Arquivo da categoria: Projeto Maigret

Maigret | Maigret e seu morto

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Essa aventura do comissário Maigret foi lida em um processo diferenciado. Pela primeira vez, tive acesso aos quadrinhos do comissário da polícia judiciária francesa, em um traço elegante de Philippe Wurm e um roteiro dinâmico, elaborado por Odile Reynaud. Sem dúvida, foi uma experiência interessante e criativa, muito embora a imagem de Maigret pelas mãos de Wurm não corresponda em nada à ideia que eu sempre fiz do comissário – continuo imaginando-o como o ator francês Daniel Cremer, que o viveu nas telas, em um seriado produzido para a televisão francesa.

Até então, meu conhecimento sobre Maigret se resumia à tradução da prosa eficiente de Simenon. E é claro que a leitura em HQ de Maigret e seu morto me motivou a querer ler o texto em prosa. Mesmo porque essa história apresenta uma especificidade em relação às outras aventuras do comissário que li até o momento: aqui, a Sra. Maigret participa bastante da trama, opinando, aconselhando Maigret durante a investigação, e isso deu um toque especial ao enredo, porque ela funciona como um contraponto ao jeito caladão e sóbrio de Maigret em um caso de ritmo dinâmico, repleto de perseguições, violência, desencontros e momentos bem delicados.

O comissário nas telas

Outro ponto bem enriquecedor foi que, logo após a leitura, eu tive a oportunidade de ver o segundo episódio na nova série de Maigret produzida pelo canal iTV, protagonizada por Rowan Atkinson, o famoso Mr. Bean.

Maigret e seu morto foi o segundo episódio da série e eu o assisti assim que finalizei os quadrinhos. Não sabia absolutamente o que esperar, porque estava com várias reservas em relação a como poderia ser a atuação de Atkinson como Maigret, mas devo admitir que fiquei surpresa com o esforço do ator. Seu trabalho é sério e busca persistentemente a sobriedade do personagem das histórias de Simenon, apesar de, em vários momentos, ele se mostrar muito mais sensível do que o Maigret dos livros – li algumas resenhas e entrevistas nas quais Rowan Atkinson afirma que esse traço de sua interpretação foi proposital, para a elaboração de sua releitura de Maigret.

A produção, em si, da iTV é muito boa. O episódio foi muito bem tratado em termos visuais, de ambientes, figurinos, direção de arte e fotografia. Acho que Simenon ficaria contente com esse resultado – só não saberia dizer o que ele pensaria de seu protagonista na pele de Rowan Atkinson.

A história foi bem adaptada para a TV. Notei uma forte preocupação em manter os pontos principais conforme o enredo original, apenas uma ou outra pitada para criar mais efeito na telona. O casal Maigret pareceu-me bem mais jovem em relação ao livro, mas isso não me incomodou. Assim como no livro, também no episódio para a TV a Sra. Maigret tem uma participação relevante e dá um pequeno toque feminino à história (principalmente em relação aos primeiros livros, nos quais ela mal aparece).

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Rowan Atkinson como Maigret

Maigret nunca pega casos fáceis. Suas investigações geralmente conduzem-no a dilemas morais, violência e contrapontos entre vida e morte. Nesse caso não foi diferente, mas, mais uma vez ele se saiu bem sem tentar soluções mirabolantes e sem tentar bancar o super-homem. O morto da história lhe chega ainda nas primeiras páginas da história, mas Maigret realiza seu trabalho com bastante perseverança – algo bem conservado no episódio da TV –, confiando em sua intuição (e na de sua esposa também) para chegar ao âmago do caso. Uma lição de boa investigação.

Maigret e seu morto (HQ)
Georges Simenon
Adaptação e roteiro de Odile Reynaud
Ilustrações de Philippe Wurm
Tradução de Moacyr Gomes Jr.
L&PM Editores
1995 – 48 páginas

Maigret e seu morto (Segundo episódio da série iTV)
Rowan Atkinson como Maigret
Uma produção ITV (Inglaterra)
2016 – 1h28min

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Maigret | A cabeça de um homem

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Este é o sexto livro que leio sobre os casos de investigação do comissário da Polícia Judiciária de Paris Jules Maigret e, sem dúvida, é o melhor de todos até o momento. Desde a abertura, com um início definitivamente inusitado para os padrões que conheço de Maigret, até as decisões que o comissário foi capaz de tomar para provar o seu ponto de vista.

Em A cabeça de um homem, o comissário volta a uma investigação feita meses antes para rever pontos de um duplo assassinato e se vê na contingência de voltar atrás em sua decisão sobre o culpado. A partir daí, Maigret envolve-se em uma maratona contra o tempo, pois dispõe de apenas dez dias para provar ao juiz de instrução que o homem que está condenado à morte pelos crimes é inocente.

A meu ver, até a dinâmica dessa história é maior do que a das anteriores. E há um ponto muito positivo: o leitor passa desesperadamente a torcer pela sorte do condenado, desejando que a metodologia introspectiva e lenta de análise dos fatos do comissário da polícia judiciária esteja correta, porque disso também depende o seu cargo:

Aquilo durou três dias. Ele agitou o fantasma do erro judiciário e do escândalo que estouraria mais cedo ou mais tarde.
– Mas foi o senhor mesmo que o prendeu!
– Porque, como funcionário da polícia, sou obrigado a tirar as conclusões lógicas das provas materiais.
– E como homem?
– Fico à espera das provas morais…
– E então?
– Ele é louco, ou inocente…
– Por que ele não fala?
– A experiência que proponho nos dirá.
Houve telefonemas, reuniões.
– O senhor está pondo em risco sua carreira, comissário! Pense bem!
– Está pensado.” (pág. 33)

Minha admiração por Maigret cresceu consideravelmente depois desse caso. E minha admiração por Simenon também, pois o autor se mostrou muito hábil na condução de um enredo cuja estrutura não corresponde à dos primeiro livros e, mesmo diante de um panorama diferente, vendo-se em risco, mas contando com a colaboração de colegas de trabalho que se provaram leais à sua palavra, Maigret conseguiu se manter firme e usou sua experiência para obter clareza de raciocínio quando isso mais foi necessário.

A cabeça de um homem
Georges Simenon
Tradução de Eduardo Brandão
Companhia das Letras
2014 – 145 páginas

Maigret | O finado Sr. Gallet

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Puxa, Maigret, que história triste, a do Sr. Gallet! Realmente, no fim da leitura, fiquei compadecida desse homem. No geral, até aqui, de fato as investigações de Maigret não se deparam com episódios muito felizes, é verdade, mas a trajetória de Émile Gallet ganhou de todos os livros que li com o comissário até o momento.

Durante essa leitura, um fato que me chamou a atenção foi a onisciência do narrador. Até então, eu não tinha me dado conta de como essa característica é marcante na trama. Neste livro, especificamente, achei que esse traço narrativo fez toda a diferença. O narrador se confunde com o protagonista, as informações da investigação e as percepções de Maigret, muitas vezes, são levadas ao leitor pelo narrador, e não pelo discurso direto do comissário.

Ao mesmo tempo, também me intrigou a investigação intuitiva de Maigret, muito embora neste quinto livro já tenha se consolidado para mim a racionalidade desse personagem. Contudo, destaco um trecho no qual o comissário se deixa dominar pela superstição e pelo instinto:

“Enfim, cedendo a um sentimento mais supersticioso que científico, havia posto a fotografia de Émile Gallet na lareira de mármore negro enfeitada com um castiçal de cobre.” (pág. 61)

Em síntese, a partir de uma trama que, desde o início, não faz o menor sentido – Émile Gallet não era quem parecia ser e levava uma vida dupla –, Maigret sofre, debate-se com suas concepções e certezas para, alcançando a solução do mistério, mais uma vez, ter a coragem de não tomar a decisão legalmente mais correta, porém de optar pela decisão mais humana.

O finado Sr. Gallet
Georges Simenon
Tradução de Eduardo Brandão
Companhia das Letras
2015 – 152 páginas

Maigret | O cachorro amarelo

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Tenho de admitir: estou me afeiçoando ao Maigret. E O cachorro amarelo foi a sua melhor aventura até o momento! À altura desta quarta aventura do comissário da polícia judiciária francesa, já consigo entender melhor a sua linha de pensamento e o seu silêncio cheio de significado. Sem dúvida, é uma forma diferente de conduzir investigações no universo da literatura policial, mas estou me acostumando.

No decorrer da leitura, eu me peguei fazendo várias reflexões e concluindo que, ao contrário do que acontece, por exemplo, com as aventuras de Hercule Poirot, ou de Miss Marple (até mesmo de Sherlock Holmes, por intermédio do seu tão humano John Watson), no universo de Maigret parece existir uma distância entre os personagens da trama e o leitor. No meu entender, é mais frio o contato com os protagonistas de O cachorro amarelo. Talvez por causa da forma como Maigret os enxerga, ainda não sei até onde isso pode ser um fator de influência. No meu caso, quem mais me tocou foi, de fato, o próprio cachorro.

Apesar de não se tratar de um caso com 100% de final feliz, o fato de Maigret conseguir solucionar o enigma com a prisão do culpado e ainda ajudar alguns personagens me fez encarar O cachorro amarelo como um livro verdadeiramente bem-sucedido. Aliás, ao longo destes quatro primeiros livros do personagem mais famoso de George Simenon (1903-1989), notei um amadurecimento na forma como Maigret conduz os casos. Ou talvez isso se deva meramente ao aumento da minha familiaridade em relação ao personagem, porque, em sua primeira aventura, em Pietr, o letão (comentado aqui), Maigret já se apresenta como um profissional bastante experimentado.

Desta vez, o enredo me pareceu mais complexo, levando em consideração não apenas fatores humanos, como também questões econômicas e suas consequências em relação às atitudes das pessoas. Simenon consegue construir uma combinação curiosa, porque, apesar de Maigret parecer um “peso pesado” em termos físicos, esconde-se sobre essa aparência um olhar que consegue ter sensibilidade em relação aos dramas humanos e isso é bastante interessante.

O fato de, a cada livro lido o parceiro de investigação de Maigret ser um inspetor diferente confere ao comissário uma aura de solidão muito forte. Talvez isso se intensifique pelo jeito caladão de Maigret. Ainda estou me acostumando com isso.

Bem, reflexões à parte, gostei bastante de O cachorro amarelo. Tornou-se o meu favorito até o momento. A história é intrigante, tem um ritmo mais intenso do que as outras e uma dinâmica que me prendeu durante a leitura. Em todo o processo, tive a confiança de Maigret sempre esteve um passo à frente, embora parecesse exatamente o contrário. O fim foi muito bem justificado e, apesar da grande quantidade de informações (talvez a história não pudesse, de fato, ter se constituído de outra maneira), foi coerente. Recomendo a leitura!

O cachorro amarelo
Georges Simenon
Tradução de Eduardo Brandão
Companhia das Letras
2014 – 135 páginas

Maigret | O enforcado de Saint-Pholien

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Ah, agora sim. Simenon conseguiu ousar, mudar a dinâmica reinante até então. Nesta terceira aventura do comissário Jules Maigret, o ritmo é diferente, logo de início, o leitor se depara com um Maigret capaz de ousar, de “sair do riscado” e agir impulsivamente. Só essa transformação – o Maigret que vi nos dois primeiros livros me pareceu um cara bastante contido –, já me deu fôlego para encarar essa terceira incursão do comissário e também para esperar algo de diferente em relação ao ritmo truncado das investigações de Maigret. Como sempre digo, é um desafio ler Simenon. Não no sentido de grau de dificuldade da leitura, mas no sentido de seus enredos culminarem em situações para as quais as reações de Maigret me deixam bastante contrariada. Mesmo sendo grande fã do estilo policial, Maigret, para mim, significa sair da zona de conforto.

Desta vez, no entanto, o enredo me deixou mais satisfeita. Simenon consegue manter o grau de interesse ao longo de todo o livro e a trama é intrigante. Há menos pistas do que nos dois primeiros casos investigados por Maigret e – um ponto muito positivo – o título, desta vez, não funciona como um spoiler direto.

Há uma evolução em relação aos dois primeiros livros. Em O enforcado de Saint-Pholien, Maigret se depara com um caso que parece não despontar nunca, deixa-o frustrado, e o autor mostra isso de maneira muito eficiente. Ainda que essa falibilidade desafie duramente os princípios de Maigret (sua atitude impulsiva resulta em um suicídio põe em xeque a sua tática profissional), penso que é justamente essa dificuldade que enriquece a história. O comissário também precisa lidar com os seus demônios internos, e não apenas os criminosos, como seria pressuposto. Isso pode ser perfeitamente esperado tratando-se de um anti-herói, mas não no caso de um personagem correto como Maigret.

Fiquei muito mais otimista em relação ao que esperar dos livros de Maigret depois dessa leitura. Este terceiro caso chega mais longe do que seus antecessores, no que se refere ao inesperado. É menos previsível, portanto, mais interessante. E que venha O cachorro amarelo!

O enforcado de Saint-Pholien
Georges Simenon
Tradução de André Telles
Companhia das Letras
2014 – 135 páginas

Maigret | O cavalariço da Providence

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Fato: Maigret continua sendo um enigma para mim. Esta é a segunda aventura que leio desse comissário da Polícia Judiciária francesa e eu ainda estou me adaptando ao “estilo Simenon” de escrita. Ainda acredito que ele explique coisas desnecessariamente em alguns momentos e que, em outros, a sua narrativa torna-se obscura a tal ponto de fazer com que determinados dados só se esclareçam mais adiante. Seria esse traço um “charme estilístico” do autor? Sendo esta a minha segunda incursão pelo universo de Maigret, parece-me cedo para tirar conclusões.

No caso de O cavalariço da Providence, eu fiquei um tanto frustrada por dois motivos:

– O título já entrega a chave do crime e isso fica claro logo nas primeiras páginas. Ou seja, ainda que fiquem no ar a motivação e o modo, o título acaba sendo um baita spoiler.

– Toda a história é ambientada no universo náutico de balsas, eclusas, iates e coisa e tal e, dado o meu desconhecimento desse assunto, não estabeleci de pronto uma identificação com a história. O que manteve firme na leitura foi o trabalho árduo de Maigret, que, até as últimas páginas, estava lutando para unir as peças do quebra-cabeça.

Como já mencionei aqui, ler as histórias de Jules Maigret tem sido um interessante exercício para mim, já que sou grande fã de histórias policiais, mas estou mais acostumada a Hercule Poirot, Miss Marple e Sherlock Holmes.

A dinâmica de Maigret é bastante diferente, bem como o seu método de investigação. Nesse livro, mais uma vez, fiquei frustrada com o desfecho (será que isso vai acontecer sempre?), mas acho importante nunca perder de vista que as coisas nem sempre dão certo, mesmo quando se descobre o culpado – desculpem o spoiler.

O cavalariço da Providence
Georges Simenon
Tradução de André Telles
Companhia das Letras
2014 – 132 páginas

Maigret | Pietr, o letão

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* Primeiro ponto a ser considerado: esta é a primeira história do Comissário Maigret.

Eu estava bastante ansiosa para ler algo com o famoso Comissário Maigret, personagem criado pelo belga Georges Simenon. Minha ideia era ler alguma aventura policial que saísse dos moldes de Agatha Christie e de Arthur Conan Doyle. E deu certo: Maigret é completamente diferente de Hercule Poirot e de Sherlock Holmes.

A trama escrita por Simenon me deixou com várias dúvidas. Por isso, quero ler outros livros com Maigret. De repente, achei tudo muito explicado no enredo. O leitor não precisa ter grandes trabalhos raciocinando sobre a história, pois o próprio narrador esmiúça tudo. A meu ver, isso tirou um pouco do brilho da história, mas não sei se todo esse cuidado se deveu ao fato de este ser o ponto de partida de Maigret.

Por outro lado, algo de bastante positivo, em minha opinião, é a verossimilhança de Maigret. Trata-se de um personagem muito bem construído. Ele não tem nada de especial, a despeito da inteligência privilegiada de Poirot e de Holmes. Maigret é simples, perseverante, irascível, e tem bastante senso de realidade. Ele não tem carro, depende de reembolso, leva tiro, passa horas e horas na chuva, em vigília, ou seja, luta com armas conhecidas e isso confere credibilidade não apenas ao próprio Maigret, como também ao livro como um todo.

Entretanto, por ora, ainda tenho muitas dúvidas sobre Maigret, especialmente por causa de uma atitude que ele toma nas páginas finais da trama, depois de perseguir durante todo o livro o tal letão, motor propulsor da história. Não vou dar spoilers aqui, mas confesso que me surpreendi de uma forma, talvez, negativa com Maigret. E, para “desempatar” essa impressão, terei de embarcar na leitura da segunda aventura desse comissário turrão. Até lá!

Pietr, o letão
Georges Simenon
Tradução de André Telles
Companhia das Letras
2014 – 164 páginas