Arquivo da categoria: Releitura

Série Vaga-lume | A grande fuga

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Esse título foi mais uma releitura da Série Vaga-Lume. É sempre interessante quando se trata de uma releitura, porque eu tento recordar o livro, pensar o que ficou na memória sobre ele depois de tanto tempo.

No caso de A grande fuga, eu lembro que peguei esse livro na biblioteca de classe (eu amava a biblioteca de classe!) e que, pelo fato de as ilustrações não me agradarem, esse foi um dos últimos títulos da coleção que eu tirei para a leitura. Aliás, é bem curioso pensar que eu, já com meus 10, 11 anos, tinha certa visão crítica em relação ao conjunto de uma publicação. Costumava analisar as ilustrações (sabia de cabeça, inclusive, os nomes de alguns artistas que trabalhavam para a coleção), as cores usadas para o padrão da capa, e ficava procurando qual ilustração do miolo havia sido escolhida para capa da edição. Lia também o expediente e ficava imaginando como seria legal trabalhar fazendo aquilo, manuseando aqueles textos tão bacanas. Por isso, para mim, hoje é uma satisfação trabalhar com texto e ser uma pesquisadora de língua e literatura.

Voltando ao livro…

Outra lembrança que eu tinha era de que o enredo desse livro era pura ação, como seu próprio título sugere. Além disso, não lembrava mais nada e foi assim que parti para a releitura.

Foi uma boa surpresa me deparar com o texto fluido de Silvio Pereira, marcado por gírias de uma época que só me trouxe lembranças boas, por meio de seu trio de protagonistas: os irmãos Cat e Júlio e o primo Paulino.

Imagino a dificuldade do autor em elaborar uma trama envolvendo traficantes, crimes e polícia em plenos anos 1980. O enredo em si é fraco (vale lembrar que a própria Série Vaga-Lume tem excelentes títulos nessa linha de ação, como Bem-vindos ao Rio, Quem manda já morreu e Corrida infernal, por exemplo, todos escritos pelo fantástico Marcos Rey), mas vale a leitura de A grande fuga, sobretudo para pensarmos a literatura infantojuvenil daquela época, em um cenário social brasileiro conturbado. Falar de temas pesados já naquele tempo era, sem dúvida, um grande desafio.

Em seu livro, Silvio Pereira claramente evita o confronto entre policiais e bandidos, colocando a responsabilidade da grande fuga mencionada pelo título nas mãos dos próprios jovens protagonistas, que têm poucas horas para arquitetar um plano a fim de escapar de um grupo de bandidos que cercam a mansão onde por acaso eles foram parar. Há o dilema ético entre ajudar um bandido e abandoná-lo à morte (esse possivelmente é o ponto alto da história) e a luta pela sobrevivência.

Se não se trata de um ótimo título da Vaga-Lume, A grande fuga ao menos proporciona algumas horas de entretenimento, com seu texto curtinho e engraçado em alguns momentos.

A grande fuga
Silvio Pereira
Editora Ática
1985 – 95 páginas

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Irmãos Encrenca | O segredo do Museu Imperial

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Neste volume da coleção dos Irmãos Encrenca, Stella Carr trabalha com a vertente da História do Brasil. Ao levar os irmãos Isabel, Eloís e Marco para uma viagem ao Rio de Janeiro, onde os dois garotos vão aproveitar para participar de uma colônia de férias para estudantes, a autora apresenta ao leitor o Museu Imperial e conta várias passagens do período das regências da história de nosso país.

Convidados especiais

Outro traço interessante do enredo desse livro é que, no decorrer de mais uma de suas intrépidas investigações, os Irmãos Encrenca – agora envolvidos em uma estranha conspiração com o grupo da Juventude Restauradora, explosões em bancas de revistas e livrarias – vão contar com a ajuda de um seleto grupo de intelectuais (Todos amigos de Stella Carr fora das páginas do livro!) que estão no Rio para participar de uma conferência: Paulo Condini, Nelly Novaes Coelho, Aldemir Martins, Tereza Monteiro, Olga Savary, Laura Sandroni e Paulo de Medeiros Albuquerque. Nos cenários do museu que conta muito da história da Família Imperial brasileira, eles vão ajudar os garotos a desmascarar naziterroristas que pretendem, inclusive, explodir o famoso Palácio de Cristal em Petrópolis.

É muito proveitosa a forma como a autora estimula o interesse do leitor por episódios importantes da história nacional. Para isso, ela mescla informações sobre o passado e o presente, criando uma teia dinâmica de acontecimentos, com direito a sequestros no meio da noite, agentes infiltrados, uma vidente e, é claro, várias situações engraçadas com os irmãos Marco e Eloís.

Em mais este livro, publicado originalmente em 1981, Stella Carr consegue manter o ritmo e a criatividade, presenteando seus pequenos leitores com mais uma boa história infantojuvenil, repleta de referências para pesquisa pós-leitura, e já deixando os leitores com vontade de ler a próxima aventura de seus jovens detetives.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o sétimo livro da série: O esqueleto atrás da porta!

O segredo do Museu Imperial
Stella Carr
Editora Moderna
110 páginas – 1993

Cinema | Assassinato no Expresso do Oriente

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Cartaz da versão de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente está entre os maiores romances de Agatha Christie. Vários fatores colaboram para isso: seu vínculo com um crime real; a brilhante mecânica do assassinato construído pela autora nas páginas do livro; e a genialidade de Hercule Poirot, em condições totalmente adversas, são alguns deles.

Em termos cinematográficos, também são bem-sucedidas as adaptações mais conhecidas desse livro: a de 1974, dirigida por Sidney Lumet e elenco estelar, com seis indicações ao Oscar (levando a estatueta de melhor atriz coadjuvante para Ingrid Bergman), e a de 2010, episódio especial da série da BBC para comemorar os 120 anos de nascimento de Agatha Christie, com o ótimo David Suchet no papel de Poirot.

2017: elenco e enredo

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Cartaz da versão de 1974

Este ano, mais uma versão chegou às telas do cinema para “engrossar o time”. O ator, diretor e dramaturgo inglês Kenneth Branagh assumiu o desafio de não apenas dirigir, mas também protagonizar Assassinato no Expresso do Oriente em sua mais recente releitura. Seu Hercule Poirot passa longe da tentativa de aproximação com as interpretações de seus antecessores e, seguindo a mesma linha, sua direção leva o enredo a novos caminhos, apresentando uma nova forma de contar a mesma história.

Ainda não temos o devido distanciamento histórico para avaliar o peso do elenco de 2017, mas não há dúvida de que Branagh escolheu um bom time para sua versão. A despeito da grande dificuldade de encarar a delicada tarefa de reinterpretar os papéis consagrados pelo elenco espetacular de 1974, uma análise preliminar já é suficiente para constatar que o time de 2017 consegue desempenhar bem o seu papel, justamente pelo fato de que as mudanças incluídas nesta nova versão criam certo grau de independência em relação às montagens anteriores.

Entre os personagens, algumas trocas, algumas adaptações. Em uma manobra ousada, a Greta Ohlsson de Ingrid Bergman (1974) dá lugar a uma tão religiosa quanto Pilar Estravados, interpretada por Penélope Cruz (2017). O Coronel Arbuthnot de Sean Connery, em 1974, transforma-se na pele do ator negro Leslie Odom Jr., dando ao diretor a oportunidade de tocar no delicado assunto do racismo, implacavelmente levado a cabo pelas falas do misterioso Hardman, interpretado por Willen Dafoe.

Ritmo

A versão de 2017 deixa muito clara a preocupação do diretor em relação ao ritmo da história. Apesar de funcionar muito bem em forma de livro, a restrição de ambientes em tom ligeiramente claustrofóbico de Assassinato no Expresso do Oriente poderia não cair muito bem nas telas do cinema. A versão de 1974, muito fiel ao livro, apresenta claramente esse obstáculo, com praticamente todas as cenas ocorrendo dentro do trem, a partir do momento em que esse luxuoso veículo deixa a estação.

Em 2017, Kenneth Branagh cria situações para dinamizar o enredo, levando algumas cenas para fora do trem, realizando perseguições ao longo dos vagões e reservando o momento da resolução do crime para o ambiente externo. Todas essas variações foram atitudes corajosas do diretor, pois claramente quebraram o ritmo original da história, conferindo à sua versão toques de ação no melhor estilo blockbuster hollywoodiano. Para o bem e para o mal, Branagh buscou adaptar uma história antiga para tempos modernos, tentando torná-la palatável ao gosto de uma nova geração de espectadores com dificuldade de concentração e, consequemente, grau de atenção frequentemente comprometido – durante a sessão, vi algumas pessoas deixando a sala do cinema bem antes do fim.

Mrs. Hubbard

Os holofotes privilegiaram bastante a personagem de Michelle Pfeiffer. Se, em 1974, Lauren Bacall já tinha imprimido charme e personalidade à sua Mrs. Hubbard, em 2017, Kenneth Branagh criou várias oportunidades para Michelle Pfeiffer brilhar com uma interpretação forte, em cenas de teor dramático bastante impressionantes. É de se ressaltar a forma como Pfeiffer abraçou a “causa” de sua personagem, abrindo mão da vaidade para dar mais veracidade à sua interpretação, especialmente em suas cenas finais. Não será uma surpresa se sua Mrs. Hubbard lhe render alguns prêmios.

Poirot

Infelizmente, Agatha Christie não pode nos fornecer sua avaliação sobre o trabalho de Kenneth Branagh – ela prestigiou a estreia da versão de 1974 e, apesar de ter aprovado o filme, não gostou da interpretação de Albert Finney como Hercule Poirot. Para mim, a melhor releitura de Poirot ainda é a de David Suchet, na série da BBC, muito embora Kenneth Branagh tenha me surpreendido com seu competente trabalho, não apenas como diretor, mas também como um Poirot atualizado dentro de sua proposta para a versão de 2017.

Ficha técnica
Assassinato no Expresso do Oriente
Direção: Kenneth Branagh
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Drama; Mistério; Suspense
Duração: 114 minutos
Elenco: Kenneth Branagh, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Josh Gad, Derek Jacobi, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Daisy Ridley, Lucy Boynton, Sergei Polunin, Judi Dench, Olivia Colman, Leslie Odom Jr., Tom Bateman, Marwan Kenzari, Manuel Garcia-Rulfo

Série Vaga-lume | O segredo dos sinais mágicos

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Achei bastante significativo me deparar com uma releitura com temas tão atuais. Sérsi Bardari não teve medo de usar a trama de O segredo dos sinais mágicos para tratar de assuntos como o preconceito racial, o preconceito contra as liberdades da mulher e o culto religioso.

– … Você está por fora, cara! Tua cabeça é pré-histórica. Imagine, pensar que uma garota é fáci só porque ela se veste à vontade!? Onde já se viu? Eu sei, foi o seu pai quem lhe ensinou isso, não foi? Que mentalidade atrasada, meu Deus!… E tem mais, violência não está com nada. Grosseria não conquista ninguém.” (pág. 54)

Mais uma vez, a Série Vaga-Lume mostra seu valor, ao tratar, por meio de um enredo muito bem elaborado, de temas que precisam ser discutidos com os jovens leitores.

Contexto e trama

Um dos pontos fortes do livro é a interdisciplinaridade. O segredo dos sinais mágicos é uma história que pode ser explorada de forma conjunta por professores de Língua Portuguesa, História e Educação Artística, o que, aliás, poderia render trabalhos bem interessantes.

O autor utiliza os cenários da Bahia e de Lisboa para desenvolver o enredo protagonizado pela jovem negra Janaína e por Jorge, o sobrinho branco de Fátima, a madrasta portuguesa garota. O sincretismo religioso dos orixás africanos com os santos portugueses é o grande toque do mistério que envolve a investigação pela busca de um tesouro que pode salvar o futuro financeiro da família portuguesa de Fátima e Jorge. Para isso, contudo, as pistas estão nas mãos de Janaína.

Essa leitura é uma ótima oportunidade para retomar pontos da história de Portugal e compreender melhor um pouco da história dos negros, por meio de sua religião e seus significados. A cada ponto da investigação de Janaína e Jorge em busca do tesouro, o autor amarra pontos que relacionam, de alguma maneira, Brasil e Portugal.

Desdobramentos 

Considero muito válida a leitura desse livro de Sérsi Bardari, autor que publicou, pela própria Série Vaga-Lume, outros títulos que mesclam questões históricas com religião, mitologia e esoterismo.

Em tempos tão intolerantes, levar aos jovens assuntos tão delicados é, sem dúvida, uma maneira inteligente de abordar questões sócio-históricas importantes.

O segredo dos sinais mágicos
Sérsi Bardari
Editora Ática
1993 – 111 páginas

Neil Gaiman | A bela e a adormecida

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Uma nota rápida sobre essa releitura belamente ilustrada, que mescla dois dos contos de fadas mais famosos: A bela adormecida e Branca de Neve e os sete anões.

Essa breve leitura me lembrou uma atividade que fiz durante a minha pós, quando tivemos de reinterpretar algum conto de fada e escolhi justamente A bela adormecida. É sempre bastante interessante trabalhar com esse tipo de exercício de escrita e tive justamente a impressão de que Neil Gaiman estava jogando consigo mesmo enquanto punha em um mesmo contexto Branca e Bela, deixando que elas conduzissem a história e posicionando-se também como um espectador que aguarda para ver onde tudo vai acabar.

A subversão dos papéis de Bela e de sua bruxa (desculpem o spoiler) foi o grande toque dessa releitura, e centrar toda a solução do problema no embate entre as próprias mulheres conferiu à versão de Gaiman um toque bastante pós-moderno (que, aliás, caracteriza a sua produção literária). Trata-se de uma ideia muito bem articulada, com o uso cuidadoso de cada elemento, como o sono, o despertar, a presença dos anões e por aí vai. As peças vão se encaixando em um ritmo muito leve e com bastante coerência.

Ver Bela e Branca juntas também me lembrou a ótima série de quadrinhos da Vertigo chamada As mais belas fábulas, criação da ótima equipe de Bill Willingham, que não apenas revitaliza todo o universo dos contos de fada por meio da linguagem e da estética das HQs, como também contribui para preservar e estimular o interesse permanente pelas origens dessas personagens tão tradicionais.

A bela e a adormecida
Neil Gaiman
Ilustrações de Chris Riddell
Tradução de Renata Pettengill
Editora Rocco
2015
72 páginas

Irmãos Encrenca | O caso do sabotador de Angra

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História originalmente publicada em 1981, este livro, apesar de sempre figurar entre as aventuras dos Irmãos Encrenca, curiosamente, não conta com a participação de Marco, Eloís e Isabel. Na verdade, o único vínculo que essa história apresenta com o arco restante das aventuras dos irmãos é a presença do Inspetor Nicolau, personagem que também participa de histórias do trio.

Entretanto, como não li todos os volumes das aventuras dos irmãos, apenas fazendo pesquisas depois de finalizar o livro pude entender que O caso do Sabotador de Angra é a ponte para introduzir os simpáticos garotos carentes Tic-Tac e Acetato – protagonistas dessa história – no universo dos Irmãos Encrenca. Em O esqueleto atrás da porta, um dos últimos livros da série de Marco Isabel e Eloís, a autora “viabilizará” o encontro entre os dois meninos órfãos e os três irmãos que dão nome à série consagrada de Stella Carr. Agora tudo faz sentido.

Sobre o enredo

Mais uma vez, a autora elabora uma história envolvendo questões ambientais e governamentais, tudo, é claro, com uma dinâmica intensa e toques de humor diretamente relacionados aos diálogos das crianças do orfanato chamado Lar da Boa Vontade, um triste local chefiado pelo falso benemérito chamado Bepe. Portanto, se desta vez não temos os divertidos diálogos entre Marco, Eloís e seus amigos, em O caso do sabotador de Angra, são os órfãos os responsáveis por dar um toque infantil e brincalhão à trama, por meio de situações bastante verossímeis do universo das crianças.

Neste volume, a questão ambiental é representada pela importante discussão do programa nacional de energia nuclear, suas responsabilidades e implicações. Stella Carr se vale de um momento histórico (início da década de 1980) no qual esse assunto ainda era uma incógnita para a sociedade brasileira e elabora um intrincado enredo – esta é a mais complexa história do arco até o momento –, com uma construção literária bastante consistente, para discutir esses pontos com seus jovens leitores.

– Que tipo de gente tentaria explodir uma usina nuclear?

– Não sei dizer, inspetor, não sou psiquiatra. Mas gostaria de saber o que leva um homem a esse gesto de total desespero.

– Ele chama a si mesmo de ‘justiceiro’. Tenho muito medo do fanatismo. A história está cheia de crimes e massacres executados por justiceiros.

Ficaram os dois em silêncio.” (p. 24)

Um pouco de fantasia

O toque fantástico do livro fica por conta da curiosa Loja de Estranhezas, comandada por Caio Porfírio Carneiro, e pelas misteriosas aparições de Polípedes, o mágico, ambos personificações de amigos reais da autora, homenageados nas páginas de seu livro.

Assim como aconteceu com a leitura de O fantástico homem do metrô (comentado aqui), eu também não tinha muito boas recordações de O caso do sabotador de Angra – muito provavelmente porque a complexidade da trama deve ter me deixado um tanto perdida em minha primeira leitura (quando eu tinha uns desatenciosos 13 anos, acho…). Hoje, na releitura, as peças ficaram bem mais claras, e pude constatar que, com este livro, Stella Carr atingiu o ponto alto das aventuras de Marco, Eloís e Isabel.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o sexto livro da série: O segredo do Museu Imperial!

O caso do sabotador de Angra
Stella Carr
Editora Moderna
118 páginas – 1992

Irmãos Encrenca | O fantástico homem do metrô

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Curioso. Esta é a releitura de um livro do qual eu não tinha muito boas lembranças, mas, como estou revendo todas as aventuras dos Irmãos Encrenca, e esta é a quarta aventura do trio, embarquei nessa leitura e desfiz todas as impressões daquele meu primeiro contato com o livro.

O fantástico homem do metrô é uma história interessante, inteligente e, sem dúvida, acrescenta mais uma peça no quebra-cabeça da trajetória de Marco, Eloís e Isabel, pois, neste livro, a autora defende a causa ecológica, com uma trama que privilegia a preocupação com a natureza, em um enredo que mescla as intrigantes sociedades secretas, os lobbies governamentais, ficção científica e personalidades reais, como Marcos Rey, Ruth Rocha, Álvaro Alves de Faria e outros grandes nomes.

“– Já pensou se houver uma sindicância para apurar de onde vieram essas coisas?
– Ninguém pode nos culpar, Doutor Marmilho, pela invasão da cidade por um bicho que não existe – respondeu Silésio exasperado.
– É porque você não é político! Já pensou perder as eleições por causa de um fantasma e de um bando de monstrengos?
– De que eleições o senhor está falando, senhor diretor?
– Eu sou candidato à academia de candidatos a futuros candidatos e já estou praticamente eleito!
– Meus parabéns, Doutor Marmilho.” (p. 95)

Por esse trechinho já dá para perceber o tom irônico e bem-humorado que Stella Carr utiliza para conduzir a história.

Dois fatores me chamaram especialmente a atenção durante a leitura. O primeiro deles tem a ver com o recurso narrativo empregado pela autora. Além de mesclar personagens fictícios com pessoas reais, Stella Carr brinca com a metalinguagem, como no momento em que o ilustrador Jesus Dias é atacado pelas criaturas mutantes no momento em que trabalhava na produção das ilustrações para o livro – supostamente. Essa “jogada” da autora torna a narratividade da trama extremamente interessante, além de aproximar o leitor do processo de composição da obra.

O segundo ponto desafiador desse livro foi o momento no qual Eloís recusa o convite da Ordem da Chave e da Estrela – desculpem o spoiler. Ao dizer “não” para o sábio grão-mestre, a autora corre um alto risco e põe um de seus protagonistas em uma delicada situação, pois, em tese, ele perde uma chance direta de lutar pela preservação da natureza com o respaldo das ordens secretas. Contudo, o jovem, ao lado dos irmãos, opta por continuar oferecendo ajuda a causas justas “sem ser em segredo”. É muito interessante observar essa fuga da obviedade, afinal, depois de toda a investigação empreendida por Marco, Eloís e Isabel, poderia ser uma solução natural que um deles se tornasse um representante das novas gerações no Conselho dos Invisíveis.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o quinto livro da série: O caso do sabotador de Angra!

O fantástico homem do metrô
Stella Carr
Editora Moderna
111 páginas – 1992

Série Vaga-lume | Spharion

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Muitos anos depois do primeiro contato que tive com este livro – na estante de casa, depois que meus irmãos o leram para a escola –, eu o retomo para uma releitura que foi, em certa medida, um processo revelador.

Não lembrava que a autora, a ótima Lúcia Machado de Almeida, usava o mesmo Inspetor Pimentel de O Escaravelho do Diabo para investigar os casos ocorridos em Diamantina, nesta aventura que leva como título o nome do vilão, e não o do mocinho. Spharion é um homem com poderes mentais sobrenaturais, potencializados com o uso de aparatos científicos, e que utiliza suas habilidades com objetivos megalomaníacos. Só o fato de o livro, voltado ao público infantojuvenil, levar o nome do vilão já me parece um tanto “subversivo” para a época em que ele foi lançado – fim da década de 1970. E, sem dúvida, isso torna tudo muito mais interessante.

A autora promove uma espécie de embate entre a ciência e o inexplicado, ao criar um protagonista com dons paranormais, chamado Dico Saburó. Ao rapaz cabe a missão de encontrar Spharion e parar seus planos. Há uma forte atmosfera de mistério no enredo, e as ações do antagonista são executadas de forma que ele se mostra cada vez mais sombrio. Esse é um ponto positivo do livro e que contribui para “fisgar” o leitor.

No entanto, o que me decepcionou nesta releitura foi o fato de que a rica pesquisa empreendida pela autora, com conceitos físicos e também de mineralogia, foi frustrada por um fim bem singelo. O confronto entre Dico e Spharion é antecedido por um capítulo no qual várias páginas do diário do criminoso são reveladas e, dessa forma, explica-se ao leitor as motivações, os planos e a forma como vilão pôs em prática seus objetivos. Entretanto, o confronto entre Dico e Spharion é muito rápido, sem diálogos – pressupõe-se que ambos estão duelando em nível mental, então suas falas também devem obedecer a esse nível – e funciona como uma espécie de anticlímax, porque abrevia uma luta esperada pelo leitor durante todo o decorrer da história e que poderia ter sido mais bem elaborada. A sensação de aguardo por um combate “de verdade” entre o bem e o mal fica no ar e é inevitável. Infelizmente.

Mesmo assim, com este livro, a autora ganhou o Prêmio Brasília de Literatura, em 1980. E, em 2013, essa obra foi relançada, junto a outros nove títulos, com o novo projeto gráfico que a Editora Ática preparou para comemorar os 40 anos da Série Vaga-Lume, bem como as versões dos livros em formato digital.

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Lúcia Machado de Almeida
Editora Ática
1979 – 126 páginas

Leituras | Balanço de 2016

Primeiro post de 2017 e é hora de comentar as leituras do ano anterior. Em janeiro do ano passado, publiquei uma pequena lista de livros como meta para 2016 (que pode ser consultada neste link). Entretanto, apesar dos 58 livros lidos nos últimos doze meses, essa lista não foi totalmente contemplada. Isso porque li títulos emprestados e também outros que fazem parte de projetos deste blog, como a bibliografia policial de Agatha Christie, as aventuras de Maigret e a série Discworld, por exemplo.

Também em 2016 foi tempo de consolidar o projeto de releitura de obras infantojuvenis que fizeram parte do meu desenvolvimento como leitora. Fazem parte desse projeto os títulos da Série Vaga-Lume, dos quais todas as aventuras dos detetives Léo, Ângela e Gino foram resenhadas. Terminando a saga dos jovens detetives de Marcos Rey, comecei as acompanhar novamente as aventuras dos Irmãos Encrenca, Marco, Eloís e Isabel, criados por Stella Carr (aventuras que ainda estão em andamento aqui no blog) e continuo resenhando títulos da Série Vaga-Lume.

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As quatro aventuras dos detetives de Marcos Rey resenhadas em 2016. Crédito da foto: Blog Estação com Cor

Durante o ano passado, também fiz leituras de obras recomendadas pela Tag Experiências Literárias – aliás, fazer parte de um clube de assinatura de livros é algo pelo que toda pessoa fascinada por livros precisa passar. E vieram da Tag algumas das melhores leituras que fiz em 2016. Tenho uma categoria para a Tag aqui no blog, para consultas em caso de interesse.

Da lista inicial proposta no início de 2016, foram lidos os seguintes títulos:

Se vivêssemos em um lugar normal (Juan Pablo Villalobos) (comentado aqui);

Um teto todo seu (Virginia Woolf);

Convergente (Verônica Roth);

Coisas Frágeis 2 (Neil Gaiman);

O chinês americano (Gene Luen Yang) (comentado aqui);

Lavoura arcaica (Raduan Nassar) (comentado aqui);

O falcão maltês (Dashiell Hammett) (comentado aqui);

Contos de amor, loucura e morte (Horacio Quiroga);

Quatro (Verônica Roth).

Infelizmente, não cheguei a fazer resenhas sobre todos eles aqui no blog – a falta de organização não me permitiu. Mas perdoem, porque vou falar brevemente sobre algumas delas agora.

Contos

Em 2016, li apenas três livros de contos: Doze contos peregrinos (Gabriel García-Marquez), recomendado pela Tag; Coisas Frágeis 2 (Neil Gaiman) e Contos de amor, loucura e morte (Horacio Quiroga), esses dois últimos presentes na minha meta inicial para o ano.

Dos três livros, o que menos me marcou foi o de mestre Gaiman, infelizmente. Coisas Frágeis 1 é realmente superior ao seu sucessor e preciso admitir que fui realmente envolvida pelos contos de García-Marquez e do uruguaio Quiroga. Há, de fato, algumas narrativas excelentes nesses dois livros.

HQs

No ano de 2016, voltei a acompanhar um pouco do universo das histórias em quadrinhos. Li várias coisas interessantes em revistas mensais do Mickey (trabalhos da Disney italiana) e novidades da Marvel, Vertido e DC.

No âmbito das graphic novels, três destaques: O chinês americano (Gene Luen Yang); Bordados (Marjane Satrapi) e Batman Noël (Lee Bermejo).

Sobre Bordados, embora eu tenha lido várias resenhas não tão positivas sobre esse trabalho quanto as que li sobre Persépolis (também comentado aqui), reconheço nessa singela história um trabalho menos pretensioso e não tão elaborado quanto a obra-prima de Marjane, mas muito interessante, principalmente no que se refere à importante tarefa de falar sobre o papel da mulher no Oriente Médio.

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Já o Batman Noël de Lee Bermejo é uma releitura poderosa de Um conto de Natal, de Charles Dickens. Um respiro criativo no ambiente massivo das histórias em quadrinhos, utilizando-se de uma fonte clássica da literatura e com um visual simplesmente espetacular, ainda mais valorizado pelo trabalho da colorista italiana Barbara Ciardo.

Pretendo incluir os livros não lidos da lista de 2016 – sete títulos – na programação de leitura de 2017. Por precaução, provavelmente não vou elaborar uma nova lista, mas devo prosseguir com todos os projetos do blog e conciliar, sempre que possível, as leituras dos livros emprestados.

Dois pontos positivos das leituras de 2016 foi a diversidade de assuntos que consegui contemplar (mas isso ainda pode ser melhorado) e também a periodicidade – pela primeira vez, em mais de oito anos de blog, consegui, ao longo de um ano inteiro, postar um texto por semana, algo que também pretendo manter em 2017.

Irmãos Encrenca | O incrível roubo da loteca

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Se a leitura de O enigma do autódromo de Interlagos já me deixou empolgada (como relatei aqui), nesta terceira aventura dos chamados “Irmãos Encrenca” (Marco, Eloís e Isabel), Stella Carr se supera na elaboração de uma trama inteligente, bem-humorada e repleta de termos que marcaram uma época.

Mais uma vez, a narrativa é muito bem amarrada, com eventos que intrigam o leitor mais e mais, conduzindo-o rumo a uma aventura dinâmica e intrigante ao mesmo tempo.

A partir de uma linha cruzada (será que ainda ocorrem linhas cruzadas hoje em dia?), ao ligar para seu amigo Tico, Marco ouve uma estranha conversa que sugere um golpe aplicado no prêmio da Loteria Esportiva. Esse é o pontapé para ligar os jogos da seleção brasileira, a bilhetes “premiados”, cremes de massagem adulterados, um cadáver que, em menos de 24 horas, vai parar em quatro carros diferentes e investigador que pode não ser o que parece ser.

Daí por diante, a história nos conduz a uma espiral de acontecimentos envolventes, senão pela intrincada trama, pela imersão na rotina de um Brasil do fim dos anos de 1970, com as pessoas fazendo ligações de orelhão, enviando cartas para caixas postais, publicando anúncios em jornais para localizar pessoas, enfim, vivendo com costumes impensáveis em relação à vida que temos hoje. As mudanças sociopolíticas que o Brasil viveu nos últimos 30 anos não apenas mudaram completamente o panorama social do País, como também se refletiu em um fazer literário que contextualiza as tramas infantojuvenis em um patamar completamente distinto.

Nessa perspectiva, é extremamente enriquecedora a leitura desses livros que marcaram uma fase brilhante da nossa produção literária para os adolescentes. E Stella Carr é, sem dúvida uma de nossas maiores representantes nesse quesito, preocupando-se não apenas em criar histórias interessantes para os leitores em idade escolar, como também reforçando a importância dos valores de caráter de seus personagens.

“- Que é isso, mano? Homem não chora!
Eu respondi bravo:
– Chora, sim. Chora porque tem vergonha na cara. E quando alguém pisa nessa vergonha, a gente chora. E eu arrebento o focinho de quem disser que eu não sou homem por causa disso!” (pág. 130)

Durante o processo de releitura e pesquisa para fazer esses comentários aqui no blog, tive acesso a duas edições diferentes desse livro: uma de 1985 e outra de 1992. Esse tipo de comparação é bastante interessante, porque possibilita verificar atualizações e revisões que a autora pôde fazer entre uma edição e outra. Por exemplo, a de 1992 já conta com uma frase final que foi acrescida em relação à edição mais antiga:

“E então, alguns meses depois, o Brasil perdeu a Copa na Argentina…” (p. 109)

Interessante é que, mesmo com a revisão/atualização da obra na mudança de editora (a primeira edição que eu li é da Editora Pioneira; a segunda, da Editora Moderna), Stella Carr manteve a identidade da obra em um marcador de tempo visível logo no título do livro: “loteca” é uma palavra que já não é empregada na linguagem cotidiana há vários anos. Uma solução possível – porém nada viável – seria a troca por “loteria esportiva”. Contudo, tanto a autora quanto a editora tiveram o bom senso de preservar a ideia original (mesmo porque qualquer alteração poderia acarretar problemas com o registro original). Afinal, um título como esse já oferece um ótimo ponto de partida para análise sobre mudança de vocabulário e modificações na língua portuguesa ao longo do tempo. É a literatura dando a sua contribuição para um estudo mais abrangente sobre língua e sociedade.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o quarto livro da série: O fantástico homem do metrô.

O incrível roubo da loteca
Stella Carr
Editora Pioneira
131 páginas – 1978