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Projeto Hitchcock | Sabotagem/O marido era o culpado (1936)

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Achei bastante curioso o fato de um mesmo filme ser conhecido por dois títulos diferentes. Internacionalmente, Sabotage é o nome utilizado na filmografia de Hitchcock; aqui no Brasil, O marido era o culpado é outro título pelo qual esta mesma produção é conhecida, embora eu não saiba a razão disso. Uma coisa é certa: O marido era o culpado é simplesmente um título ridículo, que depõe contra esse trabalho interessante, realizado por Hitchcock na década de 1930, durante a “Fase Inglesa” de sua filmografia.

Joseph Conrad

O roteiro do filme foi desenvolvido a partir do romance O Agente Secreto, de autoria do escritor britânico Joseph Conrad (1857-1924). Infelizmente, não li o livro antes de assistir ao filme (mas fiquei bastante curiosa para fazer isso), então não tenho parâmetros para avaliar questões de adaptação da história. Entretanto, a atmosfera criada pelo diretor é muito sugestiva. Trabalha com elementos acessórios para criar um efeito generalizado ao espectador, uma vez que o principal fator já é revelado nas primeiras cenas do filme: como um dos títulos sugere, o marido de Sylvia Verloc, de fato, é mostrado em atitude suspeita. Por isso, de antemão, já se sabe que se trata de um sabotador, mas a motivação do Sr. Verloc, bem como a organização para qual ele trabalha, uma possível colaboração de sua esposa nessa “operação” são pontos que se tornam os principais no desenvolvimento do filme.

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Ted (John Loder) e Sra. Verloc (Sylvia Sydney)

Assim como desde cedo se sabe que o Sr. Verloc está desenvolvendo uma atividade ilícita, o filme de Hitchcock também mostra logo de início que Ted, um suposto empregado da quitanda que funciona vizinha ao cinema do casal Verloc, é mais do que um simples quitandeiro. Suas ações revelam, talvez prematuramente, que ele é um investigador no rastro de Verloc – seu comportamento no sofisticado Restaurante Simpsons, em companhia da Sra. Verloc e de seu irmão, Stevie é uma prova de que ele não é quem diz ser. Assim como o espectador, Ted quer saber se a Sra. Verloc tem conhecimento do trabalho secreto de seu marido e quais são os próximos passos do sabotador.

Definitivamente, Sabotagem não é um filme badalado entre as produções da Fase Inglesa de Alfred Hitchcock, mas é uma trama interessante, sem muitos recursos de impacto (cenas de ação, por exemplo), porém com uma história instigante. Stevie, o irmão caçula da Sra. Verloc, adquire uma importância inesperada no enredo, com um suspense crescente, o que contribui para dar força ao desfecho do filme.

Sabotagem/O marido era o culpado
1936
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Benett, Ian Hay, Helen Simpson, baseado no romance de Joseph Conrad, The Secret Agent
Duração: 76 minutos
Elenco: Sylvia Sydney (Sylvia), Oskar Homolka (Sr. Verloc), John Loder (Ted), Desmond Tencer (Stevie)

 

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

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Projeto Hitchcock | Psicose

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Propositalmente eu demorei bastante para chegar à obra mais badalada da cinematografia de Alfred Hitchcock. E também propositalmente eu quis ler o livro de Robert Bloch antes de assistir ao filme. E talvez esse tenha sido o meu erro.

É inegável que o filme tem muitos méritos e que se trata de um dos maiores trabalhos de Hitchcock, mas para que essa imagem se consolide, é melhor você não ler o livro de Bloch. Caso contrário, a decepção é certa. Afinal, o livro é muito melhor.

Diferentemente do que aconteceu com Janela Indiscreta, quando Hitchcock conseguiu melhorar o conto de Cornell Woolrich que originou o roteiro do filme, em Psicose, a matéria-prima literária já era de uma qualidade impressionante. E é muito difícil melhorar algo que já é, em sua essência, excelente.

O roteiro perdeu força em relação ao livro notadamente porque as mudanças para a Sétima Arte não foram bem-sucedidas. Norman não se parece com o Norman do livro, Lila não se parece com a Lila do livro e Marion – que, no livro, é Mary – definitivamente não se parece com a personagem do livro. Por isso é prejudicial a leitura do livro antes de conhecer o filme. A escrita de Bloch é tão boa, que se torna inevitável para o leitor não formar mentalmente a imagem dos personagens de acordo com as descrições do autor. Descrições estas que mudaram significativamente para o cinema.

A cena do chuveiro

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Não posso deixar de dizer que até mesmo a tão famosa sequência da morte de Marion no chuveiro é extremamente fraca perante sua descrição no livro. Nem mesmo os sete dias de filmagem, as 70 posições de câmera e os 45 segundos de duração conseguem ser mais incisivos do que a brutalidade da narração de Robert Bloch.

O refinamento literário de um texto extremamente representativo da literatura de suspense e terror põe abaixo as tomadas de Hitchcock, infelizmente. Talvez não houvesse tantos recursos visuais naquela época para reconstruir fielmente a cena narrada por Bloch, mas Hitchcock, uma vez comprado o desafio da adaptação, deveria ter construído melhor essa passagem-chave do filme. Fica clara a sua intenção de não ser apelativo, porém sua adaptação, em vários momentos, beira a infantilidade. Não se trata de uma sequência ruim; ela é apenas decepcionante na comparação com o livro. Contudo, como 90% dos espectadores do filme não leram o livro, méritos para Hitchcock.

Reconheço que nenhum outro diretor seria capaz de reproduzir no cinema a classe da trama de Robert Bloch. Hitchcock fez tudo o que podia. E o resultado foi bom, alguns recursos para situar o espectador em relação à trama foram muito bem pensados; as vozes dos atores constituindo os diálogos povoando os pensamentos de Marion enquanto a moça pega a estrada e mesmo elaboração da personagem da mãe de Norman para o filme foram interessantes. Entretanto, a leitura da obra-prima de Robert Bloch é indispensável para conhecer todas as dimensões de Psicose.

Psicose (livro)
Robert Bloch
Darkside
2013 – 237 páginas

Psicose (filme)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Joseph Stefano, baseado no livro de Robert Bloch
Ano: 1960
País: Estados Unidos
Gênero: Suspense/Terror
Duração: 100 minutos
Elenco: Janet Leigh (Marion Crane); Anthony Perkins (Norman Bates); John Gavin (Sam Loomis); Vera Miles (Lila Crane); Martin Balsam (Detetive Arbogast); John McIntire (xerife Al Chambers); Simon Oakland (Dr. Richmond); Vaughn Taylor (George Lowery)

 

Projeto Hitchcock | Disque M para Matar (1954)

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A temática do crime cuidadosamente planejado é o mote deste, que é um dos filmes mais famosos (e possivelmente um dos melhores) do mestre Hitchcock. O ex-tenista Tony Wendice (o excelente Ray Milland) decide elaborar um plano para matar sua bela esposa Margot (Grace Kelly), ao perceber que ela está apaixonada pelo escritor de romances policiais Mark Halliday (Robert Cummings), com o qual já mantém um caso há cerca de um ano. Para tanto, Wendice chantageia o ex-colega de escola Charles Alexander Swann/Lesgate (Anthony Dawson) para pôr em prática sua estratégia praticamente perfeita.

Tudo parece sob controle. Com a morte de Margot, Wendice herdaria o dinheiro da esposa (de família abastada) e poderia manter seu elevado padrão de vida, além de se livrar da sombra do homem traído. Ray Milland é extremamente hábil na composição de um personagem racional, frio, mas ao mesmo tempo de sorriso amistoso, capaz de enganar, a princípio, não apenas a polícia, mas também o ingênuo escritor Halliday.

A belíssima Grace Kelly é o pivô do triângulo, com uma atuação eficiente e convincente acima de tudo. Margot é uma mulher que, apesar de desejar a felicidade ao lado de outro homem que não é o seu marido, não compõe a imagem da mulher vulgar e dissimulada. Desde muito cedo, o homem traído da história toma para si o papel de “vilão”, ao agir de forma fria e inescrupulosa, e é muito interessante a maneira pela qual Hitchcock mostra isso ao espectador, por meio de cortes e closes insinuantes (olhares, sorrisos), algumas propositais ausências de diálogos, cores e composição de figurino etc. Há certa simplicidade – o filme não tem mais do que dois ou três ambientes – na produção que contrasta com a alta elaboração da ideia do roteiro.

Dois fatos me fizeram associar Disque M para Matar a outros filmes de Hitchcock dos quais gostei muitíssimo: Suspeita (1941) e Pacto Sinistro (1951), resenhados aqui e aqui. Isso porque, em Disque M..., também há a figura do escritor de histórias policiais, a exemplo de Suspeita, e assim como acontece em seu predecessor, suas habilidades são requeridas – em Suspeita, um dos pontos altos do filme ocorre quando Johnny Aysgarth, personagem de Cary Grant, aterroriza ainda mais sua esposa, ao indagar, de forma inocente, uma conhecida escritora, durante um jantar entre amigos, sobre as formas perfeitas de cometer um assassinato. Já a temática do crime perfeito cometido por coação também se assemelha ao enredo do ótimo Pacto Sinistro.

Por fim, preciso destacar o papel de John Williams como inspetor-chefe Hubbard, com surpreendente reviravolta em seu papel de investigador, jogando habilmente com os suspeitos. E, sobre a questão do “M” do título, cito a explicação do excelente post do blog Cine Análise sobre o filme:

Outro exemplo é a belíssima imagem do dedo de Tony discando o telefone de sua casa, momentos antes do atentado à vida de Margot. O número começa com o número 6, que corresponde ao ‘M’ do telefone, em alusão à palavra ‘murder’, assassinato em inglês. Como era difícil conseguir um plano detalhe (onde só uma parte do corpo do personagem é enquadrada) com as duas câmeras necessárias para se filmar em três dimensões, Hitch mandou fazer um dedo e um telefone gigantes para conseguir o efeito desejado, que ficou muito bom, diga-se de passagem.”

Disque M para Matar
1949
Direção: Alfred Hitchcock Roteiro: Frederick Knott (baseado em peça de sua própria autoria) 105 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

 

Projeto Hitchcock | Festim Diabólico (1948)

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Desde que comecei a assistir aos filmes do mestre Alfred Hitchcock, eu ouço falar (sempre de forma positiva) em Festim Diabólico (Rope, no título original). Esta é, sem dúvida, uma das produções mais famosas e também mais celebradas de toda a filmografia de Hitchcock. Entretanto, preciso dizer que vejo muito mais méritos técnicos nessa produção do que um enredo envolvente, inteligente e bem amarrado – com o perdão do trocadilho, é claro.

A questão técnica

A direção muito bem-sucedida de Hitchcock, o desafio dos planos-sequência extensos, o praticamente completo desenvolvimento da trama em apenas um ambiente, tudo isso faz de Festim Diabólico uma obra-prima. Os recursos parecem ser bastante “reduzidos” – talvez “controlados” seja uma palavra mais adequada para esse contexto do filme, que repousa em uma ideia totalmente dependente de movimentos previamente estudados –, e o toque especial do filme é dado pelas excelentes atuações de James Stewart (professor Rupert Cadell), John Dall (Brandon Shaw) e Farley Granger (Phillip Morgan), que teria a sua melhor atuação sob a direção de Hitchcock no excelente Pacto Sinistro, já resenhado aqui.

As ligações externas

Apenas depois de assistir ao filme eu soube de todas as suas inspirações externas. A história real que serviu de ideia central ao filme, ocorrida em Chicago, em 1924 (saiba mais sobre isso clicando aqui) e o conceito teórico do homem superior desenvolvido por Nietzsche (um pouco sobre isso também pode ser lido aqui) definitivamente enriquecem Festim Diabólico como produto cultural. Além disso, essas referências justificam o ponto alto da produção: o forte caráter psicológico da trama, que enlaça o espectador e o angustia, na medida em que o joga em lados opostos, brincando com suas emoções – se, por um lado, torcemos para que o corpo de David, o colega morto pela dupla de protagonistas, não seja descoberto enquanto seu pai (Sr. Kentley) está na casa de um dos assassinos, por receio de que o velhinho não resista ao choque, por outro lado, a torcida é para que a perspicácia de Rupert Cadell desmascare os dois jovens mimados que querem brincar de deus.

O tempo todo, o espectador é o único a compartilhar de todos os segredos de todos os personagens em questão. Ele sabe de tudo, embora não possa alertar nenhum deles, daí a intensa sensação de angústia. A forma como Hitchcock consegue levar esse conteúdo para quem assiste ao filme é simplesmente brilhante. Desde o início, todas as cartas estão na mesa. Resta saber para aonde a conduta dos personagens é capaz de levar a história. E este é o segredo do filme.

Uma das cenas iniciais da produção (que é o primeiro filme em cores da filmografia de Hitchcock), o assassinato de David me pareceu executado de forma muito estranha. Em minha opinião, trata-se de uma cena que não convence, não tem um toque de realidade, por isso a minha incredulidade inicial em relação a Festim Diabólico. A história em si, pareceu-me excessivamente amparada em questões de ego e isso enfraqueceu o conceito do roteiro – porém, o caráter do improvável me fez cair da cadeira ao saber da história verídica. Hitchcock, como sempre, surpreendendo! Não entrou para a minha lista de favoritos, mas, sem dúvida, deve ser assistido.

Festim Diabólico
1948
Direção: Alfred Hitchcock Roteiro: Hume Cronyn / Arthur Laurents
77 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Projeto Hitchcock | Notorious (1946)

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Depois que assisti a esse filme, a primeira coisa que fiz foi uma pesquisa na internet para tentar descobrir por que “Notorious” virou “Interlúdio” em sua tradução em português. Não consegui encontrar a resposta. Por isso, quem tiver alguma pista a respeito, por favor, deixe um comentário neste post para esta humilde fã de Hitchcock…

Passado esse primeiro incômodo, fiquei satisfeita com mais essa produção da filmografia do mestre. Notorious é um filme intrigante, tem a sua dose de curiosidade – sua trama é ambientada no Brasil, embora seja perceptível que as cenas não tenham sido filmadas aqui –, e, apesar de alguns detalhes que vou observar brevemente a seguir, tem um enredo interessante e, possivelmente, o casal protagonista mais bonito que Hitchcock conseguiu reunir em um filme seu: Ingrid Bergman e Cary Grant.

Continuo considerando Suspeita (resenhado aqui) o melhor trabalho de Cary Grant com Hitchcock. E isso não se deve ao fato de ele ter uma fraca atuação em Notorious, mas sim à questão de que, neste enredo, ele assume um papel muito mais coadjuvante de Ingrid Bergman. É nas mãos dela que residem os momentos cruciais da trama. Certamente, essa é a chave do filme. A falta de experiência e também a fragilidade de Alicia (personagem de Ingrid) conferem a Notorious o grau de suspense que o filme precisa para instalar na cabeça do espectador a dúvida sobre o sucesso da missão à qual ela e Devlin (Cary Grant) precisam executar.

Gostei do ambiente preto e branco do filme, gostei dos ambientes – embora tenha me incomodado muito os personagens vestidos até o pescoço, ou mesmo de preto dos pés à cabeça em pleno Rio de Janeiro! –, mas me desagradou ligeiramente o ritmo do filme. Notorious demora para engrenar, seu “tempo de introdução” é, além de “paradão”, maior do que o esperado. Talvez isso se relacione diretamente ao processo de aceitação de Alicia, que, sendo filha de um homem condenado por deserção, cabe a ela “redimir a honra da família” colaborando para destruir uma operação nazista no período Pós-Segunda Guerra Mundial. Para tanto, o experiente agente Devlin deve acompanhá-la até certo ponto do processo, porém todo o sucesso da operação está nas mãos de Alicia.

Um fator envolvente desse filme, no entanto, é que o clichê de um enredo simples e de maniqueísmo bastante acentuado contrapõe-se a uma construção/desconstrução do relacionamento amoroso que se estabelece entre Alicia e Devlin. Os personagens apaixonam-se e envolvem-se logo de cara, para, uma vez determinada a missão de ambos, distanciarem-se, pois o desempenho de Alicia depende do seu envolvimento com um dos mais influentes homens nazistas daquela época – o qual, inclusive, foi “amigo” de seu pai e já nutria interesse por ela.

Ao deixar no ar a dúvida – não se sabe se o ciúme e o amor de Devlin por Alicia vão permiti-lo socorrê-la em seu momento de maior necessidade – que põe em risco a missão, Hitchcock consegue armar sequências cinematográficas muitíssimo interessantes, com sucessões de cenas mudas que não apenas externam o medo e o desespero de Alicia, como também arrancam do espectador reações que apenas um bom filme consegue arrancar. Ponto para o mestre do suspense!

Notorious (Interlúdio)
1946
Produção: Alfred Hitchcock e Barbara Keon Roteiro: Ben Hecht, Alfred Hitchcock, Clifford Odets
102 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Projeto Hitchcock | Intriga Internacional (1959)

Neste último trabalho de Cary Grant com Alfred Hitchcock – o qual, em minha opinião, não supera a excelente sua atuação em Suspeita (1941) – o ator dá vida a Roger Thornhill, um publicitário executivo de Manhattan que é confundido com o Sr. Kaplan, um espião do governo. A partir daí, perseguido pela gangue de Phillip Vandamm (James Mason), Thornhill presencia um assassinato na ONU, envolve-se amorosamente com a contraespiã Eve Kendall (Eva Marie Saint) e acaba de fato bancando o agente secreto e colaborando com o governo, tendo o seu ápice em uma fantástica sequência de ação filmada no Monte Rushmore, aquele com os rostos de quatro presidentes dos Estados Unidos: George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln.

Intriga Internacional é um filme muito bem feito, em alguns momentos efetivamente eletrizante, mas me deixou com algumas dúvidas. Depois de assisti-lo, fiquei, por exemplo, pensando que me parece uma ponta solta o envolvimento de Thornhill em toda a conspiração, uma vez que fica muito claro que ninguém até então tinha visto o tal Sr. Kaplan e, ao investigar o quarto de hotel onde o suposto espião estava hospedado, Thornhill experimenta o terno recém-chegado da lavanderia do hotel e constata que a roupa é bem menor do que ele. Seu perseguidor, inclusive, ao vê-lo, surpreende-se com sua altura. Enfim, não encontrei uma ligação plausível para justificar o envolvimento do protagonista na tal “intriga internacional”.

A charmosa e sedutora Eve Kendall perde um pouco de seu mistério pelo fato de muito cedo já ter ficado claro para o espectador a existência de um membro infiltrado na quadrilha de Vandamm.

A meu ver, a tão famosa sequência na qual Roger Thornhill foge dos sucessivos ataques de um avião num campo de plantação de cana no meio do nada no interior, rumo a Chicago, se não me engano, foi totalmente incoerente. Primeiro, porque é óbvio que existe a possibilidade de matarem o protagonista, muito embora toda a encenação seja apenas para dar um susto no personagem de Cary Grant, que se refugia na plantação e conta com a ajuda de um caminhão para se livrar de seu perseguidor aéreo. Para mim, foi meio sem propósito tudo isso, pois acabou não contribuindo decisivamente para o filme. O valor da sequência é estético, cinematográfico, com tomadas sem trilha sonora (apenas o barulho do motor do avião se aproximando e se distanciando) que chegam a causar certa angústia, mas não tem peso no enredo.

Já a parte final, com a perseguição no Monte Rushmore, é o ponto alto do filme. Muito bem feita para os padrões da época, trata-se de um momento no qual Intriga Internacional realmente mexe com o espectador e oferece um “perigo real” a Thornhill e Eve – algo bem coerente com o ambiente de espionagem que se espera do filme.

Em última análise, essa produção do Mestre Hitchcock é tecnicamente muito boa, bem executada, mas apresenta enredo frágil, com “pontas soltas”, infelizmente. Vale pela ação e pelo ritmo bastante dinâmico da trama.

Intriga Internacional
1959
Roteiro: Ernest Lehman
136 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Projeto Hitchcock | O Homem que Sabia Demais (1956)

Eu resolvi esperar um pouco para escrever esta resenha, pelo fato de que assistir a esse filme provocou alguns sentimentos contraditórios em mim. Por exemplo: como uma trama tão bem dirigida pode apresentar tantos fatos improváveis no roteiro? De início, já posso dizer que as várias falhas no enredo tiram o brilho de O Homem que Sabia Demais.

Talvez o que mais tenha me decepcionado seja o fato de eu ter gostado tanto do casal protagonista, em contraponto a um mau aproveitamento de ambos, em decorrência de personagens pouco consistentes.

A produção de 1956 de O Homem que Sabia Demais é, na verdade, uma versão do original dirigido por Hitchcock em 1934. Eu não vi a primeira, logo, tenho apenas a segunda como parâmetro.

O caso é que, desde o início deste projeto, este foi um dos filmes sobre os quais eu ouvi mais coisas positivas. E confesso que isso acabou por aumentar o meu nível de exigência. O filme conta com alguns diferenciais, de fato, como a sequência no Albert Hall, já no fim do filme, em que o encadeamento de cenas consegue perfeitamente passar a angústia que Jo McKenna (a ótima Doris Day) está sentindo, mas, na “conta geral”, não me parece suficiente para superar a decepção.

O enredo do filme gira em torno da família composta pelo médico Ben McKenna (James Stewart), sua esposa Jo, uma cantora temporariamente afastada dos palcos para se dedicar à família, e seu filho, um garoto de uns 8 anos, em viagem pelo Marrocos. A estada da família, de apenas 3 dias, torna-se um pesadelo quando, em um mercado marroquino, eles presenciam o assassinato de um homem conhecido no dia anterior, na chegada da família. Na ocasião da morte, o homem misterioso confia a Ben um segredo tão valioso, que acarreta o sequestro do filho do casal, em troca das informações obtidas pelo médico (mais uma vez, aquela coisa toda de intrigas internacionais, assassinatos políticos e coisa e tal).

Contando dessa forma, o mote de O Homem que Sabia Demais parece bastante intrigante e promissor. E é. O problema, por exemplo, é a súbita transformação da personalidade esperta, desconfiada e ágil de Jo, que, após, o sequestro do filho, torna-se lenta, chorona e pouco astuta. Mesmo abalada pelo sumiço da criança, é de se notar a uma mudança tão drástica.

Em vez de se empenhar para auxiliar o marido, Jo acaba por se tornar um peso durante o processo, contribuindo muito menos do que poderia nesse processo. Vale ressaltar que, no início do filme, é Jo quem tudo observa, desconfia das pessoas misteriosas do Marrocos e faz comentários bastante inteligentes. Seu marido é confiado, pouco atento e sociável. A partir do momento em que a criança é sequestrada, as características básicas de Jo são subvertidas, o que contribui para tornar a construção de seu personagem fraca. Esta é uma das falhas que mais incomodam no roteiro de O Homem que Sabia Demais.

Outro ponto, não menos importante, que enfraquece o filme é grande quantidade de vezes que os sequestradores da criança McKenna têm a chance de matá-la e não o fazem por motivos muito pouco plausíveis. Isso faz com que, a partir de um determinado momento, o espectador já saiba que tudo vai acabar bem – desculpem o spoiler –, já que poderia ter dado errado há bastante tempo e isso não aconteceu.

Para compensar as falhas do roteiro, Hitchcock capricha em sequências memoráveis e também com a trilha sonora original da canção vencedora do Oscar e interpretada por Doris Day, Que sera, sera (Whatever Will be, Will be). Para mim, foi uma grande surpresa ver Doris Day estrelando um filme de Hitchcock – mesmo com todos os problemas desta produção cinematográfica –, pois eu cresci assistindo aos divertidos musicais dessa atriz. E um dos méritos do diretor inglês foi o de saber extrair, do talento de Doris, uma interpretação muito boa, ainda que seu personagem apresente uma série de inconsistências.

O Homem que Sabia Demais
1956
Roteiro: John Michael Hayes, baseado no livro de Charles Bennett e D.B. Wyndham-Lewis
Elenco: James Stewart (Ben McKenna); Doris Day (Jo McKenna); Daniel Gélin (Louis); Bernard Miles (Sr. Drayton), Brenda De Banzie (Sra. Drayton)
120 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Projeto Hitchcock | Agente Secreto (1936)

Dezembro é um mês muito corrido (muito mais do que o normal), o que me fez optar por um filme de curta duração para dar continuidade a este Projeto Hitchcock.

Desta vez, a escolha foi por Agente Secreto, de 1936, uma produção da fase inglesa da filmografia de Alfred Hitchcock.

A primeira observação curiosa que posso fazer sobre esse filme é justamente a de que ele não parece ter o “dedo” de Hitchcock. Agente Secreto é, antes de tudo, uma espécie de paródia – algumas vezes sem graça – sobre os espiões durante a Primeira Guerra Mundial. O grande problema desse filme parece ser a quantidade de incoerências no enredo – algo que, sem dúvida, põe tudo a perder.

Tudo começa quando uma missão de matar um agente alemão é confiada a três pessoas que, ao que tudo leva a crer, não têm experiência no serviço secreto. Uma delas é o soldado Ashenden (John Gielgud), a outra é a espirituosa Elsa (Madeleine Carroll) e, fechando o trio, o intrépido e nada discreto General (Peter Lorre).

Entre idas e vindas, começa a chatear o espectador os constantes erros cometidos durante a missão – Ashenden e General conseguem matar o homem errado, criando um conflito até que interessante com Elsa sobre abandonar ou não o seu objetivo –, alternando-os com situações que, a princípio, deveriam ser minimamente cômicas, mas infelizmente não causam esse efeito no público, conferindo ao filme um ritmo capenga.

Hitchcock tenta salvar a produção com uma sequência final estruturada com mais ação, mas que acaba sendo prejudicada pelo anticlímax – acho que qualquer espectador consegue descobrir, muito antes da hora, quem é o verdadeiro espião alemão que precisa ser assassinado.

Enfim, para um filme que tem “secreto” até no nome, não há muito que comemorar, pois o amadorismo da construção dos personagens protagonistas não só torna tudo uma história clichê, como também tira o glamour das produções de espionagem. Para o próprio Hitchcock, Agente Secreto deve ter sido um fardo em sua filmografia, uma vez que ele sucedeu ao ótimo Os 39 Degraus, também com temática de espionagem e já resenhado aqui.

Agente Secreto
1936
Roteiro: Charles Benett, Ian Hay, Alma Reville, Jesse Lasky Jr, baseado na peça de Campbell Dixon e W. Somerset Maugham
86 minutos
Reino Unido

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Projeto Hitchcock | Os Pássaros (1963)

Nem preciso falar da minha expectativa em torno desse filme, por ele ser, é claro, uma das maiores e mais famosas produções do mestre Hitchcock. E, após assisti-lo, é impossível não passar bastante tempo refletindo, pois sem dúvida, há muito a ser dito sobre ele.

Produzido logo após o estrondoso sucesso de Psicose, com Os Pássaros, Hitchcock tinha a missão de se superar em termos de crítica, público e também como cineasta. Não sei ainda se isso aconteceu, pois, apesar de já estar com Psicose em mãos, ainda não o assisti, pela vontade de, antes, ler o livro que inspirou esse filme. Entretanto, de acordo com a crítica especializada, Hitchcock conseguiu vencer o desafio com louvor. E tudo a partir da ideia central de um conto escrito pela inglesa Daphne du Maurier (1907-1989) em 1952. Hitchcock escolheu outros trabalhos dessa autora para o enredo de seus filmes, como Rebecca (1940), que ainda será resenhado neste blog e Marnie, Confissões de uma ladra (1964), sobre o qual já falei.

Concordo com o Bruno, do excelente blog Cine Análise, quando ele diz que Os Pássaros é uma história de pessoas, e não de animais (não humanos). Certamente. É também uma história do medo cuja causa é conhecida – em algumas passagens do filme, fica claro que o medo que atormenta as pessoas é um medo do conhecido (medo dos pássaros e de seus ataques) e, em alguns casos, o medo daquilo que não é visto pelas pessoas, mas é conhecido por elas. Isso acontece, por exemplo, quando se ouve o barulho dos pássaros, mas eles não aparecem efetivamente na cena. Seria algo mais ou menos no estilo de O Coração das Trevas, de Conrad. O terror é velado, por isso é tão genial. A sutileza de Hitchcock, em várias de suas obras-primas reside, a meu ver, justamente no fato de que ele não precisa ser apelativo para inspirar as mais diversas sensações no espectador. Ele é engenhoso demais para se render a artifícios cinematográficos óbvios, daí a alta qualidade de seu trabalho. Contudo, acho muito importante estabelecer essa diferença entre o medo do desconhecido e o medo daquilo que se conhece, mas, em alguns momentos, não se vê. São coisas bem distintas uma da outra.

Em Os Pássaros, o enredo é, aparentemente, muito simples. A socialite Melanie Daniels (a então estreante Tippi Hedren) conhece o advogado Mitch Brenner (Rod Taylor) em uma loja de aves em San Francisco. Neste primeiro encontro, estabelece-se uma tensão emocional entre ambos, que motiva a ida de Melanie até a casa da família de Mitch, em Bodega Bay, Califórnia. De quebra, constitui-se o fio simbólico que vai mediar a relação de Melanie e Mitch durante todo o filme: os pássaros. Em Bodega Bay, estranhos casos de ataques de aves a pessoas começam a ser notados após a chegada de Melanie, que leva um casal de pássaros de presente de aniversário para a irmã de Mitch.

Abrilhantam a qualidade do filme, a atuação obscura e até misteriosa de Lydia (a ótima Jessica Tandy), a possessiva mãe de Mitch e a presença marcante de Suzanne Pleshette como Anne Hayworth, professora e ex-namorada do protagonista. Eu cheguei até a cogitar se não teria sido mais interessante trocar os papéis entre as atrizes, com Pleshette como a protagonista Melanie e Hedren como Anne. No entanto, creio ter falado mais alto a predileção de Hitchcock pelas loiras, além do fato de que, no fim do filme, fica claro que Melanie tinha uma sensibilidade intrínseca, até uma certa fragilidade, que Tippi Hedren conseguiu imprimir muito bem ao papel, e que talvez Suzanne Pleshette não o fizesse com tanta eficiência, justamente por ter um magnetismo muito forte.

Embora Rod Taylor não tenha me agradado muito como parceiro da protagonista – acho que estou me viciando em James Stewart e Cary Grant nos papéis principais –, reconheço que ele se saiu bem nas sequências de ação de Os Pássaros. O que não me convenceu muito foi a “pinta” de garanhão que o papel de Mitch Ros exigia. Enfim.

Uma coisa que me ocorreu, em relação à trama de Os Pássaros, além dos muitos pontos já falados e discutidos pela crítica – como a inversão dos papéis da cadeia alimentar, com humanos “engaiolados”, procurando se proteger dos ataques das aves como suas predadoras, a consolidação de uma outra conotação de medo, diferente daquela causada no espectador por Psicose, por exemplo, as técnicas cinematográficas, que foram tão importantes para a execução e o sucesso do filme – foi a ideia de “castigo divino” e até de alguma espécie de “maldição”. Castigo divino, no que se refere ao troco do tratamento precário imposto pela humanidade às outras espécies vivas, e maldição, ou estigma, do personagem de Melanie, pois, apesar de nada ficar muito claro para quem assiste ao filme, “a rebelião” das aves contra as pessoas começa quando a socialite chega a Bodega Bay.

Vale lembrar também que, na sequência final, quando Mitch abre a porta de casa para levar Melanie ao hospital – desculpem os spoilers! –, o advogado vê uma quantidade assustadora de pássaros espalhados até onde é possível enxergar e, surpreendentemente, as aves não se voltam contra ele. Percebendo que Melanie está sendo levada embora dali, elas simplesmente assistem à cena sem investir contra Mitch, que carrega a moça nos braços, sua mãe e sua irmã. É como se tivessem conseguido alcançar o seu objetivo: tirar Melanie da cidade.

Tudo isso são conjecturas, é claro. A trama de Os Pássaros tem um fim até, como eu poderia dizer, excessivamente simples para ser assistido nos dias de hoje, quando os blockbusters hollywoodianos apresentam desfechos tão faraônicos. Contudo, parece-me que é nas indagações deixadas para os espectadores que reside a força não apenas do filme em si, mas do efeito causado pela exibição desta obra-prima de Hitchcock.

É simplista dizer que essa produção merece ser assistida por causa da perfeição dos ataques dos pássaros – o que não deixa de ter o seu valor cinematográfico, que fique bem claro. No entanto, é na conduta e nas justificativas dos personagens diante da rebelião das aves que, a meu ver, reside a principal chave de interpretação para o sentido do filme e para as discussões que ele propõe. Não são as respostas; são as perguntas.

Os Pássaros
1963
Roteiro: Evan Hunter, baseado no conto de Daphne Du Maurier
119 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Projeto Hitchcock | Suspeita (1941)

Preciso confessar que este filme não é do tipo que empolga, mas ele tem outra virtude que talvez seja até mais compensadora do que exatamente causar aquele frenesi no espectador: é daquele tipo que você termina de assistir e é capaz de ficar horas e horas remoendo cenas, falas, e refletindo sobre o que parecia ser, sem ter a plena certeza do que é de fato. Confuso? Bem, trata-se de uma obra aberta no melhor sentido da expressão.

Em Suspeita, o ótimo Cary Grant interpreta Johnnie Aysgarth, um completo bon vivant: boa pinta, de papo envolvente, jovial, olhar sedutor, mas nenhum centavo no bolso. Tudo seria completamente clichê, se sobre Aysgarth não pairasse a suspeita de que ele seria capaz de matar para viver uma vida de luxos fáceis. Afinal, bon vivant, ou assassino?

Este é o mote do filme. Bem simplista, contado dessa forma. O caso é que tudo o que mestre Hitchcock põe a mão ganha uma pitada de mágica e com este filme não é diferente.

A escolha de Joan Fontaine (que, um ano antes, protagonizou Rebecca, também dirigida por Hitchcock) para viver o par romântico de Grant não poderia ter sido mais bem-feita. Ela tinha uma fragilidade no olhar que Grace Kelly ou Tippi Hedren (outras musas constantes de Hitchcock) não seriam capazes de reproduzir. Joan foi a escolha perfeita para viver a rica Lina McLaidlaw, uma solteirona que se torna uma esposa apaixonada e, na mesma proporção, amedrontada, à medida que vai juntando peças sobre o caráter dúbio do marido.

O que achei bem interessante no filme foi a questão dos ícones, dos índices sugestivos deixados pelo diretor ao longo da trama. Logo na volta da lua de mel, quando Johnnie não hesita em vender o par de tradicionais cadeiras de madeira nobre que o pai de Lina envia como presente de casamento, fica clara a ideia de que o protagonista é capaz de passar por cima de um símbolo de sua união com Lina para garantir seus prazeres, como pagar suas dívidas de jogo para continuar a apostar em cavalos, por exemplo. O fato de o presente ser um par de cadeiras fortes, trabalhadas, presentes há várias gerações na família de Lina é sugestivo de que o pai da moça anseia que a união de ambos seja duradoura; a atitude de Johnnie, por outro lado, põe tudo a perder e mostra quão frágil era a relação de ambos. Contudo, mais tarde, quando o personagem de Grant usa o dinheiro roubado da empresa do capitão Melbeck para reaver as cadeiras no antiquário, há uma sutil esperança de que Lina pode fazer com que Johnnie mude, por mais difícil que isso possa parecer.

A meu ver, apesar de não se tratar de um momento de ação do filme – como a sequência final, do carro em alta velocidade nas curvas sinuosas do caminho para a casa da mãe de Lina – o ápice de Suspeita é um momento que também gira em torno de um índice mais do que sugestivo: um copo de leite.

Após um jantar sinistro, no qual o principal assunto foi um debate acalorado sobre venenos, Hitchcock prepara uma sequência de planos bastante escura, na qual Johnnie sobe lentamente as escadas de sua mansão levando uma pequena bandeja com um copo de leite para Lina, que já se encontra muito fragilizada e altamente desconfiada das intenções assassinas de seu marido. Esta parte do filme é simplesmente excelente, não apenas por criar uma angústia terrível em relação à Lina, como também pela plasticidade da cena – li no blog Degustando Hitchcock que o diretor pôs uma lâmpada dentro do copo, para ressaltá-lo na escuridão. Engenhoso!

A possibilidade de Johnnie ter matado seu melhor amigo, o alegre e abobalhado Beaky (Nigel Bruce) é o fato que passa a, definitivamente, aterrorizar Lina em relação a Johnnie. O mais notável disso tudo é que não é a morte em si de Beaky que a assusta, mas sim a frieza por trás daquela morte, indicando que, possivelmente, não haja formas de conter seu marido. Conjecturas.

O mais interessante do filme não é o que é dito, mas exatamente aquilo que é “sugerido”. O diálogo final de Johnnie com sua esposa não é nada brilhante, mas a dúvida que continua a pairar sobre ele (mesmo depois do que ele diz) é o toque magistral de Suspeita. Em outros blogs, li que esta foi uma das produções de Hitchcock na qual o estúdio determinou uma mudança no roteiro, em função, inclusive, das reações do público das prévias. Enfim, ainda que isso tenha acontecido, por meio da fala final de Johnnie, eu confesso que não fiquei convencida (esta é a mágica de Hitchcock), por isso creio que o título do filme não poderia ter sido mais bem escolhido.

Suspeita
1941
Roteiro: Samson Raphaelson, Joan Harrison e Alma Reville, baseado no romance Before the fact, de Anthony Berkeley
99 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.