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Cinema | Assassinato no Expresso do Oriente

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Cartaz da versão de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente está entre os maiores romances de Agatha Christie. Vários fatores colaboram para isso: seu vínculo com um crime real; a brilhante mecânica do assassinato construído pela autora nas páginas do livro; e a genialidade de Hercule Poirot, em condições totalmente adversas, são alguns deles.

Em termos cinematográficos, também são bem-sucedidas as adaptações mais conhecidas desse livro: a de 1974, dirigida por Sidney Lumet e elenco estelar, com seis indicações ao Oscar (levando a estatueta de melhor atriz coadjuvante para Ingrid Bergman), e a de 2010, episódio especial da série da BBC para comemorar os 120 anos de nascimento de Agatha Christie, com o ótimo David Suchet no papel de Poirot.

2017: elenco e enredo

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Cartaz da versão de 1974

Este ano, mais uma versão chegou às telas do cinema para “engrossar o time”. O ator, diretor e dramaturgo inglês Kenneth Branagh assumiu o desafio de não apenas dirigir, mas também protagonizar Assassinato no Expresso do Oriente em sua mais recente releitura. Seu Hercule Poirot passa longe da tentativa de aproximação com as interpretações de seus antecessores e, seguindo a mesma linha, sua direção leva o enredo a novos caminhos, apresentando uma nova forma de contar a mesma história.

Ainda não temos o devido distanciamento histórico para avaliar o peso do elenco de 2017, mas não há dúvida de que Branagh escolheu um bom time para sua versão. A despeito da grande dificuldade de encarar a delicada tarefa de reinterpretar os papéis consagrados pelo elenco espetacular de 1974, uma análise preliminar já é suficiente para constatar que o time de 2017 consegue desempenhar bem o seu papel, justamente pelo fato de que as mudanças incluídas nesta nova versão criam certo grau de independência em relação às montagens anteriores.

Entre os personagens, algumas trocas, algumas adaptações. Em uma manobra ousada, a Greta Ohlsson de Ingrid Bergman (1974) dá lugar a uma tão religiosa quanto Pilar Estravados, interpretada por Penélope Cruz (2017). O Coronel Arbuthnot de Sean Connery, em 1974, transforma-se na pele do ator negro Leslie Odom Jr., dando ao diretor a oportunidade de tocar no delicado assunto do racismo, implacavelmente levado a cabo pelas falas do misterioso Hardman, interpretado por Willen Dafoe.

Ritmo

A versão de 2017 deixa muito clara a preocupação do diretor em relação ao ritmo da história. Apesar de funcionar muito bem em forma de livro, a restrição de ambientes em tom ligeiramente claustrofóbico de Assassinato no Expresso do Oriente poderia não cair muito bem nas telas do cinema. A versão de 1974, muito fiel ao livro, apresenta claramente esse obstáculo, com praticamente todas as cenas ocorrendo dentro do trem, a partir do momento em que esse luxuoso veículo deixa a estação.

Em 2017, Kenneth Branagh cria situações para dinamizar o enredo, levando algumas cenas para fora do trem, realizando perseguições ao longo dos vagões e reservando o momento da resolução do crime para o ambiente externo. Todas essas variações foram atitudes corajosas do diretor, pois claramente quebraram o ritmo original da história, conferindo à sua versão toques de ação no melhor estilo blockbuster hollywoodiano. Para o bem e para o mal, Branagh buscou adaptar uma história antiga para tempos modernos, tentando torná-la palatável ao gosto de uma nova geração de espectadores com dificuldade de concentração e, consequemente, grau de atenção frequentemente comprometido – durante a sessão, vi algumas pessoas deixando a sala do cinema bem antes do fim.

Mrs. Hubbard

Os holofotes privilegiaram bastante a personagem de Michelle Pfeiffer. Se, em 1974, Lauren Bacall já tinha imprimido charme e personalidade à sua Mrs. Hubbard, em 2017, Kenneth Branagh criou várias oportunidades para Michelle Pfeiffer brilhar com uma interpretação forte, em cenas de teor dramático bastante impressionantes. É de se ressaltar a forma como Pfeiffer abraçou a “causa” de sua personagem, abrindo mão da vaidade para dar mais veracidade à sua interpretação, especialmente em suas cenas finais. Não será uma surpresa se sua Mrs. Hubbard lhe render alguns prêmios.

Poirot

Infelizmente, Agatha Christie não pode nos fornecer sua avaliação sobre o trabalho de Kenneth Branagh – ela prestigiou a estreia da versão de 1974 e, apesar de ter aprovado o filme, não gostou da interpretação de Albert Finney como Hercule Poirot. Para mim, a melhor releitura de Poirot ainda é a de David Suchet, na série da BBC, muito embora Kenneth Branagh tenha me surpreendido com seu competente trabalho, não apenas como diretor, mas também como um Poirot atualizado dentro de sua proposta para a versão de 2017.

Ficha técnica
Assassinato no Expresso do Oriente
Direção: Kenneth Branagh
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Drama; Mistério; Suspense
Duração: 114 minutos
Elenco: Kenneth Branagh, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Josh Gad, Derek Jacobi, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Daisy Ridley, Lucy Boynton, Sergei Polunin, Judi Dench, Olivia Colman, Leslie Odom Jr., Tom Bateman, Marwan Kenzari, Manuel Garcia-Rulfo

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Retrospectiva | 2017

Neste primeiro post de 2018, é hora de rever o que consegui ler e assistir em 2017. Sem dúvida, foi um ano um pouco atribulado para mim, o que resultou em um número menor de leituras – pouco mais de 30 livros, sem contar as HQs – e também em um menor número de filmes/séries vistos ao longo dos últimos 12 meses. Isso se deveu não apenas a motivos particulares (várias cirurgias na família e períodos de corre-corre em visitas e hospitais), como também ao maior período que passei durante o ano estudando idiomas.

Diversidade

Um fato que me deixou bastante contente foi a diversidade de leituras que consegui realizar no último ano. Além de conseguir contemplar alguns títulos pendentes de 2016, foi muito bom voltar a ler gêneros aos quais há muito tempo eu não me dedicava, como o livro-reportagem, por exemplo. O ano de 2017 também foi momento de leituras de teores bem diferentes, como livros infantis, clássicos distópicos, releituras e também de várias revistas.

psicose_1373943361bSe comprovadamente eu li menos em 2017, posso me considerar muito feliz pela qualidade dos livros lidos. Nos últimos 12 meses, tive o privilégio de ler livros brilhantes, como Psicose (Robert Bloch), Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), A vida imortal de Henrietta Lacks (Rebecca Skott), Quem matou Roland Barthes? (Laurent Binnet) e A revolução dos bichos (George Orwell).

No âmbito da literatura nacional, não posso deixar de destacar minha volta aos clássicos: em 2017, li um ótimo livro de crônicas de João do Rio, Histórias da gente alegre (pretendo fazer um post sobre João do Rio mais adiante); li o primeiro romance de Lima Barreto, Recordações do Escrivão Isaías Caminha; e também Diva, romance de José de Alencar.

Revistas e HQs

Foi muito bem-vinda a chegada da Revista Quatro Cinco Um, no mês de maio. Ao longo dos últimos meses, tenho acompanhado essa publicação, repleta de textos interessantíssimos para leitores inveterados. Também li vários especiais das Revistas Superinteressante e Mundo Estranho em 2017.

Não li tantas HQs quanto eu queria, mas posso destacar a graphic novel Corpos, da Vertigo, e o livro O fantasma de Anya, de Vera Brosgol.

Para fechar a parte das leituras, em 2017 também encontrei um tempinho para me dedicar mais aos estudos da Língua Portuguesa e também da Língua Inglesa, já que prestei o TOEIC no mês de agosto. Por isso, fiz algumas leituras originais em inglês (algo do que já estou me orgulhando) e li alguns livros teóricos de português.

Filmes, séries e documentários

Fui ao cinema algumas vezes em 2017 para acompanhar produções derivadas dos quadrinhos, como Mulher-Maravilha e Liga da Justiça – ambos comentados neste blog. Em setembro, ainda consegui assistir no cinema ao filme João, baseado na história do maestro João Carlos Martins – que belo filme!

0424359Também foi um ano em que consegui ver dois documentários que me interessaram bastante: Foucault contra si mesmo e Lygia, uma escritora brasileira. Recomendadíssimos!

Fiz alguns posts sobre séries aqui no blog ao longo deste ano. Tenho acompanhado as produções que a Netflix vem fazendo sobre o universo Marvel e destaquei também a primeira temporada da bela e sensível Tokyo diner, midnight stories e também da espirituosa The good place – ambas também comentadas aqui.

Para 2018, tenho vários planos, mas resolvi não fazer listas, nem estipular metas, pois ainda tenho títulos pendentes da lista que fiz para 2016! Portanto, para não sabotar meu próprio planejamento, irei aos poucos seguindo com os projetos de leitura que já estão em andamento (os quais continuaram em 2017, embora em ritmo mais lento) e, na medida do possível, acrescentarei novidades!

Feliz ano-novo!

 

 

Cinema | Liga da Justiça

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Este comentário chega com algumas semanas de atraso, mas eu não poderia perder a oportunidade de falar sobre essa iniciativa tão corajosa por parte da DC Comics. Sim, porque eu sou fã de quadrinhos da época em que o sonho geral eram os filmes com super-heróis, porém a realidade era dura e sabia-se que não havia recursos para tanto. Algumas décadas depois, o cenário mudou.

As exigências

Hoje, não apenas temos várias superproduções criadas a partir do universo das HQs em um mesmo ano (um luxo, comparado à realidade de anos atrás), como também criticamos duramente aspectos técnicos, efeitos especiais, enredos e por aí vai. No caso das produções cinematográficas da DC, noto um grau de intolerância até maior do que em relação aos filmes da Marvel, ainda que Quarteto Fantástico e Homem de Ferro 2 e 3, por exemplo, já sejam produções pífias o bastante (não nos mesmos aspectos, mas ambas igualmente chatas e cheias de arestas) para deixar qualquer fã com os dois pés atrás.

Em relação à Liga da Justiça, primeiro, acho importante ressaltar que unir em um mesmo filme seus maiores heróis é um desafio e tanto. As críticas já eram esperadas, e eu creio que todos aqueles que acompanham o assunto já tinham seus pontos a destacar. Contudo, expor, de uma só vez, Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha, incluindo nomes secundários no pacote já é, por si só, um marco no cinema de heróis.

Ben Affleck como Batman é um ponto que me incomoda desde Batman x Super-Homem (comentado aqui). Eu ainda estava sob os efeitos muito positivos de Christian Bale como homem-morcego na trilogia de Christopher Nolan e essa troca de atores não me pareceu nada boa. Entretanto, fiquei surpresa ao constatar que Affleck carregou muito bem a responsabilidade de interpretar o único herói sem poderes em Liga da Justiça. Não há dúvida de que Batman é o maior representante dos seres humanos em uma trama na qual todos os outros protagonistas são super-humanos. Por isso, seu papel, a meu ver, é o mais difícil de todos.

Quem é o herói?

De tudo o que a Liga da Justiça trouxe aos seus espectadores, para mim, o mais positivo foi a discussão sobre o conceito de herói. Em um grupo cujos membros personificam essa ideia das mais variadas maneiras, pensar sobre o que está em jogo para cada um deles me parece ser a questão mais interessante. Afinal, quem tem mais a perder em uma batalha que envolve um poderoso inimigo, criaturas alienígenas, amazonas e guerreiros marinhos?

O filme traz o Lobo da Estepe como um bom vilão (um ponto bem executado), um enredo dinâmico (para alguns até demais) e tenta lidar com suas fragilidades postergando ao máximo a entrada do Super-Homem na trama, pois é um fato que seu membro mais poderoso traz consigo as maiores exigências dentro e fora das telas, bem como é capaz de diminuir naturalmente a importância de seus companheiros.

Nota-se um claro envolvimento coletivo no incremento das questões técnicas do filme – para mim, foram grandes bobagens as polêmicas do bigode de Henry Cavill eliminado por computação gráfica e outras coisas desse gênero. Perder tempo com esse tipo de coisa significa que todo o restante de nada vale para consideração. Trilha sonora e edição são pontos mais bem cuidados do que em produções anteriores.

A meu ver, o saldo é positivo no fim de todas as contas. Mulher-Maravilha continua sendo um diferencial, maior figura feminina nesse universo; Aquaman fantástico esteticamente, promissor como protagonista de um filme solo já em produção; Ciborgue e Flash são contrapontos eficientes, embora me pareçam fora do eixo cronológico. A DC conseguiu dar um passo importante no estabelecimento de seu universo cinematográfico, a despeito de todos os problemas que a Liga da Justiça possa ter.

 Ficha técnica
Liga da Justiça
Direção: Zack Snyder
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Ação; Ficção Científica
Duração: 2 horas
Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fischer, Amy Adams, Jeremy Irons, Diane Lane, Connie Nielsen, J.K.Simmons, Amber Heard, Ciarán Hinds

Distopias | Fahrenheit 451

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Foi há coisa de uns três meses, com o lançamento da revista de livros Quatro cinco um (comentada aqui), que eu me lembrei de que tinha na estante o livro que inspirou o título da revista – ainda não lido.

Resolvi ler o livro antes de me dedicar ao primeiro número da revista e a leitura do clássico escrito por Ray Bradbury me deixou tão embevecida, que passei a agradecer pelo lançamento da Quatro cinco um só pelo fato de isso ter me motivado à leitura de um livro há dois anos esquecido na minha estante.

Trata-se de um enredo envolvendo uma sociedade distópica, resultado de um governo totalitário, que oprime os cidadãos que mantêm o gosto pela leitura e, principalmente, que dispõem de exemplares em suas casas. Nesse contexto sociopolítico que associa a infelicidade aos questionamentos proporcionados pelo hábito da leitura, os bombeiros constituem o elemento opressor, responsável por incendiar os livros apreendidos (vizinhos, conhecidos e mesmo parentes denunciam-se uns aos outros) e prender os leitores.

Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma.” (pág. 76)

Momento histórico

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Bradbury escreveu sua obra-prima no cenário mundial pós-Segunda Guerra em 1953. Originalmente chamado The fireman, o livro veio depois dos aclamados Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (publicado em 1932), e de 1984, de George Orwell (de 1949).

Contudo, o pai dos romances distópicos não é nenhum desses tão famosos autores. Nós, escrito pelo russo Yevgeny Zamyatin (1884-1937) entre os anos de 1920 e 1930, é o primeiro livro conhecido desse gênero. Além desses, outros enredos distópicos também viriam ao conhecimento do público mais tarde, como Metropolis (pelo filme de Fritz Lang, em 1927), Laranja Mecânica (pelo livro de Anthony Burgess, de 1962, e transformado em filme por Stanley Kubrick dez anos depois) e O Conto da Aia, de Margaret Atwood, publicado em 1985.

Montag, o bombeiro

As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo, mas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver, noventa e nove por cento delas está num livro. Não peça garantias. E não espere ser salvo por uma coisa, uma pessoa, máquina ou biblioteca. Trate de agarrar a sua própria tábua e, se você se afogar, pelo menos morra sabendo que estava no rumo da costa.” (pág. 107)

Um bombeiro que começa a se interessar pelos livros que deveria incendiar é o ponto de partida para a revolução na sociedade até então tão controlada do enredo de Ray Bradbury. Os questionamentos de Guy Montag ultrapassam o nível do aceitável, quando o bombeiro começa a se dar conta do vazio que tomava conta de seu casamento, bem como de sua falta de perspectiva em relação à sua profissão – tudo isso a partir de pequenos diálogos estabelecidos com sua vizinha Clarisse no trem, ou andando pelo bairro, diariamente, na volta do trabalho. Afinal, qual era o sentido de queimar livros e de viver com uma mulher que nem se lembra de quando o conheceu?

A versão de Truffaut

Mais de dez anos depois, o prestigiado François Truffaut levou para as telas do cinema a adaptação do romance de Bradbury. A produção vale pelo caráter de divulgação e de estímulo ao interesse do público pelo texto original, sem dúvida. Entretanto, o cinema sofre pela concisão necessária a obras que pedem um alto grau de complexidade de construção, como é o caso de Fahrenheit 451.

É incrível como o livro consegue transmitir mais emoção do que o filme no ápice da trama, com a fuga de Montag. Outra grande perda foi o fato de Truffaut ter suprimido da versão cinematográfica o Sabujo, a temida criatura robótica algoz de todos aqueles que contrariavam os interesses da ordem dominante. Mesmo assim, é interessante ver como o diretor francês transformou em imagens alguns signos interessantes do livro de Bradbury, como o carro dos bombeiros, por exemplo.

Obra-prima

Sem dúvida, Fahrenheit 451 foi uma de minhas melhores leituras neste ano. É um livro notável, capaz de falar ao coração de todo aquele que ama a Literatura, dá valor aos livros e encara o processo de leitura como um momento de abertura de perspectivas, de incremento da visão de mundo e de problematização das questões da existência.

Para mim, o ponto alto da história foi a maneira encontrada pelo autor de preservar os livros em um contexto totalitário. Trabalhar o pensamento e a reflexão sobre aquilo que se lê, tendo como ponto de partida a assimilação das obras clássicas da Literatura mundial, constitui o objetivo que deveria nortear qualquer atividade de leitura. Não se trata apenas de ler, mas de buscar maneiras de refletir sobre o que foi lido, de empregar um tempo precioso para aperfeiçoar o pensamento. É isso. E muito mais, é claro!

Fahrenheit 451 (livro)
Ray Bradbury
Globo de Bolso
2014 – 214 páginas

Fahrenheit 451 (filme)
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut e Jean-Louis Richard, a partir do romance de Ray Bradbury
Ano: 1966
País: Estados Unidos
Gênero: Ficção científica
Duração: 112 minutos
Elenco: Oskar Werner (Guy Montag); Julie Christie (Linda Montag/Clarisse); Cyril Cusack (Capitão); Anton Diffring (Fabian); Alex Scott (homem-livro)

Cinema | Mulher-Maravilha

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Eu cresci lendo gibis e revistas sobre histórias em quadrinhos. Era muito comum – e desestimulante também – ler reportagens que faziam previsões muito pessimistas sobre a possibilidade de levar para os cinemas especificamente dois personagens: Wolverine e Mulher-Maravilha. Foi, portanto, muito bacana ver os anos passando e constatar que as previsões – nos dois casos – estavam erradas.

No caso da Mulher-Maravilha, foram mais de 70 anos até que a indústria cinematográfica fosse capaz de fazer jus à personagem feminina mais icônica do mundo dos super-heróis. Criada por William Moulton Marston em 1941, Diana de Themyscira, princesa, amazona, semideusa, foi, durante muito tempo, o único contraponto feminino em um mundo dominado por homens, por heróis. Por isso mesmo, em muitos momentos, foi motivo até mesmo de piadas, embora, mesmo secretamente, nas mentes de muitas meninas, ela alimentasse a emancipação feminina. O seu “sacrifício” foi reconhecido: Mulher-Maravilha é embaixadora honorária da Organização das Nações Unidas (ONU), tem o seu dia – 21 de outubro é o Dia Internacional da Mulher-Maravilha – e é, até hoje, uma das maiores representações femininas da cultura pop mundial.

Cinema

Tudo isso constitui motivo mais do que suficiente para alimentar muita expectativa em torno do filme da princesa amazona. E a produção dirigida por Patty Jenkins não decepcionou os fãs. Da série de TV protagonizada pela bela Linda Carter nos últimos anos da década de 1970, até a aventura estrelada pela atriz e modelo israelense Gal Gadot, Mulher-Maravilha cresceu em conteúdo, ganhou conotação social importante, e alcançou papel de destaque nos debates em torno do empoderamento feminino.

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Linda Carter, a Mulher-Maravilha na TV

Em termos cinematográficos, o filme tem se mostrado uma experiência bem-sucedida (mais de 500 milhões de dólares arrecadados em bilheteria até o momento) também por seus méritos técnicos, bem como aqueles diretamente relacionados ao processo de transposição positiva de um personagem das histórias em quadrinhos para a sétima arte. Gal Gadot ressignifica o conceito de Mulher-Maravilha, atualiza sua feminilidade, para isso em muito auxiliada por uma equipe eficiente, que soube aproveitar as referências da personagem original e trabalhar em cima de uma matéria-prima que já era muito boa.

Ganha força no filme o misto de inocência e força concentrada na Mulher-Maravilha personificada por Gal. Ela não esmaga o Steve Trevor interpretado por Chris Pine, porém envolve toda a estrutura do filme de forma muito marcante, sem medo de imprimir o seu toque à personagem.

Todas as mulheres do filme se unem na missão de dar poder ao sexo feminino. Seja pela habilidade marcial de Hipólita (Connie Nielsen) e Antiope (a excelente Robin Wright, da série House of Cards, é uma atração à parte nas batalhas da ilha de Themyscira), seja na tímida participação da secretária Etta (Lucy Davis), ao mesmo tempo cômica, mas esforçada em seu ofício. O antagonismo da Dra. Maru, na pele de Elena Anaya, constitui a primeira barreira, mesmo que indiretamente, no caminho de Diana.

O mal em toda parte

Sem dúvida, é um ponto forte do filme a maneira pela qual o mal disseminado na humanidade é retratado. Ao contrário da ideia ingênua de Diana, Ares, o deus da guerra e a personificação do mal, não está apenas encarnado no militar alemão Ludendorff, mas está presente em cada ser humano, o que confere força ao verdadeiro Ares, capciosamente oculto sob outra identidade. A complexidade demonstrada pelo enredo, ao fazer a heroína perceber que não é possível, literalmente, exterminar o mal pela raiz é uma das grandezas do filme, o que o faz ultrapassar o maniqueísmo simples.

Ao confronto entre bem e mal, contrapõem-se as cenas de humor e de romantismo discreto protagonizadas por uma princesa Diana que é livre para viver suas emoções (não apenas as suas lutas) – mais um passo na direção de um exercício de feminilidade que deve ser a inspiração de toda mulher.

Ficha técnica
Mulher Maravilha
Direção: Patty Jenkins
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Aventura
Duração: 2h21min
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Elena Anaya, Lucy Davis

Livro & Filme | A Delicadeza

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É sempre polêmico falar de obras adaptadas da literatura para o cinema. Pessoalmente, sempre me posiciono a favor desse tipo de transposição, porque esse processo não apenas estimula o interesse pela produção original, como também permite uma nova interpretação (uma ressignificação) da obra.

No caso de livros que, em sua essência, já são muito bons (este é o caso aqui), é ainda mais complicado aceitar o desafio de transformá-lo em filme. O escritor francês David Foenkinos aceitou correr esse risco, roteirizando e dirigindo o filme inspirado diretamente no romance de sua autoria.

Apesar de esses breves comentários não terem como objetivo a comparação estrita entre livro e filme – sabe-se que as linguagens têm as suas peculiaridades –, não posso deixar de observar que o ponto mais forte do livro é justamente a linguagem literária que o autor não consegue, como roteirista e diretor, imprimir ao filme, mesmo com as singelas e equilibradas interpretações de Audrey Tautou e François Damiens como o casal protagonista Nathalie e Markus.

História

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O enredo é simples: após uma viuvez prematura, a jovem e competente economista Nathalie precisa retomar sua vida e superar o vazio deixado por um casamento feliz. A delicadeza preconizada no título da história é o combustível do romance: está em uma grande quantidade de detalhes com os quais Foenkinos constrói a transição entre um amor interrompido bruscamente e a aparição de um novo sentimento a partir de um ato completamente despido de premeditação por parte de Nathalie.

É curioso observar como o recurso visual acaba minando a magia que a leitura impulsiona por meio de detalhes, verdadeiros toques de sensibilidade que constituem todo o diferencial do livro. Coisas como o assunto da notícia de jornal que Markus estava lendo quando Nathalie chega ao café para encontrá-lo, ou o resultado da rodada do campeonato francês de futebol na noite em que Nathalie recusa a investida amorosa de Charles, o diretor da empresa na qual trabalha, são suprimidos pelo Foenkinos roteirista e diretor, ou seja, perdem-se no fluxo de imagens que tornam simplista a autenticidade do Foenkinos escritor nas páginas de seu livro.

Por outro lado, a tentativa de contar, em menos de duas horas, uma história que não é óbvia e que é recheada de nuances e sutilezas – o leitor/expectador partilha com Nathalie de sua confusão sentimental e descobre junto a ela seus novos objetivos de vida –, faz do filme uma adaptação que, a seu modo, também tem a sua beleza e, é claro, o seu valor.

Mesmo com as limitações do cinema enquanto estimulador da criatividade da obra adaptada, a experiência de ver um romance como A Delicadeza em forma de filme (com o título também mais óbvio de A Delicadeza do Amor) é válida, porque seu resultado no cinema é um esforço intenso de veiculá-lo ao livro que o originou. E, para aqueles que gostaram da história, a oportunidade de vê-la em diferentes linguagens artísticas é enriquecedor. Talvez Foenkinos tenha pensado nessa possibilidade, quando levou seu livro para as telas do cinema. É muito mais produtivo pensar nos dois resultados (livro e filme) como complementares, do que compará-los buscando a superioridade de um sobre o outro.

A Delicadeza (livro)
David Foenkinos
Tradução de Bernardo Ajzenberg
Rocco
2011 – 191 páginas

A Delicadeza do Amor (filme)
Direção: David Foenkinos e Stéphane Foenkinos
Roteiro: David Foenkinos, baseado em seu próprio romance
Ano: 2012
País: França
Gênero: Romance
Duração: 104 minutos
Elenco:  Audrey TautouFrançois DamiensBruno Todeschini, Mélanie Bernier, Joséphine de Meaux, Pio Marmai

Projeto Hitchcock | Disque M para Matar (1954)

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A temática do crime cuidadosamente planejado é o mote deste, que é um dos filmes mais famosos (e possivelmente um dos melhores) do mestre Hitchcock. O ex-tenista Tony Wendice (o excelente Ray Milland) decide elaborar um plano para matar sua bela esposa Margot (Grace Kelly), ao perceber que ela está apaixonada pelo escritor de romances policiais Mark Halliday (Robert Cummings), com o qual já mantém um caso há cerca de um ano. Para tanto, Wendice chantageia o ex-colega de escola Charles Alexander Swann/Lesgate (Anthony Dawson) para pôr em prática sua estratégia praticamente perfeita.

Tudo parece sob controle. Com a morte de Margot, Wendice herdaria o dinheiro da esposa (de família abastada) e poderia manter seu elevado padrão de vida, além de se livrar da sombra do homem traído. Ray Milland é extremamente hábil na composição de um personagem racional, frio, mas ao mesmo tempo de sorriso amistoso, capaz de enganar, a princípio, não apenas a polícia, mas também o ingênuo escritor Halliday.

A belíssima Grace Kelly é o pivô do triângulo, com uma atuação eficiente e convincente acima de tudo. Margot é uma mulher que, apesar de desejar a felicidade ao lado de outro homem que não é o seu marido, não compõe a imagem da mulher vulgar e dissimulada. Desde muito cedo, o homem traído da história toma para si o papel de “vilão”, ao agir de forma fria e inescrupulosa, e é muito interessante a maneira pela qual Hitchcock mostra isso ao espectador, por meio de cortes e closes insinuantes (olhares, sorrisos), algumas propositais ausências de diálogos, cores e composição de figurino etc. Há certa simplicidade – o filme não tem mais do que dois ou três ambientes – na produção que contrasta com a alta elaboração da ideia do roteiro.

Dois fatos me fizeram associar Disque M para Matar a outros filmes de Hitchcock dos quais gostei muitíssimo: Suspeita (1941) e Pacto Sinistro (1951), resenhados aqui e aqui. Isso porque, em Disque M..., também há a figura do escritor de histórias policiais, a exemplo de Suspeita, e assim como acontece em seu predecessor, suas habilidades são requeridas – em Suspeita, um dos pontos altos do filme ocorre quando Johnny Aysgarth, personagem de Cary Grant, aterroriza ainda mais sua esposa, ao indagar, de forma inocente, uma conhecida escritora, durante um jantar entre amigos, sobre as formas perfeitas de cometer um assassinato. Já a temática do crime perfeito cometido por coação também se assemelha ao enredo do ótimo Pacto Sinistro.

Por fim, preciso destacar o papel de John Williams como inspetor-chefe Hubbard, com surpreendente reviravolta em seu papel de investigador, jogando habilmente com os suspeitos. E, sobre a questão do “M” do título, cito a explicação do excelente post do blog Cine Análise sobre o filme:

Outro exemplo é a belíssima imagem do dedo de Tony discando o telefone de sua casa, momentos antes do atentado à vida de Margot. O número começa com o número 6, que corresponde ao ‘M’ do telefone, em alusão à palavra ‘murder’, assassinato em inglês. Como era difícil conseguir um plano detalhe (onde só uma parte do corpo do personagem é enquadrada) com as duas câmeras necessárias para se filmar em três dimensões, Hitch mandou fazer um dedo e um telefone gigantes para conseguir o efeito desejado, que ficou muito bom, diga-se de passagem.”

Disque M para Matar
1949
Direção: Alfred Hitchcock Roteiro: Frederick Knott (baseado em peça de sua própria autoria) 105 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

 

Cinema oriental | Depois da tempestade

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Uma nota rápida sobre um filme singelo, interessante, sentimental, porém sem ser piegas. Depois da tempestade (Umi yori mo mada fuka) é o mais recente trabalho do altamente produtivo diretor do cinema contemporâneo japonês Kore-eda Hirokazu e foi integrante da 40a Mostra de Cinema Internacional de São Paulo – aliás, premiado como Melhor Filme Internacional nessa ocasião.

O enredo – abrilhantado pela excepcional atuação da veterena Kirin Kiki como mãe do protagonista Ryota (Hiroshi Abe) –é centrado na questão dos laços familiares. Apesar de simples, a história não é óbvia. Há o rompimento familiar, motivo principal da necessidade do restabelecimento das ligações parentais, mas não há a espetacularização do sofrimento– algo tão recorrente no cinema hollywoodiano. Há diálogos poéticos, mas sem pieguice, o que constitui uma das principais virtudes do filme.

A linguagem encontrada por Kore-eda para tratar de um assunto a princípio tão trivial é bastante interessante, com uma lógica cinematográfica que explora os planos mais longos e o silêncio das cenas, o que, consequentemente, dá mais espaço para o espectador atribuir mais significado ao enredo. Com isso, o diretor conserva heranças estéticas importantes do cinema de ouro japonês, mas consegue mesclar pitadas da modernidade social do Japão, explorando temas negativos, porém familiares ao seu povo, como o vício pelos jogos de azar, por exemplo.

Há humor, há uma boa construção da história e há, sobretudo, delicadeza. Depois da tempestade é um filme sensível e, ao mesmo tempo, desafiador, na medida em que se despe dos excessos e assume uma estrutura simples para buscar proximidade com o espectador.

Ficha técnica
Direção: Kore-eda Hirokazu
Ano: 2016
País: Japão
Gênero: Drama familiar
Duração: 118 minutos
Elenco: Hiroshi Abe, Kirin Kiki, Yoko Maki

 

 

Livro & Filme | O Falcão Maltês

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Considerada uma das obras-primas do universo da literatura policial, O Falcão Maltês é, certamente, uma das principais referências do gênero em termos mundiais. O livro escrito por Dashiell Hammett em 1929 traz consigo toda a verossimilhança proporcionada pela experiência do autor, que trabalhou oito anos como policial e serviu nas duas guerras mundiais.

Seu protagonista, Sam Spade, é um dos ícones entre os detetives da ficção literária. Seu perfil poderoso impressiona seus clientes e também seus inimigos. O autor o descreve quase como um semideus, com olhos diabólicos, físico privilegiado, galanteador e dono de uma personalidade marcante.

Achei bastante interessante o universo noir que Hammett consegue imprimir à sua história. Mais do que a trama em si, a leitura de O Falcão Maltês é válida pela rotina da década de 1930, homens e mulheres com chapéus, casacos, comprando jornais para se manterem informados e fazendo ligações de saguões de hotéis para incrementar a trama. O charme da época valoriza também os diálogos, em um tempo no qual a tecnologia ficava a cargo de telefones no máximo. Nesse cenário, Sam Spade é um detetive com direito a escritório, secretária e advogado para livrá-lo de eventuais encrencas. E o autor capricha na elaborada rede de intrigas que ronda a perseguição à relíquia do Falcão de Malta, herança histórica omitida nos livros de História.

– Lá vem ela de novo! – disse o detetive, com resignação jocosa.

– Mas você sabe que é verdade – insistiu a moça.

– Não, eu não sei de nada. – Ele bateu de leve na mão que mexia no botão do seu paletó. – O que nos trouxe aqui foi a minha busca de motivos para eu confiar em você. Não vamos confundir as coisas. Você não precisa confiar em mim, no final das contas, contanto que consiga me persuadir a confiar em você.” (pág. 88)

Durante a perseguição ao rico artefato, Dashiell Hammett estrutura uma narrativa eletrizante para contar o jogo de influências, disputa de confiança, dinheiro e reputações. A leitura é fluida, dividida em capítulos não muito extensos e povoada por personagens misteriosos. Sam Spade é hábil em pisar em territórios desconhecidos, enquanto identifica possíveis aliados e inimigos. Para tanto, se vale de um discurso confiante, muitas vezes na base do blefe, para conseguir as respostas que precisa:

– Bem, senhor, existem outros meios de persuasão além de matar e ameaçar matar.

– Claro – concordou Spade –, mas eles não adiantam grande coisa se por trás de tudo não estiver a ameaça de morte para manter a vítima sob o seu poder. Entende o que digo? Se você tentar qualquer coisa que não me agrade, não vou colaborar. Vou criar uma situação em que você vai ter de desistir ou então vai ter de me matar, ciente de que não pode se dar ao luxo de me matar.” (pág. 246)

No decorrer da minha experiência de leitura de O Falcão Maltês, consultei vários rankings de melhores livros e filmes. Em vários deles figurava a obra de Dashiell Hammett e a produção dirigida por John Huston. Sam Spade consagrou-se não apenas nas páginas da literatura, como também nas telas de cinema.

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Minha surpresa ao ver o filme foi constatar o altíssimo grau de fidelidade em relação ao livro. Praticamente nenhum evento foi cortado na versão cinematográfica. Huston estruturou cenas e diálogos com exata semelhança à trama de Hammett. Sua versão, a terceira para o cinema (outras duas foram feitas em 1930 e em 1936 e não foram muito fiéis ao texto original), é considerada pela crítica a adaptação definitiva do texto literário de O Falcão Maltês. O fluxo do roteiro é tão fluido quanto os capítulos do livro.

O que me deixou um pouco perdida foi Humphrey Bogart como Sam Spade e Mary Astor como Brigid O’Shaughnessy. Apesar de muito bem interpretados, o perfil físico dos personagens no livro em nada combina com o dos atores escalados para os papéis, o que tornou ainda mais difícil a missão de Bogart e de Astor, os quais tiveram de caprichar na atmosfera sentimental e na construção da personalidade em suas atuações para superar esse obstáculo.

A estreia do filme foi em 3 de outubro de 1941, com êxito de público e de crítica. Os estúdios da Warner, produtora do filme, tentaram aproveitar a onda do sucesso cinematográfico da obra de Hammett e chegaram a oferecer 5 mil dólares para que o autor escrevesse uma continuação. Entretanto, o criador de O Falcão Maltês queria uma oferta mais alta, e a falta de entendimento entre ambas as partes frustrou o projeto.

O filme merece todo o mérito, por ter conseguido valorizar ainda mais a reputação da obra de Dashiell Hammett. Seu ritmo é tão eletrizante quanto o do livro, o corte das cenas é dinâmico, e a edição muitas vezes consegue ser tão sugestiva quanto à do texto do livro. Tive essa impressão muito provavelmente por causa do tanto de acontecimentos que o filme consegue trazer com tão pouco tempo de duração, preservando ao máximo o enredo original. Um clássico caso de uma transposição bem-sucedida para as telas do cinema!

O Falcão Maltês (livro)
Dashiell Hammett
Companhia das Letras
2001 – 293 páginas

O Falcão Maltês (filme)
Direção: John Huston
Roteiro: John Huston, baseado no romance de Dashiell Hammett
Ano: 1941
País: Estados Unidos
Gênero: Policial/Suspense/Filme Noir
Duração: 100 minutos
Elenco: Humphrey Bogart (Sam Spade); Mary Astor (Brigid O’Shaughnessy); Peter Lorre (Joel Cairo); Gladys George (Ivã Archer); Barton MacLane (Tenente Dundy); Lee Patrick (Effie Perine); Sydney Greenstreet (Kasper Gutman); Ward Bond (Detetive Tom Polhaus); Jerome Cowan (Miles Archer)

Projeto Hitchcock | Sob o Signo de Capricórnio (1949)

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Eu não estou seguindo uma “metodologia” específica para assistir à filmografia de Hitchcock, mas achei bastante curioso eu, sem saber, ter seguido a sequência de produção Festim DiabólicoSob o Signo de Capricórnio. Depois desta primeira surpresa, uma segunda: a produção da vez é um filme de época! Quando eu iria imaginar Hitchcock filmando uma história ambientada no século XIX? Pois bem.

A primeira metade do filme, definitivamente, não é empolgante. Além de estranha, porque não lembrava, até então, nada do que eu já havia visto com a “assinatura” do mestre. Enfim, prossegui para ter a grata surpresa de, à medida que a trama avançava, perceber mais e mais a semelhança entre Sob o Signo de Capricórnio e Othelo, de Shakespeare. O drama do casal que vive à sombra da traição, sendo sistematicamente envenenado por um personagem sagaz e ardiloso ficava cada vez mais claro, aproximando as duas obras. Esse foi um fator instigante e que me fez seguir adiante já um pouco mais empolgada.

Em termos cinematográficos, notei a persistência dos planos-sequência de Festim Diabólico e dos longos diálogos, calcados principalmente nos conflitos sentimentais do triângulo entre Henrietta Flusky (Ingrid Bergman), Sam Flusky (Joseph Cotten) e o “intruso” Charles (Michael Wilding). São fortes e bastante convincentes as atuações do trio, mas é impossível não destacar também o belo trabalho de Margareth Leighton como a governanta Milly – o “Iago” do enredo de Hitchcock.

O que me chamou a atenção positivamente no desenvolvimento do filme foi o caráter de imprevisibilidade da história. É muito comum ouvirmos que o sol dos trópicos é capaz de tirar qualquer criatura do sério – argumento muito empregado pelos colonizadores para justificar os maus atos de “homens de bem” em cenários coloniais; neste caso, na Austrália do Trópico de Capricórnio – e esse pretexto, aliado ao fato de que o tom de tragédia shakespeariana é constante durante o filme, faz o espectador pensar que tudo de fato irá sucumbir à ardilosa trama de Milly.

Se, por um lado, Milly prepara tudo e consegue manipular Henrietta para alcançar seus objetivos, a imprevisibilidade de Charles põe tudo a perder para a governanta – desculpem o spoiler, mas Charles é, sem dúvida, o personagem mais interessante desse filme, em minha opinião. Um bon vivant que arrisca a sólida carreira de seu primo, o governador da colônia interpretado por Cecil Parker, para viver sem pensar no amanhã. E sua afeição pela personagem da bela Ingrid Bergman é a chave para a solução de toda a trama. Não é o grande acerto de Hitchcock, mas também não deixa de ser um bom filme.

Sob o Signo de Capricórnio
1949
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Hume Cronyn / James Bridie
119 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.