Arquivo da categoria: Livro & Filme

Maigret | A noite na encruzilhada

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O fim da leitura de mais essa história protagonizada pelo comissário da polícia judiciária francesa Jules Maigret me trouxe a inevitável lembrança de Assassinato no Expresso do Oriente, uma das aventuras mais famosas de Hercule Poirot, detetive criado por Agatha Christie na década de 1920. Isso porque há um traço em comum muito forte entre as estruturas dos dois enredos. Não quero dar spoilers aqui, mas a dinâmica e o ritmo intenso também são pontos de semelhança entre os livros.

Novidade

Em A noite na encruzilhada, notei algumas passagens mais poéticas na linguagem empregada pelo belga George Simenon para contar a morte de um vendedor de diamantes de conduta duvidosa. Talvez isso tenha me chamado mais a atenção nessa leitura pelo fato de, nessa ocasião, Maigret defrontar-se com uma sensual e enigmática figura feminina: Else, irmã de Carl Andersen, o principal suspeito do crime. É muito curioso observar de que maneira Maigret, um sujeito introspectivo e grosseiro, comporta-se em relação a essa forte figura feminina.

A leitura reserva ao leitor uma porção de surpresas e reviravoltas na história, algo perfeitamente esperado de um livro policial, entretanto, é interessante como, a partir de determinado ponto da leitura, começa a ser mais importante entender a “mecânica” do crime em si, e não apenas desvendar a identidade do assassino. Simenon consegue, com essa história, causar no leitor uma impressão semelhante à que Agatha Christie conseguiu com Assassinato no Expresso do Oriente, por isso a minha observação no começo desse texto. Ambos os autores conseguem mudar os holofotes para o percurso do crime, tornando-o mais importante do que o seu fim.

Na TV

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Novamente, tive a oportunidade de ver a adaptação dessa história em um episódio da série produzida pela ITV, tendo como protagonista Rowan Atkinson no papel de Maigret.

Deixando de lado o choque que sempre me acomete, ao me deparar com a gentileza de Atkinson em contraponto à rudeza do Maigret das páginas de Simenon, é facilmente perceptível que, contrariamente ao que ocorreu com a adaptação de Maigret e seu Morto (comentada aqui), desta vez os roteiristas mudaram completamente a história original, criando uma nova versão da trama.

Apesar de valorizar o interesse que uma adaptação para a TV pode gerar em relação ao livro, creio que o fato de Atkinson dar vida a um Maigret em muitos aspectos diferentes do original e também de os roteiristas não serem nada fiéis ao enredo elaborado por Simenon, cria-se um distanciamento que compromete a identidade do Maigret dos livros, talvez diminuindo o desafio de retratá-lo em tela.

A noite na encruzilhada
Georges Simenon
Tradução de Eduardo Brandão
Companhia das Letras
2014 – 136 páginas

A noite na encruzilhada (Segundo episódio da série ITV)
Rowan Atkinson como Maigret
Uma produção ITV (Inglaterra)
2017 – 1h28min

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Distopias | Fahrenheit 451

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Foi há coisa de uns três meses, com o lançamento da revista de livros Quatro cinco um (comentada aqui), que eu me lembrei de que tinha na estante o livro que inspirou o título da revista – ainda não lido.

Resolvi ler o livro antes de me dedicar ao primeiro número da revista e a leitura do clássico escrito por Ray Bradbury me deixou tão embevecida, que passei a agradecer pelo lançamento da Quatro cinco um só pelo fato de isso ter me motivado à leitura de um livro há dois anos esquecido na minha estante.

Trata-se de um enredo envolvendo uma sociedade distópica, resultado de um governo totalitário, que oprime os cidadãos que mantêm o gosto pela leitura e, principalmente, que dispõem de exemplares em suas casas. Nesse contexto sociopolítico que associa a infelicidade aos questionamentos proporcionados pelo hábito da leitura, os bombeiros constituem o elemento opressor, responsável por incendiar os livros apreendidos (vizinhos, conhecidos e mesmo parentes denunciam-se uns aos outros) e prender os leitores.

Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma.” (pág. 76)

Momento histórico

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Bradbury escreveu sua obra-prima no cenário mundial pós-Segunda Guerra em 1953. Originalmente chamado The fireman, o livro veio depois dos aclamados Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (publicado em 1932), e de 1984, de George Orwell (de 1949).

Contudo, o pai dos romances distópicos não é nenhum desses tão famosos autores. Nós, escrito pelo russo Yevgeny Zamyatin (1884-1937) entre os anos de 1920 e 1930, é o primeiro livro conhecido desse gênero. Além desses, outros enredos distópicos também viriam ao conhecimento do público mais tarde, como Metropolis (pelo filme de Fritz Lang, em 1927), Laranja Mecânica (pelo livro de Anthony Burgess, de 1962, e transformado em filme por Stanley Kubrick dez anos depois) e O Conto da Aia, de Margaret Atwood, publicado em 1985.

Montag, o bombeiro

As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo, mas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver, noventa e nove por cento delas está num livro. Não peça garantias. E não espere ser salvo por uma coisa, uma pessoa, máquina ou biblioteca. Trate de agarrar a sua própria tábua e, se você se afogar, pelo menos morra sabendo que estava no rumo da costa.” (pág. 107)

Um bombeiro que começa a se interessar pelos livros que deveria incendiar é o ponto de partida para a revolução na sociedade até então tão controlada do enredo de Ray Bradbury. Os questionamentos de Guy Montag ultrapassam o nível do aceitável, quando o bombeiro começa a se dar conta do vazio que tomava conta de seu casamento, bem como de sua falta de perspectiva em relação à sua profissão – tudo isso a partir de pequenos diálogos estabelecidos com sua vizinha Clarisse no trem, ou andando pelo bairro, diariamente, na volta do trabalho. Afinal, qual era o sentido de queimar livros e de viver com uma mulher que nem se lembra de quando o conheceu?

A versão de Truffaut

Mais de dez anos depois, o prestigiado François Truffaut levou para as telas do cinema a adaptação do romance de Bradbury. A produção vale pelo caráter de divulgação e de estímulo ao interesse do público pelo texto original, sem dúvida. Entretanto, o cinema sofre pela concisão necessária a obras que pedem um alto grau de complexidade de construção, como é o caso de Fahrenheit 451.

É incrível como o livro consegue transmitir mais emoção do que o filme no ápice da trama, com a fuga de Montag. Outra grande perda foi o fato de Truffaut ter suprimido da versão cinematográfica o Sabujo, a temida criatura robótica algoz de todos aqueles que contrariavam os interesses da ordem dominante. Mesmo assim, é interessante ver como o diretor francês transformou em imagens alguns signos interessantes do livro de Bradbury, como o carro dos bombeiros, por exemplo.

Obra-prima

Sem dúvida, Fahrenheit 451 foi uma de minhas melhores leituras neste ano. É um livro notável, capaz de falar ao coração de todo aquele que ama a Literatura, dá valor aos livros e encara o processo de leitura como um momento de abertura de perspectivas, de incremento da visão de mundo e de problematização das questões da existência.

Para mim, o ponto alto da história foi a maneira encontrada pelo autor de preservar os livros em um contexto totalitário. Trabalhar o pensamento e a reflexão sobre aquilo que se lê, tendo como ponto de partida a assimilação das obras clássicas da Literatura mundial, constitui o objetivo que deveria nortear qualquer atividade de leitura. Não se trata apenas de ler, mas de buscar maneiras de refletir sobre o que foi lido, de empregar um tempo precioso para aperfeiçoar o pensamento. É isso. E muito mais, é claro!

Fahrenheit 451 (livro)
Ray Bradbury
Globo de Bolso
2014 – 214 páginas

Fahrenheit 451 (filme)
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut e Jean-Louis Richard, a partir do romance de Ray Bradbury
Ano: 1966
País: Estados Unidos
Gênero: Ficção científica
Duração: 112 minutos
Elenco: Oskar Werner (Guy Montag); Julie Christie (Linda Montag/Clarisse); Cyril Cusack (Capitão); Anton Diffring (Fabian); Alex Scott (homem-livro)

Livro & Filme | A Delicadeza

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É sempre polêmico falar de obras adaptadas da literatura para o cinema. Pessoalmente, sempre me posiciono a favor desse tipo de transposição, porque esse processo não apenas estimula o interesse pela produção original, como também permite uma nova interpretação (uma ressignificação) da obra.

No caso de livros que, em sua essência, já são muito bons (este é o caso aqui), é ainda mais complicado aceitar o desafio de transformá-lo em filme. O escritor francês David Foenkinos aceitou correr esse risco, roteirizando e dirigindo o filme inspirado diretamente no romance de sua autoria.

Apesar de esses breves comentários não terem como objetivo a comparação estrita entre livro e filme – sabe-se que as linguagens têm as suas peculiaridades –, não posso deixar de observar que o ponto mais forte do livro é justamente a linguagem literária que o autor não consegue, como roteirista e diretor, imprimir ao filme, mesmo com as singelas e equilibradas interpretações de Audrey Tautou e François Damiens como o casal protagonista Nathalie e Markus.

História

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O enredo é simples: após uma viuvez prematura, a jovem e competente economista Nathalie precisa retomar sua vida e superar o vazio deixado por um casamento feliz. A delicadeza preconizada no título da história é o combustível do romance: está em uma grande quantidade de detalhes com os quais Foenkinos constrói a transição entre um amor interrompido bruscamente e a aparição de um novo sentimento a partir de um ato completamente despido de premeditação por parte de Nathalie.

É curioso observar como o recurso visual acaba minando a magia que a leitura impulsiona por meio de detalhes, verdadeiros toques de sensibilidade que constituem todo o diferencial do livro. Coisas como o assunto da notícia de jornal que Markus estava lendo quando Nathalie chega ao café para encontrá-lo, ou o resultado da rodada do campeonato francês de futebol na noite em que Nathalie recusa a investida amorosa de Charles, o diretor da empresa na qual trabalha, são suprimidos pelo Foenkinos roteirista e diretor, ou seja, perdem-se no fluxo de imagens que tornam simplista a autenticidade do Foenkinos escritor nas páginas de seu livro.

Por outro lado, a tentativa de contar, em menos de duas horas, uma história que não é óbvia e que é recheada de nuances e sutilezas – o leitor/expectador partilha com Nathalie de sua confusão sentimental e descobre junto a ela seus novos objetivos de vida –, faz do filme uma adaptação que, a seu modo, também tem a sua beleza e, é claro, o seu valor.

Mesmo com as limitações do cinema enquanto estimulador da criatividade da obra adaptada, a experiência de ver um romance como A Delicadeza em forma de filme (com o título também mais óbvio de A Delicadeza do Amor) é válida, porque seu resultado no cinema é um esforço intenso de veiculá-lo ao livro que o originou. E, para aqueles que gostaram da história, a oportunidade de vê-la em diferentes linguagens artísticas é enriquecedor. Talvez Foenkinos tenha pensado nessa possibilidade, quando levou seu livro para as telas do cinema. É muito mais produtivo pensar nos dois resultados (livro e filme) como complementares, do que compará-los buscando a superioridade de um sobre o outro.

A Delicadeza (livro)
David Foenkinos
Tradução de Bernardo Ajzenberg
Rocco
2011 – 191 páginas

A Delicadeza do Amor (filme)
Direção: David Foenkinos e Stéphane Foenkinos
Roteiro: David Foenkinos, baseado em seu próprio romance
Ano: 2012
País: França
Gênero: Romance
Duração: 104 minutos
Elenco:  Audrey TautouFrançois DamiensBruno Todeschini, Mélanie Bernier, Joséphine de Meaux, Pio Marmai

Projeto Hitchcock | Sabotagem/O marido era o culpado (1936)

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Achei bastante curioso o fato de um mesmo filme ser conhecido por dois títulos diferentes. Internacionalmente, Sabotage é o nome utilizado na filmografia de Hitchcock; aqui no Brasil, O marido era o culpado é outro título pelo qual esta mesma produção é conhecida, embora eu não saiba a razão disso. Uma coisa é certa: O marido era o culpado é simplesmente um título ridículo, que depõe contra esse trabalho interessante, realizado por Hitchcock na década de 1930, durante a “Fase Inglesa” de sua filmografia.

Joseph Conrad

O roteiro do filme foi desenvolvido a partir do romance O Agente Secreto, de autoria do escritor britânico Joseph Conrad (1857-1924). Infelizmente, não li o livro antes de assistir ao filme (mas fiquei bastante curiosa para fazer isso), então não tenho parâmetros para avaliar questões de adaptação da história. Entretanto, a atmosfera criada pelo diretor é muito sugestiva. Trabalha com elementos acessórios para criar um efeito generalizado ao espectador, uma vez que o principal fator já é revelado nas primeiras cenas do filme: como um dos títulos sugere, o marido de Sylvia Verloc, de fato, é mostrado em atitude suspeita. Por isso, de antemão, já se sabe que se trata de um sabotador, mas a motivação do Sr. Verloc, bem como a organização para qual ele trabalha, uma possível colaboração de sua esposa nessa “operação” são pontos que se tornam os principais no desenvolvimento do filme.

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Ted (John Loder) e Sra. Verloc (Sylvia Sydney)

Assim como desde cedo se sabe que o Sr. Verloc está desenvolvendo uma atividade ilícita, o filme de Hitchcock também mostra logo de início que Ted, um suposto empregado da quitanda que funciona vizinha ao cinema do casal Verloc, é mais do que um simples quitandeiro. Suas ações revelam, talvez prematuramente, que ele é um investigador no rastro de Verloc – seu comportamento no sofisticado Restaurante Simpsons, em companhia da Sra. Verloc e de seu irmão, Stevie é uma prova de que ele não é quem diz ser. Assim como o espectador, Ted quer saber se a Sra. Verloc tem conhecimento do trabalho secreto de seu marido e quais são os próximos passos do sabotador.

Definitivamente, Sabotagem não é um filme badalado entre as produções da Fase Inglesa de Alfred Hitchcock, mas é uma trama interessante, sem muitos recursos de impacto (cenas de ação, por exemplo), porém com uma história instigante. Stevie, o irmão caçula da Sra. Verloc, adquire uma importância inesperada no enredo, com um suspense crescente, o que contribui para dar força ao desfecho do filme.

Sabotagem/O marido era o culpado
1936
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Benett, Ian Hay, Helen Simpson, baseado no romance de Joseph Conrad, The Secret Agent
Duração: 76 minutos
Elenco: Sylvia Sydney (Sylvia), Oskar Homolka (Sr. Verloc), John Loder (Ted), Desmond Tencer (Stevie)

 

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Maigret | Maigret e seu morto

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Essa aventura do comissário Maigret foi lida em um processo diferenciado. Pela primeira vez, tive acesso aos quadrinhos do comissário da polícia judiciária francesa, em um traço elegante de Philippe Wurm e um roteiro dinâmico, elaborado por Odile Reynaud. Sem dúvida, foi uma experiência interessante e criativa, muito embora a imagem de Maigret pelas mãos de Wurm não corresponda em nada à ideia que eu sempre fiz do comissário – continuo imaginando-o como o ator francês Daniel Cremer, que o viveu nas telas, em um seriado produzido para a televisão francesa.

Até então, meu conhecimento sobre Maigret se resumia à tradução da prosa eficiente de Simenon. E é claro que a leitura em HQ de Maigret e seu morto me motivou a querer ler o texto em prosa. Mesmo porque essa história apresenta uma especificidade em relação às outras aventuras do comissário que li até o momento: aqui, a Sra. Maigret participa bastante da trama, opinando, aconselhando Maigret durante a investigação, e isso deu um toque especial ao enredo, porque ela funciona como um contraponto ao jeito caladão e sóbrio de Maigret em um caso de ritmo dinâmico, repleto de perseguições, violência, desencontros e momentos bem delicados.

O comissário nas telas

Outro ponto bem enriquecedor foi que, logo após a leitura, eu tive a oportunidade de ver o segundo episódio na nova série de Maigret produzida pelo canal iTV, protagonizada por Rowan Atkinson, o famoso Mr. Bean.

Maigret e seu morto foi o segundo episódio da série e eu o assisti assim que finalizei os quadrinhos. Não sabia absolutamente o que esperar, porque estava com várias reservas em relação a como poderia ser a atuação de Atkinson como Maigret, mas devo admitir que fiquei surpresa com o esforço do ator. Seu trabalho é sério e busca persistentemente a sobriedade do personagem das histórias de Simenon, apesar de, em vários momentos, ele se mostrar muito mais sensível do que o Maigret dos livros – li algumas resenhas e entrevistas nas quais Rowan Atkinson afirma que esse traço de sua interpretação foi proposital, para a elaboração de sua releitura de Maigret.

A produção, em si, da iTV é muito boa. O episódio foi muito bem tratado em termos visuais, de ambientes, figurinos, direção de arte e fotografia. Acho que Simenon ficaria contente com esse resultado – só não saberia dizer o que ele pensaria de seu protagonista na pele de Rowan Atkinson.

A história foi bem adaptada para a TV. Notei uma forte preocupação em manter os pontos principais conforme o enredo original, apenas uma ou outra pitada para criar mais efeito na telona. O casal Maigret pareceu-me bem mais jovem em relação ao livro, mas isso não me incomodou. Assim como no livro, também no episódio para a TV a Sra. Maigret tem uma participação relevante e dá um pequeno toque feminino à história (principalmente em relação aos primeiros livros, nos quais ela mal aparece).

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Rowan Atkinson como Maigret

Maigret nunca pega casos fáceis. Suas investigações geralmente conduzem-no a dilemas morais, violência e contrapontos entre vida e morte. Nesse caso não foi diferente, mas, mais uma vez ele se saiu bem sem tentar soluções mirabolantes e sem tentar bancar o super-homem. O morto da história lhe chega ainda nas primeiras páginas da história, mas Maigret realiza seu trabalho com bastante perseverança – algo bem conservado no episódio da TV –, confiando em sua intuição (e na de sua esposa também) para chegar ao âmago do caso. Uma lição de boa investigação.

Maigret e seu morto (HQ)
Georges Simenon
Adaptação e roteiro de Odile Reynaud
Ilustrações de Philippe Wurm
Tradução de Moacyr Gomes Jr.
L&PM Editores
1995 – 48 páginas

Maigret e seu morto (Segundo episódio da série iTV)
Rowan Atkinson como Maigret
Uma produção ITV (Inglaterra)
2016 – 1h28min

Projeto Hitchcock | Psicose

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Propositalmente eu demorei bastante para chegar à obra mais badalada da cinematografia de Alfred Hitchcock. E também propositalmente eu quis ler o livro de Robert Bloch antes de assistir ao filme. E talvez esse tenha sido o meu erro.

É inegável que o filme tem muitos méritos e que se trata de um dos maiores trabalhos de Hitchcock, mas para que essa imagem se consolide, é melhor você não ler o livro de Bloch. Caso contrário, a decepção é certa. Afinal, o livro é muito melhor.

Diferentemente do que aconteceu com Janela Indiscreta, quando Hitchcock conseguiu melhorar o conto de Cornell Woolrich que originou o roteiro do filme, em Psicose, a matéria-prima literária já era de uma qualidade impressionante. E é muito difícil melhorar algo que já é, em sua essência, excelente.

O roteiro perdeu força em relação ao livro notadamente porque as mudanças para a Sétima Arte não foram bem-sucedidas. Norman não se parece com o Norman do livro, Lila não se parece com a Lila do livro e Marion – que, no livro, é Mary – definitivamente não se parece com a personagem do livro. Por isso é prejudicial a leitura do livro antes de conhecer o filme. A escrita de Bloch é tão boa, que se torna inevitável para o leitor não formar mentalmente a imagem dos personagens de acordo com as descrições do autor. Descrições estas que mudaram significativamente para o cinema.

A cena do chuveiro

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Não posso deixar de dizer que até mesmo a tão famosa sequência da morte de Marion no chuveiro é extremamente fraca perante sua descrição no livro. Nem mesmo os sete dias de filmagem, as 70 posições de câmera e os 45 segundos de duração conseguem ser mais incisivos do que a brutalidade da narração de Robert Bloch.

O refinamento literário de um texto extremamente representativo da literatura de suspense e terror põe abaixo as tomadas de Hitchcock, infelizmente. Talvez não houvesse tantos recursos visuais naquela época para reconstruir fielmente a cena narrada por Bloch, mas Hitchcock, uma vez comprado o desafio da adaptação, deveria ter construído melhor essa passagem-chave do filme. Fica clara a sua intenção de não ser apelativo, porém sua adaptação, em vários momentos, beira a infantilidade. Não se trata de uma sequência ruim; ela é apenas decepcionante na comparação com o livro. Contudo, como 90% dos espectadores do filme não leram o livro, méritos para Hitchcock.

Reconheço que nenhum outro diretor seria capaz de reproduzir no cinema a classe da trama de Robert Bloch. Hitchcock fez tudo o que podia. E o resultado foi bom, alguns recursos para situar o espectador em relação à trama foram muito bem pensados; as vozes dos atores constituindo os diálogos povoando os pensamentos de Marion enquanto a moça pega a estrada e mesmo elaboração da personagem da mãe de Norman para o filme foram interessantes. Entretanto, a leitura da obra-prima de Robert Bloch é indispensável para conhecer todas as dimensões de Psicose.

Psicose (livro)
Robert Bloch
Darkside
2013 – 237 páginas

Psicose (filme)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Joseph Stefano, baseado no livro de Robert Bloch
Ano: 1960
País: Estados Unidos
Gênero: Suspense/Terror
Duração: 100 minutos
Elenco: Janet Leigh (Marion Crane); Anthony Perkins (Norman Bates); John Gavin (Sam Loomis); Vera Miles (Lila Crane); Martin Balsam (Detetive Arbogast); John McIntire (xerife Al Chambers); Simon Oakland (Dr. Richmond); Vaughn Taylor (George Lowery)

 

Livro & Filme | O Falcão Maltês

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Considerada uma das obras-primas do universo da literatura policial, O Falcão Maltês é, certamente, uma das principais referências do gênero em termos mundiais. O livro escrito por Dashiell Hammett em 1929 traz consigo toda a verossimilhança proporcionada pela experiência do autor, que trabalhou oito anos como policial e serviu nas duas guerras mundiais.

Seu protagonista, Sam Spade, é um dos ícones entre os detetives da ficção literária. Seu perfil poderoso impressiona seus clientes e também seus inimigos. O autor o descreve quase como um semideus, com olhos diabólicos, físico privilegiado, galanteador e dono de uma personalidade marcante.

Achei bastante interessante o universo noir que Hammett consegue imprimir à sua história. Mais do que a trama em si, a leitura de O Falcão Maltês é válida pela rotina da década de 1930, homens e mulheres com chapéus, casacos, comprando jornais para se manterem informados e fazendo ligações de saguões de hotéis para incrementar a trama. O charme da época valoriza também os diálogos, em um tempo no qual a tecnologia ficava a cargo de telefones no máximo. Nesse cenário, Sam Spade é um detetive com direito a escritório, secretária e advogado para livrá-lo de eventuais encrencas. E o autor capricha na elaborada rede de intrigas que ronda a perseguição à relíquia do Falcão de Malta, herança histórica omitida nos livros de História.

– Lá vem ela de novo! – disse o detetive, com resignação jocosa.

– Mas você sabe que é verdade – insistiu a moça.

– Não, eu não sei de nada. – Ele bateu de leve na mão que mexia no botão do seu paletó. – O que nos trouxe aqui foi a minha busca de motivos para eu confiar em você. Não vamos confundir as coisas. Você não precisa confiar em mim, no final das contas, contanto que consiga me persuadir a confiar em você.” (pág. 88)

Durante a perseguição ao rico artefato, Dashiell Hammett estrutura uma narrativa eletrizante para contar o jogo de influências, disputa de confiança, dinheiro e reputações. A leitura é fluida, dividida em capítulos não muito extensos e povoada por personagens misteriosos. Sam Spade é hábil em pisar em territórios desconhecidos, enquanto identifica possíveis aliados e inimigos. Para tanto, se vale de um discurso confiante, muitas vezes na base do blefe, para conseguir as respostas que precisa:

– Bem, senhor, existem outros meios de persuasão além de matar e ameaçar matar.

– Claro – concordou Spade –, mas eles não adiantam grande coisa se por trás de tudo não estiver a ameaça de morte para manter a vítima sob o seu poder. Entende o que digo? Se você tentar qualquer coisa que não me agrade, não vou colaborar. Vou criar uma situação em que você vai ter de desistir ou então vai ter de me matar, ciente de que não pode se dar ao luxo de me matar.” (pág. 246)

No decorrer da minha experiência de leitura de O Falcão Maltês, consultei vários rankings de melhores livros e filmes. Em vários deles figurava a obra de Dashiell Hammett e a produção dirigida por John Huston. Sam Spade consagrou-se não apenas nas páginas da literatura, como também nas telas de cinema.

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Minha surpresa ao ver o filme foi constatar o altíssimo grau de fidelidade em relação ao livro. Praticamente nenhum evento foi cortado na versão cinematográfica. Huston estruturou cenas e diálogos com exata semelhança à trama de Hammett. Sua versão, a terceira para o cinema (outras duas foram feitas em 1930 e em 1936 e não foram muito fiéis ao texto original), é considerada pela crítica a adaptação definitiva do texto literário de O Falcão Maltês. O fluxo do roteiro é tão fluido quanto os capítulos do livro.

O que me deixou um pouco perdida foi Humphrey Bogart como Sam Spade e Mary Astor como Brigid O’Shaughnessy. Apesar de muito bem interpretados, o perfil físico dos personagens no livro em nada combina com o dos atores escalados para os papéis, o que tornou ainda mais difícil a missão de Bogart e de Astor, os quais tiveram de caprichar na atmosfera sentimental e na construção da personalidade em suas atuações para superar esse obstáculo.

A estreia do filme foi em 3 de outubro de 1941, com êxito de público e de crítica. Os estúdios da Warner, produtora do filme, tentaram aproveitar a onda do sucesso cinematográfico da obra de Hammett e chegaram a oferecer 5 mil dólares para que o autor escrevesse uma continuação. Entretanto, o criador de O Falcão Maltês queria uma oferta mais alta, e a falta de entendimento entre ambas as partes frustrou o projeto.

O filme merece todo o mérito, por ter conseguido valorizar ainda mais a reputação da obra de Dashiell Hammett. Seu ritmo é tão eletrizante quanto o do livro, o corte das cenas é dinâmico, e a edição muitas vezes consegue ser tão sugestiva quanto à do texto do livro. Tive essa impressão muito provavelmente por causa do tanto de acontecimentos que o filme consegue trazer com tão pouco tempo de duração, preservando ao máximo o enredo original. Um clássico caso de uma transposição bem-sucedida para as telas do cinema!

O Falcão Maltês (livro)
Dashiell Hammett
Companhia das Letras
2001 – 293 páginas

O Falcão Maltês (filme)
Direção: John Huston
Roteiro: John Huston, baseado no romance de Dashiell Hammett
Ano: 1941
País: Estados Unidos
Gênero: Policial/Suspense/Filme Noir
Duração: 100 minutos
Elenco: Humphrey Bogart (Sam Spade); Mary Astor (Brigid O’Shaughnessy); Peter Lorre (Joel Cairo); Gladys George (Ivã Archer); Barton MacLane (Tenente Dundy); Lee Patrick (Effie Perine); Sydney Greenstreet (Kasper Gutman); Ward Bond (Detetive Tom Polhaus); Jerome Cowan (Miles Archer)

Projeto Hitchcock | Janela Indiscreta (1954)

Quando tive a chance de ler o conto original do jornalista Cornell Woolrich que inspirou esta obra-prima de Hitchcock, entendi perfeitamente o porquê da indicação ao Oscar de melhor roteiro para este filme. O texto de Woolrich é muito bom realmente, mas preciso admitir que as mudanças empreendidas pelo roteirista John Michael Hayes para a adaptação para o cinema mudaram o enredo original para melhor.

Os méritos cinematográficos de Janela Indiscreta são profundamente conhecidos – este é um dos filmes mais famosos e reconhecidos do mestre Hitchcock –, por isso, não pretendo me ater, nesta breve resenha, a aspectos visuais e outros pontos neste estilo.

Também já li outras resenhas muito mais bem elaboradas do que esta, levantando o interessantíssimo ponto de vista da metalinguagem, pois o enredo gira em torno do protagonista Jeff (o excelente James Stewart), um premiado fotógrafo em convalescença de uma perna quebrada, distraindo-se na observação dos vizinhos do prédio em frente ao seu. Ou seja, enquanto Jeff é atentamente observado por nós, telespectadores, ele se dedica a observar seus vizinhos. Aparentemente simples, este é o mote de Janela Indiscreta. E seria uma história bastante singela e sem graça, se não fosse tão bem filmada e se Hayes não tivesse sido tão feliz nas alterações promovidas sobre o texto. O roteiro do filme é superior ao conto de Woolrich.

A meu ver, o grande mérito dessa história – e que foi muito bem conservado na adaptação e transposição para o cinema – é a carga psicológica. Basicamente, Janela Indiscreta tem apenas um cenário, o apartamento de Jeff. E todo o desenvolvimento do filme ocorre a partir, mais precisamente, da sala do protagonista. O ritmo é lento, mas isso não fica evidente, pois há tantos detalhes em jogo na composição da trama, que se torna secundário esperar cenas de ação. A estrutura do filme vale muito mais do que isso.

Se no livro Jeff é auxiliado por um serviçal chamado Sam, um rapaz introvertido e resmungão, e o conto depende extensivamente da relação de confiança entre Jeff e seu empregado; no filme, a boa sacada foi substituí-lo pela eficiente Stella (Thelma Ritter), que não apenas banca a enfermeira, fazendo até mesmo massagem nas costas de Jeff, como também monta seu café da manhã e ainda dá pitacos na investigação do fotógrafo. A troca de gênero e mesmo de natureza dessas personagens foi bastante benéfica para estabelecer uma fragilidade necessária para Janela Indiscreta. A partir do momento em que Jeff se convence de que, de fato, houve um assassinato no apartamento do prédio da frente, o fato de o protagonista ser auxiliado por mulheres, e não por um rapaz, aumenta o temor do espectador pela vida de Jeff e isso funciona muito bem para a lógica cinematográfica.

Bem, eu mencionei que Jeff é auxiliado por mulheres, mas citei apenas Stella. A outra mulher em questão – também inexistente no conto original – é Lisa Carol Fremont, a bela namorada do protagonista. Interpretada pela fascinante Grace Kelly, ela dá ao filme não apenas um toque de beleza e requinte – o figurino de Lisa é simplesmente espetacular, pois ela trabalha em uma revista de moda – como também põe em xeque a suposta fragilidade feminina. Lisa é intrépida, corajosa e se dispõe a fazer aquilo que a condição física de Jeff o impede: a investigação de campo. Uma das cenas mais angustiantes e temerosas do filme é quando Lisa invade o apartamento do suposto assassino, em busca de pistas de seu delito. O fato de Jeff acompanhar toda a investida por meio de sua lente de observação só aumenta a tensão do espectador. Simplesmente brilhante!

Suponho que essas mudanças substanciais na trama tiveram por objetivo não tornar o filme uma produção enfadonha. No livro, a dimensão psicológica é extremamente bem explorada, mas o conto (de 46 páginas) acaba perdendo um pouco o ritmo por causa do vazio causado pela falta de Lisa – algo corrigido com muita competência por Hitchcock e sua equipe.

Não há dúvidas de que Janela Indiscreta é um dos filmes mais brilhantes do mestre do suspense. A leitura do conto original foi extremamente esclarecedora e me permitiu refletir em busca de pistas sobre as razões das mudanças que ressaltei neste texto. Obviamente, a ideia original de Cornell Woolrich já era ótima; Hitchcock direcionou sua equipe para transformá-la em algo fantástico.

Janela Indiscreta
1954
Roteiro: John Michael Hayes, baseado no conto de Cornell Woolrich
112 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Cartas na mesa: Agatha Christie em duas versões

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Já consegui várias temporadas da série Poirot, exibida na Inglaterra e em canais de TV a cabo, com as aventuras do detetive mais famoso de Agatha Christie. De fato, são muitos episódios e, como devo ter lido somente ¼ das obras deixadas pela Dama do Crime, tomei a seguinte resolução: assistirei primeiro aos episódios cujas histórias eu já conheço dos livros. As demais vou deixando para adiante, quando tiver a oportunidade de ler as aventuras antes.

Assim, decidi ver primeiro um episódio estendido (duplo, na verdade) que se encontra na décima temporada, inspirado no livro Cartas na Mesa, publicado originalmente em 1936, segundo a Wikipédia.

Li esse livro recentemente, no finalzinho do ano passado, então está fresco na minha cabeça. E a ideia foi ótima, pois, como ainda me lembro de vários detalhes da trama, deu para comparar muitas das mudanças que foram feitas na adaptação para a TV. E houve várias mudanças!

Até a primeira metade do filme, os diálogos foram bem fiéis. Alguns personagens, no entanto, pelo menos para mim, já desde o início não corresponderam à impressão deixada pela leitura. Na TV, por exemplo, Anne Meredith não tinha metade da beleza que o livro tanto exaltava; Mrs. Lorrimer, por sua vez, parecia bem mais nova. Quando li o livro, eu a imaginava como a Lauren Bacall em sua fase bem madura, sabe? Nada muito parecido do que vi na versão televisiva.

Mas vamos ao livro. Cartas na Mesa tem uma particularidade bem interessante: em sua trama, há quatro potenciais assassinos e quatro detetives, por assim dizer, reunidos em um jantar promovido pelo exótico Mr. Shaitana, um dos homens mais ricos da Inglaterra.

Durante o evento, Shaitana propõe que os participantes joguem bridge, divididos da seguinte forma: os quatro detetives – Hercule Poirot (David Suchet); a escritora de romances policiais Ariadne Oliver (Zoë Wanamaker); o Superintendente Wheeler (no livro é o Superintendente Battles); e o Coronel Hughes (no livro é o Coronel Race) – em uma mesa e, em um aposento contíguo, os quatro convidados potenciais assassinos: a viúva Mrs. Lorrimer, a jovem Anne Meredith, o Major Despard, e o médico Dr. Roberts. Shaitana acomodou-se em uma poltrona na sala dos assassinos e, no final da noite, é descoberto assassinado com um punhal no coração.

Em torno dessa trama gira a investigação dos detetives. Achei bem interessante os cartões do jogo de bridge, que, no filme, são reproduzidos de forma exatamente igual ao que aparece no livro. Entretanto, daí para frente, o enredo original sofreu várias alterações que, a meu ver, não acresceu em nada a adaptação para a TV.

Os detalhes descobertos no decorrer das investigações dos suspeitos foram praticamente todos alterados na adaptação. No geral, cada um dos quatro potenciais criminosos ocultava um assassinato que era do conhecimento de Mr. Shaitana, daí todos terem sido convidados para o jantar. Mas, na TV, os fatos foram distorcidos e é praticamente impossível eu explicá-los todos aqui sem contar os segredos do livro e sem deixar esse post maior do que ele já está. Ficarei apenas com aqueles mais bizarros -> spoilers! ->: o assalto à casa de Mr. Shaitana em substituição à morte de Mrs. Lorrimer como fato que mudou o rumo das investigações na metade final da história, a relação obsessiva de Anne com sua melhor amiga Rhoda Dawes (que no livro é bem diferente!) e o segredo do Dr. Roberts, que mantinha um caso homossexual com o marido de uma de suas pacientes, que ele se encarregou de assassinar para tirá-la de seu caminho.

No livro, as coisas não são bem assim e eu acho que essas alterações não favoreceram a versão para a TV. Agatha Christe conseguiu fazer, originalmente, uma trama com muito mais suspense, sem ter de recorrer a expedientes fáceis, como acabou acontecendo no seriado de Poirot. Foi muito mais fácil tornar Rhoda uma obsessiva e Roberts um homossexual enrustido, do que considerar a possibilidade de -> spoilers! -> na verdade, a moça ser manipulada por sua falsa amiga, a ladra e assassina Anne Meredith, e de o médico ser um grande aproveitador ganancioso.