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Distopias | Fahrenheit 451

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Foi há coisa de uns três meses, com o lançamento da revista de livros Quatro cinco um (comentada aqui), que eu me lembrei de que tinha na estante o livro que inspirou o título da revista – ainda não lido.

Resolvi ler o livro antes de me dedicar ao primeiro número da revista e a leitura do clássico escrito por Ray Bradbury me deixou tão embevecida, que passei a agradecer pelo lançamento da Quatro cinco um só pelo fato de isso ter me motivado à leitura de um livro há dois anos esquecido na minha estante.

Trata-se de um enredo envolvendo uma sociedade distópica, resultado de um governo totalitário, que oprime os cidadãos que mantêm o gosto pela leitura e, principalmente, que dispõem de exemplares em suas casas. Nesse contexto sociopolítico que associa a infelicidade aos questionamentos proporcionados pelo hábito da leitura, os bombeiros constituem o elemento opressor, responsável por incendiar os livros apreendidos (vizinhos, conhecidos e mesmo parentes denunciam-se uns aos outros) e prender os leitores.

Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma.” (pág. 76)

Momento histórico

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Bradbury escreveu sua obra-prima no cenário mundial pós-Segunda Guerra em 1953. Originalmente chamado The fireman, o livro veio depois dos aclamados Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (publicado em 1932), e de 1984, de George Orwell (de 1949).

Contudo, o pai dos romances distópicos não é nenhum desses tão famosos autores. Nós, escrito pelo russo Yevgeny Zamyatin (1884-1937) entre os anos de 1920 e 1930, é o primeiro livro conhecido desse gênero. Além desses, outros enredos distópicos também viriam ao conhecimento do público mais tarde, como Metropolis (pelo filme de Fritz Lang, em 1927), Laranja Mecânica (pelo livro de Anthony Burgess, de 1962, e transformado em filme por Stanley Kubrick dez anos depois) e O Conto da Aia, de Margaret Atwood, publicado em 1985.

Montag, o bombeiro

As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo, mas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver, noventa e nove por cento delas está num livro. Não peça garantias. E não espere ser salvo por uma coisa, uma pessoa, máquina ou biblioteca. Trate de agarrar a sua própria tábua e, se você se afogar, pelo menos morra sabendo que estava no rumo da costa.” (pág. 107)

Um bombeiro que começa a se interessar pelos livros que deveria incendiar é o ponto de partida para a revolução na sociedade até então tão controlada do enredo de Ray Bradbury. Os questionamentos de Guy Montag ultrapassam o nível do aceitável, quando o bombeiro começa a se dar conta do vazio que tomava conta de seu casamento, bem como de sua falta de perspectiva em relação à sua profissão – tudo isso a partir de pequenos diálogos estabelecidos com sua vizinha Clarisse no trem, ou andando pelo bairro, diariamente, na volta do trabalho. Afinal, qual era o sentido de queimar livros e de viver com uma mulher que nem se lembra de quando o conheceu?

A versão de Truffaut

Mais de dez anos depois, o prestigiado François Truffaut levou para as telas do cinema a adaptação do romance de Bradbury. A produção vale pelo caráter de divulgação e de estímulo ao interesse do público pelo texto original, sem dúvida. Entretanto, o cinema sofre pela concisão necessária a obras que pedem um alto grau de complexidade de construção, como é o caso de Fahrenheit 451.

É incrível como o livro consegue transmitir mais emoção do que o filme no ápice da trama, com a fuga de Montag. Outra grande perda foi o fato de Truffaut ter suprimido da versão cinematográfica o Sabujo, a temida criatura robótica algoz de todos aqueles que contrariavam os interesses da ordem dominante. Mesmo assim, é interessante ver como o diretor francês transformou em imagens alguns signos interessantes do livro de Bradbury, como o carro dos bombeiros, por exemplo.

Obra-prima

Sem dúvida, Fahrenheit 451 foi uma de minhas melhores leituras neste ano. É um livro notável, capaz de falar ao coração de todo aquele que ama a Literatura, dá valor aos livros e encara o processo de leitura como um momento de abertura de perspectivas, de incremento da visão de mundo e de problematização das questões da existência.

Para mim, o ponto alto da história foi a maneira encontrada pelo autor de preservar os livros em um contexto totalitário. Trabalhar o pensamento e a reflexão sobre aquilo que se lê, tendo como ponto de partida a assimilação das obras clássicas da Literatura mundial, constitui o objetivo que deveria nortear qualquer atividade de leitura. Não se trata apenas de ler, mas de buscar maneiras de refletir sobre o que foi lido, de empregar um tempo precioso para aperfeiçoar o pensamento. É isso. E muito mais, é claro!

Fahrenheit 451 (livro)
Ray Bradbury
Globo de Bolso
2014 – 214 páginas

Fahrenheit 451 (filme)
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut e Jean-Louis Richard, a partir do romance de Ray Bradbury
Ano: 1966
País: Estados Unidos
Gênero: Ficção científica
Duração: 112 minutos
Elenco: Oskar Werner (Guy Montag); Julie Christie (Linda Montag/Clarisse); Cyril Cusack (Capitão); Anton Diffring (Fabian); Alex Scott (homem-livro)

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Projeto Hitchcock | Sabotagem/O marido era o culpado (1936)

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Achei bastante curioso o fato de um mesmo filme ser conhecido por dois títulos diferentes. Internacionalmente, Sabotage é o nome utilizado na filmografia de Hitchcock; aqui no Brasil, O marido era o culpado é outro título pelo qual esta mesma produção é conhecida, embora eu não saiba a razão disso. Uma coisa é certa: O marido era o culpado é simplesmente um título ridículo, que depõe contra esse trabalho interessante, realizado por Hitchcock na década de 1930, durante a “Fase Inglesa” de sua filmografia.

Joseph Conrad

O roteiro do filme foi desenvolvido a partir do romance O Agente Secreto, de autoria do escritor britânico Joseph Conrad (1857-1924). Infelizmente, não li o livro antes de assistir ao filme (mas fiquei bastante curiosa para fazer isso), então não tenho parâmetros para avaliar questões de adaptação da história. Entretanto, a atmosfera criada pelo diretor é muito sugestiva. Trabalha com elementos acessórios para criar um efeito generalizado ao espectador, uma vez que o principal fator já é revelado nas primeiras cenas do filme: como um dos títulos sugere, o marido de Sylvia Verloc, de fato, é mostrado em atitude suspeita. Por isso, de antemão, já se sabe que se trata de um sabotador, mas a motivação do Sr. Verloc, bem como a organização para qual ele trabalha, uma possível colaboração de sua esposa nessa “operação” são pontos que se tornam os principais no desenvolvimento do filme.

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Ted (John Loder) e Sra. Verloc (Sylvia Sydney)

Assim como desde cedo se sabe que o Sr. Verloc está desenvolvendo uma atividade ilícita, o filme de Hitchcock também mostra logo de início que Ted, um suposto empregado da quitanda que funciona vizinha ao cinema do casal Verloc, é mais do que um simples quitandeiro. Suas ações revelam, talvez prematuramente, que ele é um investigador no rastro de Verloc – seu comportamento no sofisticado Restaurante Simpsons, em companhia da Sra. Verloc e de seu irmão, Stevie é uma prova de que ele não é quem diz ser. Assim como o espectador, Ted quer saber se a Sra. Verloc tem conhecimento do trabalho secreto de seu marido e quais são os próximos passos do sabotador.

Definitivamente, Sabotagem não é um filme badalado entre as produções da Fase Inglesa de Alfred Hitchcock, mas é uma trama interessante, sem muitos recursos de impacto (cenas de ação, por exemplo), porém com uma história instigante. Stevie, o irmão caçula da Sra. Verloc, adquire uma importância inesperada no enredo, com um suspense crescente, o que contribui para dar força ao desfecho do filme.

Sabotagem/O marido era o culpado
1936
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Benett, Ian Hay, Helen Simpson, baseado no romance de Joseph Conrad, The Secret Agent
Duração: 76 minutos
Elenco: Sylvia Sydney (Sylvia), Oskar Homolka (Sr. Verloc), John Loder (Ted), Desmond Tencer (Stevie)

 

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Projeto Hitchcock | Disque M para Matar (1954)

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A temática do crime cuidadosamente planejado é o mote deste, que é um dos filmes mais famosos (e possivelmente um dos melhores) do mestre Hitchcock. O ex-tenista Tony Wendice (o excelente Ray Milland) decide elaborar um plano para matar sua bela esposa Margot (Grace Kelly), ao perceber que ela está apaixonada pelo escritor de romances policiais Mark Halliday (Robert Cummings), com o qual já mantém um caso há cerca de um ano. Para tanto, Wendice chantageia o ex-colega de escola Charles Alexander Swann/Lesgate (Anthony Dawson) para pôr em prática sua estratégia praticamente perfeita.

Tudo parece sob controle. Com a morte de Margot, Wendice herdaria o dinheiro da esposa (de família abastada) e poderia manter seu elevado padrão de vida, além de se livrar da sombra do homem traído. Ray Milland é extremamente hábil na composição de um personagem racional, frio, mas ao mesmo tempo de sorriso amistoso, capaz de enganar, a princípio, não apenas a polícia, mas também o ingênuo escritor Halliday.

A belíssima Grace Kelly é o pivô do triângulo, com uma atuação eficiente e convincente acima de tudo. Margot é uma mulher que, apesar de desejar a felicidade ao lado de outro homem que não é o seu marido, não compõe a imagem da mulher vulgar e dissimulada. Desde muito cedo, o homem traído da história toma para si o papel de “vilão”, ao agir de forma fria e inescrupulosa, e é muito interessante a maneira pela qual Hitchcock mostra isso ao espectador, por meio de cortes e closes insinuantes (olhares, sorrisos), algumas propositais ausências de diálogos, cores e composição de figurino etc. Há certa simplicidade – o filme não tem mais do que dois ou três ambientes – na produção que contrasta com a alta elaboração da ideia do roteiro.

Dois fatos me fizeram associar Disque M para Matar a outros filmes de Hitchcock dos quais gostei muitíssimo: Suspeita (1941) e Pacto Sinistro (1951), resenhados aqui e aqui. Isso porque, em Disque M..., também há a figura do escritor de histórias policiais, a exemplo de Suspeita, e assim como acontece em seu predecessor, suas habilidades são requeridas – em Suspeita, um dos pontos altos do filme ocorre quando Johnny Aysgarth, personagem de Cary Grant, aterroriza ainda mais sua esposa, ao indagar, de forma inocente, uma conhecida escritora, durante um jantar entre amigos, sobre as formas perfeitas de cometer um assassinato. Já a temática do crime perfeito cometido por coação também se assemelha ao enredo do ótimo Pacto Sinistro.

Por fim, preciso destacar o papel de John Williams como inspetor-chefe Hubbard, com surpreendente reviravolta em seu papel de investigador, jogando habilmente com os suspeitos. E, sobre a questão do “M” do título, cito a explicação do excelente post do blog Cine Análise sobre o filme:

Outro exemplo é a belíssima imagem do dedo de Tony discando o telefone de sua casa, momentos antes do atentado à vida de Margot. O número começa com o número 6, que corresponde ao ‘M’ do telefone, em alusão à palavra ‘murder’, assassinato em inglês. Como era difícil conseguir um plano detalhe (onde só uma parte do corpo do personagem é enquadrada) com as duas câmeras necessárias para se filmar em três dimensões, Hitch mandou fazer um dedo e um telefone gigantes para conseguir o efeito desejado, que ficou muito bom, diga-se de passagem.”

Disque M para Matar
1949
Direção: Alfred Hitchcock Roteiro: Frederick Knott (baseado em peça de sua própria autoria) 105 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

 

Livro & Filme | O Falcão Maltês

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Considerada uma das obras-primas do universo da literatura policial, O Falcão Maltês é, certamente, uma das principais referências do gênero em termos mundiais. O livro escrito por Dashiell Hammett em 1929 traz consigo toda a verossimilhança proporcionada pela experiência do autor, que trabalhou oito anos como policial e serviu nas duas guerras mundiais.

Seu protagonista, Sam Spade, é um dos ícones entre os detetives da ficção literária. Seu perfil poderoso impressiona seus clientes e também seus inimigos. O autor o descreve quase como um semideus, com olhos diabólicos, físico privilegiado, galanteador e dono de uma personalidade marcante.

Achei bastante interessante o universo noir que Hammett consegue imprimir à sua história. Mais do que a trama em si, a leitura de O Falcão Maltês é válida pela rotina da década de 1930, homens e mulheres com chapéus, casacos, comprando jornais para se manterem informados e fazendo ligações de saguões de hotéis para incrementar a trama. O charme da época valoriza também os diálogos, em um tempo no qual a tecnologia ficava a cargo de telefones no máximo. Nesse cenário, Sam Spade é um detetive com direito a escritório, secretária e advogado para livrá-lo de eventuais encrencas. E o autor capricha na elaborada rede de intrigas que ronda a perseguição à relíquia do Falcão de Malta, herança histórica omitida nos livros de História.

– Lá vem ela de novo! – disse o detetive, com resignação jocosa.

– Mas você sabe que é verdade – insistiu a moça.

– Não, eu não sei de nada. – Ele bateu de leve na mão que mexia no botão do seu paletó. – O que nos trouxe aqui foi a minha busca de motivos para eu confiar em você. Não vamos confundir as coisas. Você não precisa confiar em mim, no final das contas, contanto que consiga me persuadir a confiar em você.” (pág. 88)

Durante a perseguição ao rico artefato, Dashiell Hammett estrutura uma narrativa eletrizante para contar o jogo de influências, disputa de confiança, dinheiro e reputações. A leitura é fluida, dividida em capítulos não muito extensos e povoada por personagens misteriosos. Sam Spade é hábil em pisar em territórios desconhecidos, enquanto identifica possíveis aliados e inimigos. Para tanto, se vale de um discurso confiante, muitas vezes na base do blefe, para conseguir as respostas que precisa:

– Bem, senhor, existem outros meios de persuasão além de matar e ameaçar matar.

– Claro – concordou Spade –, mas eles não adiantam grande coisa se por trás de tudo não estiver a ameaça de morte para manter a vítima sob o seu poder. Entende o que digo? Se você tentar qualquer coisa que não me agrade, não vou colaborar. Vou criar uma situação em que você vai ter de desistir ou então vai ter de me matar, ciente de que não pode se dar ao luxo de me matar.” (pág. 246)

No decorrer da minha experiência de leitura de O Falcão Maltês, consultei vários rankings de melhores livros e filmes. Em vários deles figurava a obra de Dashiell Hammett e a produção dirigida por John Huston. Sam Spade consagrou-se não apenas nas páginas da literatura, como também nas telas de cinema.

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Minha surpresa ao ver o filme foi constatar o altíssimo grau de fidelidade em relação ao livro. Praticamente nenhum evento foi cortado na versão cinematográfica. Huston estruturou cenas e diálogos com exata semelhança à trama de Hammett. Sua versão, a terceira para o cinema (outras duas foram feitas em 1930 e em 1936 e não foram muito fiéis ao texto original), é considerada pela crítica a adaptação definitiva do texto literário de O Falcão Maltês. O fluxo do roteiro é tão fluido quanto os capítulos do livro.

O que me deixou um pouco perdida foi Humphrey Bogart como Sam Spade e Mary Astor como Brigid O’Shaughnessy. Apesar de muito bem interpretados, o perfil físico dos personagens no livro em nada combina com o dos atores escalados para os papéis, o que tornou ainda mais difícil a missão de Bogart e de Astor, os quais tiveram de caprichar na atmosfera sentimental e na construção da personalidade em suas atuações para superar esse obstáculo.

A estreia do filme foi em 3 de outubro de 1941, com êxito de público e de crítica. Os estúdios da Warner, produtora do filme, tentaram aproveitar a onda do sucesso cinematográfico da obra de Hammett e chegaram a oferecer 5 mil dólares para que o autor escrevesse uma continuação. Entretanto, o criador de O Falcão Maltês queria uma oferta mais alta, e a falta de entendimento entre ambas as partes frustrou o projeto.

O filme merece todo o mérito, por ter conseguido valorizar ainda mais a reputação da obra de Dashiell Hammett. Seu ritmo é tão eletrizante quanto o do livro, o corte das cenas é dinâmico, e a edição muitas vezes consegue ser tão sugestiva quanto à do texto do livro. Tive essa impressão muito provavelmente por causa do tanto de acontecimentos que o filme consegue trazer com tão pouco tempo de duração, preservando ao máximo o enredo original. Um clássico caso de uma transposição bem-sucedida para as telas do cinema!

O Falcão Maltês (livro)
Dashiell Hammett
Companhia das Letras
2001 – 293 páginas

O Falcão Maltês (filme)
Direção: John Huston
Roteiro: John Huston, baseado no romance de Dashiell Hammett
Ano: 1941
País: Estados Unidos
Gênero: Policial/Suspense/Filme Noir
Duração: 100 minutos
Elenco: Humphrey Bogart (Sam Spade); Mary Astor (Brigid O’Shaughnessy); Peter Lorre (Joel Cairo); Gladys George (Ivã Archer); Barton MacLane (Tenente Dundy); Lee Patrick (Effie Perine); Sydney Greenstreet (Kasper Gutman); Ward Bond (Detetive Tom Polhaus); Jerome Cowan (Miles Archer)

Projeto Hitchcock | Notorious (1946)

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Depois que assisti a esse filme, a primeira coisa que fiz foi uma pesquisa na internet para tentar descobrir por que “Notorious” virou “Interlúdio” em sua tradução em português. Não consegui encontrar a resposta. Por isso, quem tiver alguma pista a respeito, por favor, deixe um comentário neste post para esta humilde fã de Hitchcock…

Passado esse primeiro incômodo, fiquei satisfeita com mais essa produção da filmografia do mestre. Notorious é um filme intrigante, tem a sua dose de curiosidade – sua trama é ambientada no Brasil, embora seja perceptível que as cenas não tenham sido filmadas aqui –, e, apesar de alguns detalhes que vou observar brevemente a seguir, tem um enredo interessante e, possivelmente, o casal protagonista mais bonito que Hitchcock conseguiu reunir em um filme seu: Ingrid Bergman e Cary Grant.

Continuo considerando Suspeita (resenhado aqui) o melhor trabalho de Cary Grant com Hitchcock. E isso não se deve ao fato de ele ter uma fraca atuação em Notorious, mas sim à questão de que, neste enredo, ele assume um papel muito mais coadjuvante de Ingrid Bergman. É nas mãos dela que residem os momentos cruciais da trama. Certamente, essa é a chave do filme. A falta de experiência e também a fragilidade de Alicia (personagem de Ingrid) conferem a Notorious o grau de suspense que o filme precisa para instalar na cabeça do espectador a dúvida sobre o sucesso da missão à qual ela e Devlin (Cary Grant) precisam executar.

Gostei do ambiente preto e branco do filme, gostei dos ambientes – embora tenha me incomodado muito os personagens vestidos até o pescoço, ou mesmo de preto dos pés à cabeça em pleno Rio de Janeiro! –, mas me desagradou ligeiramente o ritmo do filme. Notorious demora para engrenar, seu “tempo de introdução” é, além de “paradão”, maior do que o esperado. Talvez isso se relacione diretamente ao processo de aceitação de Alicia, que, sendo filha de um homem condenado por deserção, cabe a ela “redimir a honra da família” colaborando para destruir uma operação nazista no período Pós-Segunda Guerra Mundial. Para tanto, o experiente agente Devlin deve acompanhá-la até certo ponto do processo, porém todo o sucesso da operação está nas mãos de Alicia.

Um fator envolvente desse filme, no entanto, é que o clichê de um enredo simples e de maniqueísmo bastante acentuado contrapõe-se a uma construção/desconstrução do relacionamento amoroso que se estabelece entre Alicia e Devlin. Os personagens apaixonam-se e envolvem-se logo de cara, para, uma vez determinada a missão de ambos, distanciarem-se, pois o desempenho de Alicia depende do seu envolvimento com um dos mais influentes homens nazistas daquela época – o qual, inclusive, foi “amigo” de seu pai e já nutria interesse por ela.

Ao deixar no ar a dúvida – não se sabe se o ciúme e o amor de Devlin por Alicia vão permiti-lo socorrê-la em seu momento de maior necessidade – que põe em risco a missão, Hitchcock consegue armar sequências cinematográficas muitíssimo interessantes, com sucessões de cenas mudas que não apenas externam o medo e o desespero de Alicia, como também arrancam do espectador reações que apenas um bom filme consegue arrancar. Ponto para o mestre do suspense!

Notorious (Interlúdio)
1946
Produção: Alfred Hitchcock e Barbara Keon Roteiro: Ben Hecht, Alfred Hitchcock, Clifford Odets
102 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Projeto Hitchcock | Intriga Internacional (1959)

Neste último trabalho de Cary Grant com Alfred Hitchcock – o qual, em minha opinião, não supera a excelente sua atuação em Suspeita (1941) – o ator dá vida a Roger Thornhill, um publicitário executivo de Manhattan que é confundido com o Sr. Kaplan, um espião do governo. A partir daí, perseguido pela gangue de Phillip Vandamm (James Mason), Thornhill presencia um assassinato na ONU, envolve-se amorosamente com a contraespiã Eve Kendall (Eva Marie Saint) e acaba de fato bancando o agente secreto e colaborando com o governo, tendo o seu ápice em uma fantástica sequência de ação filmada no Monte Rushmore, aquele com os rostos de quatro presidentes dos Estados Unidos: George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln.

Intriga Internacional é um filme muito bem feito, em alguns momentos efetivamente eletrizante, mas me deixou com algumas dúvidas. Depois de assisti-lo, fiquei, por exemplo, pensando que me parece uma ponta solta o envolvimento de Thornhill em toda a conspiração, uma vez que fica muito claro que ninguém até então tinha visto o tal Sr. Kaplan e, ao investigar o quarto de hotel onde o suposto espião estava hospedado, Thornhill experimenta o terno recém-chegado da lavanderia do hotel e constata que a roupa é bem menor do que ele. Seu perseguidor, inclusive, ao vê-lo, surpreende-se com sua altura. Enfim, não encontrei uma ligação plausível para justificar o envolvimento do protagonista na tal “intriga internacional”.

A charmosa e sedutora Eve Kendall perde um pouco de seu mistério pelo fato de muito cedo já ter ficado claro para o espectador a existência de um membro infiltrado na quadrilha de Vandamm.

A meu ver, a tão famosa sequência na qual Roger Thornhill foge dos sucessivos ataques de um avião num campo de plantação de cana no meio do nada no interior, rumo a Chicago, se não me engano, foi totalmente incoerente. Primeiro, porque é óbvio que existe a possibilidade de matarem o protagonista, muito embora toda a encenação seja apenas para dar um susto no personagem de Cary Grant, que se refugia na plantação e conta com a ajuda de um caminhão para se livrar de seu perseguidor aéreo. Para mim, foi meio sem propósito tudo isso, pois acabou não contribuindo decisivamente para o filme. O valor da sequência é estético, cinematográfico, com tomadas sem trilha sonora (apenas o barulho do motor do avião se aproximando e se distanciando) que chegam a causar certa angústia, mas não tem peso no enredo.

Já a parte final, com a perseguição no Monte Rushmore, é o ponto alto do filme. Muito bem feita para os padrões da época, trata-se de um momento no qual Intriga Internacional realmente mexe com o espectador e oferece um “perigo real” a Thornhill e Eve – algo bem coerente com o ambiente de espionagem que se espera do filme.

Em última análise, essa produção do Mestre Hitchcock é tecnicamente muito boa, bem executada, mas apresenta enredo frágil, com “pontas soltas”, infelizmente. Vale pela ação e pelo ritmo bastante dinâmico da trama.

Intriga Internacional
1959
Roteiro: Ernest Lehman
136 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Projeto Hitchcock | O Homem que Sabia Demais (1956)

Eu resolvi esperar um pouco para escrever esta resenha, pelo fato de que assistir a esse filme provocou alguns sentimentos contraditórios em mim. Por exemplo: como uma trama tão bem dirigida pode apresentar tantos fatos improváveis no roteiro? De início, já posso dizer que as várias falhas no enredo tiram o brilho de O Homem que Sabia Demais.

Talvez o que mais tenha me decepcionado seja o fato de eu ter gostado tanto do casal protagonista, em contraponto a um mau aproveitamento de ambos, em decorrência de personagens pouco consistentes.

A produção de 1956 de O Homem que Sabia Demais é, na verdade, uma versão do original dirigido por Hitchcock em 1934. Eu não vi a primeira, logo, tenho apenas a segunda como parâmetro.

O caso é que, desde o início deste projeto, este foi um dos filmes sobre os quais eu ouvi mais coisas positivas. E confesso que isso acabou por aumentar o meu nível de exigência. O filme conta com alguns diferenciais, de fato, como a sequência no Albert Hall, já no fim do filme, em que o encadeamento de cenas consegue perfeitamente passar a angústia que Jo McKenna (a ótima Doris Day) está sentindo, mas, na “conta geral”, não me parece suficiente para superar a decepção.

O enredo do filme gira em torno da família composta pelo médico Ben McKenna (James Stewart), sua esposa Jo, uma cantora temporariamente afastada dos palcos para se dedicar à família, e seu filho, um garoto de uns 8 anos, em viagem pelo Marrocos. A estada da família, de apenas 3 dias, torna-se um pesadelo quando, em um mercado marroquino, eles presenciam o assassinato de um homem conhecido no dia anterior, na chegada da família. Na ocasião da morte, o homem misterioso confia a Ben um segredo tão valioso, que acarreta o sequestro do filho do casal, em troca das informações obtidas pelo médico (mais uma vez, aquela coisa toda de intrigas internacionais, assassinatos políticos e coisa e tal).

Contando dessa forma, o mote de O Homem que Sabia Demais parece bastante intrigante e promissor. E é. O problema, por exemplo, é a súbita transformação da personalidade esperta, desconfiada e ágil de Jo, que, após, o sequestro do filho, torna-se lenta, chorona e pouco astuta. Mesmo abalada pelo sumiço da criança, é de se notar a uma mudança tão drástica.

Em vez de se empenhar para auxiliar o marido, Jo acaba por se tornar um peso durante o processo, contribuindo muito menos do que poderia nesse processo. Vale ressaltar que, no início do filme, é Jo quem tudo observa, desconfia das pessoas misteriosas do Marrocos e faz comentários bastante inteligentes. Seu marido é confiado, pouco atento e sociável. A partir do momento em que a criança é sequestrada, as características básicas de Jo são subvertidas, o que contribui para tornar a construção de seu personagem fraca. Esta é uma das falhas que mais incomodam no roteiro de O Homem que Sabia Demais.

Outro ponto, não menos importante, que enfraquece o filme é grande quantidade de vezes que os sequestradores da criança McKenna têm a chance de matá-la e não o fazem por motivos muito pouco plausíveis. Isso faz com que, a partir de um determinado momento, o espectador já saiba que tudo vai acabar bem – desculpem o spoiler –, já que poderia ter dado errado há bastante tempo e isso não aconteceu.

Para compensar as falhas do roteiro, Hitchcock capricha em sequências memoráveis e também com a trilha sonora original da canção vencedora do Oscar e interpretada por Doris Day, Que sera, sera (Whatever Will be, Will be). Para mim, foi uma grande surpresa ver Doris Day estrelando um filme de Hitchcock – mesmo com todos os problemas desta produção cinematográfica –, pois eu cresci assistindo aos divertidos musicais dessa atriz. E um dos méritos do diretor inglês foi o de saber extrair, do talento de Doris, uma interpretação muito boa, ainda que seu personagem apresente uma série de inconsistências.

O Homem que Sabia Demais
1956
Roteiro: John Michael Hayes, baseado no livro de Charles Bennett e D.B. Wyndham-Lewis
Elenco: James Stewart (Ben McKenna); Doris Day (Jo McKenna); Daniel Gélin (Louis); Bernard Miles (Sr. Drayton), Brenda De Banzie (Sra. Drayton)
120 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Projeto Hitchcock | Agente Secreto (1936)

Dezembro é um mês muito corrido (muito mais do que o normal), o que me fez optar por um filme de curta duração para dar continuidade a este Projeto Hitchcock.

Desta vez, a escolha foi por Agente Secreto, de 1936, uma produção da fase inglesa da filmografia de Alfred Hitchcock.

A primeira observação curiosa que posso fazer sobre esse filme é justamente a de que ele não parece ter o “dedo” de Hitchcock. Agente Secreto é, antes de tudo, uma espécie de paródia – algumas vezes sem graça – sobre os espiões durante a Primeira Guerra Mundial. O grande problema desse filme parece ser a quantidade de incoerências no enredo – algo que, sem dúvida, põe tudo a perder.

Tudo começa quando uma missão de matar um agente alemão é confiada a três pessoas que, ao que tudo leva a crer, não têm experiência no serviço secreto. Uma delas é o soldado Ashenden (John Gielgud), a outra é a espirituosa Elsa (Madeleine Carroll) e, fechando o trio, o intrépido e nada discreto General (Peter Lorre).

Entre idas e vindas, começa a chatear o espectador os constantes erros cometidos durante a missão – Ashenden e General conseguem matar o homem errado, criando um conflito até que interessante com Elsa sobre abandonar ou não o seu objetivo –, alternando-os com situações que, a princípio, deveriam ser minimamente cômicas, mas infelizmente não causam esse efeito no público, conferindo ao filme um ritmo capenga.

Hitchcock tenta salvar a produção com uma sequência final estruturada com mais ação, mas que acaba sendo prejudicada pelo anticlímax – acho que qualquer espectador consegue descobrir, muito antes da hora, quem é o verdadeiro espião alemão que precisa ser assassinado.

Enfim, para um filme que tem “secreto” até no nome, não há muito que comemorar, pois o amadorismo da construção dos personagens protagonistas não só torna tudo uma história clichê, como também tira o glamour das produções de espionagem. Para o próprio Hitchcock, Agente Secreto deve ter sido um fardo em sua filmografia, uma vez que ele sucedeu ao ótimo Os 39 Degraus, também com temática de espionagem e já resenhado aqui.

Agente Secreto
1936
Roteiro: Charles Benett, Ian Hay, Alma Reville, Jesse Lasky Jr, baseado na peça de Campbell Dixon e W. Somerset Maugham
86 minutos
Reino Unido

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Projeto Hitchcock | Os Pássaros (1963)

Nem preciso falar da minha expectativa em torno desse filme, por ele ser, é claro, uma das maiores e mais famosas produções do mestre Hitchcock. E, após assisti-lo, é impossível não passar bastante tempo refletindo, pois sem dúvida, há muito a ser dito sobre ele.

Produzido logo após o estrondoso sucesso de Psicose, com Os Pássaros, Hitchcock tinha a missão de se superar em termos de crítica, público e também como cineasta. Não sei ainda se isso aconteceu, pois, apesar de já estar com Psicose em mãos, ainda não o assisti, pela vontade de, antes, ler o livro que inspirou esse filme. Entretanto, de acordo com a crítica especializada, Hitchcock conseguiu vencer o desafio com louvor. E tudo a partir da ideia central de um conto escrito pela inglesa Daphne du Maurier (1907-1989) em 1952. Hitchcock escolheu outros trabalhos dessa autora para o enredo de seus filmes, como Rebecca (1940), que ainda será resenhado neste blog e Marnie, Confissões de uma ladra (1964), sobre o qual já falei.

Concordo com o Bruno, do excelente blog Cine Análise, quando ele diz que Os Pássaros é uma história de pessoas, e não de animais (não humanos). Certamente. É também uma história do medo cuja causa é conhecida – em algumas passagens do filme, fica claro que o medo que atormenta as pessoas é um medo do conhecido (medo dos pássaros e de seus ataques) e, em alguns casos, o medo daquilo que não é visto pelas pessoas, mas é conhecido por elas. Isso acontece, por exemplo, quando se ouve o barulho dos pássaros, mas eles não aparecem efetivamente na cena. Seria algo mais ou menos no estilo de O Coração das Trevas, de Conrad. O terror é velado, por isso é tão genial. A sutileza de Hitchcock, em várias de suas obras-primas reside, a meu ver, justamente no fato de que ele não precisa ser apelativo para inspirar as mais diversas sensações no espectador. Ele é engenhoso demais para se render a artifícios cinematográficos óbvios, daí a alta qualidade de seu trabalho. Contudo, acho muito importante estabelecer essa diferença entre o medo do desconhecido e o medo daquilo que se conhece, mas, em alguns momentos, não se vê. São coisas bem distintas uma da outra.

Em Os Pássaros, o enredo é, aparentemente, muito simples. A socialite Melanie Daniels (a então estreante Tippi Hedren) conhece o advogado Mitch Brenner (Rod Taylor) em uma loja de aves em San Francisco. Neste primeiro encontro, estabelece-se uma tensão emocional entre ambos, que motiva a ida de Melanie até a casa da família de Mitch, em Bodega Bay, Califórnia. De quebra, constitui-se o fio simbólico que vai mediar a relação de Melanie e Mitch durante todo o filme: os pássaros. Em Bodega Bay, estranhos casos de ataques de aves a pessoas começam a ser notados após a chegada de Melanie, que leva um casal de pássaros de presente de aniversário para a irmã de Mitch.

Abrilhantam a qualidade do filme, a atuação obscura e até misteriosa de Lydia (a ótima Jessica Tandy), a possessiva mãe de Mitch e a presença marcante de Suzanne Pleshette como Anne Hayworth, professora e ex-namorada do protagonista. Eu cheguei até a cogitar se não teria sido mais interessante trocar os papéis entre as atrizes, com Pleshette como a protagonista Melanie e Hedren como Anne. No entanto, creio ter falado mais alto a predileção de Hitchcock pelas loiras, além do fato de que, no fim do filme, fica claro que Melanie tinha uma sensibilidade intrínseca, até uma certa fragilidade, que Tippi Hedren conseguiu imprimir muito bem ao papel, e que talvez Suzanne Pleshette não o fizesse com tanta eficiência, justamente por ter um magnetismo muito forte.

Embora Rod Taylor não tenha me agradado muito como parceiro da protagonista – acho que estou me viciando em James Stewart e Cary Grant nos papéis principais –, reconheço que ele se saiu bem nas sequências de ação de Os Pássaros. O que não me convenceu muito foi a “pinta” de garanhão que o papel de Mitch Ros exigia. Enfim.

Uma coisa que me ocorreu, em relação à trama de Os Pássaros, além dos muitos pontos já falados e discutidos pela crítica – como a inversão dos papéis da cadeia alimentar, com humanos “engaiolados”, procurando se proteger dos ataques das aves como suas predadoras, a consolidação de uma outra conotação de medo, diferente daquela causada no espectador por Psicose, por exemplo, as técnicas cinematográficas, que foram tão importantes para a execução e o sucesso do filme – foi a ideia de “castigo divino” e até de alguma espécie de “maldição”. Castigo divino, no que se refere ao troco do tratamento precário imposto pela humanidade às outras espécies vivas, e maldição, ou estigma, do personagem de Melanie, pois, apesar de nada ficar muito claro para quem assiste ao filme, “a rebelião” das aves contra as pessoas começa quando a socialite chega a Bodega Bay.

Vale lembrar também que, na sequência final, quando Mitch abre a porta de casa para levar Melanie ao hospital – desculpem os spoilers! –, o advogado vê uma quantidade assustadora de pássaros espalhados até onde é possível enxergar e, surpreendentemente, as aves não se voltam contra ele. Percebendo que Melanie está sendo levada embora dali, elas simplesmente assistem à cena sem investir contra Mitch, que carrega a moça nos braços, sua mãe e sua irmã. É como se tivessem conseguido alcançar o seu objetivo: tirar Melanie da cidade.

Tudo isso são conjecturas, é claro. A trama de Os Pássaros tem um fim até, como eu poderia dizer, excessivamente simples para ser assistido nos dias de hoje, quando os blockbusters hollywoodianos apresentam desfechos tão faraônicos. Contudo, parece-me que é nas indagações deixadas para os espectadores que reside a força não apenas do filme em si, mas do efeito causado pela exibição desta obra-prima de Hitchcock.

É simplista dizer que essa produção merece ser assistida por causa da perfeição dos ataques dos pássaros – o que não deixa de ter o seu valor cinematográfico, que fique bem claro. No entanto, é na conduta e nas justificativas dos personagens diante da rebelião das aves que, a meu ver, reside a principal chave de interpretação para o sentido do filme e para as discussões que ele propõe. Não são as respostas; são as perguntas.

Os Pássaros
1963
Roteiro: Evan Hunter, baseado no conto de Daphne Du Maurier
119 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Projeto Hitchcock | Suspeita (1941)

Preciso confessar que este filme não é do tipo que empolga, mas ele tem outra virtude que talvez seja até mais compensadora do que exatamente causar aquele frenesi no espectador: é daquele tipo que você termina de assistir e é capaz de ficar horas e horas remoendo cenas, falas, e refletindo sobre o que parecia ser, sem ter a plena certeza do que é de fato. Confuso? Bem, trata-se de uma obra aberta no melhor sentido da expressão.

Em Suspeita, o ótimo Cary Grant interpreta Johnnie Aysgarth, um completo bon vivant: boa pinta, de papo envolvente, jovial, olhar sedutor, mas nenhum centavo no bolso. Tudo seria completamente clichê, se sobre Aysgarth não pairasse a suspeita de que ele seria capaz de matar para viver uma vida de luxos fáceis. Afinal, bon vivant, ou assassino?

Este é o mote do filme. Bem simplista, contado dessa forma. O caso é que tudo o que mestre Hitchcock põe a mão ganha uma pitada de mágica e com este filme não é diferente.

A escolha de Joan Fontaine (que, um ano antes, protagonizou Rebecca, também dirigida por Hitchcock) para viver o par romântico de Grant não poderia ter sido mais bem-feita. Ela tinha uma fragilidade no olhar que Grace Kelly ou Tippi Hedren (outras musas constantes de Hitchcock) não seriam capazes de reproduzir. Joan foi a escolha perfeita para viver a rica Lina McLaidlaw, uma solteirona que se torna uma esposa apaixonada e, na mesma proporção, amedrontada, à medida que vai juntando peças sobre o caráter dúbio do marido.

O que achei bem interessante no filme foi a questão dos ícones, dos índices sugestivos deixados pelo diretor ao longo da trama. Logo na volta da lua de mel, quando Johnnie não hesita em vender o par de tradicionais cadeiras de madeira nobre que o pai de Lina envia como presente de casamento, fica clara a ideia de que o protagonista é capaz de passar por cima de um símbolo de sua união com Lina para garantir seus prazeres, como pagar suas dívidas de jogo para continuar a apostar em cavalos, por exemplo. O fato de o presente ser um par de cadeiras fortes, trabalhadas, presentes há várias gerações na família de Lina é sugestivo de que o pai da moça anseia que a união de ambos seja duradoura; a atitude de Johnnie, por outro lado, põe tudo a perder e mostra quão frágil era a relação de ambos. Contudo, mais tarde, quando o personagem de Grant usa o dinheiro roubado da empresa do capitão Melbeck para reaver as cadeiras no antiquário, há uma sutil esperança de que Lina pode fazer com que Johnnie mude, por mais difícil que isso possa parecer.

A meu ver, apesar de não se tratar de um momento de ação do filme – como a sequência final, do carro em alta velocidade nas curvas sinuosas do caminho para a casa da mãe de Lina – o ápice de Suspeita é um momento que também gira em torno de um índice mais do que sugestivo: um copo de leite.

Após um jantar sinistro, no qual o principal assunto foi um debate acalorado sobre venenos, Hitchcock prepara uma sequência de planos bastante escura, na qual Johnnie sobe lentamente as escadas de sua mansão levando uma pequena bandeja com um copo de leite para Lina, que já se encontra muito fragilizada e altamente desconfiada das intenções assassinas de seu marido. Esta parte do filme é simplesmente excelente, não apenas por criar uma angústia terrível em relação à Lina, como também pela plasticidade da cena – li no blog Degustando Hitchcock que o diretor pôs uma lâmpada dentro do copo, para ressaltá-lo na escuridão. Engenhoso!

A possibilidade de Johnnie ter matado seu melhor amigo, o alegre e abobalhado Beaky (Nigel Bruce) é o fato que passa a, definitivamente, aterrorizar Lina em relação a Johnnie. O mais notável disso tudo é que não é a morte em si de Beaky que a assusta, mas sim a frieza por trás daquela morte, indicando que, possivelmente, não haja formas de conter seu marido. Conjecturas.

O mais interessante do filme não é o que é dito, mas exatamente aquilo que é “sugerido”. O diálogo final de Johnnie com sua esposa não é nada brilhante, mas a dúvida que continua a pairar sobre ele (mesmo depois do que ele diz) é o toque magistral de Suspeita. Em outros blogs, li que esta foi uma das produções de Hitchcock na qual o estúdio determinou uma mudança no roteiro, em função, inclusive, das reações do público das prévias. Enfim, ainda que isso tenha acontecido, por meio da fala final de Johnnie, eu confesso que não fiquei convencida (esta é a mágica de Hitchcock), por isso creio que o título do filme não poderia ter sido mais bem escolhido.

Suspeita
1941
Roteiro: Samson Raphaelson, Joan Harrison e Alma Reville, baseado no romance Before the fact, de Anthony Berkeley
99 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.