Arquivo da categoria: Estudos e pesquisas

Personalidades | Marie Curie

 

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Fiquei simplesmente fascinada com a história de vida de Maria Sklodowska, polonesa de nascimento, que se tornou mundialmente conhecida como Marie Curie (1867-1934).

Trajetória 

Eu me emocionei com a tenacidade dessa mulher, que não apenas teve de superar as limitações técnicas do mundo científico de seu tempo, como também precisou enfrentar a resistência de uma sociedade patriarcal que se opôs ferozmente ao seu trabalho. Mesmo assim, Marie conseguiu se formar com méritos em Física e em Matemática pela Sorbonne e deu início às pesquisas sobre radioatividade.

Conquistas

Ao lado de seu marido, o também cientista Pierre Curie (1859-1906), Marie desenvolveu importantes estudos que culminaram com o Prêmio Nobel de Física, em 1903, a partir de uma descoberta feita por acaso por Antoine Becquerel que conduziu Marie à descoberta de dois novos elementos da tabela periódica: o polônio (batizado em homenagem à sua terra natal) e o rádio.

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Entretanto, foi depois da morte prematura de seu marido que Marie precisou de toda a perseverança para seguir com seu trabalho. Se antes a cientista já havia passado por situações nas quais teve de deixar que Pierre se apresentasse sozinho, pois mulheres não eram aceitas em eventos acadêmicos, agora Marie precisava de muita coragem e disciplina para continuar suas pesquisas. E foi nessa fase que ela conquistou o segundo Nobel, agora em Química.

 

Marie Curie foi não apenas a primeira mulher a ser premiada com o Nobel, como também é a única pessoa do mundo a ter dois prêmios em áreas afins. Como se não bastasse tudo isso, ela também é a única pessoa a ter um parente também laureado com o Nobel: sua filha mais velha, Irène Joliot-Curie (1897-1956), ganhou o Nobel de Química em 1935, ao lado de seu marido, Frédéric Joliot-Curie (1900-1958).

Curiosidade

Em 1944, uma equipe de pesquisadores norte-americanos descobriu o cúrio, outro elemento da tabela periódica, e o batizou dessa forma em homenagem ao casal Curie.

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Estante | Títulos

Resolvi criar essa categoria aqui no blog para encaixar determinadas curiosidades sobre os livros que tenho. Assuntos que, apesar de guardarem sua carga de interesse, não se encaixam em outras “seções” que já consolidei aqui.

Começo, então, por uma parte muito importante de cada obra literária: o título. Confesso que já me interessei profundamente por determinados livros a partir de seus títulos. Não é algo que acontece sempre, mas sempre considero um episódio curioso quando isso acontece.

Assim, selecionei alguns títulos que valem a menção ou por sua beleza, ou pela curiosidade que provocam, ou ainda por seu teor inusitado. Vamos lá!

cronica_da_estacao_das_chuvas_1242073909bCrônica da estação das chuvas (Nagai Kafu) – Este é um dos títulos mais bonitos que já vi. Este livro de Nagai Kafu também conta uma história interessante sobre a vida noturna japonesa do início do século XX, ambientada nas ruas de Tóquio e nas casas de chá. Uma leitura que fiz há muitos anos, mas que vale uma releitura a qualquer hora.

Digam a Satã que o recado foi entendido (Daniel Pelizzari) – Sem dúvida, este é o título mais inusitado da minha estante. Esta trama contemporânea conduzida por Pelizzari se passa em Dublin, na Irlanda, e mistura assuntos completamente diferentes entre si, com um efeito pós-moderno e uma sensação de algo sempre está escapando pelas páginas…

Antes do baile verde (Lygia Fagundes Telles) – O que dizer de um dos maiores nomes de nossa literatura? O título deste livro de contos é poético e mexe com a ideia de figuras de linguagem e, ao mesmo tempo, instiga a leitura.

O livro do cemitério (Neil Gaiman) – Esse título é mórbido e curioso. Gosto dele. Aliás, Gaiman é um dos meus escritores favoritos e este é um de seus melhores livros em minha opinião. Já escrevi sobre ele aqui no blog.

12165_ggCinzas do Norte (Milton Hatoum) – Não é o meu livro favorito do mestre Hatoum (já falei sobre ele aqui), mas, sem dúvida, é o título que mais mexe comigo entre suas obras. O interessante é que esse título, em si, não diz muita coisa, mas é extremamente bonito a meu ver. Está à altura de uma bela história, sem dúvida alguma.

As filhas sem nome (Xinran) – Também já falei sobre este livro aqui no blog, mas não podia deixar de incluir esse título tão forte neste pequeno levantamento. Pensar em uma pessoa sem nome, para mim, é pensar em alguém sem identidade. Alguém que, necessariamente, não existe para efeitos legais e que não é sujeito de suas ações. Neste livro, a autora chinesa conta a saga de várias mulheres de uma mesma família no contexto da sociedade chinesa rural e urbana também, acompanhando-as em seus caminhos.

A melhor democracia que o dinheiro pode comprar (Greg Palast) – Um livro-reportagem que já vale a leitura por esse título tão contundente. O autor é um repórter investigativo norte-americano que vive e trabalha na Inglaterra como freelance. Neste livro, Palast dedica-se a mostrar o que há por trás das grandes organizações petrolíferas, privatizações e fraudes não apenas nos Estados Unidos, mas chegando ao Brasil também.

Não há dúvidas de que esta lista pode ser ricamente encorpada, e é possível que eu continue a fazer isso em posts futuros. Por ora, e para não cansar a leitura, fico nestas primeiras observações.

Galeria | Nighthawks (Falcões Noturnos)

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A primeira vez que tive contato com essa obra do norte-americano Edward Hopper (1882-1967) foi em um vernissage da escola de artes onde minha irmã estudava desenho clássico. O melhor amigo dela apresentou, nessa ocasião, uma releitura de Nighthawks (Falcões Noturnos) e eu fiquei hipnotizada por esse quadro.

Essa obra é um marco da produção artística da primeira metade do século XX. Pesquisando a respeito, li que Hopper começou a pintar Nighthawks logo depois do bombardeio de Pearl Harbour, em 7 de dezembro de 1941. Se essa informação for real, faz todo o sentido com o espírito de melancolia que o quadro passa. Há um jogo de luz e sombra que mostra um ambiente externo completamente vazio, e ilumina o interior de um bar no meio da noite, onde a luz protege seus poucos e solitários fregueses. Entretanto, é um traço marcante a falta de conexão entre as quatro figuras humanas da cena, em um misto de desilusão e vazio.

Os traços são extremamente limpos, a escolha de cores é muito definida e é possível dizer que o diferencial de Nighthawks está mais naquilo que o quadro consegue inspirar em seus espectadores, pois não se trata de uma composição rebuscada, ou impactante. Entretanto, a magia de Hopper está na elaboração de uma obra-prima que, por meio do silêncio, consegue exprimir uma série de significados apenas retratando uma típica cena da vida urbana noturna.

A maior obra de Hopper inspirou, ao longo das décadas, muitas releituras não apenas no mundo das artes plásticas, como também no cinema e na televisão. Os Simpsons, Lego, Gottfried Helnwein, com seu quadro Boulevard of Broken Dreams, de 1984, entre tantas outras homenagens só consolidam a importância de Nighthawks no cenário da arte mundial do século XX.

Uma curiosidade sobre o quadro reside na localização do restaurante. Todas as fontes que consultei divergem sobre esse assunto; contudo, todas elas concordam que a esposa do pintor lhe serviu de modelo para a elaboração da única personagem feminina do quadro.

Nighthawks
Artista: Edward Hopper
Localização: Instituto de Arte de Chicago (EUA)
Ano: 1942

Irmãos Encrenca | O caso do sabotador de Angra

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História originalmente publicada em 1981, este livro, apesar de sempre figurar entre as aventuras dos Irmãos Encrenca, curiosamente, não conta com a participação de Marco, Eloís e Isabel. Na verdade, o único vínculo que essa história apresenta com o arco restante das aventuras dos irmãos é a presença do Inspetor Nicolau, personagem que também participa de histórias do trio.

Entretanto, como não li todos os volumes das aventuras dos irmãos, apenas fazendo pesquisas depois de finalizar o livro pude entender que O caso do Sabotador de Angra é a ponte para introduzir os simpáticos garotos carentes Tic-Tac e Acetato – protagonistas dessa história – no universo dos Irmãos Encrenca. Em O esqueleto atrás da porta, um dos últimos livros da série de Marco Isabel e Eloís, a autora “viabilizará” o encontro entre os dois meninos órfãos e os três irmãos que dão nome à série consagrada de Stella Carr. Agora tudo faz sentido.

Sobre o enredo

Mais uma vez, a autora elabora uma história envolvendo questões ambientais e governamentais, tudo, é claro, com uma dinâmica intensa e toques de humor diretamente relacionados aos diálogos das crianças do orfanato chamado Lar da Boa Vontade, um triste local chefiado pelo falso benemérito chamado Bepe. Portanto, se desta vez não temos os divertidos diálogos entre Marco, Eloís e seus amigos, em O caso do sabotador de Angra, são os órfãos os responsáveis por dar um toque infantil e brincalhão à trama, por meio de situações bastante verossímeis do universo das crianças.

Neste volume, a questão ambiental é representada pela importante discussão do programa nacional de energia nuclear, suas responsabilidades e implicações. Stella Carr se vale de um momento histórico (início da década de 1980) no qual esse assunto ainda era uma incógnita para a sociedade brasileira e elabora um intrincado enredo – esta é a mais complexa história do arco até o momento –, com uma construção literária bastante consistente, para discutir esses pontos com seus jovens leitores.

– Que tipo de gente tentaria explodir uma usina nuclear?

– Não sei dizer, inspetor, não sou psiquiatra. Mas gostaria de saber o que leva um homem a esse gesto de total desespero.

– Ele chama a si mesmo de ‘justiceiro’. Tenho muito medo do fanatismo. A história está cheia de crimes e massacres executados por justiceiros.

Ficaram os dois em silêncio.” (p. 24)

Um pouco de fantasia

O toque fantástico do livro fica por conta da curiosa Loja de Estranhezas, comandada por Caio Porfírio Carneiro, e pelas misteriosas aparições de Polípedes, o mágico, ambos personificações de amigos reais da autora, homenageados nas páginas de seu livro.

Assim como aconteceu com a leitura de O fantástico homem do metrô (comentado aqui), eu também não tinha muito boas recordações de O caso do sabotador de Angra – muito provavelmente porque a complexidade da trama deve ter me deixado um tanto perdida em minha primeira leitura (quando eu tinha uns desatenciosos 13 anos, acho…). Hoje, na releitura, as peças ficaram bem mais claras, e pude constatar que, com este livro, Stella Carr atingiu o ponto alto das aventuras de Marco, Eloís e Isabel.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o sexto livro da série: O segredo do Museu Imperial!

O caso do sabotador de Angra
Stella Carr
Editora Moderna
118 páginas – 1992

Leitura | Quem matou Roland Barthes?

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Roland Barthes, brilhante filósofo, sociólogo, semiólogo etc.

Preciso, ainda que brevemente, fazer um registro da leitura desse excelente livro. Confesso até que me senti constrangida durante sua leitura. Primeiro, porque, mesmo tendo lido algumas sinopses sobre ele previamente, eu o subestimei. Segundo, porque se trata de um livro que vai muito além de uma mera trama policial.

O que me chamou a atenção foi o insight do jovem autor francês Laurent Binet de transformar personalidades reais em protagonistas de um romance. O nome de Roland Barthes na capa já me motivou à leitura. E saber que teóricos como Julia Kristeva, Michel Foucault, Roman Jakobson, Jacques Derrida, Umberto Eco, entre tantos outros estudiosos com os quais me deparei em meus estudos de pós-graduação e mestrado, faziam parte do enredo me deixou ainda mais intrigada.

Binet encarou o desafio com muita competência. Com seu livro, fez não apenas uma homenagem à história recente da França – questões sociais e políticas permeiam toda a história, e dados reais sustentam a trama de Binet –, mas também soube abordar (até onde me compete dizer) tópicos da Linguística e transformá-los em substrato consistente de seu livro.

A história

O ponto de partida do romance de Binet se dá com um fato real: o atropelamento que viria a ser a causa da morte de Roland Barthes (1915-1980). O motivo: a possível existência de uma sétima função da linguagem, a qual estaria em posse de Barthes naquele momento – aí Binet começa a escrever a ficção em cima da realidade.

A suposta sétima função seria a mais poderosa de todas e estaria diretamente relacionada à arte da retórica – o Clube Logos, um dos pontos fortes do livro, responsável por sequências memoráveis da história, também foi uma grande homenagem a Aristóteles – e daria ao seu detentor possibilidades inimagináveis. Aí Binet confere à arte do discurso o status de maior arma de todas, e não apenas na esfera política.

A trama do livro viaja entre países – França, Itália, Estados Unidos – e mostra, de forma até um tanto satírica, a elite da intelectualidade mundial daquela época (início dos anos de 1980). A prosa de Binet é rica em referências, e a leitura do livro me motivou a buscar novamente, entre as minhas coisas, reportagens, livros de Roland Barthes, entrevistas de Julia Kristeva, minhas anotações sobre Linguística, bem como os livros de Aristóteles e de Umberto Eco. Seria possível passar meses e meses debruçando-se sobre seu tema. Trata-se de um livro publicado no centenário de nascimento de Barthes (ótimo tributo) e que não se esgota em si mesmo, mas estimula o leitor à pesquisa sobre vários pontos de sua trama.

Quem matou Roland Barthes?
Laurent Binet
Companhia das Letras
Tradução de Rosa Freire d’Aguiar
2016
416 páginas

Revista | Quatro cinco um

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A iniciativa de tentarmos novamente fixar a existência de um título voltado para o mercado de livros no Brasil, por si só, já tem mérito. Essa é a proposta da Quatro cinco um, novo título mensal cujo nome é uma remissão direta ao romance Fahrenheit 451, obra-prima do escritor norte-americano Ray Bradbury (1920-2012). Ela tenta suprir o vazio deixado pela Entrelivros, título editado pela Duetto, sob o comando do jornalista e crítico Manuel da Costa Pinto e que, durante dois anos (de 2005 a 2007), lançou edições bem interessantes, voltadas para o público amante da Literatura.

Sob a proteção da equipe da Revista Piauí, que não apenas colaborou com questões logísticas, mas também ofereceu apoio editorial ao novo título, a Quatro cinco um tem o difícil desafio de sobreviver em um mercado editorial fraco, em um país que não preza a leitura e que atravessa um período de forte recessão econômica.

Estrutura

Seu formato tabloide e sua organização editorial lembram a concepção de publicações estrangeiras, como a London Review of Books e a The New Yorker Review of Books. Seus textos apresentam um pouco da densidade de suas inspiradoras e seguem um pouco da lógica de distribuir assuntos entre seus colaboradores com o intuito de tirá-los de sua zona de conforto. Nesta primeira edição, não é incomum ver gente assinando resenhas cujos assuntos não necessariamente fazem parte do escopo de seus autores – Eduardo Jardim, por exemplo, é autor de um livro sobre Mário de Andrade, mas assina a resenha de um título sobre Hannah Arendt. Essas interessantes combinações resultam em textos que fogem à zona de conforto e encorpam a publicação.

Fiz a experiência de ler a edição procurando pelos assuntos que me interessavam. Bom sinal: li praticamente toda a revista, à exceção de uns dois ou três textos. A Quatro cinco um é dividida por assuntos e, no fim, apresenta um listão com lançamentos distribuídos em 20 áreas diferentes. E, muito embora eu não tenha gostado da escolha da matéria de capa, sobre a produção literária de Elena Ferrante, entendo perfeitamente a opção editorial que reflete a tendência nacional do mercado, uma vez que essa autora italiana é campeã de vendas no Brasil atualmente.

Pretendo acompanhar as próximas edições para ver o caminho que a publicação vai trilhar. Desejo vida longa à revista Quatro cinco um. Em um país como o nosso, nunca é demais tentar falar sobre livros.

Revista Quatro cinco um
Periodicidade mensal
Lançamento: Maio de 2017
40 páginas
R$ 17,00

Galeria | A Noite Estrelada

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Este quadro, além de um dos mais belos trabalhos de Van Gogh, é também um tributo à memória. Sua produção, em si, já foi um processo bastante interessante de concepção artística.

Em sua temporada em Arles, na França, o artista holandês desenvolveu vários estudos e quadros sobre perspectivas noturnas, trabalhos estes que enviava a seu irmão Theo, que trabalhava como marchand, para venda.

A Noite Estrelada foi concebida enquanto Van Gogh estava em no hospital psiquiátrico de Saint-Paul-de-Mausole. O interessante foi que a paisagem do quadro foi inteiramente recuperada da memória do pintor: ela era a vista da janela de seu quarto no sanatório. Ele passava a noite observando para pintá-la durante o dia. Um exercício de memória e de execução técnica precursor do Expressionismo.

É fácil perceber que a paisagem do quadro ganhou os contornos especiais da interpretação de Van Gogh, com pinceladas que conferem um movimento peculiar de cores e formas. Vários estudos ressaltam o tom de melancolia da obra, mas, a meu ver, esse quadro é especialmente interessante, justamente porque o movimento das pinceladas me passa uma sensação alegre, mais dinâmica, com tons de azul, amarelo e laranja que evocam uma energia muito especial para uma paisagem noturna.

A Noite Estrelada
Artista: Vincent Van Gogh
Localização: Museu de Arte de Nova York – MoMA (EUA)
Ano: 1889

Galeria | A Liberdade guiando o povo

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Este é o quadro mais famoso de Ferdinand-Victor-Eugene Delacroix (1798-1863) e, provavelmente, o mais emblemático da história da França. Sua composição, suas cores, seu tema, tudo remonta a esta, que é uma das civilizações mais poderosas do Ocidente.

Eu sempre pensei que A Liberdade guiando o povo se referisse à Revolução Francesa – mas, é claro, estava enganada. Ele representa um momento da revolução de julho de 1830 em Paris, também conhecida como “Os Três Dias Gloriosos”, cujo objetivo era depor Carlos X, monarca da Família Bourbon. Em seu lugar, assumiu Luís Felipe, Duque de Orléans e participante da Revolução Francesa.

A Liberdade, a mulher de peito nu, segurando a bandeira da França em uma mãe e um rifle na outra, em destaque no quadro, concentra todos os olhares. É ela que chama o povo, trabalhador e burguês (veja as duas figuras masculinas à esquerda), rumo ao engajamento, à luta. A partir dela, estabelece-se um fascinante jogo de luz e sombra e uma distribuição de imagens triangular.

A composição do quadro é clássica em traços, pré-impressionista, e repleta de metáforas. As cores da bandeira francesa também se distribuem como índices pelo quadro e valorizam a alegoria nacionalista que procura unir, pelo vínculo estético, o idealismo francês, o romantismo harmonioso e a ideia de representação da luta.

A Liberdade guiando o povo
Artista: Eugène Delacroix
Localização: Museu do Louvre, França
Ano: 1830

Irmãos Encrenca | O incrível roubo da loteca

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Se a leitura de O enigma do autódromo de Interlagos já me deixou empolgada (como relatei aqui), nesta terceira aventura dos chamados “Irmãos Encrenca” (Marco, Eloís e Isabel), Stella Carr se supera na elaboração de uma trama inteligente, bem-humorada e repleta de termos que marcaram uma época.

Mais uma vez, a narrativa é muito bem amarrada, com eventos que intrigam o leitor mais e mais, conduzindo-o rumo a uma aventura dinâmica e intrigante ao mesmo tempo.

A partir de uma linha cruzada (será que ainda ocorrem linhas cruzadas hoje em dia?), ao ligar para seu amigo Tico, Marco ouve uma estranha conversa que sugere um golpe aplicado no prêmio da Loteria Esportiva. Esse é o pontapé para ligar os jogos da seleção brasileira, a bilhetes “premiados”, cremes de massagem adulterados, um cadáver que, em menos de 24 horas, vai parar em quatro carros diferentes e investigador que pode não ser o que parece ser.

Daí por diante, a história nos conduz a uma espiral de acontecimentos envolventes, senão pela intrincada trama, pela imersão na rotina de um Brasil do fim dos anos de 1970, com as pessoas fazendo ligações de orelhão, enviando cartas para caixas postais, publicando anúncios em jornais para localizar pessoas, enfim, vivendo com costumes impensáveis em relação à vida que temos hoje. As mudanças sociopolíticas que o Brasil viveu nos últimos 30 anos não apenas mudaram completamente o panorama social do País, como também se refletiu em um fazer literário que contextualiza as tramas infantojuvenis em um patamar completamente distinto.

Nessa perspectiva, é extremamente enriquecedora a leitura desses livros que marcaram uma fase brilhante da nossa produção literária para os adolescentes. E Stella Carr é, sem dúvida uma de nossas maiores representantes nesse quesito, preocupando-se não apenas em criar histórias interessantes para os leitores em idade escolar, como também reforçando a importância dos valores de caráter de seus personagens.

“- Que é isso, mano? Homem não chora!
Eu respondi bravo:
– Chora, sim. Chora porque tem vergonha na cara. E quando alguém pisa nessa vergonha, a gente chora. E eu arrebento o focinho de quem disser que eu não sou homem por causa disso!” (pág. 130)

Durante o processo de releitura e pesquisa para fazer esses comentários aqui no blog, tive acesso a duas edições diferentes desse livro: uma de 1985 e outra de 1992. Esse tipo de comparação é bastante interessante, porque possibilita verificar atualizações e revisões que a autora pôde fazer entre uma edição e outra. Por exemplo, a de 1992 já conta com uma frase final que foi acrescida em relação à edição mais antiga:

“E então, alguns meses depois, o Brasil perdeu a Copa na Argentina…” (p. 109)

Interessante é que, mesmo com a revisão/atualização da obra na mudança de editora (a primeira edição que eu li é da Editora Pioneira; a segunda, da Editora Moderna), Stella Carr manteve a identidade da obra em um marcador de tempo visível logo no título do livro: “loteca” é uma palavra que já não é empregada na linguagem cotidiana há vários anos. Uma solução possível – porém nada viável – seria a troca por “loteria esportiva”. Contudo, tanto a autora quanto a editora tiveram o bom senso de preservar a ideia original (mesmo porque qualquer alteração poderia acarretar problemas com o registro original). Afinal, um título como esse já oferece um ótimo ponto de partida para análise sobre mudança de vocabulário e modificações na língua portuguesa ao longo do tempo. É a literatura dando a sua contribuição para um estudo mais abrangente sobre língua e sociedade.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o quarto livro da série: O fantástico homem do metrô.

O incrível roubo da loteca
Stella Carr
Editora Pioneira
131 páginas – 1978

Galeria | O Homem Amarelo

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‘Paranóia ou Mistificação?’, de Monteiro Lobato, é um dos mais célebres – e infelizes – artigos já publicados pela imprensa brasileira. Escrito em 1917, por ocasião de uma mostra de quadros de Anita Malfatti, o texto faz veementes ataques à pintora, que se deixava seduzir pelas ‘extravagâncias de Picasso e Cia.’. Anita Malfatti viria a ser reconhecida como uma das mais importantes artistas brasileiras do século 20, e o artigo de Lobato passou para a história como um célebre caso de estreiteza crítica.”

Este é o parágrafo inicial do ótimo livro Crítica Cultural – Teoria e Prática, do jornalista da Folha de S.Paulo Marcelo Coelho. Nada mais ilustrativo para começar estes pequenos apontamentos sobre um dos mais famosos quadros de Anita, pintora que foi um dos pilares do movimento Modernista brasileiro nas artes plásticas.

Um dado muito interessante sobre o quadro é que essa polêmica acerca da obra de Anita Malfatti acabou se sobrepondo à produção da artista. O Homem Amarelo é, certamente, um de seus trabalhos mais reconhecidos; entretanto, quase sempre é associado (assim como suas outras criações) ao embate modernista do qual Anita se tornou símbolo maior por força da circunstância das críticas de Monteiro Lobato.

A título de curiosidade, em seu livro A arte brasileira em 25 quadros [1790-1930], o historiador de arte Rafael Cardoso explica:

Pintado em Nova York – segundo relatos, a partir de um modelo italiano –, essa obra possui uma primeira versão mais comportada, em carvão e pastel, que se aproxima bem mais dos requisitos tradicionais do retrato. Na segunda versão […] o personagem foge de qualquer compromisso com a retratística e assume uma dimensão mais ampla e genérica, como figura alegórica.” (p. 178)

Particularmente, esse quadro me chama a atenção pelo aspecto intrigante e, ao mesmo tempo galante do homem pintado por Anita. Seu olhar para fora da tela deixa em aberto o mistério de seu foco de atenção. Sua gravata torta subentende um movimento brusco, o que aumenta o interesse pela incógnita que constitui o alvo do seu olhar. O forte contraste das cores e os traços marcados do rosto tornam o conjunto da composição uma combinação peculiar de informações. E, na arte, a estranheza sem dúvida torna tudo mais interessante.

O Homem Amarelo
Artista: Anita Malfatti
Localização: Coleção Mário de Andrade, Instituto de Estudos Brasileiros da USP-SP
Ano: 1915-1916