Arquivo da categoria: Histórias em Quadrinhos

HQ | Homem-Formiga: Mundo Pequeno

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Foi por causa do filme do Homem-Formiga, estrelado por Paul Rudd, lançado pela Marvel em 2015, que eu resolvi ler algo desse personagem, o qual sempre tinha ouvido falar, mas quase nada conhecia.

No início de 2016, encontrei, no site da Livraria Cultura, esse volume intitulado Mundo Pequeno e resolvi arriscar. Como não tenho um método quanto às minhas leituras, somente no início deste ano fui tirá-lo da estante – e sem muitas expectativas, diga-se de passagem.

Introdução

Esse volume editado pela Panini é bastante esclarecedor para quem nada sabe sobre o personagem, então vi que fiz uma boa compra no fim das contas. Ele é composto por quatro histórias, sendo que uma delas mostra exatamente a origem do Homem-Formiga, escrita por Stan Lee & Larry Lieber e publicada em 1962, seguida por “O retorno do Homem-Formiga”, também de 1962.

Essas primeiras histórias são fundamentais para o leitor compreender não apenas a dinâmica das HQs da época (de ritmo e composição bastante diferenciadas em relação a hoje), como também para situar o papel do Homem-Formiga no Universo Marvel.

Contudo, as histórias que me agradaram bastante foram “A criatura de Kosmos!” e “Estreia conturbada!”, ambas magistralmente desenhadas pelo mestre John Byrne – isso me trouxe memórias afetivas muito boas de uma das melhores fases dos X-Men, justamente ilustrada por Byrne. Eu diria que o ponto alto dessas HQs é a transição do cientista Hank Pym para o Homem-Formiga.

É bem interessante observar como, nessas primeiras histórias, é bem explorado o dilema do herói x o homem comum (algo que perdeu bastante da magia nas HQs atualmente) e como há um “clima retrô” em relação à atmosfera das histórias, facilmente observado pelas roupas e pelos costumes dos personagens.

Mundo Pequeno

Já a história que dá título a essa coletânea, em minha opinião, é a mais fraca da compilação. O traço de Tim Seeley é bastante agradável, porém o enredo é afetado demais. Perde muito em relação às outras histórias, por tratar o Homem-Formiga (agora Scott Lang e tendo Hank Pym como Vespa, traje originalmente vestido por sua falecida esposa Janet) como um herói que, mesmo vivendo um conflito interno em relação às suas questões éticas, está totalmente perdido na vida. Vespa (Hank Pym, o Homem-Formiga original) está entregue à sua tecnologia e agora é um homem mais impessoal do que nunca em relação àquele herói das primeiras histórias. Notei certo esvaziamento do personagem em sua versão mais atual, esvaziamento este que não é compensado pela bela arte de Seeley.

Homem-Formiga: Mundo Pequeno
Tim Seeley, Stan Lee, Larry Lieber, David Michelinie (roteiros); Tim Seeley, Jack Kirby, H.E. Huntley, John Byrne & Bob Layton (arte)
Mario Luiz C. Barroso e Rodrigo Barros (tradução)
Marvel / Panini
146 páginas

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Retrospectiva | 2017

Neste primeiro post de 2018, é hora de rever o que consegui ler e assistir em 2017. Sem dúvida, foi um ano um pouco atribulado para mim, o que resultou em um número menor de leituras – pouco mais de 30 livros, sem contar as HQs – e também em um menor número de filmes/séries vistos ao longo dos últimos 12 meses. Isso se deveu não apenas a motivos particulares (várias cirurgias na família e períodos de corre-corre em visitas e hospitais), como também ao maior período que passei durante o ano estudando idiomas.

Diversidade

Um fato que me deixou bastante contente foi a diversidade de leituras que consegui realizar no último ano. Além de conseguir contemplar alguns títulos pendentes de 2016, foi muito bom voltar a ler gêneros aos quais há muito tempo eu não me dedicava, como o livro-reportagem, por exemplo. O ano de 2017 também foi momento de leituras de teores bem diferentes, como livros infantis, clássicos distópicos, releituras e também de várias revistas.

psicose_1373943361bSe comprovadamente eu li menos em 2017, posso me considerar muito feliz pela qualidade dos livros lidos. Nos últimos 12 meses, tive o privilégio de ler livros brilhantes, como Psicose (Robert Bloch), Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), A vida imortal de Henrietta Lacks (Rebecca Skott), Quem matou Roland Barthes? (Laurent Binnet) e A revolução dos bichos (George Orwell).

No âmbito da literatura nacional, não posso deixar de destacar minha volta aos clássicos: em 2017, li um ótimo livro de crônicas de João do Rio, Histórias da gente alegre (pretendo fazer um post sobre João do Rio mais adiante); li o primeiro romance de Lima Barreto, Recordações do Escrivão Isaías Caminha; e também Diva, romance de José de Alencar.

Revistas e HQs

Foi muito bem-vinda a chegada da Revista Quatro Cinco Um, no mês de maio. Ao longo dos últimos meses, tenho acompanhado essa publicação, repleta de textos interessantíssimos para leitores inveterados. Também li vários especiais das Revistas Superinteressante e Mundo Estranho em 2017.

Não li tantas HQs quanto eu queria, mas posso destacar a graphic novel Corpos, da Vertigo, e o livro O fantasma de Anya, de Vera Brosgol.

Para fechar a parte das leituras, em 2017 também encontrei um tempinho para me dedicar mais aos estudos da Língua Portuguesa e também da Língua Inglesa, já que prestei o TOEIC no mês de agosto. Por isso, fiz algumas leituras originais em inglês (algo do que já estou me orgulhando) e li alguns livros teóricos de português.

Filmes, séries e documentários

Fui ao cinema algumas vezes em 2017 para acompanhar produções derivadas dos quadrinhos, como Mulher-Maravilha e Liga da Justiça – ambos comentados neste blog. Em setembro, ainda consegui assistir no cinema ao filme João, baseado na história do maestro João Carlos Martins – que belo filme!

0424359Também foi um ano em que consegui ver dois documentários que me interessaram bastante: Foucault contra si mesmo e Lygia, uma escritora brasileira. Recomendadíssimos!

Fiz alguns posts sobre séries aqui no blog ao longo deste ano. Tenho acompanhado as produções que a Netflix vem fazendo sobre o universo Marvel e destaquei também a primeira temporada da bela e sensível Tokyo diner, midnight stories e também da espirituosa The good place – ambas também comentadas aqui.

Para 2018, tenho vários planos, mas resolvi não fazer listas, nem estipular metas, pois ainda tenho títulos pendentes da lista que fiz para 2016! Portanto, para não sabotar meu próprio planejamento, irei aos poucos seguindo com os projetos de leitura que já estão em andamento (os quais continuaram em 2017, embora em ritmo mais lento) e, na medida do possível, acrescentarei novidades!

Feliz ano-novo!

 

 

Cinema | Liga da Justiça

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Este comentário chega com algumas semanas de atraso, mas eu não poderia perder a oportunidade de falar sobre essa iniciativa tão corajosa por parte da DC Comics. Sim, porque eu sou fã de quadrinhos da época em que o sonho geral eram os filmes com super-heróis, porém a realidade era dura e sabia-se que não havia recursos para tanto. Algumas décadas depois, o cenário mudou.

As exigências

Hoje, não apenas temos várias superproduções criadas a partir do universo das HQs em um mesmo ano (um luxo, comparado à realidade de anos atrás), como também criticamos duramente aspectos técnicos, efeitos especiais, enredos e por aí vai. No caso das produções cinematográficas da DC, noto um grau de intolerância até maior do que em relação aos filmes da Marvel, ainda que Quarteto Fantástico e Homem de Ferro 2 e 3, por exemplo, já sejam produções pífias o bastante (não nos mesmos aspectos, mas ambas igualmente chatas e cheias de arestas) para deixar qualquer fã com os dois pés atrás.

Em relação à Liga da Justiça, primeiro, acho importante ressaltar que unir em um mesmo filme seus maiores heróis é um desafio e tanto. As críticas já eram esperadas, e eu creio que todos aqueles que acompanham o assunto já tinham seus pontos a destacar. Contudo, expor, de uma só vez, Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha, incluindo nomes secundários no pacote já é, por si só, um marco no cinema de heróis.

Ben Affleck como Batman é um ponto que me incomoda desde Batman x Super-Homem (comentado aqui). Eu ainda estava sob os efeitos muito positivos de Christian Bale como homem-morcego na trilogia de Christopher Nolan e essa troca de atores não me pareceu nada boa. Entretanto, fiquei surpresa ao constatar que Affleck carregou muito bem a responsabilidade de interpretar o único herói sem poderes em Liga da Justiça. Não há dúvida de que Batman é o maior representante dos seres humanos em uma trama na qual todos os outros protagonistas são super-humanos. Por isso, seu papel, a meu ver, é o mais difícil de todos.

Quem é o herói?

De tudo o que a Liga da Justiça trouxe aos seus espectadores, para mim, o mais positivo foi a discussão sobre o conceito de herói. Em um grupo cujos membros personificam essa ideia das mais variadas maneiras, pensar sobre o que está em jogo para cada um deles me parece ser a questão mais interessante. Afinal, quem tem mais a perder em uma batalha que envolve um poderoso inimigo, criaturas alienígenas, amazonas e guerreiros marinhos?

O filme traz o Lobo da Estepe como um bom vilão (um ponto bem executado), um enredo dinâmico (para alguns até demais) e tenta lidar com suas fragilidades postergando ao máximo a entrada do Super-Homem na trama, pois é um fato que seu membro mais poderoso traz consigo as maiores exigências dentro e fora das telas, bem como é capaz de diminuir naturalmente a importância de seus companheiros.

Nota-se um claro envolvimento coletivo no incremento das questões técnicas do filme – para mim, foram grandes bobagens as polêmicas do bigode de Henry Cavill eliminado por computação gráfica e outras coisas desse gênero. Perder tempo com esse tipo de coisa significa que todo o restante de nada vale para consideração. Trilha sonora e edição são pontos mais bem cuidados do que em produções anteriores.

A meu ver, o saldo é positivo no fim de todas as contas. Mulher-Maravilha continua sendo um diferencial, maior figura feminina nesse universo; Aquaman fantástico esteticamente, promissor como protagonista de um filme solo já em produção; Ciborgue e Flash são contrapontos eficientes, embora me pareçam fora do eixo cronológico. A DC conseguiu dar um passo importante no estabelecimento de seu universo cinematográfico, a despeito de todos os problemas que a Liga da Justiça possa ter.

 Ficha técnica
Liga da Justiça
Direção: Zack Snyder
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Ação; Ficção Científica
Duração: 2 horas
Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fischer, Amy Adams, Jeremy Irons, Diane Lane, Connie Nielsen, J.K.Simmons, Amber Heard, Ciarán Hinds

Série | Os Defensores

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Terminei de assistir ao último capítulo da primeira temporada de Os Defensores com certo alívio. A meu ver, a proposta inicial da série (um tanto ousada, inclusive) foi cumprida: juntar quatro heróis que já haviam aparecido em séries individuais em uma mesma trama com coerência. Sim, houve alguns problemas no processo, mas creio que todo o público que, anteriormente, já havia acompanhado as duas primeiras temporadas de Demolidor (Charlie Cox), e as primeiras temporadas de Jessica Jones (Krysten Ritter), Luke Cage (Mike Colter) e Punho de Ferro (Finn Jones) já esperavam por isso.

Enredo

Uma das coisas que fizeram com que a série de fato conseguisse entregar o que seus produtores haviam prometido foi um enredo coerente, nem que para isso fosse necessário criar “subnúcleos” entre os protagonistas. Aproveitando o gancho dos Heróis de Aluguel dos quadrinhos, Luke e Punho de Ferro rapidamente se ajustaram, mas foi a interação totalmente apoiada no contraponto entre Demolidor e Jessica Jones o elemento que garantiu a dinâmica de alguns episódios.

Há vários pontos interessantes a serem pensados em relação ao enredo. A ideia básica é muito boa, é coerente a forma como os quatro protagonistas se veem em “uma mesma encrenca”, mas é inevitável não pensar que o pequeno número de episódios (apenas oito) é insuficiente para estruturar satisfatoriamente uma trama com vários heróis que vinham de atuações protagonistas. Alguma coisa seria sacrificada. Ou algumas.

Infelizmente, houve o subaproveitamento de personagens coadjuvantes muito bons, como Karen Page (Deborah Ann Woll), do “núcleo Demolidor”. Ficou uma coisa bastante artificial ela protagonizar diálogos um tanto óbvios (o que não é aceitável, dado que se trata de uma mulher bastante astuta e inteligente), chegando até a bancar a inconveniente em várias situações.

Outro ponto bastante estranho foi a trajetória do Tentáculo, grande vilão da trama. Composto por quatro “pilares” (isso não é mera coincidência – quatro vilões, quatro heróis), eu comecei a desenvolver o raciocínio um tanto óbvio (estou usando muito essa palavra neste texto, eu sei) de que cada herói seria confrontado por um dos vilões do Tentáculo, então ver Colleen Wing (Jessica Henwick) fazer o que fez (estou tentando não dar spoilers) no último episódio me deixou, de certa forma, chocada, porque Bakuto (Ramón Rodríguez) tinha sido superior ao Punho de Ferro (Finn Jones) em vários combates anteriores – ou seja, onde está a lógica? Colleen conseguiu fazer o que o Punho não conseguiu?

Ponta de luxo

Sigourney Weaver como Alexandra, coração do Tentáculo, também teve uma participação competente, porém encerrada prematuramente, a meu ver. Os roteiristas poderiam ter se valido mais da boa interpretação da atriz para conferir mais força à trama, mas, em vez disso, preferiram destacar a presença de Elektra (Élodie Yung) – que já está merecendo sua própria série, diga-se de passagem. Afinal, são muitas contradições dentro de uma mesma personagem, então, penso que seria o caso de desenvolver uma série individual para o “amor assassino” do Demolidor.

Enfim, nada é perfeito. A iniciativa é válida, e eu gostaria que Os Defensores continuasse em outras temporadas, mas com maior número de episódios – a despeito das agendas individuais das outras séries (talvez isso possa ser administrado de forma competente pela Netflix, não sei).

Os Defensores
Criação: Douglas Petrie
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Ação/Crime/Drama
Duração – Temporada 1: 8 episódios (cada um com 1 hora em média)

 

Neil Gaiman | A bela e a adormecida

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Uma nota rápida sobre essa releitura belamente ilustrada, que mescla dois dos contos de fadas mais famosos: A bela adormecida e Branca de Neve e os sete anões.

Essa breve leitura me lembrou uma atividade que fiz durante a minha pós, quando tivemos de reinterpretar algum conto de fada e escolhi justamente A bela adormecida. É sempre bastante interessante trabalhar com esse tipo de exercício de escrita e tive justamente a impressão de que Neil Gaiman estava jogando consigo mesmo enquanto punha em um mesmo contexto Branca e Bela, deixando que elas conduzissem a história e posicionando-se também como um espectador que aguarda para ver onde tudo vai acabar.

A subversão dos papéis de Bela e de sua bruxa (desculpem o spoiler) foi o grande toque dessa releitura, e centrar toda a solução do problema no embate entre as próprias mulheres conferiu à versão de Gaiman um toque bastante pós-moderno (que, aliás, caracteriza a sua produção literária). Trata-se de uma ideia muito bem articulada, com o uso cuidadoso de cada elemento, como o sono, o despertar, a presença dos anões e por aí vai. As peças vão se encaixando em um ritmo muito leve e com bastante coerência.

Ver Bela e Branca juntas também me lembrou a ótima série de quadrinhos da Vertigo chamada As mais belas fábulas, criação da ótima equipe de Bill Willingham, que não apenas revitaliza todo o universo dos contos de fada por meio da linguagem e da estética das HQs, como também contribui para preservar e estimular o interesse permanente pelas origens dessas personagens tão tradicionais.

A bela e a adormecida
Neil Gaiman
Ilustrações de Chris Riddell
Tradução de Renata Pettengill
Editora Rocco
2015
72 páginas

HQ | Corpos

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O grande desafio de uma obra cuja estrutura é grandiosa é justamente manter o seu argumento monumental no decorrer de seu desenvolvimento, culminando com um clímax igualmente impressionante. Corpos, HQ seriada em 8 partes no mercado internacional lançada em 2014 e publicada em volume único no Brasil no mês de junho deste ano, propõe a si mesma essa provocação.

A ideia elaborada por Si Spencer (o mesmo de Hellblazer, A cidade dos demônios) e desenvolvida por seu time de artistas gráficos é instigante e proporciona uma leitura ao mesmo tempo reflexiva e insólita. Li várias resenhas de teor negativo a respeito de Corpos, mas devo dizer que discordo. Trata-se de um bom trabalho, que vale a leitura.

Enredo

Um corpo masculino, nu, com sinais de tortura, mutilação e tudo o mais, é sumariamente encontrado em uma calçada em Londres. Um assassinato bárbaro, sem dúvida. Esse é o ponto de partida para o desenrolar da HQ. Até aí, nada de tão novo, se o mencionado assassinato, com as mesmas características, não se repetisse de tempos em tempos e no mesmo lugar (Inglaterra). Ao leitor, isso é apresentado em quatro momentos: 1890, 1940, 2014 e 2050. Em cada uma dessas épocas, a investigação do crime fica a cargo de uma figura peculiar: o inspetor Edmond Hilinghead, em 1940; o corrupto Charles Whiteman (na verdade, o polonês Karl Weissman), em 1940; a sargento-detetive Shahara Hasan, em 2014; e a jovem Mapplewood em 2050.

A princípio, o argumento é rebuscado. Durante a leitura, eu me peguei pensando se realmente era necessário estabelecer quatro linhas de desenvolvimento simultâneas. No último terço da leitura, entendi o motivo.

Chaves de significação

Corpos mexe com assuntos delicados. Homossexualismo, xenofobia, sexismo e a falta de ética, são os principais temas representados pelas quatro linhas de desenvolvimento da história, por meio de cada um de seus protagonistas. O ponto interessante é que a explicação para os corpos (não vou dar spoliers aqui) é tão grandiosa quanto propõe a ideia inicial do enredo da HQ. Corpos entrega o que promete em relação a isso.

A distribuição de ícones da história e da cultura inglesa no decorrer dos quadrinhos é intencional e contribui de forma positiva para o plano da história. Jack, o estripador, Sherlock Holmes e Winston Churchill são algumas das referências que povoam as páginas de Corpos. Spencer parece querer compor uma homenagem à Inglaterra, seu país, ao levantar uma reflexão sobre os destinos de seu povo ao longo dos séculos por meio de uma HQ com alto grau de elaboração. Não deixa de ser bastante envolvente a ideia de considerar esse tipo de argumento na forma de um produto extremamente pop.

Visual

O trabalho gráfico de Corpos é muito bom em sua concepção. Como leitora, porém, demorei um pouco para me adaptar à mudança estética geral de padrões (cores, traços, fontes e até a distribuição de quadrinhos) de cada era em uma leitura simultânea. Considerei a possibilidade de ler cada etapa separadamente (primeiro toda a parte de 1890; depois, toda a parte de 1940, e assim por diante), mas pensei que o desafio proposto pela equipe criadora fosse exatamente a leitura simultânea das quatro eras, com suas diferenças gritantes e também suas surpreendentes semelhanças.

É notável o cuidado que a Vertigo teve para executar a ideia de Spencer, mas não se pode perder de vista que a complexidade do roteiro certamente contribuiu para muitas incompreensões. É preciso um exame minucioso da história e uma boa reflexão para entender como a união de tantos elementos delicados conduzem à ideia proposta pelo roteirista. Quando finalizei minha leitura (entremeada com pausas), fiquei bem satisfeita.

Corpos
Si Spencer (roteiro) & Dean Ormston (arte da fase 1890); Phil Winslade (arte da fase 1940); Meghan Hetrick (arte da fase 2014); Tula Lotay (arte da fase 2050)
Guilherme da Silva Braga/FD (tradução)
Vertigo / Panini Books
210 páginas

Série | Punho de Ferro

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Este post entra aqui com bastante tempo de atraso, porém ainda antes do mês de agosto, quando a Netflix disponibilizará a primeira temporada de Defensores, o projeto que reunirá Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro em uma mesma série.

Impressões 

Não tenho background dos quadrinhos para falar sobre Punho de Ferro, infelizmente, portanto registro aqui apenas minhas impressões em relação à série em si.

Danny Rand (Finn Jones) é o alter-ego do herói protagonista da série, um jovem que, por ter passado muitos anos isolado em uma cidadela do Himalaia, volta aos EUA para retomar seu lugar e descobrir a verdade sobre a morte de seus pais.

Algumas coisas me chamaram a atenção ao longo dos 13 episódios da primeira temporada da série. A inocência de Rand me pareceu verídica em relação à trajetória do personagem e achei especialmente interessante o modo como essa inocência se encaixa com a insegurança do personagem para afetar a estabilidade de seus poderes.

Da mesma forma, o núcleo dos Meachum, ex-sócios dos pais de Danny Rand nas empresas, contribui positivamente para uma releitura da vilania da série, uma vez que o antagonismo vai migrando entre personagens da família Meachum ao longo dos capítulos.

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Por último, as participações de Colleen Wing (Jessica Henwick), como uma misteriosa companheira para Danny; da enfermeira Claire Temple (a ótima Rosario Dawson); e da advogada Jeri Hogarth (Carrie-Ann Moss), estas últimas “alinhavando” a relação entre as séries dos personagens que vão se reunir em Defensores foram, definitivamente, boas cartadas da Netflix, produtora e emissora de todo esse núcleo da Marvel.

Chuva de críticas

Pelo que notei, entre esses personagens do núcleo Marvel/Netflix, Punho de Ferro foi o aquele cuja série mais sofreu críticas por parte do público especializado. Observações negativas foram desde a interpretação de Finn Jones como protagonista, até mesmo aos efeitos especiais da série. Parece-me, entretanto, que o maior problema de Punho de Ferro foi chegar ao fim de sua primeira temporada sem se firmar em seu próprio universo. Foi o último personagem a chegar, mas ainda está repleto de arestas a serem aparadas (alguns desses problemas constituem conflitos pessoais do herói que até são coerentes), reparos estes que não vão acontecer antes da estreia de Defensores no mês de agosto.

Punho de Ferro
Criação: Scott Buck
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Ação/Crime
Duração – Temporada 1: 13 episódios (cada um com 52 minutos em média)

Cinema | Mulher-Maravilha

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Eu cresci lendo gibis e revistas sobre histórias em quadrinhos. Era muito comum – e desestimulante também – ler reportagens que faziam previsões muito pessimistas sobre a possibilidade de levar para os cinemas especificamente dois personagens: Wolverine e Mulher-Maravilha. Foi, portanto, muito bacana ver os anos passando e constatar que as previsões – nos dois casos – estavam erradas.

No caso da Mulher-Maravilha, foram mais de 70 anos até que a indústria cinematográfica fosse capaz de fazer jus à personagem feminina mais icônica do mundo dos super-heróis. Criada por William Moulton Marston em 1941, Diana de Themyscira, princesa, amazona, semideusa, foi, durante muito tempo, o único contraponto feminino em um mundo dominado por homens, por heróis. Por isso mesmo, em muitos momentos, foi motivo até mesmo de piadas, embora, mesmo secretamente, nas mentes de muitas meninas, ela alimentasse a emancipação feminina. O seu “sacrifício” foi reconhecido: Mulher-Maravilha é embaixadora honorária da Organização das Nações Unidas (ONU), tem o seu dia – 21 de outubro é o Dia Internacional da Mulher-Maravilha – e é, até hoje, uma das maiores representações femininas da cultura pop mundial.

Cinema

Tudo isso constitui motivo mais do que suficiente para alimentar muita expectativa em torno do filme da princesa amazona. E a produção dirigida por Patty Jenkins não decepcionou os fãs. Da série de TV protagonizada pela bela Linda Carter nos últimos anos da década de 1970, até a aventura estrelada pela atriz e modelo israelense Gal Gadot, Mulher-Maravilha cresceu em conteúdo, ganhou conotação social importante, e alcançou papel de destaque nos debates em torno do empoderamento feminino.

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Linda Carter, a Mulher-Maravilha na TV

Em termos cinematográficos, o filme tem se mostrado uma experiência bem-sucedida (mais de 500 milhões de dólares arrecadados em bilheteria até o momento) também por seus méritos técnicos, bem como aqueles diretamente relacionados ao processo de transposição positiva de um personagem das histórias em quadrinhos para a sétima arte. Gal Gadot ressignifica o conceito de Mulher-Maravilha, atualiza sua feminilidade, para isso em muito auxiliada por uma equipe eficiente, que soube aproveitar as referências da personagem original e trabalhar em cima de uma matéria-prima que já era muito boa.

Ganha força no filme o misto de inocência e força concentrada na Mulher-Maravilha personificada por Gal. Ela não esmaga o Steve Trevor interpretado por Chris Pine, porém envolve toda a estrutura do filme de forma muito marcante, sem medo de imprimir o seu toque à personagem.

Todas as mulheres do filme se unem na missão de dar poder ao sexo feminino. Seja pela habilidade marcial de Hipólita (Connie Nielsen) e Antiope (a excelente Robin Wright, da série House of Cards, é uma atração à parte nas batalhas da ilha de Themyscira), seja na tímida participação da secretária Etta (Lucy Davis), ao mesmo tempo cômica, mas esforçada em seu ofício. O antagonismo da Dra. Maru, na pele de Elena Anaya, constitui a primeira barreira, mesmo que indiretamente, no caminho de Diana.

O mal em toda parte

Sem dúvida, é um ponto forte do filme a maneira pela qual o mal disseminado na humanidade é retratado. Ao contrário da ideia ingênua de Diana, Ares, o deus da guerra e a personificação do mal, não está apenas encarnado no militar alemão Ludendorff, mas está presente em cada ser humano, o que confere força ao verdadeiro Ares, capciosamente oculto sob outra identidade. A complexidade demonstrada pelo enredo, ao fazer a heroína perceber que não é possível, literalmente, exterminar o mal pela raiz é uma das grandezas do filme, o que o faz ultrapassar o maniqueísmo simples.

Ao confronto entre bem e mal, contrapõem-se as cenas de humor e de romantismo discreto protagonizadas por uma princesa Diana que é livre para viver suas emoções (não apenas as suas lutas) – mais um passo na direção de um exercício de feminilidade que deve ser a inspiração de toda mulher.

Ficha técnica
Mulher Maravilha
Direção: Patty Jenkins
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Aventura
Duração: 2h21min
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Elena Anaya, Lucy Davis

Maigret | Maigret e seu morto

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Essa aventura do comissário Maigret foi lida em um processo diferenciado. Pela primeira vez, tive acesso aos quadrinhos do comissário da polícia judiciária francesa, em um traço elegante de Philippe Wurm e um roteiro dinâmico, elaborado por Odile Reynaud. Sem dúvida, foi uma experiência interessante e criativa, muito embora a imagem de Maigret pelas mãos de Wurm não corresponda em nada à ideia que eu sempre fiz do comissário – continuo imaginando-o como o ator francês Daniel Cremer, que o viveu nas telas, em um seriado produzido para a televisão francesa.

Até então, meu conhecimento sobre Maigret se resumia à tradução da prosa eficiente de Simenon. E é claro que a leitura em HQ de Maigret e seu morto me motivou a querer ler o texto em prosa. Mesmo porque essa história apresenta uma especificidade em relação às outras aventuras do comissário que li até o momento: aqui, a Sra. Maigret participa bastante da trama, opinando, aconselhando Maigret durante a investigação, e isso deu um toque especial ao enredo, porque ela funciona como um contraponto ao jeito caladão e sóbrio de Maigret em um caso de ritmo dinâmico, repleto de perseguições, violência, desencontros e momentos bem delicados.

O comissário nas telas

Outro ponto bem enriquecedor foi que, logo após a leitura, eu tive a oportunidade de ver o segundo episódio na nova série de Maigret produzida pelo canal iTV, protagonizada por Rowan Atkinson, o famoso Mr. Bean.

Maigret e seu morto foi o segundo episódio da série e eu o assisti assim que finalizei os quadrinhos. Não sabia absolutamente o que esperar, porque estava com várias reservas em relação a como poderia ser a atuação de Atkinson como Maigret, mas devo admitir que fiquei surpresa com o esforço do ator. Seu trabalho é sério e busca persistentemente a sobriedade do personagem das histórias de Simenon, apesar de, em vários momentos, ele se mostrar muito mais sensível do que o Maigret dos livros – li algumas resenhas e entrevistas nas quais Rowan Atkinson afirma que esse traço de sua interpretação foi proposital, para a elaboração de sua releitura de Maigret.

A produção, em si, da iTV é muito boa. O episódio foi muito bem tratado em termos visuais, de ambientes, figurinos, direção de arte e fotografia. Acho que Simenon ficaria contente com esse resultado – só não saberia dizer o que ele pensaria de seu protagonista na pele de Rowan Atkinson.

A história foi bem adaptada para a TV. Notei uma forte preocupação em manter os pontos principais conforme o enredo original, apenas uma ou outra pitada para criar mais efeito na telona. O casal Maigret pareceu-me bem mais jovem em relação ao livro, mas isso não me incomodou. Assim como no livro, também no episódio para a TV a Sra. Maigret tem uma participação relevante e dá um pequeno toque feminino à história (principalmente em relação aos primeiros livros, nos quais ela mal aparece).

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Rowan Atkinson como Maigret

Maigret nunca pega casos fáceis. Suas investigações geralmente conduzem-no a dilemas morais, violência e contrapontos entre vida e morte. Nesse caso não foi diferente, mas, mais uma vez ele se saiu bem sem tentar soluções mirabolantes e sem tentar bancar o super-homem. O morto da história lhe chega ainda nas primeiras páginas da história, mas Maigret realiza seu trabalho com bastante perseverança – algo bem conservado no episódio da TV –, confiando em sua intuição (e na de sua esposa também) para chegar ao âmago do caso. Uma lição de boa investigação.

Maigret e seu morto (HQ)
Georges Simenon
Adaptação e roteiro de Odile Reynaud
Ilustrações de Philippe Wurm
Tradução de Moacyr Gomes Jr.
L&PM Editores
1995 – 48 páginas

Maigret e seu morto (Segundo episódio da série iTV)
Rowan Atkinson como Maigret
Uma produção ITV (Inglaterra)
2016 – 1h28min

HQ | O fantasma de Anya

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A premissa da história de Anya pode não ser das mais brilhantes nem inovadoras: uma adolescente imigrante complexada com seu corpo e desesperada para se encaixar no ambiente escolar secundário norte-americano. Entretanto, Vera Brosgol, com um traço gracioso, uma paleta de cores mórbida, portanto extremamente condizente com o enredo, fazem de O fantasma de Anya uma leitura interessante e divertida em vários momentos.

Chama a atenção a forma pela qual a autora consegue fazer a transição de um mero drama de aceitação adolescente para um thriller psicológico de assassinato. Anya é uma típica personagem adolescente que é obrigada a superar diversos de seus complexos para se livrar de uma situação que pode facilmente colocar sua família em risco.

Ao “fazer amizade” com uma fantasminha chamada Emily, em um encontro ocorrido em condições no mínimo peculiares, Anya começa a fazer desse ser sobrenatural não apenas a sua melhor amiga e conselheira, como também, involuntariamente, faz crescer em Emily a vontade de viver indiretamente a sua vida. O que não é nada bom.

Reviravolta

A talentosa artista gráfica Vera Brosgol sabe muito bem introduzir todas as pistas que vão culminar em um clímax elaborado e tenso para Anya. A transformação de Emily e as descobertas que a protagonista faz sobre o seu passado surpreendem e aumentam o grau de interesse pela história.

A leitura é fluida (uma distribuição de quadros bem eficiente e dinâmica) e começa a se intensificar à medida que Anya se dá conta da encrenca na qual está metida. Um marcador interessante das transformações da história e da mudança – ou melhor, revelação – do verdadeiro caráter de Emily é a alteração de sua aparência. Vera começa a retratá-la com traços menos infantis e mais adolescentes, uma nítida mensagem visual da tentativa de Emily de se aproximar da aparência de Anya.

Uma pena os problemas de impressão do livro, que apresenta várias falhas de registro de cores na impressão, o que não apenas prejudica a qualidade gráfica da obra, como também a nitidez dos traços de Vera Brosgol. Ainda assim, não supera os pontos positivos dessa HQ.

O fantasma de Anya
Vera Brosgol
Tradução de Humberto Moura Neto e Martha Argel
Editora Jangada
223 páginas
2013