática
1984 – 96 páginas

Irmãos Encrenca | O enigma do Autódromo de Interlagos

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Esta é a segunda aventura dos chamados “Irmãos Encrenca”: Marco, Eloís e Isabel, sobre os quais já comecei falando no primeiro post publicado aqui, sobre o primeiro livro protagonizado por esse trio criado por Stella Car: O caso da estranha fotografia.

A releitura de O enigma do Autódromo de Interlagos me deixou bastante empolgada. Fico muito contente quando releio algum livro e continuo a enxergar nele a magia que vi na primeira leitura. Isso tem acontecido com essas aventuras dos Irmãos Encrenca. Arrisco dizer que este segundo livro é bem superior à primeira aventura de Marco, Eloís e Isabel, com pitadas de trama internacional, misturadas ao ambiente (hoje bastante retrô) das corridas de Fórmula 1, tudo com bastante humor, toques de espionagem e uma narrativa eletrizante. Stella Carr foi uma de nossas maiores autoras infantojuvenis e realmente é lamentável que as novas gerações não conheçam suas histórias.

Um traço bastante interessante – recurso utilizado pela autora já em O caso da estranha fotografia – é o emprego de diferentes focos narrativos, intitulados de “Reconstrução dos fatos”, ou “Depoimento de Marco à Polícia Federal” e por aí vai, conferindo um ar misterioso ao enredo e prendendo a atenção dos jovens leitores. É muito inteligente essa forma de desenrolar a trama, pois ela não apenas dinamiza a história, como também vai habituando o leitor a identificar diferentes narradores (ainda que identificados em um primeiro momento) em um mesmo texto.

Além disso, todo o mérito para a imaginação da autora, que alinhavou muito bem a fantasia de uma teoria física que poderia revolucionar o mundo científico com fatos verídicos ocorridos no Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1 do ano de 1977, corrida histórica, marcada por vários acidentes. Gostei da participação de Isabel, que, neste livro, teve uma visibilidade maior do que na primeira aventura, e outro ponto forte é a química impagável dos garotos Marco e Eloís, muito verossímeis como irmãos e ainda mais engraçados por usarem termos e gírias do Brasil dos anos 70, algo que já não faz mais parte da nossa realidade – muita nostalgia!

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o terceiro livro da série: O incrível roubo da loteca.

O enigma do Autódromo de Interlagos
Stella Carr
Editora Moderna
94 páginas – 1992 (5ª edição – lançamento: 1977)

Releitura | Os Telecaramujos

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Tenho memórias afetivas muito fortes em relação a esse livrinho. Eu o li pela primeira vez aos 10 anos, em uma circunstância que eu nunca esqueci.

Naquela época, era novidade nas salas de aula as bibliotecas de classe. E, logo no início das aulas, a professora havia organizado a nossa biblioteca, mas, por falta de dinheiro, eu ainda não havia trazido um livro para contribuir no acervo. Por causa disso, fiquei entre as últimas crianças a escolher um livro nas primeiras semanas de aula. Quando chegou a minha vez, escolhi entre o que havia sobrado e encontrei Os Telecaramujos. Levei o livro para a casa pensando: “antes isso do que nada” – sempre gostei muitíssimo de ler, e o meu maior medo era ficar sem nada para levar para a casa.

Apesar de ter achado a capa muito bonitinha, assim como as ilustrações internas, eu não tinha lá grandes expectativas quando à história. Contudo, qual não foi a minha surpresa, durante a leitura, quando percebi que o enredo era bem criativo! Com quase 50 páginas e as charmosas ilustrações de Helena Alexandrino, devorei o livrinho em uma noite, envolvida pela trama de duas meninas, as primas Teca e Mariana, que fazem amizade com uma sereia-menina na praia Tururi e passam a desvendar os segredos dos “telecaramujos”, os “telefones marinhos”.

Hoje, muitos anos depois da primeira leitura, encontrei exatamente a mesma edição que li aos 10 anos na Estante Virtual, e reli, com muito carinho e boas lembranças, essa pequena historinha, achando muito divertida a ingenuidade dessas crianças.

Em tempo: assim que pôde, minha mãe comprou um volume de poemas da série Para Gostar de Ler, da editora Ática, para eu doar à biblioteca de classe. Boas lembranças de uma infância nem sempre fácil, mas bem feliz!

Os Telecaramujos
Maria Heloisa Penteado
Ilustrações de Helena Alexandrino
Editora FTD
1989