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Leitura | A vida imortal de Henrietta Lacks

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Foi por causa de uma dica do precioso e, infelizmente extinto, Manual Prático de Bons Modos em Livrarias que eu incluí A vida imortal de Henrietta Lacks na minha lista de leituras. Fazia tempo que eu não me dedicava a um livro-reportagem, daqueles com bastante informação, muita checagem de dados, realmente muitas horas de entrevistas, e pensei que esse livro seria uma ótima oportunidade para começar a “pagar a minha dívida” com esse estilo literário. E não me enganei.

Sem sombra de dúvida, esse trabalho da jornalista especializada em ciência Rebecca Skloot foi uma das melhores leituras que já fiz. E não estou exagerando. É nítido o esforço empreendido pela autora para refazer os passos e reconstruir a história extraordinária de Henrietta Lacks, uma mulher pobre, negra, lavradora dos campos de tabaco dos Estados Unidos da década de 1950, cujas células revolucionaram o mundo científico de maneira avassaladora.

Estrutura

É prazeroso verificar o cuidado com o qual Rebecca organiza as informações em capítulos que não seguem ordem cronológica, mas que cumprem perfeitamente a sua função: indo e voltando no tempo, os escritos vão compondo as peças de um quebra-cabeça elaborado, sofisticado, com o qual o leitor vai compreendendo quão cruel e delicado é o assunto em torno do qual orbita a morte de Henrietta: o debate ético sobre a propriedade de tecidos e outras partes do corpo humano utilizadas em pesquisas.

Em 1951, Henrietta Lacks morreu vítima de um tumor cervical fulminante. Apenas alguns meses foram o suficiente para minar a saúde da jovem mulher, na época, com apenas 31 anos. Mãe de cinco filhos, Henrietta entrou para história de maneira involuntária, após ter suas células cancerosas retiradas de seu corpo para a realização de pesquisas no tradicional hospital norte-americano Johns Hopkins. Ao constatar que as células continuavam se reproduzindo em cultura, após a retirada do corpo de Henrietta, os cientistas perceberam que estavam diante de algo revolucionário: supercélulas cancerosas que não apenas continuam se reproduzindo até hoje, como também são capazes de dominar outras culturas celulares com as quais têm contato.

Pesquisa

Rebecca Skloot precisou de cerca de dez anos de pesquisas ininterruptas para reunir material e chegar ao texto final de seu livro. Uma equipe considerável de profissionais e de respeitadas instituições colaborou com o trabalho da jornalista, fornecendo informações, documentos e bolsas de incentivo para que Rebecca pudesse realizar o seu trabalho.

O processo de pesquisa não teria sido tão bem-sucedido, se não tivesse contado com a colaboração de Deborah, a quarta filha de Henrietta e a única das mulheres a sobreviver até a idade adulta. Deborah desempenhou o papel de representante dos irmãos Lacks na busca pela verdade sobre a morte de sua mãe. Os dilemas da mulher emocionalmente frágil e pouco instruída são contados de forma contundente pelo texto de Rebecca, e é inegável que a herdeira de Henrietta estabelece um contraponto direto à personalidade equilibrada da jornalista branca, filha de pais de classe média-alta.

A vida imortal de Henrietta Lacks é, mais do que um livro-reportagem, uma obra para consulta, repleta de informações para todo leitor interessado nos bastidores do universo da pesquisa médica. Rebecca Skloot contextualiza a história da mulher responsável pela linhagem celular conhecida como HeLa no tempo e no espaço, citando não apenas outros casos de apropriação de material humano para pesquisas médicas, como também enriquecendo o leitor com dados sobre biologia, estudos genéticos e o debate jurídico em torno do assunto.

No início de 2017, a história de Henrietta chegou às telas da HBO, em versão protagonizada por Oprah Winfrey no papel de Deborah Lacks e Rose Byrne interpretando Rebecca Skloot.

A vida imortal de Henrietta Lacks
Rebecca Skloot
Tradução de Ivo Korytowski
Companhia das Letras
454 páginas

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Maigret | A noite na encruzilhada

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O fim da leitura de mais essa história protagonizada pelo comissário da polícia judiciária francesa Jules Maigret me trouxe a inevitável lembrança de Assassinato no Expresso do Oriente, uma das aventuras mais famosas de Hercule Poirot, detetive criado por Agatha Christie na década de 1920. Isso porque há um traço em comum muito forte entre as estruturas dos dois enredos. Não quero dar spoilers aqui, mas a dinâmica e o ritmo intenso também são pontos de semelhança entre os livros.

Novidade

Em A noite na encruzilhada, notei algumas passagens mais poéticas na linguagem empregada pelo belga George Simenon para contar a morte de um vendedor de diamantes de conduta duvidosa. Talvez isso tenha me chamado mais a atenção nessa leitura pelo fato de, nessa ocasião, Maigret defrontar-se com uma sensual e enigmática figura feminina: Else, irmã de Carl Andersen, o principal suspeito do crime. É muito curioso observar de que maneira Maigret, um sujeito introspectivo e grosseiro, comporta-se em relação a essa forte figura feminina.

A leitura reserva ao leitor uma porção de surpresas e reviravoltas na história, algo perfeitamente esperado de um livro policial, entretanto, é interessante como, a partir de determinado ponto da leitura, começa a ser mais importante entender a “mecânica” do crime em si, e não apenas desvendar a identidade do assassino. Simenon consegue, com essa história, causar no leitor uma impressão semelhante à que Agatha Christie conseguiu com Assassinato no Expresso do Oriente, por isso a minha observação no começo desse texto. Ambos os autores conseguem mudar os holofotes para o percurso do crime, tornando-o mais importante do que o seu fim.

Na TV

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Novamente, tive a oportunidade de ver a adaptação dessa história em um episódio da série produzida pela ITV, tendo como protagonista Rowan Atkinson no papel de Maigret.

Deixando de lado o choque que sempre me acomete, ao me deparar com a gentileza de Atkinson em contraponto à rudeza do Maigret das páginas de Simenon, é facilmente perceptível que, contrariamente ao que ocorreu com a adaptação de Maigret e seu Morto (comentada aqui), desta vez os roteiristas mudaram completamente a história original, criando uma nova versão da trama.

Apesar de valorizar o interesse que uma adaptação para a TV pode gerar em relação ao livro, creio que o fato de Atkinson dar vida a um Maigret em muitos aspectos diferentes do original e também de os roteiristas não serem nada fiéis ao enredo elaborado por Simenon, cria-se um distanciamento que compromete a identidade do Maigret dos livros, talvez diminuindo o desafio de retratá-lo em tela.

A noite na encruzilhada
Georges Simenon
Tradução de Eduardo Brandão
Companhia das Letras
2014 – 136 páginas

A noite na encruzilhada (Segundo episódio da série ITV)
Rowan Atkinson como Maigret
Uma produção ITV (Inglaterra)
2017 – 1h28min

Discworld | Pirâmides (1989)

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Algo diferente aconteceu no processo de leitura desse volume de Discworld: interrompi o livro duas vezes. Isso foi inédito, porque, até então, Terry Pratchett vinha emplacando uma boa continuação atrás da outra, mas preciso dizer que “Pirâmides”, o sexto volume da sequência direta da série, não conseguiu o mesmo efeito. Pelo menos não a princípio.

Desenvolvimento

Neste livro, o autor começa uma nova trama do zero, com personagens totalmente novos para o leitor, o que é sempre um risco em time que está ganhando. Sem personagens-chave, como Rincewind, Duas-Flor, Morte, ou Vovó Cera do Tempo (grandes acertos de Pratchett até aqui), ficou nas costas do jovem Teppic, herdeiro de um pequeno e inexpressivo reino notado apenas por suas pirâmides, sustentar uma trama que poderia ser mais curta (o ritmo da história foi um problema).

Pirâmides, como o título já indica, trata da mitologia no Disco fazendo, é claro, uma referência direta ao nosso Egito. A ideia é interessante, mas demora para engrenar – tudo começa a ficar mais interessante depois da página 100, quando a proposta do autor passa a se mostrar brilhante, estabelecendo um elaborado jogo espaço-temporal.

Pratchett usa esse volume da série para fazer “um ponto fora da curva”, digamos assim. Se a trama apresenta problemas de ritmo, eles são compensados com uma boa construção literária (algumas piadas não funcionam, e há momentos em que os trocadilhos caem na artificialidade, mas ainda assim o saldo é positivo.

Crítica

A constituição do enredo diverge dos volumes precedentes da série, mas é por isso mesmo que arrisco dizer: em termos de estrutura, este livro supera os anteriores. Quando o leitor se dá conta do sentido maior, obtido quando cada detalhe se junta, formando a trama completa, Pirâmides revela-se uma grande crítica e, ao mesmo tempo, uma grande brincadeira envolvendo o ato da criação, a disputa pelo poder e a religião como grande instrumento manipulador. Ou seja, são muitos os acertos que tornam a leitura compensadora.

Não sei se Teppic voltará a aparecer em outros volumes da saga, mas, se o fizer, será bem-vindo.

Pirâmides
Terry Pratchett
Tradução de Ludimila Hashimoto
Conrad Editora
298 páginas

Personalidades | Marie Curie

 

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Fiquei simplesmente fascinada com a história de vida de Maria Sklodowska, polonesa de nascimento, que se tornou mundialmente conhecida como Marie Curie (1867-1934).

Trajetória 

Eu me emocionei com a tenacidade dessa mulher, que não apenas teve de superar as limitações técnicas do mundo científico de seu tempo, como também precisou enfrentar a resistência de uma sociedade patriarcal que se opôs ferozmente ao seu trabalho. Mesmo assim, Marie conseguiu se formar com méritos em Física e em Matemática pela Sorbonne e deu início às pesquisas sobre radioatividade.

Conquistas

Ao lado de seu marido, o também cientista Pierre Curie (1859-1906), Marie desenvolveu importantes estudos que culminaram com o Prêmio Nobel de Física, em 1903, a partir de uma descoberta feita por acaso por Antoine Becquerel que conduziu Marie à descoberta de dois novos elementos da tabela periódica: o polônio (batizado em homenagem à sua terra natal) e o rádio.

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Entretanto, foi depois da morte prematura de seu marido que Marie precisou de toda a perseverança para seguir com seu trabalho. Se antes a cientista já havia passado por situações nas quais teve de deixar que Pierre se apresentasse sozinho, pois mulheres não eram aceitas em eventos acadêmicos, agora Marie precisava de muita coragem e disciplina para continuar suas pesquisas. E foi nessa fase que ela conquistou o segundo Nobel, agora em Química.

 

Marie Curie foi não apenas a primeira mulher a ser premiada com o Nobel, como também é a única pessoa do mundo a ter dois prêmios em áreas afins. Como se não bastasse tudo isso, ela também é a única pessoa a ter um parente também laureado com o Nobel: sua filha mais velha, Irène Joliot-Curie (1897-1956), ganhou o Nobel de Química em 1935, ao lado de seu marido, Frédéric Joliot-Curie (1900-1958).

Curiosidade

Em 1944, uma equipe de pesquisadores norte-americanos descobriu o cúrio, outro elemento da tabela periódica, e o batizou dessa forma em homenagem ao casal Curie.

Série Vaga-lume | O segredo dos sinais mágicos

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Achei bastante significativo me deparar com uma releitura com temas tão atuais. Sérsi Bardari não teve medo de usar a trama de O segredo dos sinais mágicos para tratar de assuntos como o preconceito racial, o preconceito contra as liberdades da mulher e o culto religioso.

– … Você está por fora, cara! Tua cabeça é pré-histórica. Imagine, pensar que uma garota é fáci só porque ela se veste à vontade!? Onde já se viu? Eu sei, foi o seu pai quem lhe ensinou isso, não foi? Que mentalidade atrasada, meu Deus!… E tem mais, violência não está com nada. Grosseria não conquista ninguém.” (pág. 54)

Mais uma vez, a Série Vaga-Lume mostra seu valor, ao tratar, por meio de um enredo muito bem elaborado, de temas que precisam ser discutidos com os jovens leitores.

Contexto e trama

Um dos pontos fortes do livro é a interdisciplinaridade. O segredo dos sinais mágicos é uma história que pode ser explorada de forma conjunta por professores de Língua Portuguesa, História e Educação Artística, o que, aliás, poderia render trabalhos bem interessantes.

O autor utiliza os cenários da Bahia e de Lisboa para desenvolver o enredo protagonizado pela jovem negra Janaína e por Jorge, o sobrinho branco de Fátima, a madrasta portuguesa garota. O sincretismo religioso dos orixás africanos com os santos portugueses é o grande toque do mistério que envolve a investigação pela busca de um tesouro que pode salvar o futuro financeiro da família portuguesa de Fátima e Jorge. Para isso, contudo, as pistas estão nas mãos de Janaína.

Essa leitura é uma ótima oportunidade para retomar pontos da história de Portugal e compreender melhor um pouco da história dos negros, por meio de sua religião e seus significados. A cada ponto da investigação de Janaína e Jorge em busca do tesouro, o autor amarra pontos que relacionam, de alguma maneira, Brasil e Portugal.

Desdobramentos 

Considero muito válida a leitura desse livro de Sérsi Bardari, autor que publicou, pela própria Série Vaga-Lume, outros títulos que mesclam questões históricas com religião, mitologia e esoterismo.

Em tempos tão intolerantes, levar aos jovens assuntos tão delicados é, sem dúvida, uma maneira inteligente de abordar questões sócio-históricas importantes.

O segredo dos sinais mágicos
Sérsi Bardari
Editora Ática
1993 – 111 páginas

Estante | Títulos

Resolvi criar essa categoria aqui no blog para encaixar determinadas curiosidades sobre os livros que tenho. Assuntos que, apesar de guardarem sua carga de interesse, não se encaixam em outras “seções” que já consolidei aqui.

Começo, então, por uma parte muito importante de cada obra literária: o título. Confesso que já me interessei profundamente por determinados livros a partir de seus títulos. Não é algo que acontece sempre, mas sempre considero um episódio curioso quando isso acontece.

Assim, selecionei alguns títulos que valem a menção ou por sua beleza, ou pela curiosidade que provocam, ou ainda por seu teor inusitado. Vamos lá!

cronica_da_estacao_das_chuvas_1242073909bCrônica da estação das chuvas (Nagai Kafu) – Este é um dos títulos mais bonitos que já vi. Este livro de Nagai Kafu também conta uma história interessante sobre a vida noturna japonesa do início do século XX, ambientada nas ruas de Tóquio e nas casas de chá. Uma leitura que fiz há muitos anos, mas que vale uma releitura a qualquer hora.

Digam a Satã que o recado foi entendido (Daniel Pelizzari) – Sem dúvida, este é o título mais inusitado da minha estante. Esta trama contemporânea conduzida por Pelizzari se passa em Dublin, na Irlanda, e mistura assuntos completamente diferentes entre si, com um efeito pós-moderno e uma sensação de algo sempre está escapando pelas páginas…

Antes do baile verde (Lygia Fagundes Telles) – O que dizer de um dos maiores nomes de nossa literatura? O título deste livro de contos é poético e mexe com a ideia de figuras de linguagem e, ao mesmo tempo, instiga a leitura.

O livro do cemitério (Neil Gaiman) – Esse título é mórbido e curioso. Gosto dele. Aliás, Gaiman é um dos meus escritores favoritos e este é um de seus melhores livros em minha opinião. Já escrevi sobre ele aqui no blog.

12165_ggCinzas do Norte (Milton Hatoum) – Não é o meu livro favorito do mestre Hatoum (já falei sobre ele aqui), mas, sem dúvida, é o título que mais mexe comigo entre suas obras. O interessante é que esse título, em si, não diz muita coisa, mas é extremamente bonito a meu ver. Está à altura de uma bela história, sem dúvida alguma.

As filhas sem nome (Xinran) – Também já falei sobre este livro aqui no blog, mas não podia deixar de incluir esse título tão forte neste pequeno levantamento. Pensar em uma pessoa sem nome, para mim, é pensar em alguém sem identidade. Alguém que, necessariamente, não existe para efeitos legais e que não é sujeito de suas ações. Neste livro, a autora chinesa conta a saga de várias mulheres de uma mesma família no contexto da sociedade chinesa rural e urbana também, acompanhando-as em seus caminhos.

A melhor democracia que o dinheiro pode comprar (Greg Palast) – Um livro-reportagem que já vale a leitura por esse título tão contundente. O autor é um repórter investigativo norte-americano que vive e trabalha na Inglaterra como freelance. Neste livro, Palast dedica-se a mostrar o que há por trás das grandes organizações petrolíferas, privatizações e fraudes não apenas nos Estados Unidos, mas chegando ao Brasil também.

Não há dúvidas de que esta lista pode ser ricamente encorpada, e é possível que eu continue a fazer isso em posts futuros. Por ora, e para não cansar a leitura, fico nestas primeiras observações.

HQ | Corpos

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O grande desafio de uma obra cuja estrutura é grandiosa é justamente manter o seu argumento monumental no decorrer de seu desenvolvimento, culminando com um clímax igualmente impressionante. Corpos, HQ seriada em 8 partes no mercado internacional lançada em 2014 e publicada em volume único no Brasil no mês de junho deste ano, propõe a si mesma essa provocação.

A ideia elaborada por Si Spencer (o mesmo de Hellblazer, A cidade dos demônios) e desenvolvida por seu time de artistas gráficos é instigante e proporciona uma leitura ao mesmo tempo reflexiva e insólita. Li várias resenhas de teor negativo a respeito de Corpos, mas devo dizer que discordo. Trata-se de um bom trabalho, que vale a leitura.

Enredo

Um corpo masculino, nu, com sinais de tortura, mutilação e tudo o mais, é sumariamente encontrado em uma calçada em Londres. Um assassinato bárbaro, sem dúvida. Esse é o ponto de partida para o desenrolar da HQ. Até aí, nada de tão novo, se o mencionado assassinato, com as mesmas características, não se repetisse de tempos em tempos e no mesmo lugar (Inglaterra). Ao leitor, isso é apresentado em quatro momentos: 1890, 1940, 2014 e 2050. Em cada uma dessas épocas, a investigação do crime fica a cargo de uma figura peculiar: o inspetor Edmond Hilinghead, em 1940; o corrupto Charles Whiteman (na verdade, o polonês Karl Weissman), em 1940; a sargento-detetive Shahara Hasan, em 2014; e a jovem Mapplewood em 2050.

A princípio, o argumento é rebuscado. Durante a leitura, eu me peguei pensando se realmente era necessário estabelecer quatro linhas de desenvolvimento simultâneas. No último terço da leitura, entendi o motivo.

Chaves de significação

Corpos mexe com assuntos delicados. Homossexualismo, xenofobia, sexismo e a falta de ética, são os principais temas representados pelas quatro linhas de desenvolvimento da história, por meio de cada um de seus protagonistas. O ponto interessante é que a explicação para os corpos (não vou dar spoliers aqui) é tão grandiosa quanto propõe a ideia inicial do enredo da HQ. Corpos entrega o que promete em relação a isso.

A distribuição de ícones da história e da cultura inglesa no decorrer dos quadrinhos é intencional e contribui de forma positiva para o plano da história. Jack, o estripador, Sherlock Holmes e Winston Churchill são algumas das referências que povoam as páginas de Corpos. Spencer parece querer compor uma homenagem à Inglaterra, seu país, ao levantar uma reflexão sobre os destinos de seu povo ao longo dos séculos por meio de uma HQ com alto grau de elaboração. Não deixa de ser bastante envolvente a ideia de considerar esse tipo de argumento na forma de um produto extremamente pop.

Visual

O trabalho gráfico de Corpos é muito bom em sua concepção. Como leitora, porém, demorei um pouco para me adaptar à mudança estética geral de padrões (cores, traços, fontes e até a distribuição de quadrinhos) de cada era em uma leitura simultânea. Considerei a possibilidade de ler cada etapa separadamente (primeiro toda a parte de 1890; depois, toda a parte de 1940, e assim por diante), mas pensei que o desafio proposto pela equipe criadora fosse exatamente a leitura simultânea das quatro eras, com suas diferenças gritantes e também suas surpreendentes semelhanças.

É notável o cuidado que a Vertigo teve para executar a ideia de Spencer, mas não se pode perder de vista que a complexidade do roteiro certamente contribuiu para muitas incompreensões. É preciso um exame minucioso da história e uma boa reflexão para entender como a união de tantos elementos delicados conduzem à ideia proposta pelo roteirista. Quando finalizei minha leitura (entremeada com pausas), fiquei bem satisfeita.

Corpos
Si Spencer (roteiro) & Dean Ormston (arte da fase 1890); Phil Winslade (arte da fase 1940); Meghan Hetrick (arte da fase 2014); Tula Lotay (arte da fase 2050)
Guilherme da Silva Braga/FD (tradução)
Vertigo / Panini Books
210 páginas

Galeria | Nighthawks (Falcões Noturnos)

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A primeira vez que tive contato com essa obra do norte-americano Edward Hopper (1882-1967) foi em um vernissage da escola de artes onde minha irmã estudava desenho clássico. O melhor amigo dela apresentou, nessa ocasião, uma releitura de Nighthawks (Falcões Noturnos) e eu fiquei hipnotizada por esse quadro.

Essa obra é um marco da produção artística da primeira metade do século XX. Pesquisando a respeito, li que Hopper começou a pintar Nighthawks logo depois do bombardeio de Pearl Harbour, em 7 de dezembro de 1941. Se essa informação for real, faz todo o sentido com o espírito de melancolia que o quadro passa. Há um jogo de luz e sombra que mostra um ambiente externo completamente vazio, e ilumina o interior de um bar no meio da noite, onde a luz protege seus poucos e solitários fregueses. Entretanto, é um traço marcante a falta de conexão entre as quatro figuras humanas da cena, em um misto de desilusão e vazio.

Os traços são extremamente limpos, a escolha de cores é muito definida e é possível dizer que o diferencial de Nighthawks está mais naquilo que o quadro consegue inspirar em seus espectadores, pois não se trata de uma composição rebuscada, ou impactante. Entretanto, a magia de Hopper está na elaboração de uma obra-prima que, por meio do silêncio, consegue exprimir uma série de significados apenas retratando uma típica cena da vida urbana noturna.

A maior obra de Hopper inspirou, ao longo das décadas, muitas releituras não apenas no mundo das artes plásticas, como também no cinema e na televisão. Os Simpsons, Lego, Gottfried Helnwein, com seu quadro Boulevard of Broken Dreams, de 1984, entre tantas outras homenagens só consolidam a importância de Nighthawks no cenário da arte mundial do século XX.

Uma curiosidade sobre o quadro reside na localização do restaurante. Todas as fontes que consultei divergem sobre esse assunto; contudo, todas elas concordam que a esposa do pintor lhe serviu de modelo para a elaboração da única personagem feminina do quadro.

Nighthawks
Artista: Edward Hopper
Localização: Instituto de Arte de Chicago (EUA)
Ano: 1942

Clássico | Diva (José de Alencar)

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Depois de tantos anos sem ler uma obra típica do Romantismo brasileiro, a experiência de leitura de Diva (1864) deve me valer, ao menos, um singelo comentário neste espaço.

Que interessante foi, depois de tanto tempo, deparar-me como leitora com a prosa de José de Alencar (1829-1877) que, muito longe de banalizar as relações amorosas, antes idealiza em níveis estratosféricos o amor em si.

A jovem Emília é a heroína que sucede Lúcia (de Lucíola (1862)) e precede Aurélia (de Senhora (1875)). Elaborando a protagonista de Diva, Alencar “treina” a construção de uma personagem feminina, rica e que, a princípio, não toma conhecimento dos assédios masculinos, faz pouco de seus pretendentes e está disposta a estabelecer o conflito consigo mesma em relação aos seus sentimentos e à maneira sobre como lidar com eles. O auge desse processo será, sem dúvida, alcançado com Aurélia, que ainda trará consigo, como respaldo para suas atitudes, o enfrentamento de um problema de inferioridade social que problematiza com mais profundidade o seu contato com o amor.

Com Diva, José de Alencar usa de recursos narrativos interessantes e também estabelece um vínculo intrigante entre seus perfis femininos urbanos. A história é contada por meio de carta de Augusto, o pretendente de Emília, a Paulo, amante de Lúcia em Lucíola. Bastante inovador, no contexto daquele momento, essa relação entre personagens de enredos diferentes (os dois rapazes ficam amigos em uma viagem de navio após o romance de Paulo com Lúcia), bem como essa forma de contar a história, que acaba incluindo o leitor na intimidade dos amigos, como participante espectador da trama que se desenrola sobre o relacionamento de Augusto e Emília.

Diva
José de Alencar
Editora Ática
Décima edição – 1998 (Cotejado com a terceira edição revista pelo autor em 1875)

Distopias | Fahrenheit 451

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Foi há coisa de uns três meses, com o lançamento da revista de livros Quatro cinco um (comentada aqui), que eu me lembrei de que tinha na estante o livro que inspirou o título da revista – ainda não lido.

Resolvi ler o livro antes de me dedicar ao primeiro número da revista e a leitura do clássico escrito por Ray Bradbury me deixou tão embevecida, que passei a agradecer pelo lançamento da Quatro cinco um só pelo fato de isso ter me motivado à leitura de um livro há dois anos esquecido na minha estante.

Trata-se de um enredo envolvendo uma sociedade distópica, resultado de um governo totalitário, que oprime os cidadãos que mantêm o gosto pela leitura e, principalmente, que dispõem de exemplares em suas casas. Nesse contexto sociopolítico que associa a infelicidade aos questionamentos proporcionados pelo hábito da leitura, os bombeiros constituem o elemento opressor, responsável por incendiar os livros apreendidos (vizinhos, conhecidos e mesmo parentes denunciam-se uns aos outros) e prender os leitores.

Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma.” (pág. 76)

Momento histórico

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Bradbury escreveu sua obra-prima no cenário mundial pós-Segunda Guerra em 1953. Originalmente chamado The fireman, o livro veio depois dos aclamados Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (publicado em 1932), e de 1984, de George Orwell (de 1949).

Contudo, o pai dos romances distópicos não é nenhum desses tão famosos autores. Nós, escrito pelo russo Yevgeny Zamyatin (1884-1937) entre os anos de 1920 e 1930, é o primeiro livro conhecido desse gênero. Além desses, outros enredos distópicos também viriam ao conhecimento do público mais tarde, como Metropolis (pelo filme de Fritz Lang, em 1927), Laranja Mecânica (pelo livro de Anthony Burgess, de 1962, e transformado em filme por Stanley Kubrick dez anos depois) e O Conto da Aia, de Margaret Atwood, publicado em 1985.

Montag, o bombeiro

As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo, mas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver, noventa e nove por cento delas está num livro. Não peça garantias. E não espere ser salvo por uma coisa, uma pessoa, máquina ou biblioteca. Trate de agarrar a sua própria tábua e, se você se afogar, pelo menos morra sabendo que estava no rumo da costa.” (pág. 107)

Um bombeiro que começa a se interessar pelos livros que deveria incendiar é o ponto de partida para a revolução na sociedade até então tão controlada do enredo de Ray Bradbury. Os questionamentos de Guy Montag ultrapassam o nível do aceitável, quando o bombeiro começa a se dar conta do vazio que tomava conta de seu casamento, bem como de sua falta de perspectiva em relação à sua profissão – tudo isso a partir de pequenos diálogos estabelecidos com sua vizinha Clarisse no trem, ou andando pelo bairro, diariamente, na volta do trabalho. Afinal, qual era o sentido de queimar livros e de viver com uma mulher que nem se lembra de quando o conheceu?

A versão de Truffaut

Mais de dez anos depois, o prestigiado François Truffaut levou para as telas do cinema a adaptação do romance de Bradbury. A produção vale pelo caráter de divulgação e de estímulo ao interesse do público pelo texto original, sem dúvida. Entretanto, o cinema sofre pela concisão necessária a obras que pedem um alto grau de complexidade de construção, como é o caso de Fahrenheit 451.

É incrível como o livro consegue transmitir mais emoção do que o filme no ápice da trama, com a fuga de Montag. Outra grande perda foi o fato de Truffaut ter suprimido da versão cinematográfica o Sabujo, a temida criatura robótica algoz de todos aqueles que contrariavam os interesses da ordem dominante. Mesmo assim, é interessante ver como o diretor francês transformou em imagens alguns signos interessantes do livro de Bradbury, como o carro dos bombeiros, por exemplo.

Obra-prima

Sem dúvida, Fahrenheit 451 foi uma de minhas melhores leituras neste ano. É um livro notável, capaz de falar ao coração de todo aquele que ama a Literatura, dá valor aos livros e encara o processo de leitura como um momento de abertura de perspectivas, de incremento da visão de mundo e de problematização das questões da existência.

Para mim, o ponto alto da história foi a maneira encontrada pelo autor de preservar os livros em um contexto totalitário. Trabalhar o pensamento e a reflexão sobre aquilo que se lê, tendo como ponto de partida a assimilação das obras clássicas da Literatura mundial, constitui o objetivo que deveria nortear qualquer atividade de leitura. Não se trata apenas de ler, mas de buscar maneiras de refletir sobre o que foi lido, de empregar um tempo precioso para aperfeiçoar o pensamento. É isso. E muito mais, é claro!

Fahrenheit 451 (livro)
Ray Bradbury
Globo de Bolso
2014 – 214 páginas

Fahrenheit 451 (filme)
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut e Jean-Louis Richard, a partir do romance de Ray Bradbury
Ano: 1966
País: Estados Unidos
Gênero: Ficção científica
Duração: 112 minutos
Elenco: Oskar Werner (Guy Montag); Julie Christie (Linda Montag/Clarisse); Cyril Cusack (Capitão); Anton Diffring (Fabian); Alex Scott (homem-livro)