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resenhas de livros

Irmãos Encrenca | O segredo do Museu Imperial

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Neste volume da coleção dos Irmãos Encrenca, Stella Carr trabalha com a vertente da História do Brasil. Ao levar os irmãos Isabel, Eloís e Marco para uma viagem ao Rio de Janeiro, onde os dois garotos vão aproveitar para participar de uma colônia de férias para estudantes, a autora apresenta ao leitor o Museu Imperial e conta várias passagens do período das regências da história de nosso país.

Convidados especiais

Outro traço interessante do enredo desse livro é que, no decorrer de mais uma de suas intrépidas investigações, os Irmãos Encrenca – agora envolvidos em uma estranha conspiração com o grupo da Juventude Restauradora, explosões em bancas de revistas e livrarias – vão contar com a ajuda de um seleto grupo de intelectuais (Todos amigos de Stella Carr fora das páginas do livro!) que estão no Rio para participar de uma conferência: Paulo Condini, Nelly Novaes Coelho, Aldemir Martins, Tereza Monteiro, Olga Savary, Laura Sandroni e Paulo de Medeiros Albuquerque. Nos cenários do museu que conta muito da história da Família Imperial brasileira, eles vão ajudar os garotos a desmascarar naziterroristas que pretendem, inclusive, explodir o famoso Palácio de Cristal em Petrópolis.

É muito proveitosa a forma como a autora estimula o interesse do leitor por episódios importantes da história nacional. Para isso, ela mescla informações sobre o passado e o presente, criando uma teia dinâmica de acontecimentos, com direito a sequestros no meio da noite, agentes infiltrados, uma vidente e, é claro, várias situações engraçadas com os irmãos Marco e Eloís.

Em mais este livro, publicado originalmente em 1981, Stella Carr consegue manter o ritmo e a criatividade, presenteando seus pequenos leitores com mais uma boa história infantojuvenil, repleta de referências para pesquisa pós-leitura, e já deixando os leitores com vontade de ler a próxima aventura de seus jovens detetives.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o sétimo livro da série: O esqueleto atrás da porta!

O segredo do Museu Imperial
Stella Carr
Editora Moderna
110 páginas – 1993

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Cinema | Assassinato no Expresso do Oriente

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Cartaz da versão de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente está entre os maiores romances de Agatha Christie. Vários fatores colaboram para isso: seu vínculo com um crime real; a brilhante mecânica do assassinato construído pela autora nas páginas do livro; e a genialidade de Hercule Poirot, em condições totalmente adversas, são alguns deles.

Em termos cinematográficos, também são bem-sucedidas as adaptações mais conhecidas desse livro: a de 1974, dirigida por Sidney Lumet e elenco estelar, com seis indicações ao Oscar (levando a estatueta de melhor atriz coadjuvante para Ingrid Bergman), e a de 2010, episódio especial da série da BBC para comemorar os 120 anos de nascimento de Agatha Christie, com o ótimo David Suchet no papel de Poirot.

2017: elenco e enredo

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Cartaz da versão de 1974

Este ano, mais uma versão chegou às telas do cinema para “engrossar o time”. O ator, diretor e dramaturgo inglês Kenneth Branagh assumiu o desafio de não apenas dirigir, mas também protagonizar Assassinato no Expresso do Oriente em sua mais recente releitura. Seu Hercule Poirot passa longe da tentativa de aproximação com as interpretações de seus antecessores e, seguindo a mesma linha, sua direção leva o enredo a novos caminhos, apresentando uma nova forma de contar a mesma história.

Ainda não temos o devido distanciamento histórico para avaliar o peso do elenco de 2017, mas não há dúvida de que Branagh escolheu um bom time para sua versão. A despeito da grande dificuldade de encarar a delicada tarefa de reinterpretar os papéis consagrados pelo elenco espetacular de 1974, uma análise preliminar já é suficiente para constatar que o time de 2017 consegue desempenhar bem o seu papel, justamente pelo fato de que as mudanças incluídas nesta nova versão criam certo grau de independência em relação às montagens anteriores.

Entre os personagens, algumas trocas, algumas adaptações. Em uma manobra ousada, a Greta Ohlsson de Ingrid Bergman (1974) dá lugar a uma tão religiosa quanto Pilar Estravados, interpretada por Penélope Cruz (2017). O Coronel Arbuthnot de Sean Connery, em 1974, transforma-se na pele do ator negro Leslie Odom Jr., dando ao diretor a oportunidade de tocar no delicado assunto do racismo, implacavelmente levado a cabo pelas falas do misterioso Hardman, interpretado por Willen Dafoe.

Ritmo

A versão de 2017 deixa muito clara a preocupação do diretor em relação ao ritmo da história. Apesar de funcionar muito bem em forma de livro, a restrição de ambientes em tom ligeiramente claustrofóbico de Assassinato no Expresso do Oriente poderia não cair muito bem nas telas do cinema. A versão de 1974, muito fiel ao livro, apresenta claramente esse obstáculo, com praticamente todas as cenas ocorrendo dentro do trem, a partir do momento em que esse luxuoso veículo deixa a estação.

Em 2017, Kenneth Branagh cria situações para dinamizar o enredo, levando algumas cenas para fora do trem, realizando perseguições ao longo dos vagões e reservando o momento da resolução do crime para o ambiente externo. Todas essas variações foram atitudes corajosas do diretor, pois claramente quebraram o ritmo original da história, conferindo à sua versão toques de ação no melhor estilo blockbuster hollywoodiano. Para o bem e para o mal, Branagh buscou adaptar uma história antiga para tempos modernos, tentando torná-la palatável ao gosto de uma nova geração de espectadores com dificuldade de concentração e, consequemente, grau de atenção frequentemente comprometido – durante a sessão, vi algumas pessoas deixando a sala do cinema bem antes do fim.

Mrs. Hubbard

Os holofotes privilegiaram bastante a personagem de Michelle Pfeiffer. Se, em 1974, Lauren Bacall já tinha imprimido charme e personalidade à sua Mrs. Hubbard, em 2017, Kenneth Branagh criou várias oportunidades para Michelle Pfeiffer brilhar com uma interpretação forte, em cenas de teor dramático bastante impressionantes. É de se ressaltar a forma como Pfeiffer abraçou a “causa” de sua personagem, abrindo mão da vaidade para dar mais veracidade à sua interpretação, especialmente em suas cenas finais. Não será uma surpresa se sua Mrs. Hubbard lhe render alguns prêmios.

Poirot

Infelizmente, Agatha Christie não pode nos fornecer sua avaliação sobre o trabalho de Kenneth Branagh – ela prestigiou a estreia da versão de 1974 e, apesar de ter aprovado o filme, não gostou da interpretação de Albert Finney como Hercule Poirot. Para mim, a melhor releitura de Poirot ainda é a de David Suchet, na série da BBC, muito embora Kenneth Branagh tenha me surpreendido com seu competente trabalho, não apenas como diretor, mas também como um Poirot atualizado dentro de sua proposta para a versão de 2017.

Ficha técnica
Assassinato no Expresso do Oriente
Direção: Kenneth Branagh
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Drama; Mistério; Suspense
Duração: 114 minutos
Elenco: Kenneth Branagh, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Josh Gad, Derek Jacobi, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Daisy Ridley, Lucy Boynton, Sergei Polunin, Judi Dench, Olivia Colman, Leslie Odom Jr., Tom Bateman, Marwan Kenzari, Manuel Garcia-Rulfo

Retrospectiva | 2017

Neste primeiro post de 2018, é hora de rever o que consegui ler e assistir em 2017. Sem dúvida, foi um ano um pouco atribulado para mim, o que resultou em um número menor de leituras – pouco mais de 30 livros, sem contar as HQs – e também em um menor número de filmes/séries vistos ao longo dos últimos 12 meses. Isso se deveu não apenas a motivos particulares (várias cirurgias na família e períodos de corre-corre em visitas e hospitais), como também ao maior período que passei durante o ano estudando idiomas.

Diversidade

Um fato que me deixou bastante contente foi a diversidade de leituras que consegui realizar no último ano. Além de conseguir contemplar alguns títulos pendentes de 2016, foi muito bom voltar a ler gêneros aos quais há muito tempo eu não me dedicava, como o livro-reportagem, por exemplo. O ano de 2017 também foi momento de leituras de teores bem diferentes, como livros infantis, clássicos distópicos, releituras e também de várias revistas.

psicose_1373943361bSe comprovadamente eu li menos em 2017, posso me considerar muito feliz pela qualidade dos livros lidos. Nos últimos 12 meses, tive o privilégio de ler livros brilhantes, como Psicose (Robert Bloch), Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), A vida imortal de Henrietta Lacks (Rebecca Skott), Quem matou Roland Barthes? (Laurent Binnet) e A revolução dos bichos (George Orwell).

No âmbito da literatura nacional, não posso deixar de destacar minha volta aos clássicos: em 2017, li um ótimo livro de crônicas de João do Rio, Histórias da gente alegre (pretendo fazer um post sobre João do Rio mais adiante); li o primeiro romance de Lima Barreto, Recordações do Escrivão Isaías Caminha; e também Diva, romance de José de Alencar.

Revistas e HQs

Foi muito bem-vinda a chegada da Revista Quatro Cinco Um, no mês de maio. Ao longo dos últimos meses, tenho acompanhado essa publicação, repleta de textos interessantíssimos para leitores inveterados. Também li vários especiais das Revistas Superinteressante e Mundo Estranho em 2017.

Não li tantas HQs quanto eu queria, mas posso destacar a graphic novel Corpos, da Vertigo, e o livro O fantasma de Anya, de Vera Brosgol.

Para fechar a parte das leituras, em 2017 também encontrei um tempinho para me dedicar mais aos estudos da Língua Portuguesa e também da Língua Inglesa, já que prestei o TOEIC no mês de agosto. Por isso, fiz algumas leituras originais em inglês (algo do que já estou me orgulhando) e li alguns livros teóricos de português.

Filmes, séries e documentários

Fui ao cinema algumas vezes em 2017 para acompanhar produções derivadas dos quadrinhos, como Mulher-Maravilha e Liga da Justiça – ambos comentados neste blog. Em setembro, ainda consegui assistir no cinema ao filme João, baseado na história do maestro João Carlos Martins – que belo filme!

0424359Também foi um ano em que consegui ver dois documentários que me interessaram bastante: Foucault contra si mesmo e Lygia, uma escritora brasileira. Recomendadíssimos!

Fiz alguns posts sobre séries aqui no blog ao longo deste ano. Tenho acompanhado as produções que a Netflix vem fazendo sobre o universo Marvel e destaquei também a primeira temporada da bela e sensível Tokyo diner, midnight stories e também da espirituosa The good place – ambas também comentadas aqui.

Para 2018, tenho vários planos, mas resolvi não fazer listas, nem estipular metas, pois ainda tenho títulos pendentes da lista que fiz para 2016! Portanto, para não sabotar meu próprio planejamento, irei aos poucos seguindo com os projetos de leitura que já estão em andamento (os quais continuaram em 2017, embora em ritmo mais lento) e, na medida do possível, acrescentarei novidades!

Feliz ano-novo!

 

 

Leitura | A vida imortal de Henrietta Lacks

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Foi por causa de uma dica do precioso e, infelizmente extinto, Manual Prático de Bons Modos em Livrarias que eu incluí A vida imortal de Henrietta Lacks na minha lista de leituras. Fazia tempo que eu não me dedicava a um livro-reportagem, daqueles com bastante informação, muita checagem de dados, realmente muitas horas de entrevistas, e pensei que esse livro seria uma ótima oportunidade para começar a “pagar a minha dívida” com esse estilo literário. E não me enganei.

Sem sombra de dúvida, esse trabalho da jornalista especializada em ciência Rebecca Skloot foi uma das melhores leituras que já fiz. E não estou exagerando. É nítido o esforço empreendido pela autora para refazer os passos e reconstruir a história extraordinária de Henrietta Lacks, uma mulher pobre, negra, lavradora dos campos de tabaco dos Estados Unidos da década de 1950, cujas células revolucionaram o mundo científico de maneira avassaladora.

Estrutura

É prazeroso verificar o cuidado com o qual Rebecca organiza as informações em capítulos que não seguem ordem cronológica, mas que cumprem perfeitamente a sua função: indo e voltando no tempo, os escritos vão compondo as peças de um quebra-cabeça elaborado, sofisticado, com o qual o leitor vai compreendendo quão cruel e delicado é o assunto em torno do qual orbita a morte de Henrietta: o debate ético sobre a propriedade de tecidos e outras partes do corpo humano utilizadas em pesquisas.

Em 1951, Henrietta Lacks morreu vítima de um tumor cervical fulminante. Apenas alguns meses foram o suficiente para minar a saúde da jovem mulher, na época, com apenas 31 anos. Mãe de cinco filhos, Henrietta entrou para história de maneira involuntária, após ter suas células cancerosas retiradas de seu corpo para a realização de pesquisas no tradicional hospital norte-americano Johns Hopkins. Ao constatar que as células continuavam se reproduzindo em cultura, após a retirada do corpo de Henrietta, os cientistas perceberam que estavam diante de algo revolucionário: supercélulas cancerosas que não apenas continuam se reproduzindo até hoje, como também são capazes de dominar outras culturas celulares com as quais têm contato.

Pesquisa

Rebecca Skloot precisou de cerca de dez anos de pesquisas ininterruptas para reunir material e chegar ao texto final de seu livro. Uma equipe considerável de profissionais e de respeitadas instituições colaborou com o trabalho da jornalista, fornecendo informações, documentos e bolsas de incentivo para que Rebecca pudesse realizar o seu trabalho.

O processo de pesquisa não teria sido tão bem-sucedido, se não tivesse contado com a colaboração de Deborah, a quarta filha de Henrietta e a única das mulheres a sobreviver até a idade adulta. Deborah desempenhou o papel de representante dos irmãos Lacks na busca pela verdade sobre a morte de sua mãe. Os dilemas da mulher emocionalmente frágil e pouco instruída são contados de forma contundente pelo texto de Rebecca, e é inegável que a herdeira de Henrietta estabelece um contraponto direto à personalidade equilibrada da jornalista branca, filha de pais de classe média-alta.

A vida imortal de Henrietta Lacks é, mais do que um livro-reportagem, uma obra para consulta, repleta de informações para todo leitor interessado nos bastidores do universo da pesquisa médica. Rebecca Skloot contextualiza a história da mulher responsável pela linhagem celular conhecida como HeLa no tempo e no espaço, citando não apenas outros casos de apropriação de material humano para pesquisas médicas, como também enriquecendo o leitor com dados sobre biologia, estudos genéticos e o debate jurídico em torno do assunto.

No início de 2017, a história de Henrietta chegou às telas da HBO, em versão protagonizada por Oprah Winfrey no papel de Deborah Lacks e Rose Byrne interpretando Rebecca Skloot.

A vida imortal de Henrietta Lacks
Rebecca Skloot
Tradução de Ivo Korytowski
Companhia das Letras
454 páginas

Maigret | A noite na encruzilhada

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O fim da leitura de mais essa história protagonizada pelo comissário da polícia judiciária francesa Jules Maigret me trouxe a inevitável lembrança de Assassinato no Expresso do Oriente, uma das aventuras mais famosas de Hercule Poirot, detetive criado por Agatha Christie na década de 1920. Isso porque há um traço em comum muito forte entre as estruturas dos dois enredos. Não quero dar spoilers aqui, mas a dinâmica e o ritmo intenso também são pontos de semelhança entre os livros.

Novidade

Em A noite na encruzilhada, notei algumas passagens mais poéticas na linguagem empregada pelo belga George Simenon para contar a morte de um vendedor de diamantes de conduta duvidosa. Talvez isso tenha me chamado mais a atenção nessa leitura pelo fato de, nessa ocasião, Maigret defrontar-se com uma sensual e enigmática figura feminina: Else, irmã de Carl Andersen, o principal suspeito do crime. É muito curioso observar de que maneira Maigret, um sujeito introspectivo e grosseiro, comporta-se em relação a essa forte figura feminina.

A leitura reserva ao leitor uma porção de surpresas e reviravoltas na história, algo perfeitamente esperado de um livro policial, entretanto, é interessante como, a partir de determinado ponto da leitura, começa a ser mais importante entender a “mecânica” do crime em si, e não apenas desvendar a identidade do assassino. Simenon consegue, com essa história, causar no leitor uma impressão semelhante à que Agatha Christie conseguiu com Assassinato no Expresso do Oriente, por isso a minha observação no começo desse texto. Ambos os autores conseguem mudar os holofotes para o percurso do crime, tornando-o mais importante do que o seu fim.

Na TV

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Novamente, tive a oportunidade de ver a adaptação dessa história em um episódio da série produzida pela ITV, tendo como protagonista Rowan Atkinson no papel de Maigret.

Deixando de lado o choque que sempre me acomete, ao me deparar com a gentileza de Atkinson em contraponto à rudeza do Maigret das páginas de Simenon, é facilmente perceptível que, contrariamente ao que ocorreu com a adaptação de Maigret e seu Morto (comentada aqui), desta vez os roteiristas mudaram completamente a história original, criando uma nova versão da trama.

Apesar de valorizar o interesse que uma adaptação para a TV pode gerar em relação ao livro, creio que o fato de Atkinson dar vida a um Maigret em muitos aspectos diferentes do original e também de os roteiristas não serem nada fiéis ao enredo elaborado por Simenon, cria-se um distanciamento que compromete a identidade do Maigret dos livros, talvez diminuindo o desafio de retratá-lo em tela.

A noite na encruzilhada
Georges Simenon
Tradução de Eduardo Brandão
Companhia das Letras
2014 – 136 páginas

A noite na encruzilhada (Segundo episódio da série ITV)
Rowan Atkinson como Maigret
Uma produção ITV (Inglaterra)
2017 – 1h28min

Discworld | Pirâmides (1989)

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Algo diferente aconteceu no processo de leitura desse volume de Discworld: interrompi o livro duas vezes. Isso foi inédito, porque, até então, Terry Pratchett vinha emplacando uma boa continuação atrás da outra, mas preciso dizer que “Pirâmides”, o sexto volume da sequência direta da série, não conseguiu o mesmo efeito. Pelo menos não a princípio.

Desenvolvimento

Neste livro, o autor começa uma nova trama do zero, com personagens totalmente novos para o leitor, o que é sempre um risco em time que está ganhando. Sem personagens-chave, como Rincewind, Duas-Flor, Morte, ou Vovó Cera do Tempo (grandes acertos de Pratchett até aqui), ficou nas costas do jovem Teppic, herdeiro de um pequeno e inexpressivo reino notado apenas por suas pirâmides, sustentar uma trama que poderia ser mais curta (o ritmo da história foi um problema).

Pirâmides, como o título já indica, trata da mitologia no Disco fazendo, é claro, uma referência direta ao nosso Egito. A ideia é interessante, mas demora para engrenar – tudo começa a ficar mais interessante depois da página 100, quando a proposta do autor passa a se mostrar brilhante, estabelecendo um elaborado jogo espaço-temporal.

Pratchett usa esse volume da série para fazer “um ponto fora da curva”, digamos assim. Se a trama apresenta problemas de ritmo, eles são compensados com uma boa construção literária (algumas piadas não funcionam, e há momentos em que os trocadilhos caem na artificialidade, mas ainda assim o saldo é positivo.

Crítica

A constituição do enredo diverge dos volumes precedentes da série, mas é por isso mesmo que arrisco dizer: em termos de estrutura, este livro supera os anteriores. Quando o leitor se dá conta do sentido maior, obtido quando cada detalhe se junta, formando a trama completa, Pirâmides revela-se uma grande crítica e, ao mesmo tempo, uma grande brincadeira envolvendo o ato da criação, a disputa pelo poder e a religião como grande instrumento manipulador. Ou seja, são muitos os acertos que tornam a leitura compensadora.

Não sei se Teppic voltará a aparecer em outros volumes da saga, mas, se o fizer, será bem-vindo.

Pirâmides
Terry Pratchett
Tradução de Ludimila Hashimoto
Conrad Editora
298 páginas

Personalidades | Marie Curie

 

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Fiquei simplesmente fascinada com a história de vida de Maria Sklodowska, polonesa de nascimento, que se tornou mundialmente conhecida como Marie Curie (1867-1934).

Trajetória 

Eu me emocionei com a tenacidade dessa mulher, que não apenas teve de superar as limitações técnicas do mundo científico de seu tempo, como também precisou enfrentar a resistência de uma sociedade patriarcal que se opôs ferozmente ao seu trabalho. Mesmo assim, Marie conseguiu se formar com méritos em Física e em Matemática pela Sorbonne e deu início às pesquisas sobre radioatividade.

Conquistas

Ao lado de seu marido, o também cientista Pierre Curie (1859-1906), Marie desenvolveu importantes estudos que culminaram com o Prêmio Nobel de Física, em 1903, a partir de uma descoberta feita por acaso por Antoine Becquerel que conduziu Marie à descoberta de dois novos elementos da tabela periódica: o polônio (batizado em homenagem à sua terra natal) e o rádio.

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Entretanto, foi depois da morte prematura de seu marido que Marie precisou de toda a perseverança para seguir com seu trabalho. Se antes a cientista já havia passado por situações nas quais teve de deixar que Pierre se apresentasse sozinho, pois mulheres não eram aceitas em eventos acadêmicos, agora Marie precisava de muita coragem e disciplina para continuar suas pesquisas. E foi nessa fase que ela conquistou o segundo Nobel, agora em Química.

 

Marie Curie foi não apenas a primeira mulher a ser premiada com o Nobel, como também é a única pessoa do mundo a ter dois prêmios em áreas afins. Como se não bastasse tudo isso, ela também é a única pessoa a ter um parente também laureado com o Nobel: sua filha mais velha, Irène Joliot-Curie (1897-1956), ganhou o Nobel de Química em 1935, ao lado de seu marido, Frédéric Joliot-Curie (1900-1958).

Curiosidade

Em 1944, uma equipe de pesquisadores norte-americanos descobriu o cúrio, outro elemento da tabela periódica, e o batizou dessa forma em homenagem ao casal Curie.

Série Vaga-lume | O segredo dos sinais mágicos

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Achei bastante significativo me deparar com uma releitura com temas tão atuais. Sérsi Bardari não teve medo de usar a trama de O segredo dos sinais mágicos para tratar de assuntos como o preconceito racial, o preconceito contra as liberdades da mulher e o culto religioso.

– … Você está por fora, cara! Tua cabeça é pré-histórica. Imagine, pensar que uma garota é fáci só porque ela se veste à vontade!? Onde já se viu? Eu sei, foi o seu pai quem lhe ensinou isso, não foi? Que mentalidade atrasada, meu Deus!… E tem mais, violência não está com nada. Grosseria não conquista ninguém.” (pág. 54)

Mais uma vez, a Série Vaga-Lume mostra seu valor, ao tratar, por meio de um enredo muito bem elaborado, de temas que precisam ser discutidos com os jovens leitores.

Contexto e trama

Um dos pontos fortes do livro é a interdisciplinaridade. O segredo dos sinais mágicos é uma história que pode ser explorada de forma conjunta por professores de Língua Portuguesa, História e Educação Artística, o que, aliás, poderia render trabalhos bem interessantes.

O autor utiliza os cenários da Bahia e de Lisboa para desenvolver o enredo protagonizado pela jovem negra Janaína e por Jorge, o sobrinho branco de Fátima, a madrasta portuguesa garota. O sincretismo religioso dos orixás africanos com os santos portugueses é o grande toque do mistério que envolve a investigação pela busca de um tesouro que pode salvar o futuro financeiro da família portuguesa de Fátima e Jorge. Para isso, contudo, as pistas estão nas mãos de Janaína.

Essa leitura é uma ótima oportunidade para retomar pontos da história de Portugal e compreender melhor um pouco da história dos negros, por meio de sua religião e seus significados. A cada ponto da investigação de Janaína e Jorge em busca do tesouro, o autor amarra pontos que relacionam, de alguma maneira, Brasil e Portugal.

Desdobramentos 

Considero muito válida a leitura desse livro de Sérsi Bardari, autor que publicou, pela própria Série Vaga-Lume, outros títulos que mesclam questões históricas com religião, mitologia e esoterismo.

Em tempos tão intolerantes, levar aos jovens assuntos tão delicados é, sem dúvida, uma maneira inteligente de abordar questões sócio-históricas importantes.

O segredo dos sinais mágicos
Sérsi Bardari
Editora Ática
1993 – 111 páginas

Estante | Títulos

Resolvi criar essa categoria aqui no blog para encaixar determinadas curiosidades sobre os livros que tenho. Assuntos que, apesar de guardarem sua carga de interesse, não se encaixam em outras “seções” que já consolidei aqui.

Começo, então, por uma parte muito importante de cada obra literária: o título. Confesso que já me interessei profundamente por determinados livros a partir de seus títulos. Não é algo que acontece sempre, mas sempre considero um episódio curioso quando isso acontece.

Assim, selecionei alguns títulos que valem a menção ou por sua beleza, ou pela curiosidade que provocam, ou ainda por seu teor inusitado. Vamos lá!

cronica_da_estacao_das_chuvas_1242073909bCrônica da estação das chuvas (Nagai Kafu) – Este é um dos títulos mais bonitos que já vi. Este livro de Nagai Kafu também conta uma história interessante sobre a vida noturna japonesa do início do século XX, ambientada nas ruas de Tóquio e nas casas de chá. Uma leitura que fiz há muitos anos, mas que vale uma releitura a qualquer hora.

Digam a Satã que o recado foi entendido (Daniel Pelizzari) – Sem dúvida, este é o título mais inusitado da minha estante. Esta trama contemporânea conduzida por Pelizzari se passa em Dublin, na Irlanda, e mistura assuntos completamente diferentes entre si, com um efeito pós-moderno e uma sensação de algo sempre está escapando pelas páginas…

Antes do baile verde (Lygia Fagundes Telles) – O que dizer de um dos maiores nomes de nossa literatura? O título deste livro de contos é poético e mexe com a ideia de figuras de linguagem e, ao mesmo tempo, instiga a leitura.

O livro do cemitério (Neil Gaiman) – Esse título é mórbido e curioso. Gosto dele. Aliás, Gaiman é um dos meus escritores favoritos e este é um de seus melhores livros em minha opinião. Já escrevi sobre ele aqui no blog.

12165_ggCinzas do Norte (Milton Hatoum) – Não é o meu livro favorito do mestre Hatoum (já falei sobre ele aqui), mas, sem dúvida, é o título que mais mexe comigo entre suas obras. O interessante é que esse título, em si, não diz muita coisa, mas é extremamente bonito a meu ver. Está à altura de uma bela história, sem dúvida alguma.

As filhas sem nome (Xinran) – Também já falei sobre este livro aqui no blog, mas não podia deixar de incluir esse título tão forte neste pequeno levantamento. Pensar em uma pessoa sem nome, para mim, é pensar em alguém sem identidade. Alguém que, necessariamente, não existe para efeitos legais e que não é sujeito de suas ações. Neste livro, a autora chinesa conta a saga de várias mulheres de uma mesma família no contexto da sociedade chinesa rural e urbana também, acompanhando-as em seus caminhos.

A melhor democracia que o dinheiro pode comprar (Greg Palast) – Um livro-reportagem que já vale a leitura por esse título tão contundente. O autor é um repórter investigativo norte-americano que vive e trabalha na Inglaterra como freelance. Neste livro, Palast dedica-se a mostrar o que há por trás das grandes organizações petrolíferas, privatizações e fraudes não apenas nos Estados Unidos, mas chegando ao Brasil também.

Não há dúvidas de que esta lista pode ser ricamente encorpada, e é possível que eu continue a fazer isso em posts futuros. Por ora, e para não cansar a leitura, fico nestas primeiras observações.

HQ | Corpos

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O grande desafio de uma obra cuja estrutura é grandiosa é justamente manter o seu argumento monumental no decorrer de seu desenvolvimento, culminando com um clímax igualmente impressionante. Corpos, HQ seriada em 8 partes no mercado internacional lançada em 2014 e publicada em volume único no Brasil no mês de junho deste ano, propõe a si mesma essa provocação.

A ideia elaborada por Si Spencer (o mesmo de Hellblazer, A cidade dos demônios) e desenvolvida por seu time de artistas gráficos é instigante e proporciona uma leitura ao mesmo tempo reflexiva e insólita. Li várias resenhas de teor negativo a respeito de Corpos, mas devo dizer que discordo. Trata-se de um bom trabalho, que vale a leitura.

Enredo

Um corpo masculino, nu, com sinais de tortura, mutilação e tudo o mais, é sumariamente encontrado em uma calçada em Londres. Um assassinato bárbaro, sem dúvida. Esse é o ponto de partida para o desenrolar da HQ. Até aí, nada de tão novo, se o mencionado assassinato, com as mesmas características, não se repetisse de tempos em tempos e no mesmo lugar (Inglaterra). Ao leitor, isso é apresentado em quatro momentos: 1890, 1940, 2014 e 2050. Em cada uma dessas épocas, a investigação do crime fica a cargo de uma figura peculiar: o inspetor Edmond Hilinghead, em 1940; o corrupto Charles Whiteman (na verdade, o polonês Karl Weissman), em 1940; a sargento-detetive Shahara Hasan, em 2014; e a jovem Mapplewood em 2050.

A princípio, o argumento é rebuscado. Durante a leitura, eu me peguei pensando se realmente era necessário estabelecer quatro linhas de desenvolvimento simultâneas. No último terço da leitura, entendi o motivo.

Chaves de significação

Corpos mexe com assuntos delicados. Homossexualismo, xenofobia, sexismo e a falta de ética, são os principais temas representados pelas quatro linhas de desenvolvimento da história, por meio de cada um de seus protagonistas. O ponto interessante é que a explicação para os corpos (não vou dar spoliers aqui) é tão grandiosa quanto propõe a ideia inicial do enredo da HQ. Corpos entrega o que promete em relação a isso.

A distribuição de ícones da história e da cultura inglesa no decorrer dos quadrinhos é intencional e contribui de forma positiva para o plano da história. Jack, o estripador, Sherlock Holmes e Winston Churchill são algumas das referências que povoam as páginas de Corpos. Spencer parece querer compor uma homenagem à Inglaterra, seu país, ao levantar uma reflexão sobre os destinos de seu povo ao longo dos séculos por meio de uma HQ com alto grau de elaboração. Não deixa de ser bastante envolvente a ideia de considerar esse tipo de argumento na forma de um produto extremamente pop.

Visual

O trabalho gráfico de Corpos é muito bom em sua concepção. Como leitora, porém, demorei um pouco para me adaptar à mudança estética geral de padrões (cores, traços, fontes e até a distribuição de quadrinhos) de cada era em uma leitura simultânea. Considerei a possibilidade de ler cada etapa separadamente (primeiro toda a parte de 1890; depois, toda a parte de 1940, e assim por diante), mas pensei que o desafio proposto pela equipe criadora fosse exatamente a leitura simultânea das quatro eras, com suas diferenças gritantes e também suas surpreendentes semelhanças.

É notável o cuidado que a Vertigo teve para executar a ideia de Spencer, mas não se pode perder de vista que a complexidade do roteiro certamente contribuiu para muitas incompreensões. É preciso um exame minucioso da história e uma boa reflexão para entender como a união de tantos elementos delicados conduzem à ideia proposta pelo roteirista. Quando finalizei minha leitura (entremeada com pausas), fiquei bem satisfeita.

Corpos
Si Spencer (roteiro) & Dean Ormston (arte da fase 1890); Phil Winslade (arte da fase 1940); Meghan Hetrick (arte da fase 2014); Tula Lotay (arte da fase 2050)
Guilherme da Silva Braga/FD (tradução)
Vertigo / Panini Books
210 páginas