Arquivo da categoria: Marmota refletindo…

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Série | The Good Place

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Preciso fazer um rápido comentário sobre a primeira temporada dessa série produzida originalmente pela Netflix e exibida pela emissora norte-americana NBC.

Trama surpreendente, episódios breves, pitadas de humor inteligente e situações criativas, protagonizadas por personagens bem construídos. Essa é a fórmula bem-sucedida de The Good Place, cujo enredo gira em torno de Eleanor Shellstrop (Kristen Bell, de Veronica Mars), uma “fraude”, um “erro de cálculo” na classificação das almas boas que, após a morte, são levadas a habitar o lugar bom, uma versão do paraíso montada pelo “arquiteto” Michael (o ótimo Ted Danson, da franquia Três Solteirões e um Bebê).

Personagens 

As aventuras de Eleanor são compartilhadas por sua “alma gêmea”, Chidi Anagonye (William Jackson Harper), o que torna tudo muito interessante, porque, se Eleanor foi, em vida, a espertinha sem muitas noções de honestidade, seu contraponto é uma alma gêmea que, em vida, era um professor de filosofia moral. O contraste entre ambos é um dos maiores acertos da série, com Chidi e sua importante missão de tentar “recuperar moralmente” a alma de Eleanor.

O núcleo de protagonistas é ainda integrado pela ex-filantropa Tahani Al-Jamil (Jameela Jamil) e o monge Jianyiu (Manny Jacinto), outro inusitado casal de almas gêmeas. Ou seja, Eleanor é a estranha no ninho. O ápice dessa diferença se dá com a descoberta de uma outra Eleanor, exemplo de boa conduta em vida, mas que, depois de morta, foi levada por engano ao “lugar ruim”. Uma troca infeliz, que, aparentemente, custaria um alto preço para os dois lados.

O roteiro muito bem elaborado e cheio de referências (sem dúvida, Chidi bancando o Cyrano de Bergerac com Tahani é um dos momentos mais bacanas da série) consegue estabelecer uma trama mais promissora a cada episódio, culminando com um final de temporada digno de uma série já consolidada por público e crítica. Fiquei com uma ótima impressão de The Good Place e bastante curiosa para ver como a equipe da série pretende manter o ótimo nível desta primeira temporada.

The Good Place – Primeira temporada
Criação: Michael Schur
Ano: 2016
País: EUA
Gênero: Ação/Crime/Drama
Duração: 13 episódios (cada um com média de 22 minutos de duração)

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Leitura | Quem matou Roland Barthes?

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Roland Barthes, brilhante filósofo, sociólogo, semiólogo etc.

Preciso, ainda que brevemente, fazer um registro da leitura desse excelente livro. Confesso até que me senti constrangida durante sua leitura. Primeiro, porque, mesmo tendo lido algumas sinopses sobre ele previamente, eu o subestimei. Segundo, porque se trata de um livro que vai muito além de uma mera trama policial.

O que me chamou a atenção foi o insight do jovem autor francês Laurent Binet de transformar personalidades reais em protagonistas de um romance. O nome de Roland Barthes na capa já me motivou à leitura. E saber que teóricos como Julia Kristeva, Michel Foucault, Roman Jakobson, Jacques Derrida, Umberto Eco, entre tantos outros estudiosos com os quais me deparei em meus estudos de pós-graduação e mestrado, faziam parte do enredo me deixou ainda mais intrigada.

Binet encarou o desafio com muita competência. Com seu livro, fez não apenas uma homenagem à história recente da França – questões sociais e políticas permeiam toda a história, e dados reais sustentam a trama de Binet –, mas também soube abordar (até onde me compete dizer) tópicos da Linguística e transformá-los em substrato consistente de seu livro.

A história

O ponto de partida do romance de Binet se dá com um fato real: o atropelamento que viria a ser a causa da morte de Roland Barthes (1915-1980). O motivo: a possível existência de uma sétima função da linguagem, a qual estaria em posse de Barthes naquele momento – aí Binet começa a escrever a ficção em cima da realidade.

A suposta sétima função seria a mais poderosa de todas e estaria diretamente relacionada à arte da retórica – o Clube Logos, um dos pontos fortes do livro, responsável por sequências memoráveis da história, também foi uma grande homenagem a Aristóteles – e daria ao seu detentor possibilidades inimagináveis. Aí Binet confere à arte do discurso o status de maior arma de todas, e não apenas na esfera política.

A trama do livro viaja entre países – França, Itália, Estados Unidos – e mostra, de forma até um tanto satírica, a elite da intelectualidade mundial daquela época (início dos anos de 1980). A prosa de Binet é rica em referências, e a leitura do livro me motivou a buscar novamente, entre as minhas coisas, reportagens, livros de Roland Barthes, entrevistas de Julia Kristeva, minhas anotações sobre Linguística, bem como os livros de Aristóteles e de Umberto Eco. Seria possível passar meses e meses debruçando-se sobre seu tema. Trata-se de um livro publicado no centenário de nascimento de Barthes (ótimo tributo) e que não se esgota em si mesmo, mas estimula o leitor à pesquisa sobre vários pontos de sua trama.

Quem matou Roland Barthes?
Laurent Binet
Companhia das Letras
Tradução de Rosa Freire d’Aguiar
2016
416 páginas

Breves comentários – Agatha Christie: O mistério de Sittaford

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Esse livro chamou minha atenção desde que li a sinopse e soube que, desta vez, a Dama do Crime usaria de “expedientes esotéricos” em seu enredo.
O que a tradução chamou de “mesa girante”, mas que também encontra equivalentes na “brincadeira do copo” e na “tábua dos espíritos”, por exemplo, foi o ponto de partida para o assassinato a partir do qual se desenvolve toda a trama. Um chamariz até interessante, porém não mais do que isso.
Personagens muito interessantes, como a intrépida Emily Trefusis (que me lembrou a Budle de “O segredo de Chimneys” e “O mistério dos sete relógios”), a Sra. Percehouse e o ambicioso jornalista Charles Enderby contribuem para deixar a história mais dinâmica, muito embora a leitura tenha me deixado a impressão de que, neste livro, Agatha Christie só precisou rechear a história de informações e confundir o leitor para a ideia dar certo.
Dessa vez, a motivação me pareceu fraca, e a argumentação não sustentou muito bem a história. Na verdade, tive a impressão de que Emily Trefusis se tornou maior do que a trama em si (o inspetor Narracott desaparece completamente diante da astúcia da moça), o que talvez até justificasse o aproveitamento da personagem em outras histórias, assim como ocorreu com Budle. Infelizmente, parece que Agatha Christie não levou essa ideia adiante, e Emily ficou apenas nas páginas do enredo de Sittaford.

Livro & Filme | A Delicadeza

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É sempre polêmico falar de obras adaptadas da literatura para o cinema. Pessoalmente, sempre me posiciono a favor desse tipo de transposição, porque esse processo não apenas estimula o interesse pela produção original, como também permite uma nova interpretação (uma ressignificação) da obra.

No caso de livros que, em sua essência, já são muito bons (este é o caso aqui), é ainda mais complicado aceitar o desafio de transformá-lo em filme. O escritor francês David Foenkinos aceitou correr esse risco, roteirizando e dirigindo o filme inspirado diretamente no romance de sua autoria.

Apesar de esses breves comentários não terem como objetivo a comparação estrita entre livro e filme – sabe-se que as linguagens têm as suas peculiaridades –, não posso deixar de observar que o ponto mais forte do livro é justamente a linguagem literária que o autor não consegue, como roteirista e diretor, imprimir ao filme, mesmo com as singelas e equilibradas interpretações de Audrey Tautou e François Damiens como o casal protagonista Nathalie e Markus.

História

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O enredo é simples: após uma viuvez prematura, a jovem e competente economista Nathalie precisa retomar sua vida e superar o vazio deixado por um casamento feliz. A delicadeza preconizada no título da história é o combustível do romance: está em uma grande quantidade de detalhes com os quais Foenkinos constrói a transição entre um amor interrompido bruscamente e a aparição de um novo sentimento a partir de um ato completamente despido de premeditação por parte de Nathalie.

É curioso observar como o recurso visual acaba minando a magia que a leitura impulsiona por meio de detalhes, verdadeiros toques de sensibilidade que constituem todo o diferencial do livro. Coisas como o assunto da notícia de jornal que Markus estava lendo quando Nathalie chega ao café para encontrá-lo, ou o resultado da rodada do campeonato francês de futebol na noite em que Nathalie recusa a investida amorosa de Charles, o diretor da empresa na qual trabalha, são suprimidos pelo Foenkinos roteirista e diretor, ou seja, perdem-se no fluxo de imagens que tornam simplista a autenticidade do Foenkinos escritor nas páginas de seu livro.

Por outro lado, a tentativa de contar, em menos de duas horas, uma história que não é óbvia e que é recheada de nuances e sutilezas – o leitor/expectador partilha com Nathalie de sua confusão sentimental e descobre junto a ela seus novos objetivos de vida –, faz do filme uma adaptação que, a seu modo, também tem a sua beleza e, é claro, o seu valor.

Mesmo com as limitações do cinema enquanto estimulador da criatividade da obra adaptada, a experiência de ver um romance como A Delicadeza em forma de filme (com o título também mais óbvio de A Delicadeza do Amor) é válida, porque seu resultado no cinema é um esforço intenso de veiculá-lo ao livro que o originou. E, para aqueles que gostaram da história, a oportunidade de vê-la em diferentes linguagens artísticas é enriquecedor. Talvez Foenkinos tenha pensado nessa possibilidade, quando levou seu livro para as telas do cinema. É muito mais produtivo pensar nos dois resultados (livro e filme) como complementares, do que compará-los buscando a superioridade de um sobre o outro.

A Delicadeza (livro)
David Foenkinos
Tradução de Bernardo Ajzenberg
Rocco
2011 – 191 páginas

A Delicadeza do Amor (filme)
Direção: David Foenkinos e Stéphane Foenkinos
Roteiro: David Foenkinos, baseado em seu próprio romance
Ano: 2012
País: França
Gênero: Romance
Duração: 104 minutos
Elenco:  Audrey TautouFrançois DamiensBruno Todeschini, Mélanie Bernier, Joséphine de Meaux, Pio Marmai

Leitura | Big Loira e outras histórias de Nova York

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Há tempos Dorothy Parker (1893-1967) aguardava a sua vez em minha estante. Pacientemente, ela ficou lá durante anos. Diga-se de passagem, apenas eu perdi com isso, porque demorei mais a ter contato com uma prosa inteligente, irônica e espirituosa. Os contos reunidos neste volume, selecionados e traduzidos por Ruy Castro, são pequenos recortes de momentos de uma sociedade às vezes vazia, às vezes densa, às vezes cômica, se não fosse trágica.

Foi uma amiga que conheci na época da pós-graduação que me apresentou o nome de Dorothy, dizendo mil maravilhas sobre seus contos. Na hora, anotei a dica. Anos depois, encontrei Big Loira e outras histórias de Nova York em excelente estado no sebo da USP.

Estrutura

O livro é composto pelos contos:

– A Valsa;
– Arranjo em preto e branco;
– Os sexos;
– Você estava ótimo;
– O padrão de vida;
– Um telefonema;
– Primo Larry;
– E aqui estamos;
– Diário de uma dondoca de Nova York;
– Big Loira;
– O último chá;
– Nova York chamando Detroit;
– Só mais uma;
– A visita da verdade;
– De noite, na cama;
– Em função das visitas;
– As brumas antes dos fogos;
– Coração em creme;
– Soldados da República;
– Que pena.

No ótimo prefácio de Ruy Castro, um panorama da Nova York do tempo de Dorothy e detalhes sobre a personalidade da autora servem para contextualizar e preparar o leitor para os contos que vêm a seguir. Em suas reflexões, Castro exagera, posicionando Dorothy acima de Virginia Woolf e de Gertrude Stein. Não me parece uma questão de pôr alguém em cima de alguém em termos literários, mas, apesar de ainda não ter lido Gertrude Stein, alguns contos de Dorothy me remeteram, na verdade, a Katherine Mansfield. Comparações à parte, o leitor nada perde em beber em cada uma dessas ótimas fontes.

Os contos

Sem dúvida, muito antes de ler o livro, eu já conhecia de nome e já tinha ouvido muitos comentários sobre “A Valsa”, o conto que abre o volume e que, pela opinião geral, é o melhor de Dorothy. Trata-se de um ótimo texto, totalmente irônico, contado durante o espaço de uma dança em uma festa, mas, a meu ver, não é o melhor do livro. Cheguei a pensar se todas as pessoas que consideram “A Valsa” o melhor de Dorothy Parker pararam a leitura do livro no primeiro conto. Fato é que, para mim, os verdadeiros momentos altos da prosa da autora estão mais para o meio do volume, com a densidade de “Big Loira”, a crítica familiar de “A visita da verdade” e os simplesmente excelentes “Soldados da República”, resultado da viagem de Dorothy à Espanha, em 1938, para apoiar os republicanos durante a Guerra Civil Espanhola, e “Que pena”, texto no qual a autora mostra toda a sua sensibilidade para contar, de forma singela, a história da dissolução de um casamento morno.

Dorothy Parker foi uma exímia retratista social de seu tempo e, apesar de alguns de seus textos reunidos neste livro me causarem a sensação de repetição de assunto, ou de recorte narrativo, todo leitor que gosta de contos não pode deixar de conhecer o seu trabalho.

Big Loira e outras histórias de Nova York
Dorothy Parker
Tradução de Ruy Castro

Companhia das Letras
1987
227 páginas

Leitura | A mulher que escreveu a Bíblia

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Primeiro ponto: o título desse livro me fisgou. Definitivamente, me deixou motivada para a leitura. Quem gosta de ler sabe que alguns títulos têm esse poder.

A segunda coisa que me agradou bastante foi a narração em primeira pessoa, feita pela protagonista da história: uma mulher inteligente, espirituosa e… feia. Este último detalhe até poderia ser algo negativo, se essa protagonista não soubesse usar todos os seus pontos fortes a seu favor. Seu poder não vem de sua aparência (e nem poderia!) – como ocorre com muitas belas mulheres que, favorecidas fisicamente, esquecem-se de que astúcia e inteligência são fundamentais – onde está Vinícius de Moraes numa hora dessas?

O caso é que a premissa do livro é, pode-se dizer, revolucionária, do ponto de vista religioso/social: uma mulher teria escrito o Velho Testamento – em razão da falta de capacidade de um grupo de selecionados escribas –, determinando, inclusive, como ocorreu o Gênesis (tudo isso em um jogo cronológico que mescla presente e passado).

Além disso, a trama apresenta traços marcantes do pós-modernismo, como a narrativa fragmentada, a posição da mulher como protagonista, a subversão conceitual de um clássico (a Bíblia), enfim, fatores que não apenas contribuem para a renovação de uma obra tradicional, como também executam um papel importante na releitura oferecida pelo autor.

A mulher na perspectiva masculina

Mais uma vez – isso também me ocorreu quando li Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos (resenhado aqui), o narrador em primeira pessoa precisa ultrapassar o lugar social do autor para dar veracidade à história.

Se, em seu livro, Villalobos construiu um narrador que era uma criança, o desafio de Moacyr Scliar foi o de constituir um narrador-personagem feminino e repleto de peculiaridades do universo das mulheres. E ele foi bem-sucedido nesse processo. Este é apenas um dos aspectos interessantes da história…

Problematizando os profetas

O livro tem várias ótimas passagens, e uma das melhores delas refere-se ao momento em que a protagonista (que não tem nome para nós, leitores – outro aspecto pós-moderno) problematiza o ato de profetizar e, por consequência, o papel dos profetas. E se dá conta de que não apenas é capaz de fazer isso, como também já o está fazendo, vendo e registrando momentos cruciais da crença religiosa ocidental. Simplesmente brilhante.

Como os profetas, eu estava vendo, com meridiana clareza, o que aconteceria daí em diante, não nos meses ou anos seguintes, mas nos séculos seguintes; um relato que poderia dar origem a muitos livros (e eu até imaginava um nome para esses livros, um nome grego, porque grego seria uma língua importante: Bíblia). Animada por uma força misteriosa minha mão escrevia, escrevia febrilmente.” (pág. 159)

São muitas e delicadas as questões as quais o autor não se furta a discutir. A mulher que escreveu a Bíblia é um livro reflexivo e muito rico no que se refere a questões sobre gênero, classe, religião (é claro!) e poder. Sua protagonista, inclusive, mostra/prova que o poder está diretamente relacionado ao conhecimento – ela é feia, mas domina a escrita e a leitura, o que a torna diferente de todas as outras mulheres. A mensagem passada por meio dela transcende a beleza física e se consolida na mensagem das palavras.

A mulher que escreveu a Bíblia
Moacyr Scliar
Coleção Folha Literatura Ibero-Americana – Volume 15
2012
176 páginas

Série | Tokyo Diner, Midnight Stories

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Uma pequena nota sobre esse seriado tão singelo. A concepção de Tokyo Stories… me lembrou demais a ideia do mangá Gourmet (já resenhado aqui), de Jiro Taniguchi & Masayuki Qusumi. E me trouxe ainda mais lembranças dos anos em que trabalhei em um jornal para a comunidade japonesa no Brasil. Toda semana, publicávamos uma receita de culinária asiática no suplemento de variedades (no qual eu trabalhava). Ou seja, muita memória afetiva e profissional envolvida.

A ideia dos episódios é simples: o pequeno restaurante do “Mestre” – forma pela qual o protagonista é referido pelos frequentadores – é o ponto de partida para as mais diversas histórias que, em episódios de menos de 30 minutos cada, contam um pouco da vida de seus clientes. O Tokyo Dinner funciona da meia-noite às 6 da manhã e, apesar de ser um estabelecimento trivial para os padrões da culinária japonesa, tem público fiel.

O segredo da série, aliás, está na simplicidade, nas histórias do dia a dia de uma sociedade asiática tipicamente moderna, com suas peculiaridades e seu interessante hábito de relacionar o ritual da alimentação do prato favorito a um grupo de memórias afetivas que confere à série um grupo de episódios com histórias bastante interessantes. A comida favorita é o fio condutor de capítulos importantes de cada personagem que dá o tom de cada episódio de Tokyo Diner – Midnight Stories.

Relação dos episódios:

lamen;
corn dog;
tonteki;
omuraisu;
tamago;
umeboshi e vinho de ameixa;
fondue chinês;
– batata-doce refogada;
– presunto empanado;
– macarrão de ano-novo.

Para quem quiser entender mais sobre no que consiste cada prato listado acima, recomendo pesquisa no site do jornal ontem eu trabalhei, o Nippobrasil, que conta com uma seção bem legal sobre culinária oriental.

Trata-se de uma ótima série para encerrar um dia atribulado, com uma pegada sensível e que cria com o espectador uma relação que o faz aguardar, com o grau ideal de ansiedade e espera, as próximas temporadas.

Tokyo Diner, Midnight Stories/Shinya Shokudo
Criação: Yaroo Abe
Ano: 2009
País: Japão/EUA
Gênero: Drama
Duração – Temporada 1: 10 episódios (cada um com duração de 25 minutos em média)

Leituras | Balanço de 2016

Primeiro post de 2017 e é hora de comentar as leituras do ano anterior. Em janeiro do ano passado, publiquei uma pequena lista de livros como meta para 2016 (que pode ser consultada neste link). Entretanto, apesar dos 58 livros lidos nos últimos doze meses, essa lista não foi totalmente contemplada. Isso porque li títulos emprestados e também outros que fazem parte de projetos deste blog, como a bibliografia policial de Agatha Christie, as aventuras de Maigret e a série Discworld, por exemplo.

Também em 2016 foi tempo de consolidar o projeto de releitura de obras infantojuvenis que fizeram parte do meu desenvolvimento como leitora. Fazem parte desse projeto os títulos da Série Vaga-Lume, dos quais todas as aventuras dos detetives Léo, Ângela e Gino foram resenhadas. Terminando a saga dos jovens detetives de Marcos Rey, comecei as acompanhar novamente as aventuras dos Irmãos Encrenca, Marco, Eloís e Isabel, criados por Stella Carr (aventuras que ainda estão em andamento aqui no blog) e continuo resenhando títulos da Série Vaga-Lume.

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As quatro aventuras dos detetives de Marcos Rey resenhadas em 2016. Crédito da foto: Blog Estação com Cor

Durante o ano passado, também fiz leituras de obras recomendadas pela Tag Experiências Literárias – aliás, fazer parte de um clube de assinatura de livros é algo pelo que toda pessoa fascinada por livros precisa passar. E vieram da Tag algumas das melhores leituras que fiz em 2016. Tenho uma categoria para a Tag aqui no blog, para consultas em caso de interesse.

Da lista inicial proposta no início de 2016, foram lidos os seguintes títulos:

Se vivêssemos em um lugar normal (Juan Pablo Villalobos) (comentado aqui);

Um teto todo seu (Virginia Woolf);

Convergente (Verônica Roth);

Coisas Frágeis 2 (Neil Gaiman);

O chinês americano (Gene Luen Yang) (comentado aqui);

Lavoura arcaica (Raduan Nassar) (comentado aqui);

O falcão maltês (Dashiell Hammett) (comentado aqui);

Contos de amor, loucura e morte (Horacio Quiroga);

Quatro (Verônica Roth).

Infelizmente, não cheguei a fazer resenhas sobre todos eles aqui no blog – a falta de organização não me permitiu. Mas perdoem, porque vou falar brevemente sobre algumas delas agora.

Contos

Em 2016, li apenas três livros de contos: Doze contos peregrinos (Gabriel García-Marquez), recomendado pela Tag; Coisas Frágeis 2 (Neil Gaiman) e Contos de amor, loucura e morte (Horacio Quiroga), esses dois últimos presentes na minha meta inicial para o ano.

Dos três livros, o que menos me marcou foi o de mestre Gaiman, infelizmente. Coisas Frágeis 1 é realmente superior ao seu sucessor e preciso admitir que fui realmente envolvida pelos contos de García-Marquez e do uruguaio Quiroga. Há, de fato, algumas narrativas excelentes nesses dois livros.

HQs

No ano de 2016, voltei a acompanhar um pouco do universo das histórias em quadrinhos. Li várias coisas interessantes em revistas mensais do Mickey (trabalhos da Disney italiana) e novidades da Marvel, Vertido e DC.

No âmbito das graphic novels, três destaques: O chinês americano (Gene Luen Yang); Bordados (Marjane Satrapi) e Batman Noël (Lee Bermejo).

Sobre Bordados, embora eu tenha lido várias resenhas não tão positivas sobre esse trabalho quanto as que li sobre Persépolis (também comentado aqui), reconheço nessa singela história um trabalho menos pretensioso e não tão elaborado quanto a obra-prima de Marjane, mas muito interessante, principalmente no que se refere à importante tarefa de falar sobre o papel da mulher no Oriente Médio.

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Já o Batman Noël de Lee Bermejo é uma releitura poderosa de Um conto de Natal, de Charles Dickens. Um respiro criativo no ambiente massivo das histórias em quadrinhos, utilizando-se de uma fonte clássica da literatura e com um visual simplesmente espetacular, ainda mais valorizado pelo trabalho da colorista italiana Barbara Ciardo.

Pretendo incluir os livros não lidos da lista de 2016 – sete títulos – na programação de leitura de 2017. Por precaução, provavelmente não vou elaborar uma nova lista, mas devo prosseguir com todos os projetos do blog e conciliar, sempre que possível, as leituras dos livros emprestados.

Dois pontos positivos das leituras de 2016 foi a diversidade de assuntos que consegui contemplar (mas isso ainda pode ser melhorado) e também a periodicidade – pela primeira vez, em mais de oito anos de blog, consegui, ao longo de um ano inteiro, postar um texto por semana, algo que também pretendo manter em 2017.

Leitura | Lavoura arcaica

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Uma leitura fulminante. Rápida e intensa. Uma escrita esteticamente muito bonita, mas que vai se deteriorando, à medida que evolui a derrocada do protagonista. Um percurso denso e sofrido. Em síntese, essas foram as principais impressões que a leitura de Lavoura arcaica me causou.

Sem dúvida, há um primor de técnica literária na escrita de Raduan Nassar que dialoga com a elegância do texto de Milton Hatoum. Durante a leitura, percebi esse diálogo, porque ambos os autores apresentam uma estética narrativa muito forte, que varia de acordo com a trajetória de seus protagonistas, além de um refinamento literário muito grande.

A experiência da leitura de Lavoura arcaica é algo indispensável ao leitor que deseja ser desafiado pela literatura. Isso porque Raduan Nassar não escreve para agradar alguém – talvez nem a si mesmo. Seu texto não busca cativar, muito embora o sentimento de admiração pela sua técnica seja praticamente inevitável.

Estrutura

O livro é dividido em duas partes: “A partida” e “O retorno”. Na primeira, mais densa em termos literários, a leitura é mais desafiadora, dominada quase que totalmente por um fluxo consciente/inconsciente do protagonista, alternando momentos de lucidez com estados dominados por suas crises epiléticas – sua doença, a epilepsia, é referenciada por ele como “a peste” – seria uma acepção religiosa?

Há várias menções ao texto bíblico no decorrer de todo o livro, inclusive desde a escolha dos nomes dos personagens – os irmãos, que se chamam Pedro e André, assim como os apóstolos –, até citações de salmos e outras passagens do Livro Sagrado.

A segunda parte do livro, chamada “O retorno”, é uma retomada cujo objetivo é preencher a lacuna de significação da primeira parte, completando a coerência do enredo.

Nessa parte do livro, há mais diálogos, e o ponto forte é a retomada e a continuação da festa que a família celebra pela volta de André, momento no qual toda a técnica do autor se faz presente, com um fim impactante, de certa forma surpreendente, com frases dispostas ao estilo da literatura concreta, e uma carga de significado digna de uma obra-prima!

Lavoura arcaica
Raduan Nassar
Companhia das Letras
2002
196 páginas

Galeria | As Senhoritas de Avignon

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Esse quadro, obra-prima de Pablo Picasso, é algo de revolucionário. Marco da vanguarda cubista e da pintura abstrata, As Senhoritas de Avignon proporciona momentos de extremo interesse no processo de fruição de um grande quadro.

Para mim, o que chama a atenção nesse quadro é a maneira extraordinária pela qual o pintor consegue mesclar os corpos das mulheres com o fundo. O resultado disso é a formação de imagens geométricas que caracterizam o Cubismo, daí a importância desse trabalho de Picasso. As mulheres têm traços abrutalhados, uma delas, inclusive, usa uma máscara do tipo africana, e insinuam-se abertamente ao espectador. Elas o olham de diferentes ângulos, mas, aparentemente, com igual interesse.

Trata-se de uma releitura da realidade. Em exposição recente, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, uma frase sobre a fase cubista de Picasso destacou-se para mim. Ela dizia algo como: “O artista tem em mente representar as coisas não como elas se apresentam ao olho, mas como elas se mostram ao intelecto”. Para mim, ela define de maneira bastante eficiente essa interpretação extremamente irregular da realidade, que se consolidou como um dos quadros mais importantes do século XX.

Curiosidade: alguns textos sobre essa obra explicam que, para elaborá-la, Picasso baseou-se em cinco moças que trabalhavam em um bordel da Rua Avignon, em Barcelona.

Infelizmente, sei menos sobre artes plásticas do que eu gostaria, mas esse quadro de Picasso me remete a Cinco Moças de Guaratinguetá (1930), de Di Cavalcanti – um quadro sobre o qual eu ainda vou falar neste espaço.

As Senhoritas de Avignon
Artista: Pablo Picasso
Localização: Museu de Arte Moderna de Nova York, EUA
Ano: 1907