Arquivo da categoria: Histórias em Quadrinhos

Série | Os Defensores

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Terminei de assistir ao último capítulo da primeira temporada de Os Defensores com certo alívio. A meu ver, a proposta inicial da série (um tanto ousada, inclusive) foi cumprida: juntar quatro heróis que já haviam aparecido em séries individuais em uma mesma trama com coerência. Sim, houve alguns problemas no processo, mas creio que todo o público que, anteriormente, já havia acompanhado as duas primeiras temporadas de Demolidor (Charlie Cox), e as primeiras temporadas de Jessica Jones (Krysten Ritter), Luke Cage (Mike Colter) e Punho de Ferro (Finn Jones) já esperavam por isso.

Enredo

Uma das coisas que fizeram com que a série de fato conseguisse entregar o que seus produtores haviam prometido foi um enredo coerente, nem que para isso fosse necessário criar “subnúcleos” entre os protagonistas. Aproveitando o gancho dos Heróis de Aluguel dos quadrinhos, Luke e Punho de Ferro rapidamente se ajustaram, mas foi a interação totalmente apoiada no contraponto entre Demolidor e Jessica Jones o elemento que garantiu a dinâmica de alguns episódios.

Há vários pontos interessantes a serem pensados em relação ao enredo. A ideia básica é muito boa, é coerente a forma como os quatro protagonistas se veem em “uma mesma encrenca”, mas é inevitável não pensar que o pequeno número de episódios (apenas oito) é insuficiente para estruturar satisfatoriamente uma trama com vários heróis que vinham de atuações protagonistas. Alguma coisa seria sacrificada. Ou algumas.

Infelizmente, houve o subaproveitamento de personagens coadjuvantes muito bons, como Karen Page (Deborah Ann Woll), do “núcleo Demolidor”. Ficou uma coisa bastante artificial ela protagonizar diálogos um tanto óbvios (o que não é aceitável, dado que se trata de uma mulher bastante astuta e inteligente), chegando até a bancar a inconveniente em várias situações.

Outro ponto bastante estranho foi a trajetória do Tentáculo, grande vilão da trama. Composto por quatro “pilares” (isso não é mera coincidência – quatro vilões, quatro heróis), eu comecei a desenvolver o raciocínio um tanto óbvio (estou usando muito essa palavra neste texto, eu sei) de que cada herói seria confrontado por um dos vilões do Tentáculo, então ver Colleen Wing (Jessica Henwick) fazer o que fez (estou tentando não dar spoilers) no último episódio me deixou, de certa forma, chocada, porque Bakuto (Ramón Rodríguez) tinha sido superior ao Punho de Ferro (Finn Jones) em vários combates anteriores – ou seja, onde está a lógica? Colleen conseguiu fazer o que o Punho não conseguiu?

Ponta de luxo

Sigourney Weaver como Alexandra, coração do Tentáculo, também teve uma participação competente, porém encerrada prematuramente, a meu ver. Os roteiristas poderiam ter se valido mais da boa interpretação da atriz para conferir mais força à trama, mas, em vez disso, preferiram destacar a presença de Elektra (Élodie Yung) – que já está merecendo sua própria série, diga-se de passagem. Afinal, são muitas contradições dentro de uma mesma personagem, então, penso que seria o caso de desenvolver uma série individual para o “amor assassino” do Demolidor.

Enfim, nada é perfeito. A iniciativa é válida, e eu gostaria que Os Defensores continuasse em outras temporadas, mas com maior número de episódios – a despeito das agendas individuais das outras séries (talvez isso possa ser administrado de forma competente pela Netflix, não sei).

Os Defensores
Criação: Douglas Petrie
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Ação/Crime/Drama
Duração – Temporada 1: 8 episódios (cada um com 1 hora em média)

 

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Neil Gaiman | A bela e a adormecida

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Uma nota rápida sobre essa releitura belamente ilustrada, que mescla dois dos contos de fadas mais famosos: A bela adormecida e Branca de Neve e os sete anões.

Essa breve leitura me lembrou uma atividade que fiz durante a minha pós, quando tivemos de reinterpretar algum conto de fada e escolhi justamente A bela adormecida. É sempre bastante interessante trabalhar com esse tipo de exercício de escrita e tive justamente a impressão de que Neil Gaiman estava jogando consigo mesmo enquanto punha em um mesmo contexto Branca e Bela, deixando que elas conduzissem a história e posicionando-se também como um espectador que aguarda para ver onde tudo vai acabar.

A subversão dos papéis de Bela e de sua bruxa (desculpem o spoiler) foi o grande toque dessa releitura, e centrar toda a solução do problema no embate entre as próprias mulheres conferiu à versão de Gaiman um toque bastante pós-moderno (que, aliás, caracteriza a sua produção literária). Trata-se de uma ideia muito bem articulada, com o uso cuidadoso de cada elemento, como o sono, o despertar, a presença dos anões e por aí vai. As peças vão se encaixando em um ritmo muito leve e com bastante coerência.

Ver Bela e Branca juntas também me lembrou a ótima série de quadrinhos da Vertigo chamada As mais belas fábulas, criação da ótima equipe de Bill Willingham, que não apenas revitaliza todo o universo dos contos de fada por meio da linguagem e da estética das HQs, como também contribui para preservar e estimular o interesse permanente pelas origens dessas personagens tão tradicionais.

A bela e a adormecida
Neil Gaiman
Ilustrações de Chris Riddell
Tradução de Renata Pettengill
Editora Rocco
2015
72 páginas

HQ | Corpos

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O grande desafio de uma obra cuja estrutura é grandiosa é justamente manter o seu argumento monumental no decorrer de seu desenvolvimento, culminando com um clímax igualmente impressionante. Corpos, HQ seriada em 8 partes no mercado internacional lançada em 2014 e publicada em volume único no Brasil no mês de junho deste ano, propõe a si mesma essa provocação.

A ideia elaborada por Si Spencer (o mesmo de Hellblazer, A cidade dos demônios) e desenvolvida por seu time de artistas gráficos é instigante e proporciona uma leitura ao mesmo tempo reflexiva e insólita. Li várias resenhas de teor negativo a respeito de Corpos, mas devo dizer que discordo. Trata-se de um bom trabalho, que vale a leitura.

Enredo

Um corpo masculino, nu, com sinais de tortura, mutilação e tudo o mais, é sumariamente encontrado em uma calçada em Londres. Um assassinato bárbaro, sem dúvida. Esse é o ponto de partida para o desenrolar da HQ. Até aí, nada de tão novo, se o mencionado assassinato, com as mesmas características, não se repetisse de tempos em tempos e no mesmo lugar (Inglaterra). Ao leitor, isso é apresentado em quatro momentos: 1890, 1940, 2014 e 2050. Em cada uma dessas épocas, a investigação do crime fica a cargo de uma figura peculiar: o inspetor Edmond Hilinghead, em 1940; o corrupto Charles Whiteman (na verdade, o polonês Karl Weissman), em 1940; a sargento-detetive Shahara Hasan, em 2014; e a jovem Mapplewood em 2050.

A princípio, o argumento é rebuscado. Durante a leitura, eu me peguei pensando se realmente era necessário estabelecer quatro linhas de desenvolvimento simultâneas. No último terço da leitura, entendi o motivo.

Chaves de significação

Corpos mexe com assuntos delicados. Homossexualismo, xenofobia, sexismo e a falta de ética, são os principais temas representados pelas quatro linhas de desenvolvimento da história, por meio de cada um de seus protagonistas. O ponto interessante é que a explicação para os corpos (não vou dar spoliers aqui) é tão grandiosa quanto propõe a ideia inicial do enredo da HQ. Corpos entrega o que promete em relação a isso.

A distribuição de ícones da história e da cultura inglesa no decorrer dos quadrinhos é intencional e contribui de forma positiva para o plano da história. Jack, o estripador, Sherlock Holmes e Winston Churchill são algumas das referências que povoam as páginas de Corpos. Spencer parece querer compor uma homenagem à Inglaterra, seu país, ao levantar uma reflexão sobre os destinos de seu povo ao longo dos séculos por meio de uma HQ com alto grau de elaboração. Não deixa de ser bastante envolvente a ideia de considerar esse tipo de argumento na forma de um produto extremamente pop.

Visual

O trabalho gráfico de Corpos é muito bom em sua concepção. Como leitora, porém, demorei um pouco para me adaptar à mudança estética geral de padrões (cores, traços, fontes e até a distribuição de quadrinhos) de cada era em uma leitura simultânea. Considerei a possibilidade de ler cada etapa separadamente (primeiro toda a parte de 1890; depois, toda a parte de 1940, e assim por diante), mas pensei que o desafio proposto pela equipe criadora fosse exatamente a leitura simultânea das quatro eras, com suas diferenças gritantes e também suas surpreendentes semelhanças.

É notável o cuidado que a Vertigo teve para executar a ideia de Spencer, mas não se pode perder de vista que a complexidade do roteiro certamente contribuiu para muitas incompreensões. É preciso um exame minucioso da história e uma boa reflexão para entender como a união de tantos elementos delicados conduzem à ideia proposta pelo roteirista. Quando finalizei minha leitura (entremeada com pausas), fiquei bem satisfeita.

Corpos
Si Spencer (roteiro) & Dean Ormston (arte da fase 1890); Phil Winslade (arte da fase 1940); Meghan Hetrick (arte da fase 2014); Tula Lotay (arte da fase 2050)
Guilherme da Silva Braga/FD (tradução)
Vertigo / Panini Books
210 páginas

Série | Punho de Ferro

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Este post entra aqui com bastante tempo de atraso, porém ainda antes do mês de agosto, quando a Netflix disponibilizará a primeira temporada de Defensores, o projeto que reunirá Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro em uma mesma série.

Impressões 

Não tenho background dos quadrinhos para falar sobre Punho de Ferro, infelizmente, portanto registro aqui apenas minhas impressões em relação à série em si.

Danny Rand (Finn Jones) é o alter-ego do herói protagonista da série, um jovem que, por ter passado muitos anos isolado em uma cidadela do Himalaia, volta aos EUA para retomar seu lugar e descobrir a verdade sobre a morte de seus pais.

Algumas coisas me chamaram a atenção ao longo dos 13 episódios da primeira temporada da série. A inocência de Rand me pareceu verídica em relação à trajetória do personagem e achei especialmente interessante o modo como essa inocência se encaixa com a insegurança do personagem para afetar a estabilidade de seus poderes.

Da mesma forma, o núcleo dos Meachum, ex-sócios dos pais de Danny Rand nas empresas, contribui positivamente para uma releitura da vilania da série, uma vez que o antagonismo vai migrando entre personagens da família Meachum ao longo dos capítulos.

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Por último, as participações de Colleen Wing (Jessica Henwick), como uma misteriosa companheira para Danny; da enfermeira Claire Temple (a ótima Rosario Dawson); e da advogada Jeri Hogarth (Carrie-Ann Moss), estas últimas “alinhavando” a relação entre as séries dos personagens que vão se reunir em Defensores foram, definitivamente, boas cartadas da Netflix, produtora e emissora de todo esse núcleo da Marvel.

Chuva de críticas

Pelo que notei, entre esses personagens do núcleo Marvel/Netflix, Punho de Ferro foi o aquele cuja série mais sofreu críticas por parte do público especializado. Observações negativas foram desde a interpretação de Finn Jones como protagonista, até mesmo aos efeitos especiais da série. Parece-me, entretanto, que o maior problema de Punho de Ferro foi chegar ao fim de sua primeira temporada sem se firmar em seu próprio universo. Foi o último personagem a chegar, mas ainda está repleto de arestas a serem aparadas (alguns desses problemas constituem conflitos pessoais do herói que até são coerentes), reparos estes que não vão acontecer antes da estreia de Defensores no mês de agosto.

Punho de Ferro
Criação: Scott Buck
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Ação/Crime
Duração – Temporada 1: 13 episódios (cada um com 52 minutos em média)

Cinema | Mulher-Maravilha

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Eu cresci lendo gibis e revistas sobre histórias em quadrinhos. Era muito comum – e desestimulante também – ler reportagens que faziam previsões muito pessimistas sobre a possibilidade de levar para os cinemas especificamente dois personagens: Wolverine e Mulher-Maravilha. Foi, portanto, muito bacana ver os anos passando e constatar que as previsões – nos dois casos – estavam erradas.

No caso da Mulher-Maravilha, foram mais de 70 anos até que a indústria cinematográfica fosse capaz de fazer jus à personagem feminina mais icônica do mundo dos super-heróis. Criada por William Moulton Marston em 1941, Diana de Themyscira, princesa, amazona, semideusa, foi, durante muito tempo, o único contraponto feminino em um mundo dominado por homens, por heróis. Por isso mesmo, em muitos momentos, foi motivo até mesmo de piadas, embora, mesmo secretamente, nas mentes de muitas meninas, ela alimentasse a emancipação feminina. O seu “sacrifício” foi reconhecido: Mulher-Maravilha é embaixadora honorária da Organização das Nações Unidas (ONU), tem o seu dia – 21 de outubro é o Dia Internacional da Mulher-Maravilha – e é, até hoje, uma das maiores representações femininas da cultura pop mundial.

Cinema

Tudo isso constitui motivo mais do que suficiente para alimentar muita expectativa em torno do filme da princesa amazona. E a produção dirigida por Patty Jenkins não decepcionou os fãs. Da série de TV protagonizada pela bela Linda Carter nos últimos anos da década de 1970, até a aventura estrelada pela atriz e modelo israelense Gal Gadot, Mulher-Maravilha cresceu em conteúdo, ganhou conotação social importante, e alcançou papel de destaque nos debates em torno do empoderamento feminino.

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Linda Carter, a Mulher-Maravilha na TV

Em termos cinematográficos, o filme tem se mostrado uma experiência bem-sucedida (mais de 500 milhões de dólares arrecadados em bilheteria até o momento) também por seus méritos técnicos, bem como aqueles diretamente relacionados ao processo de transposição positiva de um personagem das histórias em quadrinhos para a sétima arte. Gal Gadot ressignifica o conceito de Mulher-Maravilha, atualiza sua feminilidade, para isso em muito auxiliada por uma equipe eficiente, que soube aproveitar as referências da personagem original e trabalhar em cima de uma matéria-prima que já era muito boa.

Ganha força no filme o misto de inocência e força concentrada na Mulher-Maravilha personificada por Gal. Ela não esmaga o Steve Trevor interpretado por Chris Pine, porém envolve toda a estrutura do filme de forma muito marcante, sem medo de imprimir o seu toque à personagem.

Todas as mulheres do filme se unem na missão de dar poder ao sexo feminino. Seja pela habilidade marcial de Hipólita (Connie Nielsen) e Antiope (a excelente Robin Wright, da série House of Cards, é uma atração à parte nas batalhas da ilha de Themyscira), seja na tímida participação da secretária Etta (Lucy Davis), ao mesmo tempo cômica, mas esforçada em seu ofício. O antagonismo da Dra. Maru, na pele de Elena Anaya, constitui a primeira barreira, mesmo que indiretamente, no caminho de Diana.

O mal em toda parte

Sem dúvida, é um ponto forte do filme a maneira pela qual o mal disseminado na humanidade é retratado. Ao contrário da ideia ingênua de Diana, Ares, o deus da guerra e a personificação do mal, não está apenas encarnado no militar alemão Ludendorff, mas está presente em cada ser humano, o que confere força ao verdadeiro Ares, capciosamente oculto sob outra identidade. A complexidade demonstrada pelo enredo, ao fazer a heroína perceber que não é possível, literalmente, exterminar o mal pela raiz é uma das grandezas do filme, o que o faz ultrapassar o maniqueísmo simples.

Ao confronto entre bem e mal, contrapõem-se as cenas de humor e de romantismo discreto protagonizadas por uma princesa Diana que é livre para viver suas emoções (não apenas as suas lutas) – mais um passo na direção de um exercício de feminilidade que deve ser a inspiração de toda mulher.

Ficha técnica
Mulher Maravilha
Direção: Patty Jenkins
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Aventura
Duração: 2h21min
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Elena Anaya, Lucy Davis

Maigret | Maigret e seu morto

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Essa aventura do comissário Maigret foi lida em um processo diferenciado. Pela primeira vez, tive acesso aos quadrinhos do comissário da polícia judiciária francesa, em um traço elegante de Philippe Wurm e um roteiro dinâmico, elaborado por Odile Reynaud. Sem dúvida, foi uma experiência interessante e criativa, muito embora a imagem de Maigret pelas mãos de Wurm não corresponda em nada à ideia que eu sempre fiz do comissário – continuo imaginando-o como o ator francês Daniel Cremer, que o viveu nas telas, em um seriado produzido para a televisão francesa.

Até então, meu conhecimento sobre Maigret se resumia à tradução da prosa eficiente de Simenon. E é claro que a leitura em HQ de Maigret e seu morto me motivou a querer ler o texto em prosa. Mesmo porque essa história apresenta uma especificidade em relação às outras aventuras do comissário que li até o momento: aqui, a Sra. Maigret participa bastante da trama, opinando, aconselhando Maigret durante a investigação, e isso deu um toque especial ao enredo, porque ela funciona como um contraponto ao jeito caladão e sóbrio de Maigret em um caso de ritmo dinâmico, repleto de perseguições, violência, desencontros e momentos bem delicados.

O comissário nas telas

Outro ponto bem enriquecedor foi que, logo após a leitura, eu tive a oportunidade de ver o segundo episódio na nova série de Maigret produzida pelo canal iTV, protagonizada por Rowan Atkinson, o famoso Mr. Bean.

Maigret e seu morto foi o segundo episódio da série e eu o assisti assim que finalizei os quadrinhos. Não sabia absolutamente o que esperar, porque estava com várias reservas em relação a como poderia ser a atuação de Atkinson como Maigret, mas devo admitir que fiquei surpresa com o esforço do ator. Seu trabalho é sério e busca persistentemente a sobriedade do personagem das histórias de Simenon, apesar de, em vários momentos, ele se mostrar muito mais sensível do que o Maigret dos livros – li algumas resenhas e entrevistas nas quais Rowan Atkinson afirma que esse traço de sua interpretação foi proposital, para a elaboração de sua releitura de Maigret.

A produção, em si, da iTV é muito boa. O episódio foi muito bem tratado em termos visuais, de ambientes, figurinos, direção de arte e fotografia. Acho que Simenon ficaria contente com esse resultado – só não saberia dizer o que ele pensaria de seu protagonista na pele de Rowan Atkinson.

A história foi bem adaptada para a TV. Notei uma forte preocupação em manter os pontos principais conforme o enredo original, apenas uma ou outra pitada para criar mais efeito na telona. O casal Maigret pareceu-me bem mais jovem em relação ao livro, mas isso não me incomodou. Assim como no livro, também no episódio para a TV a Sra. Maigret tem uma participação relevante e dá um pequeno toque feminino à história (principalmente em relação aos primeiros livros, nos quais ela mal aparece).

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Rowan Atkinson como Maigret

Maigret nunca pega casos fáceis. Suas investigações geralmente conduzem-no a dilemas morais, violência e contrapontos entre vida e morte. Nesse caso não foi diferente, mas, mais uma vez ele se saiu bem sem tentar soluções mirabolantes e sem tentar bancar o super-homem. O morto da história lhe chega ainda nas primeiras páginas da história, mas Maigret realiza seu trabalho com bastante perseverança – algo bem conservado no episódio da TV –, confiando em sua intuição (e na de sua esposa também) para chegar ao âmago do caso. Uma lição de boa investigação.

Maigret e seu morto (HQ)
Georges Simenon
Adaptação e roteiro de Odile Reynaud
Ilustrações de Philippe Wurm
Tradução de Moacyr Gomes Jr.
L&PM Editores
1995 – 48 páginas

Maigret e seu morto (Segundo episódio da série iTV)
Rowan Atkinson como Maigret
Uma produção ITV (Inglaterra)
2016 – 1h28min

HQ | O fantasma de Anya

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A premissa da história de Anya pode não ser das mais brilhantes nem inovadoras: uma adolescente imigrante complexada com seu corpo e desesperada para se encaixar no ambiente escolar secundário norte-americano. Entretanto, Vera Brosgol, com um traço gracioso, uma paleta de cores mórbida, portanto extremamente condizente com o enredo, fazem de O fantasma de Anya uma leitura interessante e divertida em vários momentos.

Chama a atenção a forma pela qual a autora consegue fazer a transição de um mero drama de aceitação adolescente para um thriller psicológico de assassinato. Anya é uma típica personagem adolescente que é obrigada a superar diversos de seus complexos para se livrar de uma situação que pode facilmente colocar sua família em risco.

Ao “fazer amizade” com uma fantasminha chamada Emily, em um encontro ocorrido em condições no mínimo peculiares, Anya começa a fazer desse ser sobrenatural não apenas a sua melhor amiga e conselheira, como também, involuntariamente, faz crescer em Emily a vontade de viver indiretamente a sua vida. O que não é nada bom.

Reviravolta

A talentosa artista gráfica Vera Brosgol sabe muito bem introduzir todas as pistas que vão culminar em um clímax elaborado e tenso para Anya. A transformação de Emily e as descobertas que a protagonista faz sobre o seu passado surpreendem e aumentam o grau de interesse pela história.

A leitura é fluida (uma distribuição de quadros bem eficiente e dinâmica) e começa a se intensificar à medida que Anya se dá conta da encrenca na qual está metida. Um marcador interessante das transformações da história e da mudança – ou melhor, revelação – do verdadeiro caráter de Emily é a alteração de sua aparência. Vera começa a retratá-la com traços menos infantis e mais adolescentes, uma nítida mensagem visual da tentativa de Emily de se aproximar da aparência de Anya.

Uma pena os problemas de impressão do livro, que apresenta várias falhas de registro de cores na impressão, o que não apenas prejudica a qualidade gráfica da obra, como também a nitidez dos traços de Vera Brosgol. Ainda assim, não supera os pontos positivos dessa HQ.

O fantasma de Anya
Vera Brosgol
Tradução de Humberto Moura Neto e Martha Argel
Editora Jangada
223 páginas
2013

Série | Luke Cage

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“Antes de ser à prova de balas, ele é negro.” Esta foi uma das frases emblemáticas que, em mais de uma ocasião, marcou a trajetória do herói da Marvel Luke Cage, que ganhou a primeira temporada de sua série pela Netflix, rede de produção/distribuição de conteúdo de filmes e séries via streaming para assinantes.

As críticas à série foram muitas. Contrariamente às suas predecessoras, Demolidor e Jessica Jones, o ritmo da trama de Luke Cage começa de forma bastante morosa. O elenco é predominantemente negro, e os episódios são premiados com uma trilha sonora realmente muito boa. Tudo bastante coerente dentro da proposta oferecida pela série.

Confesso que assisti aos primeiros três episódios apenas impulsionada pela necessidade de conhecer melhor o personagem – que, aliás, combinou bastante com Mike Colter, que já o tinha apresentado em alguns episódios de Jessica Jones –, mas, de um dado momento em diante, eu me lamentei não ter tido a chance de ler HQs de Luke Cage antes ver o seriado.

Viés social

Como um diferencial em relação às produções individuais de Demolidor e Jessica Jones – os quais, ao lado de Cage e de Punho de Ferro, vão compor a série derivada Defensores (com estreia prevista para o segundo semestre deste ano) –, Luke Cage apresenta um acentuado teor sociopolítico. As constantes referências a personagens históricas da luta pela emancipação e igualdade racial, como Malcolm X e Martin Luther King, por exemplo, atribuem peso ao conteúdo dos episódios. Palmas para o roteiro bem estruturado e destemido, no que se refere a tocar em assuntos delicados, como raça, religião, criminalidade e política. Cage é um herói que carrega o peso de suas origens no Harlem, conhecido reduto sociocultural negro norte-americano, e de sua raça, fatores ainda vistos como socialmente agravantes.

A consistente personagem interpretada por Rosario Dawson, a enfermeira Claire Temple, mais uma vez atua como elo entre as séries, acumulando participações em Demolidor, em Jessica Jones e, agora, em Luke Cage. Se no seriado de Jessica a participação de Claire teve um gancho bastante artificial, em Luke Cage ela se revela crucial para o percurso do herói, atuando em 9 dos 13 episódios da temporada, superando de longe a participação da detetive Misty Knight, interpretada por Simone Missick, a qual eu espero que seja melhor aproveitada na segunda temporada, bem como em Defensores.

Apesar de ser uma criação da Marvel e de vir do mundo das histórias em quadrinhos, Luke Cage mantém fortemente os pés no chão, em uma realidade dominada por preconceitos tão mundialmente conhecidos ao longo de décadas, e suas pitadas de fantasia são diluídas em um drama interno extremamente humano. Seu heroísmo esbarra antes em suas deficiências como ser humano, para depois alcançar sua dimensão como super-humano. Que venha a segunda temporada.

Luke Cage
Criação: Cheo Hodari Coker
Ano: 2016
País: EUA
Gênero: Ação/Crime/Drama
Duração – Temporada 1: 13 episódios (cada um com 1 hora em média)

Leituras | Balanço de 2016

Primeiro post de 2017 e é hora de comentar as leituras do ano anterior. Em janeiro do ano passado, publiquei uma pequena lista de livros como meta para 2016 (que pode ser consultada neste link). Entretanto, apesar dos 58 livros lidos nos últimos doze meses, essa lista não foi totalmente contemplada. Isso porque li títulos emprestados e também outros que fazem parte de projetos deste blog, como a bibliografia policial de Agatha Christie, as aventuras de Maigret e a série Discworld, por exemplo.

Também em 2016 foi tempo de consolidar o projeto de releitura de obras infantojuvenis que fizeram parte do meu desenvolvimento como leitora. Fazem parte desse projeto os títulos da Série Vaga-Lume, dos quais todas as aventuras dos detetives Léo, Ângela e Gino foram resenhadas. Terminando a saga dos jovens detetives de Marcos Rey, comecei as acompanhar novamente as aventuras dos Irmãos Encrenca, Marco, Eloís e Isabel, criados por Stella Carr (aventuras que ainda estão em andamento aqui no blog) e continuo resenhando títulos da Série Vaga-Lume.

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As quatro aventuras dos detetives de Marcos Rey resenhadas em 2016. Crédito da foto: Blog Estação com Cor

Durante o ano passado, também fiz leituras de obras recomendadas pela Tag Experiências Literárias – aliás, fazer parte de um clube de assinatura de livros é algo pelo que toda pessoa fascinada por livros precisa passar. E vieram da Tag algumas das melhores leituras que fiz em 2016. Tenho uma categoria para a Tag aqui no blog, para consultas em caso de interesse.

Da lista inicial proposta no início de 2016, foram lidos os seguintes títulos:

Se vivêssemos em um lugar normal (Juan Pablo Villalobos) (comentado aqui);

Um teto todo seu (Virginia Woolf);

Convergente (Verônica Roth);

Coisas Frágeis 2 (Neil Gaiman);

O chinês americano (Gene Luen Yang) (comentado aqui);

Lavoura arcaica (Raduan Nassar) (comentado aqui);

O falcão maltês (Dashiell Hammett) (comentado aqui);

Contos de amor, loucura e morte (Horacio Quiroga);

Quatro (Verônica Roth).

Infelizmente, não cheguei a fazer resenhas sobre todos eles aqui no blog – a falta de organização não me permitiu. Mas perdoem, porque vou falar brevemente sobre algumas delas agora.

Contos

Em 2016, li apenas três livros de contos: Doze contos peregrinos (Gabriel García-Marquez), recomendado pela Tag; Coisas Frágeis 2 (Neil Gaiman) e Contos de amor, loucura e morte (Horacio Quiroga), esses dois últimos presentes na minha meta inicial para o ano.

Dos três livros, o que menos me marcou foi o de mestre Gaiman, infelizmente. Coisas Frágeis 1 é realmente superior ao seu sucessor e preciso admitir que fui realmente envolvida pelos contos de García-Marquez e do uruguaio Quiroga. Há, de fato, algumas narrativas excelentes nesses dois livros.

HQs

No ano de 2016, voltei a acompanhar um pouco do universo das histórias em quadrinhos. Li várias coisas interessantes em revistas mensais do Mickey (trabalhos da Disney italiana) e novidades da Marvel, Vertido e DC.

No âmbito das graphic novels, três destaques: O chinês americano (Gene Luen Yang); Bordados (Marjane Satrapi) e Batman Noël (Lee Bermejo).

Sobre Bordados, embora eu tenha lido várias resenhas não tão positivas sobre esse trabalho quanto as que li sobre Persépolis (também comentado aqui), reconheço nessa singela história um trabalho menos pretensioso e não tão elaborado quanto a obra-prima de Marjane, mas muito interessante, principalmente no que se refere à importante tarefa de falar sobre o papel da mulher no Oriente Médio.

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Já o Batman Noël de Lee Bermejo é uma releitura poderosa de Um conto de Natal, de Charles Dickens. Um respiro criativo no ambiente massivo das histórias em quadrinhos, utilizando-se de uma fonte clássica da literatura e com um visual simplesmente espetacular, ainda mais valorizado pelo trabalho da colorista italiana Barbara Ciardo.

Pretendo incluir os livros não lidos da lista de 2016 – sete títulos – na programação de leitura de 2017. Por precaução, provavelmente não vou elaborar uma nova lista, mas devo prosseguir com todos os projetos do blog e conciliar, sempre que possível, as leituras dos livros emprestados.

Dois pontos positivos das leituras de 2016 foi a diversidade de assuntos que consegui contemplar (mas isso ainda pode ser melhorado) e também a periodicidade – pela primeira vez, em mais de oito anos de blog, consegui, ao longo de um ano inteiro, postar um texto por semana, algo que também pretendo manter em 2017.

HQ | O chinês americano

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Para apresentar O chinês americano, posso começar dizendo o que todos os textos de divulgação dessa obra ressaltam: trata-se do primeiro álbum de quadrinhos a ser indicado ao National Book Award, um dos mais prestigiosos prêmios literários do mundo. E não é para menos: a graphic novel de Gene Luen Yang ultrapassa os limites tradicionais de uma HQ e brinca com conceitos literários de narratividade, ao contar três histórias que elaboradamente vão se entrelaçando para criar um fim brilhante.

Acredito que o principal mérito desse trabalho seja justamente esse: criar uma obra híbrida, que mescla de maneira muito bem-sucedida os traços das histórias em quadrinhos com os conceitos da literatura, caprichando na arte de desenvolver uma trama com três protagonistas, à primeira vista, bastante diferentes: Jin Wang, um jovem estudante chinês filho de imigrantes; Danny, um garoto bem popular em sua escola, mas que, todos os anos, sofre de vergonha com a visita de seu primo chinês Chin-Kee; e, finalmente, o Rei Macaco, lendária criatura da mitologia do Oriente.

O autor ressignifica a lenda do Rei Macaco de maneira impressionante, modernizando-a e aproximando-a dos dramas da sociedade moderna. A forma de contar as três histórias, inicialmente separadas e, depois, juntas, é algo de muito interessante, um recurso que demonstra o alto grau de domínio técnico do autor, não apenas do recurso da imagem como texto visual, mas também da estrutura de uma “graphic novel 3 em 1”, ou seja, diferenciada já em sua concepção.

Também considero importante destacar a forma inteligente e bem-humorada com a qual o autor trata de um assunto extremamente delicado: o preconceito de raça – algo que hoje se estende a praticamente todas as esferas do convívio humano (infelizmente). Há uma seriedade que confere a O chinês americano um argumento denso, realmente substancioso, e é fantástico que esse tipo de conteúdo seja abordado em uma graphic novel de traço lúdico, divertido, colorido e dinâmico.

O chinês americano
Gene Luen Yang
Tradução de Beth Vieira
Cores de Lark Pien
Companhia das Letras
239 páginas
2006