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Diário de leitura| O Morro dos Ventos Uivantes (III)

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Neste ponto dos registros, paro para comentar um pouco sobre a obra-prima de Emily Brontë e seu contexto.

Publicado em 1847, O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights) talvez seja a maior das criações das irmãs Brontë: Charlotte, Emily e Anne, todas elas escritoras de talento. Emily, no entanto, viveu muito pouco (apenas 30 anos) e produziu apenas esse romance.

Várias vezes adaptado para a televisão e para o cinema, O Morro dos Ventos Uivantes é um livro de grandes proporções, uma história que se estende ao longo de gerações e que surpreende pela amplitude de seu enredo. Não se trata apenas de um amor que põe à prova condições sociais, mas que transcende, ao apresentar desdobramentos que, de forma sombria, envolvem questões familiares, questões humanas.

Na edição original que estou lendo, há um prefácio escrito por Charlotte, a mais velha das irmãs Brontë e também aquela que mais viveu, fato que lhe conferiu decisões não apenas sobre sua produção literária (permissão de edições e reedições, por exemplo), como também sobre as obras deixadas por suas irmãs.

Emily foi a primeira das três a falecer, e Charlotte registra, em sua nota biográfica, que sua irmã do meio era melancólica, introspectiva e tímida. Ela conta que, apesar de muito talentosa, Emily gostava da reclusão e era preciso muito esforço para que ela permitisse o acesso a algum texto seu – de acordo com a primogênita, a autora de O Morro dos Ventos Uivantes foi também uma habilidosa poetisa.

“My sister Emily was not a person of demonstrative character, nor one, on the recesses of whose mind and feelings, even those nearest and dearest to her could, with impunity, intrude unlicensed…”

Ainda assim, ela foi capaz de produzir um dos romances mais notáveis da história da literatura inglesa, com personagens fortes e um inesquecível casal protagonista: Catherine e Heathcliff. Se ambos são o núcleo de uma conturbada relação amorosa, até o momento, minha atenção de leitora não se voltou fundamentalmente para eles. É Nelly, a empregada da família Earnshaw e também a narradora da história, a personagem que vem se destacando em minha leitura.

Fio condutor

Nelly (na verdade, Ellen Dean) é o fio condutor que Emily Brontë construiu com maestria para guiar o leitor ao longo das páginas de O Morro dos Ventos Uivantes. Alguns textos de apoio, inclusive, afirmam ter sido a inspiração para Nelly a criada de Emily, uma fiel serviçal de nome Tabhyta.

O fato é que Nelly é a base para a narrativa bem-sucedida do romance. Ela é a memória das duas famílias (mais Earnshaw do que Linton), além de saber exatamente o lugar de Heathcliff na genealogia dessas duas casas. A empregada conta a história ao inquilino de Heathcliff, Mr. Lockwood, voltando décadas para remexer o passado cheio de amor e de ódio dessas duas famílias. É Nelly quem garante a coerência da história, que, à primeira vista, pode confundir o leitor, o qual se depara com “duas Catherines” e é obrigado a entender de que forma elas influenciam Heathcliff e os Linton – por isso é interessante ter à mão a árvore genealógica dos personagens para consulta.

A tradução de Rachel de Queiroz

Tenho encontrado farto material para complementar minha leitura do texto original e daquele traduzido de O Morro dos Ventos Uivantes. Vou reservar a próxima parte destes registros aqui no blog para começar a comentar essa bibliografia que estou usando como apoio para entender a obra original e também o trabalho desenvolvido por Rachel de Queiroz durante a década de 1940. São artigos científicos, teses e monografias os quais apresentam informações preciosas para minha compreensão desse processo.

Como “aperitivo”, deixo aqui o primeiro ponto que chamou minha atenção na tradução de Rachel: nossa grande autora optou por não manter a natureza do “dialeto” falado por Joseph, empregado de Heathcliff, cujas falas no texto original de Emily Brontë são um verdadeiro desafio ao entendimento do leitor. Cheguei a copiar várias delas em meu caderno de inglês e tentei transcrevê-las para melhor entender o sentido. Meu primeiro enigma, portanto, veio do fato de Rachel de Queiroz ter deixado de lado essa particularidade de Joseph e traduzido suas falas como as dos outros personagens. Por quê?

Muitas questões ainda alimentam esse percurso de leitura. Vou organizar minhas anotações para continuar a pontuá-las aqui no blog.

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Leitura | As memórias do livro

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Tirei esse livro da estante em um momento curioso. Primeiro, porque eu o encontrei enquanto procurava O estrangeiro, de Albert Camus – um livro que, diga-se de passagem, precisei revirar minha estante três vezes para encontrar semanas depois. Segundo, porque, no caso do título de Geraldine Brooks, o livro em questão é uma hagadá, tradicional obra judia cujos trechos são lidos no almoço de Páscoa – época em que fiz a leitura (outra coincidência?). A hagadá celebra o Pessach, ou seja, a saída dos judeus do Egito, evento descrito no livro bíblico do Êxodo.

Impressões

Que leitura surpreendente. E sofrida. Definitivamente. Eu sofri bastante enquanto o lia. Imaginava que seria apenas um thriller repleto de ação, protagonizado por uma restauradora de livros, mas nada exigente, apenas uma leitura para distrair as ideias. Nem preciso dizer que eu me enganei redondamente.

Estrutura

Geraldine Brooks construiu uma história interessante, cheia de saltos ao longo dos séculos. Cada capítulo se passa em um lugar e uma época diferentes. A autora entremeia a história de sua protagonista, a restauradora de livros Hanna Heath (uma mulher cheia de conflitos internos), com a história da hagadá – o livro cujas memórias o título faz referência.

Adicione-se a isso o fato de que cada capítulo que conta a história da hagadá é protagonizado por diferentes personagens e tem-se aí o ponto alto do livro – a complexidade de fios entrelaçados que fazem com que o leitor acabe de posse de todas as informações do que houve com a hagadá (as memórias do livro), enquanto Hanna conduz suas investigações sem a onisciência do narrador – isto é, ela não fica sabendo de tudo o que se passou com a hagadá ao longo dos séculos de sua trajetória. Confesso que senti certa angústia em relação a isso. Achei que Hanna merecia saber de tudo. Enfim, coisas dos livros.

Luta

Não posso deixar de mencionar o que me fez sofrer durante a leitura: em mais de uma ocasião, a hagadá quase foi destruída. Seu destino dependeu de pessoas frágeis, porém valentes. A maior parte delas mulheres que lutaram e arriscaram suas vidas para que o livro ficasse em segurança. E, como a vida das mulheres, ao longo da História, nunca foi fácil, é possível imaginar quão complicado foi proteger esse livro, o qual, por seu teor religioso, atraiu a ira da Inquisição e dos nazistas, por exemplo. E aí a autora parte em uma viagem no tempo que faz valer a leitura. Para quem gosta de História e ama os livros por tudo aquilo que eles representam, é um “prato cheio”.

As memórias do livro
Geraldine Brooks
Editora Agir
2012
343 páginas

Diário de leitura| O Morro dos Ventos Uivantes (II)

Continuo com os registros do projeto que estou desenvolvendo de uma leitura compartilhada de O Morro dos Ventos Uivantes, considerando o texto original e integral de Wuthering Heights e a versão traduzida por Rachel de Queiroz. Mais detalhes sobre a ideia geral estão no primeiro post que fiz sobre esse assunto, que pode ser acessado aqui.

Desafio

A primeira coisa que quero pontuar nesta segunda parte é que esse projeto tem aumentado de forma crescente o meu interesse pelo trabalho de tradução. É simplesmente fascinante trabalhar com o texto em si e sua forma em outra língua. Tenho procurado vários materiais de apoio, com o objetivo de entender melhor a linha de raciocínio de um tradutor, muito embora eu possa me aventurar a dizer que, até o momento, tenho conseguido entender as decisões de Rachel de Queiroz diante do gigante criado por Emile Brontë. Só por isso já tem valido esse percurso.

As colunas sobre o trabalho de tradução escritas pelo jornalista e tradutor Eduardo Ferreira para o Jornal Rascunho também têm me ajudado demais a compreender as nuances desse processo. Recomendo esses textos a todos aqueles que se interessam pelo assunto.

Um ótimo exemplo de uma das coisas que aprendi lendo os textos do Eduardo foi a substancial diferença entre “versão” e “tradução”. Seguem as claras definições retiradas de uma das colunas de Eduardo Ferreira:

“A tradução é um trabalho meticuloso, carregado de espírito. Transforma uma simples versão em texto verdadeiramente literário, conforme ao gênio da língua de chegada.

A versão seria espécie de estágio intermediário entre o original e a verdadeira tradução.”

Também encomendei alguns livros sobre o assunto e espero confrontar ideias e complementar meus estudos com eles. Estou ansiosa pela chegada de Sobre a tradução, de Paul Ricoeur (Editora UFMG), texto clássico sobre o assunto e do qual já ouvi falar bastante, e os volumes teórico e de exercícios de Vocabulando, da professora e tradutora de inglês Isa Mara Lando.

Sobre o enredo

Retomei a leitura da tradução de Rachel de Queiroz e fiquei muito contente ao perceber que estou captando bem a ideia geral do enredo em inglês. Aqui, acho que vale a inclusão de uma ótima árvore genealógica envolvendo as famílias que protagonizam a história. A fonte da imagem é o site http://www.wuthering-heights.co.uk.

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A árvore genealógica dos personagens é uma questão bem importante no enredo, além de já passar uma ideia de como a história tem o poder de atravessar gerações desses núcleos familiares.

No próximo post deste diário de leitura, contarei mais detalhes sobre o enredo e vou comentar as primeiras curiosidades a respeito do processo de tradução.

Diário de leitura| O Morro dos Ventos Uivantes (Parte I)

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Certo dia, eu estava pondo em ordem os volumes da minha pequena estante e, ao constatar que eu tenho um exemplar em inglês e também outro em português de O Morro dos Ventos Uivantes, uma ideia me ocorreu: fazer uma leitura simultânea. Seria uma maneira de estudar inglês e também de analisar o texto original em contraponto a uma versão traduzida por ninguém menos do que Rachel de Queiroz. Juntei minhas papeladas e comecei a empreitada. Agora, pretendo, aos poucos, publicar aqui as minhas impressões durante o processo. Sem pressa, com cuidado e atenção. Afinal, O Morro dos Ventos Uivantes é um colosso que merece toda a dedicação, mesmo em um estudo informal como este que estou fazendo.

Ponto de partida

Disponho de um exemplar importado (Collector’s Library – CRW Publishing Limited) dessa obra máxima escrita pela inglesa Emile Brontë (1818-1848). O texto é original e integral, portanto, o mais indicado para o meu objetivo. Da coleção Clássicos da Editora Abril, tenho o volume traduzido para o português, cujo texto foi preparado por uma de nossas maiores escritoras: a cearense Rachel de Queiroz (1910-2003). Ou seja, uma versão pra lá de confiável.

Diante disso, resolvi fazer a leitura capítulo a capítulo do livro, sempre lendo primeiro em inglês e, na sequência, em português. Isso me permitiria observar as nuances do texto e compará-lo com o trabalho de Rachel, analisando suas decisões como tradutora. Sem dúvida, um aprendizado e tanto.

Até aí, tudo às mil maravilhas. O caso foi que sabotei o meu próprio plano. Escrevo essa primeira parte do meu diário de leitura após lidas pouco mais de 100 páginas do livro, porém, algo inesperado aconteceu: disparei na leitura em inglês e acabei deixando a tradução em segundo plano. Resolvi interromper o processo para pôr as ideias em ordem (o que estou fazendo agora), uma vez que notei o disparate de estar lendo o capítulo 9 do livro original e o 3 da versão traduzida.

Entendendo a mudança de planos

De início, segui rigorosamente minhas próprias instruções. Fiz anotações e tudo. Entretanto, um grande volume de leituras que costumo fazer se dá no meu trajeto para o trabalho. Então, esse esquema de ler um capítulo de cada idioma implicaria levar os dois livros comigo, o que se tornou inviável, por causa do peso.

Dessa forma, durante vários dias, levei apenas o livro em inglês. Isso fez com que a leitura do texto original decolasse em relação à sua tradução. Com isso, resolvi ler as primeiras cem páginas do texto original e, depois, alcançar o mesmo ponto da versão traduzida antes de seguir adiante. Esse é o novo plano.

Irmãos Encrenca | O segredo do Museu Imperial

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Neste volume da coleção dos Irmãos Encrenca, Stella Carr trabalha com a vertente da História do Brasil. Ao levar os irmãos Isabel, Eloís e Marco para uma viagem ao Rio de Janeiro, onde os dois garotos vão aproveitar para participar de uma colônia de férias para estudantes, a autora apresenta ao leitor o Museu Imperial e conta várias passagens do período das regências da história de nosso país.

Convidados especiais

Outro traço interessante do enredo desse livro é que, no decorrer de mais uma de suas intrépidas investigações, os Irmãos Encrenca – agora envolvidos em uma estranha conspiração com o grupo da Juventude Restauradora, explosões em bancas de revistas e livrarias – vão contar com a ajuda de um seleto grupo de intelectuais (Todos amigos de Stella Carr fora das páginas do livro!) que estão no Rio para participar de uma conferência: Paulo Condini, Nelly Novaes Coelho, Aldemir Martins, Tereza Monteiro, Olga Savary, Laura Sandroni e Paulo de Medeiros Albuquerque. Nos cenários do museu que conta muito da história da Família Imperial brasileira, eles vão ajudar os garotos a desmascarar naziterroristas que pretendem, inclusive, explodir o famoso Palácio de Cristal em Petrópolis.

É muito proveitosa a forma como a autora estimula o interesse do leitor por episódios importantes da história nacional. Para isso, ela mescla informações sobre o passado e o presente, criando uma teia dinâmica de acontecimentos, com direito a sequestros no meio da noite, agentes infiltrados, uma vidente e, é claro, várias situações engraçadas com os irmãos Marco e Eloís.

Em mais este livro, publicado originalmente em 1981, Stella Carr consegue manter o ritmo e a criatividade, presenteando seus pequenos leitores com mais uma boa história infantojuvenil, repleta de referências para pesquisa pós-leitura, e já deixando os leitores com vontade de ler a próxima aventura de seus jovens detetives.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o sétimo livro da série: O esqueleto atrás da porta!

O segredo do Museu Imperial
Stella Carr
Editora Moderna
110 páginas – 1993

Retrospectiva | 2017

Neste primeiro post de 2018, é hora de rever o que consegui ler e assistir em 2017. Sem dúvida, foi um ano um pouco atribulado para mim, o que resultou em um número menor de leituras – pouco mais de 30 livros, sem contar as HQs – e também em um menor número de filmes/séries vistos ao longo dos últimos 12 meses. Isso se deveu não apenas a motivos particulares (várias cirurgias na família e períodos de corre-corre em visitas e hospitais), como também ao maior período que passei durante o ano estudando idiomas.

Diversidade

Um fato que me deixou bastante contente foi a diversidade de leituras que consegui realizar no último ano. Além de conseguir contemplar alguns títulos pendentes de 2016, foi muito bom voltar a ler gêneros aos quais há muito tempo eu não me dedicava, como o livro-reportagem, por exemplo. O ano de 2017 também foi momento de leituras de teores bem diferentes, como livros infantis, clássicos distópicos, releituras e também de várias revistas.

psicose_1373943361bSe comprovadamente eu li menos em 2017, posso me considerar muito feliz pela qualidade dos livros lidos. Nos últimos 12 meses, tive o privilégio de ler livros brilhantes, como Psicose (Robert Bloch), Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), A vida imortal de Henrietta Lacks (Rebecca Skott), Quem matou Roland Barthes? (Laurent Binnet) e A revolução dos bichos (George Orwell).

No âmbito da literatura nacional, não posso deixar de destacar minha volta aos clássicos: em 2017, li um ótimo livro de crônicas de João do Rio, Histórias da gente alegre (pretendo fazer um post sobre João do Rio mais adiante); li o primeiro romance de Lima Barreto, Recordações do Escrivão Isaías Caminha; e também Diva, romance de José de Alencar.

Revistas e HQs

Foi muito bem-vinda a chegada da Revista Quatro Cinco Um, no mês de maio. Ao longo dos últimos meses, tenho acompanhado essa publicação, repleta de textos interessantíssimos para leitores inveterados. Também li vários especiais das Revistas Superinteressante e Mundo Estranho em 2017.

Não li tantas HQs quanto eu queria, mas posso destacar a graphic novel Corpos, da Vertigo, e o livro O fantasma de Anya, de Vera Brosgol.

Para fechar a parte das leituras, em 2017 também encontrei um tempinho para me dedicar mais aos estudos da Língua Portuguesa e também da Língua Inglesa, já que prestei o TOEIC no mês de agosto. Por isso, fiz algumas leituras originais em inglês (algo do que já estou me orgulhando) e li alguns livros teóricos de português.

Filmes, séries e documentários

Fui ao cinema algumas vezes em 2017 para acompanhar produções derivadas dos quadrinhos, como Mulher-Maravilha e Liga da Justiça – ambos comentados neste blog. Em setembro, ainda consegui assistir no cinema ao filme João, baseado na história do maestro João Carlos Martins – que belo filme!

0424359Também foi um ano em que consegui ver dois documentários que me interessaram bastante: Foucault contra si mesmo e Lygia, uma escritora brasileira. Recomendadíssimos!

Fiz alguns posts sobre séries aqui no blog ao longo deste ano. Tenho acompanhado as produções que a Netflix vem fazendo sobre o universo Marvel e destaquei também a primeira temporada da bela e sensível Tokyo diner, midnight stories e também da espirituosa The good place – ambas também comentadas aqui.

Para 2018, tenho vários planos, mas resolvi não fazer listas, nem estipular metas, pois ainda tenho títulos pendentes da lista que fiz para 2016! Portanto, para não sabotar meu próprio planejamento, irei aos poucos seguindo com os projetos de leitura que já estão em andamento (os quais continuaram em 2017, embora em ritmo mais lento) e, na medida do possível, acrescentarei novidades!

Feliz ano-novo!

 

 

Leitura | A vida imortal de Henrietta Lacks

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Foi por causa de uma dica do precioso e, infelizmente extinto, Manual Prático de Bons Modos em Livrarias que eu incluí A vida imortal de Henrietta Lacks na minha lista de leituras. Fazia tempo que eu não me dedicava a um livro-reportagem, daqueles com bastante informação, muita checagem de dados, realmente muitas horas de entrevistas, e pensei que esse livro seria uma ótima oportunidade para começar a “pagar a minha dívida” com esse estilo literário. E não me enganei.

Sem sombra de dúvida, esse trabalho da jornalista especializada em ciência Rebecca Skloot foi uma das melhores leituras que já fiz. E não estou exagerando. É nítido o esforço empreendido pela autora para refazer os passos e reconstruir a história extraordinária de Henrietta Lacks, uma mulher pobre, negra, lavradora dos campos de tabaco dos Estados Unidos da década de 1950, cujas células revolucionaram o mundo científico de maneira avassaladora.

Estrutura

É prazeroso verificar o cuidado com o qual Rebecca organiza as informações em capítulos que não seguem ordem cronológica, mas que cumprem perfeitamente a sua função: indo e voltando no tempo, os escritos vão compondo as peças de um quebra-cabeça elaborado, sofisticado, com o qual o leitor vai compreendendo quão cruel e delicado é o assunto em torno do qual orbita a morte de Henrietta: o debate ético sobre a propriedade de tecidos e outras partes do corpo humano utilizadas em pesquisas.

Em 1951, Henrietta Lacks morreu vítima de um tumor cervical fulminante. Apenas alguns meses foram o suficiente para minar a saúde da jovem mulher, na época, com apenas 31 anos. Mãe de cinco filhos, Henrietta entrou para história de maneira involuntária, após ter suas células cancerosas retiradas de seu corpo para a realização de pesquisas no tradicional hospital norte-americano Johns Hopkins. Ao constatar que as células continuavam se reproduzindo em cultura, após a retirada do corpo de Henrietta, os cientistas perceberam que estavam diante de algo revolucionário: supercélulas cancerosas que não apenas continuam se reproduzindo até hoje, como também são capazes de dominar outras culturas celulares com as quais têm contato.

Pesquisa

Rebecca Skloot precisou de cerca de dez anos de pesquisas ininterruptas para reunir material e chegar ao texto final de seu livro. Uma equipe considerável de profissionais e de respeitadas instituições colaborou com o trabalho da jornalista, fornecendo informações, documentos e bolsas de incentivo para que Rebecca pudesse realizar o seu trabalho.

O processo de pesquisa não teria sido tão bem-sucedido, se não tivesse contado com a colaboração de Deborah, a quarta filha de Henrietta e a única das mulheres a sobreviver até a idade adulta. Deborah desempenhou o papel de representante dos irmãos Lacks na busca pela verdade sobre a morte de sua mãe. Os dilemas da mulher emocionalmente frágil e pouco instruída são contados de forma contundente pelo texto de Rebecca, e é inegável que a herdeira de Henrietta estabelece um contraponto direto à personalidade equilibrada da jornalista branca, filha de pais de classe média-alta.

A vida imortal de Henrietta Lacks é, mais do que um livro-reportagem, uma obra para consulta, repleta de informações para todo leitor interessado nos bastidores do universo da pesquisa médica. Rebecca Skloot contextualiza a história da mulher responsável pela linhagem celular conhecida como HeLa no tempo e no espaço, citando não apenas outros casos de apropriação de material humano para pesquisas médicas, como também enriquecendo o leitor com dados sobre biologia, estudos genéticos e o debate jurídico em torno do assunto.

No início de 2017, a história de Henrietta chegou às telas da HBO, em versão protagonizada por Oprah Winfrey no papel de Deborah Lacks e Rose Byrne interpretando Rebecca Skloot.

A vida imortal de Henrietta Lacks
Rebecca Skloot
Tradução de Ivo Korytowski
Companhia das Letras
454 páginas

Personalidades | Marie Curie

 

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Fiquei simplesmente fascinada com a história de vida de Maria Sklodowska, polonesa de nascimento, que se tornou mundialmente conhecida como Marie Curie (1867-1934).

Trajetória 

Eu me emocionei com a tenacidade dessa mulher, que não apenas teve de superar as limitações técnicas do mundo científico de seu tempo, como também precisou enfrentar a resistência de uma sociedade patriarcal que se opôs ferozmente ao seu trabalho. Mesmo assim, Marie conseguiu se formar com méritos em Física e em Matemática pela Sorbonne e deu início às pesquisas sobre radioatividade.

Conquistas

Ao lado de seu marido, o também cientista Pierre Curie (1859-1906), Marie desenvolveu importantes estudos que culminaram com o Prêmio Nobel de Física, em 1903, a partir de uma descoberta feita por acaso por Antoine Becquerel que conduziu Marie à descoberta de dois novos elementos da tabela periódica: o polônio (batizado em homenagem à sua terra natal) e o rádio.

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Entretanto, foi depois da morte prematura de seu marido que Marie precisou de toda a perseverança para seguir com seu trabalho. Se antes a cientista já havia passado por situações nas quais teve de deixar que Pierre se apresentasse sozinho, pois mulheres não eram aceitas em eventos acadêmicos, agora Marie precisava de muita coragem e disciplina para continuar suas pesquisas. E foi nessa fase que ela conquistou o segundo Nobel, agora em Química.

 

Marie Curie foi não apenas a primeira mulher a ser premiada com o Nobel, como também é a única pessoa do mundo a ter dois prêmios em áreas afins. Como se não bastasse tudo isso, ela também é a única pessoa a ter um parente também laureado com o Nobel: sua filha mais velha, Irène Joliot-Curie (1897-1956), ganhou o Nobel de Química em 1935, ao lado de seu marido, Frédéric Joliot-Curie (1900-1958).

Curiosidade

Em 1944, uma equipe de pesquisadores norte-americanos descobriu o cúrio, outro elemento da tabela periódica, e o batizou dessa forma em homenagem ao casal Curie.

Estante | Títulos

Resolvi criar essa categoria aqui no blog para encaixar determinadas curiosidades sobre os livros que tenho. Assuntos que, apesar de guardarem sua carga de interesse, não se encaixam em outras “seções” que já consolidei aqui.

Começo, então, por uma parte muito importante de cada obra literária: o título. Confesso que já me interessei profundamente por determinados livros a partir de seus títulos. Não é algo que acontece sempre, mas sempre considero um episódio curioso quando isso acontece.

Assim, selecionei alguns títulos que valem a menção ou por sua beleza, ou pela curiosidade que provocam, ou ainda por seu teor inusitado. Vamos lá!

cronica_da_estacao_das_chuvas_1242073909bCrônica da estação das chuvas (Nagai Kafu) – Este é um dos títulos mais bonitos que já vi. Este livro de Nagai Kafu também conta uma história interessante sobre a vida noturna japonesa do início do século XX, ambientada nas ruas de Tóquio e nas casas de chá. Uma leitura que fiz há muitos anos, mas que vale uma releitura a qualquer hora.

Digam a Satã que o recado foi entendido (Daniel Pelizzari) – Sem dúvida, este é o título mais inusitado da minha estante. Esta trama contemporânea conduzida por Pelizzari se passa em Dublin, na Irlanda, e mistura assuntos completamente diferentes entre si, com um efeito pós-moderno e uma sensação de algo sempre está escapando pelas páginas…

Antes do baile verde (Lygia Fagundes Telles) – O que dizer de um dos maiores nomes de nossa literatura? O título deste livro de contos é poético e mexe com a ideia de figuras de linguagem e, ao mesmo tempo, instiga a leitura.

O livro do cemitério (Neil Gaiman) – Esse título é mórbido e curioso. Gosto dele. Aliás, Gaiman é um dos meus escritores favoritos e este é um de seus melhores livros em minha opinião. Já escrevi sobre ele aqui no blog.

12165_ggCinzas do Norte (Milton Hatoum) – Não é o meu livro favorito do mestre Hatoum (já falei sobre ele aqui), mas, sem dúvida, é o título que mais mexe comigo entre suas obras. O interessante é que esse título, em si, não diz muita coisa, mas é extremamente bonito a meu ver. Está à altura de uma bela história, sem dúvida alguma.

As filhas sem nome (Xinran) – Também já falei sobre este livro aqui no blog, mas não podia deixar de incluir esse título tão forte neste pequeno levantamento. Pensar em uma pessoa sem nome, para mim, é pensar em alguém sem identidade. Alguém que, necessariamente, não existe para efeitos legais e que não é sujeito de suas ações. Neste livro, a autora chinesa conta a saga de várias mulheres de uma mesma família no contexto da sociedade chinesa rural e urbana também, acompanhando-as em seus caminhos.

A melhor democracia que o dinheiro pode comprar (Greg Palast) – Um livro-reportagem que já vale a leitura por esse título tão contundente. O autor é um repórter investigativo norte-americano que vive e trabalha na Inglaterra como freelance. Neste livro, Palast dedica-se a mostrar o que há por trás das grandes organizações petrolíferas, privatizações e fraudes não apenas nos Estados Unidos, mas chegando ao Brasil também.

Não há dúvidas de que esta lista pode ser ricamente encorpada, e é possível que eu continue a fazer isso em posts futuros. Por ora, e para não cansar a leitura, fico nestas primeiras observações.

Galeria | Nighthawks (Falcões Noturnos)

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A primeira vez que tive contato com essa obra do norte-americano Edward Hopper (1882-1967) foi em um vernissage da escola de artes onde minha irmã estudava desenho clássico. O melhor amigo dela apresentou, nessa ocasião, uma releitura de Nighthawks (Falcões Noturnos) e eu fiquei hipnotizada por esse quadro.

Essa obra é um marco da produção artística da primeira metade do século XX. Pesquisando a respeito, li que Hopper começou a pintar Nighthawks logo depois do bombardeio de Pearl Harbour, em 7 de dezembro de 1941. Se essa informação for real, faz todo o sentido com o espírito de melancolia que o quadro passa. Há um jogo de luz e sombra que mostra um ambiente externo completamente vazio, e ilumina o interior de um bar no meio da noite, onde a luz protege seus poucos e solitários fregueses. Entretanto, é um traço marcante a falta de conexão entre as quatro figuras humanas da cena, em um misto de desilusão e vazio.

Os traços são extremamente limpos, a escolha de cores é muito definida e é possível dizer que o diferencial de Nighthawks está mais naquilo que o quadro consegue inspirar em seus espectadores, pois não se trata de uma composição rebuscada, ou impactante. Entretanto, a magia de Hopper está na elaboração de uma obra-prima que, por meio do silêncio, consegue exprimir uma série de significados apenas retratando uma típica cena da vida urbana noturna.

A maior obra de Hopper inspirou, ao longo das décadas, muitas releituras não apenas no mundo das artes plásticas, como também no cinema e na televisão. Os Simpsons, Lego, Gottfried Helnwein, com seu quadro Boulevard of Broken Dreams, de 1984, entre tantas outras homenagens só consolidam a importância de Nighthawks no cenário da arte mundial do século XX.

Uma curiosidade sobre o quadro reside na localização do restaurante. Todas as fontes que consultei divergem sobre esse assunto; contudo, todas elas concordam que a esposa do pintor lhe serviu de modelo para a elaboração da única personagem feminina do quadro.

Nighthawks
Artista: Edward Hopper
Localização: Instituto de Arte de Chicago (EUA)
Ano: 1942