Arquivo da categoria: Artes Plásticas

Neil Gaiman | A bela e a adormecida

a-bela-e-a-adormecida_neil-gaiman1

Uma nota rápida sobre essa releitura belamente ilustrada, que mescla dois dos contos de fadas mais famosos: A bela adormecida e Branca de Neve e os sete anões.

Essa breve leitura me lembrou uma atividade que fiz durante a minha pós, quando tivemos de reinterpretar algum conto de fada e escolhi justamente A bela adormecida. É sempre bastante interessante trabalhar com esse tipo de exercício de escrita e tive justamente a impressão de que Neil Gaiman estava jogando consigo mesmo enquanto punha em um mesmo contexto Branca e Bela, deixando que elas conduzissem a história e posicionando-se também como um espectador que aguarda para ver onde tudo vai acabar.

A subversão dos papéis de Bela e de sua bruxa (desculpem o spoiler) foi o grande toque dessa releitura, e centrar toda a solução do problema no embate entre as próprias mulheres conferiu à versão de Gaiman um toque bastante pós-moderno (que, aliás, caracteriza a sua produção literária). Trata-se de uma ideia muito bem articulada, com o uso cuidadoso de cada elemento, como o sono, o despertar, a presença dos anões e por aí vai. As peças vão se encaixando em um ritmo muito leve e com bastante coerência.

Ver Bela e Branca juntas também me lembrou a ótima série de quadrinhos da Vertigo chamada As mais belas fábulas, criação da ótima equipe de Bill Willingham, que não apenas revitaliza todo o universo dos contos de fada por meio da linguagem e da estética das HQs, como também contribui para preservar e estimular o interesse permanente pelas origens dessas personagens tão tradicionais.

A bela e a adormecida
Neil Gaiman
Ilustrações de Chris Riddell
Tradução de Renata Pettengill
Editora Rocco
2015
72 páginas

Anúncios

HQ | Corpos

corpos

O grande desafio de uma obra cuja estrutura é grandiosa é justamente manter o seu argumento monumental no decorrer de seu desenvolvimento, culminando com um clímax igualmente impressionante. Corpos, HQ seriada em 8 partes no mercado internacional lançada em 2014 e publicada em volume único no Brasil no mês de junho deste ano, propõe a si mesma essa provocação.

A ideia elaborada por Si Spencer (o mesmo de Hellblazer, A cidade dos demônios) e desenvolvida por seu time de artistas gráficos é instigante e proporciona uma leitura ao mesmo tempo reflexiva e insólita. Li várias resenhas de teor negativo a respeito de Corpos, mas devo dizer que discordo. Trata-se de um bom trabalho, que vale a leitura.

Enredo

Um corpo masculino, nu, com sinais de tortura, mutilação e tudo o mais, é sumariamente encontrado em uma calçada em Londres. Um assassinato bárbaro, sem dúvida. Esse é o ponto de partida para o desenrolar da HQ. Até aí, nada de tão novo, se o mencionado assassinato, com as mesmas características, não se repetisse de tempos em tempos e no mesmo lugar (Inglaterra). Ao leitor, isso é apresentado em quatro momentos: 1890, 1940, 2014 e 2050. Em cada uma dessas épocas, a investigação do crime fica a cargo de uma figura peculiar: o inspetor Edmond Hilinghead, em 1940; o corrupto Charles Whiteman (na verdade, o polonês Karl Weissman), em 1940; a sargento-detetive Shahara Hasan, em 2014; e a jovem Mapplewood em 2050.

A princípio, o argumento é rebuscado. Durante a leitura, eu me peguei pensando se realmente era necessário estabelecer quatro linhas de desenvolvimento simultâneas. No último terço da leitura, entendi o motivo.

Chaves de significação

Corpos mexe com assuntos delicados. Homossexualismo, xenofobia, sexismo e a falta de ética, são os principais temas representados pelas quatro linhas de desenvolvimento da história, por meio de cada um de seus protagonistas. O ponto interessante é que a explicação para os corpos (não vou dar spoliers aqui) é tão grandiosa quanto propõe a ideia inicial do enredo da HQ. Corpos entrega o que promete em relação a isso.

A distribuição de ícones da história e da cultura inglesa no decorrer dos quadrinhos é intencional e contribui de forma positiva para o plano da história. Jack, o estripador, Sherlock Holmes e Winston Churchill são algumas das referências que povoam as páginas de Corpos. Spencer parece querer compor uma homenagem à Inglaterra, seu país, ao levantar uma reflexão sobre os destinos de seu povo ao longo dos séculos por meio de uma HQ com alto grau de elaboração. Não deixa de ser bastante envolvente a ideia de considerar esse tipo de argumento na forma de um produto extremamente pop.

Visual

O trabalho gráfico de Corpos é muito bom em sua concepção. Como leitora, porém, demorei um pouco para me adaptar à mudança estética geral de padrões (cores, traços, fontes e até a distribuição de quadrinhos) de cada era em uma leitura simultânea. Considerei a possibilidade de ler cada etapa separadamente (primeiro toda a parte de 1890; depois, toda a parte de 1940, e assim por diante), mas pensei que o desafio proposto pela equipe criadora fosse exatamente a leitura simultânea das quatro eras, com suas diferenças gritantes e também suas surpreendentes semelhanças.

É notável o cuidado que a Vertigo teve para executar a ideia de Spencer, mas não se pode perder de vista que a complexidade do roteiro certamente contribuiu para muitas incompreensões. É preciso um exame minucioso da história e uma boa reflexão para entender como a união de tantos elementos delicados conduzem à ideia proposta pelo roteirista. Quando finalizei minha leitura (entremeada com pausas), fiquei bem satisfeita.

Corpos
Si Spencer (roteiro) & Dean Ormston (arte da fase 1890); Phil Winslade (arte da fase 1940); Meghan Hetrick (arte da fase 2014); Tula Lotay (arte da fase 2050)
Guilherme da Silva Braga/FD (tradução)
Vertigo / Panini Books
210 páginas

Galeria | Nighthawks (Falcões Noturnos)

1200px-nighthawks_by_edward_hopper_1942

A primeira vez que tive contato com essa obra do norte-americano Edward Hopper (1882-1967) foi em um vernissage da escola de artes onde minha irmã estudava desenho clássico. O melhor amigo dela apresentou, nessa ocasião, uma releitura de Nighthawks (Falcões Noturnos) e eu fiquei hipnotizada por esse quadro.

Essa obra é um marco da produção artística da primeira metade do século XX. Pesquisando a respeito, li que Hopper começou a pintar Nighthawks logo depois do bombardeio de Pearl Harbour, em 7 de dezembro de 1941. Se essa informação for real, faz todo o sentido com o espírito de melancolia que o quadro passa. Há um jogo de luz e sombra que mostra um ambiente externo completamente vazio, e ilumina o interior de um bar no meio da noite, onde a luz protege seus poucos e solitários fregueses. Entretanto, é um traço marcante a falta de conexão entre as quatro figuras humanas da cena, em um misto de desilusão e vazio.

Os traços são extremamente limpos, a escolha de cores é muito definida e é possível dizer que o diferencial de Nighthawks está mais naquilo que o quadro consegue inspirar em seus espectadores, pois não se trata de uma composição rebuscada, ou impactante. Entretanto, a magia de Hopper está na elaboração de uma obra-prima que, por meio do silêncio, consegue exprimir uma série de significados apenas retratando uma típica cena da vida urbana noturna.

A maior obra de Hopper inspirou, ao longo das décadas, muitas releituras não apenas no mundo das artes plásticas, como também no cinema e na televisão. Os Simpsons, Lego, Gottfried Helnwein, com seu quadro Boulevard of Broken Dreams, de 1984, entre tantas outras homenagens só consolidam a importância de Nighthawks no cenário da arte mundial do século XX.

Uma curiosidade sobre o quadro reside na localização do restaurante. Todas as fontes que consultei divergem sobre esse assunto; contudo, todas elas concordam que a esposa do pintor lhe serviu de modelo para a elaboração da única personagem feminina do quadro.

Nighthawks
Artista: Edward Hopper
Localização: Instituto de Arte de Chicago (EUA)
Ano: 1942

Galeria | A Noite Estrelada

800px-van_gogh_-_starry_night_-_google_art_project

Este quadro, além de um dos mais belos trabalhos de Van Gogh, é também um tributo à memória. Sua produção, em si, já foi um processo bastante interessante de concepção artística.

Em sua temporada em Arles, na França, o artista holandês desenvolveu vários estudos e quadros sobre perspectivas noturnas, trabalhos estes que enviava a seu irmão Theo, que trabalhava como marchand, para venda.

A Noite Estrelada foi concebida enquanto Van Gogh estava em no hospital psiquiátrico de Saint-Paul-de-Mausole. O interessante foi que a paisagem do quadro foi inteiramente recuperada da memória do pintor: ela era a vista da janela de seu quarto no sanatório. Ele passava a noite observando para pintá-la durante o dia. Um exercício de memória e de execução técnica precursor do Expressionismo.

É fácil perceber que a paisagem do quadro ganhou os contornos especiais da interpretação de Van Gogh, com pinceladas que conferem um movimento peculiar de cores e formas. Vários estudos ressaltam o tom de melancolia da obra, mas, a meu ver, esse quadro é especialmente interessante, justamente porque o movimento das pinceladas me passa uma sensação alegre, mais dinâmica, com tons de azul, amarelo e laranja que evocam uma energia muito especial para uma paisagem noturna.

A Noite Estrelada
Artista: Vincent Van Gogh
Localização: Museu de Arte de Nova York – MoMA (EUA)
Ano: 1889

Galeria | A Liberdade guiando o povo

eugc3a8ne_delacroix_-_la_libertc3a9_guidant_le_peuple

Este é o quadro mais famoso de Ferdinand-Victor-Eugene Delacroix (1798-1863) e, provavelmente, o mais emblemático da história da França. Sua composição, suas cores, seu tema, tudo remonta a esta, que é uma das civilizações mais poderosas do Ocidente.

Eu sempre pensei que A Liberdade guiando o povo se referisse à Revolução Francesa – mas, é claro, estava enganada. Ele representa um momento da revolução de julho de 1830 em Paris, também conhecida como “Os Três Dias Gloriosos”, cujo objetivo era depor Carlos X, monarca da Família Bourbon. Em seu lugar, assumiu Luís Felipe, Duque de Orléans e participante da Revolução Francesa.

A Liberdade, a mulher de peito nu, segurando a bandeira da França em uma mãe e um rifle na outra, em destaque no quadro, concentra todos os olhares. É ela que chama o povo, trabalhador e burguês (veja as duas figuras masculinas à esquerda), rumo ao engajamento, à luta. A partir dela, estabelece-se um fascinante jogo de luz e sombra e uma distribuição de imagens triangular.

A composição do quadro é clássica em traços, pré-impressionista, e repleta de metáforas. As cores da bandeira francesa também se distribuem como índices pelo quadro e valorizam a alegoria nacionalista que procura unir, pelo vínculo estético, o idealismo francês, o romantismo harmonioso e a ideia de representação da luta.

A Liberdade guiando o povo
Artista: Eugène Delacroix
Localização: Museu do Louvre, França
Ano: 1830

HQ | O fantasma de Anya

51b2fsk-yhl-_sx332_bo1204203200_

A premissa da história de Anya pode não ser das mais brilhantes nem inovadoras: uma adolescente imigrante complexada com seu corpo e desesperada para se encaixar no ambiente escolar secundário norte-americano. Entretanto, Vera Brosgol, com um traço gracioso, uma paleta de cores mórbida, portanto extremamente condizente com o enredo, fazem de O fantasma de Anya uma leitura interessante e divertida em vários momentos.

Chama a atenção a forma pela qual a autora consegue fazer a transição de um mero drama de aceitação adolescente para um thriller psicológico de assassinato. Anya é uma típica personagem adolescente que é obrigada a superar diversos de seus complexos para se livrar de uma situação que pode facilmente colocar sua família em risco.

Ao “fazer amizade” com uma fantasminha chamada Emily, em um encontro ocorrido em condições no mínimo peculiares, Anya começa a fazer desse ser sobrenatural não apenas a sua melhor amiga e conselheira, como também, involuntariamente, faz crescer em Emily a vontade de viver indiretamente a sua vida. O que não é nada bom.

Reviravolta

A talentosa artista gráfica Vera Brosgol sabe muito bem introduzir todas as pistas que vão culminar em um clímax elaborado e tenso para Anya. A transformação de Emily e as descobertas que a protagonista faz sobre o seu passado surpreendem e aumentam o grau de interesse pela história.

A leitura é fluida (uma distribuição de quadros bem eficiente e dinâmica) e começa a se intensificar à medida que Anya se dá conta da encrenca na qual está metida. Um marcador interessante das transformações da história e da mudança – ou melhor, revelação – do verdadeiro caráter de Emily é a alteração de sua aparência. Vera começa a retratá-la com traços menos infantis e mais adolescentes, uma nítida mensagem visual da tentativa de Emily de se aproximar da aparência de Anya.

Uma pena os problemas de impressão do livro, que apresenta várias falhas de registro de cores na impressão, o que não apenas prejudica a qualidade gráfica da obra, como também a nitidez dos traços de Vera Brosgol. Ainda assim, não supera os pontos positivos dessa HQ.

O fantasma de Anya
Vera Brosgol
Tradução de Humberto Moura Neto e Martha Argel
Editora Jangada
223 páginas
2013

Galeria | O Homem Amarelo

3a33ba28bf68a3f9af9b0065efde9151

‘Paranóia ou Mistificação?’, de Monteiro Lobato, é um dos mais célebres – e infelizes – artigos já publicados pela imprensa brasileira. Escrito em 1917, por ocasião de uma mostra de quadros de Anita Malfatti, o texto faz veementes ataques à pintora, que se deixava seduzir pelas ‘extravagâncias de Picasso e Cia.’. Anita Malfatti viria a ser reconhecida como uma das mais importantes artistas brasileiras do século 20, e o artigo de Lobato passou para a história como um célebre caso de estreiteza crítica.”

Este é o parágrafo inicial do ótimo livro Crítica Cultural – Teoria e Prática, do jornalista da Folha de S.Paulo Marcelo Coelho. Nada mais ilustrativo para começar estes pequenos apontamentos sobre um dos mais famosos quadros de Anita, pintora que foi um dos pilares do movimento Modernista brasileiro nas artes plásticas.

Um dado muito interessante sobre o quadro é que essa polêmica acerca da obra de Anita Malfatti acabou se sobrepondo à produção da artista. O Homem Amarelo é, certamente, um de seus trabalhos mais reconhecidos; entretanto, quase sempre é associado (assim como suas outras criações) ao embate modernista do qual Anita se tornou símbolo maior por força da circunstância das críticas de Monteiro Lobato.

A título de curiosidade, em seu livro A arte brasileira em 25 quadros [1790-1930], o historiador de arte Rafael Cardoso explica:

Pintado em Nova York – segundo relatos, a partir de um modelo italiano –, essa obra possui uma primeira versão mais comportada, em carvão e pastel, que se aproxima bem mais dos requisitos tradicionais do retrato. Na segunda versão […] o personagem foge de qualquer compromisso com a retratística e assume uma dimensão mais ampla e genérica, como figura alegórica.” (p. 178)

Particularmente, esse quadro me chama a atenção pelo aspecto intrigante e, ao mesmo tempo galante do homem pintado por Anita. Seu olhar para fora da tela deixa em aberto o mistério de seu foco de atenção. Sua gravata torta subentende um movimento brusco, o que aumenta o interesse pela incógnita que constitui o alvo do seu olhar. O forte contraste das cores e os traços marcados do rosto tornam o conjunto da composição uma combinação peculiar de informações. E, na arte, a estranheza sem dúvida torna tudo mais interessante.

O Homem Amarelo
Artista: Anita Malfatti
Localização: Coleção Mário de Andrade, Instituto de Estudos Brasileiros da USP-SP
Ano: 1915-1916

Galeria | As Senhoritas de Avignon

3467-1

Esse quadro, obra-prima de Pablo Picasso, é algo de revolucionário. Marco da vanguarda cubista e da pintura abstrata, As Senhoritas de Avignon proporciona momentos de extremo interesse no processo de fruição de um grande quadro.

Para mim, o que chama a atenção nesse quadro é a maneira extraordinária pela qual o pintor consegue mesclar os corpos das mulheres com o fundo. O resultado disso é a formação de imagens geométricas que caracterizam o Cubismo, daí a importância desse trabalho de Picasso. As mulheres têm traços abrutalhados, uma delas, inclusive, usa uma máscara do tipo africana, e insinuam-se abertamente ao espectador. Elas o olham de diferentes ângulos, mas, aparentemente, com igual interesse.

Trata-se de uma releitura da realidade. Em exposição recente, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, uma frase sobre a fase cubista de Picasso destacou-se para mim. Ela dizia algo como: “O artista tem em mente representar as coisas não como elas se apresentam ao olho, mas como elas se mostram ao intelecto”. Para mim, ela define de maneira bastante eficiente essa interpretação extremamente irregular da realidade, que se consolidou como um dos quadros mais importantes do século XX.

Curiosidade: alguns textos sobre essa obra explicam que, para elaborá-la, Picasso baseou-se em cinco moças que trabalhavam em um bordel da Rua Avignon, em Barcelona.

Infelizmente, sei menos sobre artes plásticas do que eu gostaria, mas esse quadro de Picasso me remete a Cinco Moças de Guaratinguetá (1930), de Di Cavalcanti – um quadro sobre o qual eu ainda vou falar neste espaço.

As Senhoritas de Avignon
Artista: Pablo Picasso
Localização: Museu de Arte Moderna de Nova York, EUA
Ano: 1907

Galeria | A Escola de Atenas

sanzio_01

Rafael não é o meu favorito entre os renascentistas, mas A Escola de Atenas é um dos quadros de que mais gosto deste período da História da Pintura. Não chega a ser uma obra “pop”, mas eu já tive a oportunidade de vê-la reproduzida em vários lugares, como capas de revistas, e ilustrando textos acadêmicos.

E não é para menos: esta, que é um dos trabalhos mais elaborados de Rafael Sanzio (1483-1520) é uma grande homenagem ao conhecimento, a ciências como Filosofia, Matemática, Astronomia, entre outras. E, combinando totalmente com essa atmosfera, Rafael pintou A Escola de Atenas na Stanza della Segnatura, no Vaticano, ou seja, na sala que compreende a biblioteca do Papa. Mais do que adequado, não?

Há uma profusão de figuras humanas no quadro, muitas delas a de célebres intelectuais da Grécia Clássica. No centro do quadro, em proporção até maior que a das outras figuras, figuram Platão e Aristóteles, um apontando para cima e outro apontando para baixo, em um animado debate sobre os planos do conhecimento.

Em outros planos e com diferentes níveis de destaque, podem ser vistos Sócrates (de verde, provavelmente conversando com seus alunos), Pitágoras escrevendo (no canto inferior esquerdo), bem como Euclides com um compasso (no canto direito) e Ptolomeu e Zoroastro segurando globos.

Curiosidade: há quem diga, inclusive, que o homem de feição pensativa, logo na frente do plano, seja Michelangelo, e que o próprio Rafael apareça no quadro, olhando para nós, perto de Ptolomeu e Zoroastro. Uma composição extremamente elaborada e à altura da melhor fase de Rafael!

A Escola de Atenas
Artista: Rafael Sanzio
Localização: Stanza della Segnatura, Vaticano
Ano: 1509-1512

Galeria | O Homem Vitruviano

homem-vitruviano-leonardo-da-vinci

Ainda que esporadicamente, quero abrir um espaço aqui no blog para comentar algumas das minhas obras preferidas do campo das artes plásticas. Vejam bem, sou uma leiga nesse sentido, minha ideia é apenas comentar um pouco sobre essas maravilhas (com base em algumas pesquisas muito básicas, é verdade) e embelezar este espaço com os frutos da genialidade de vários artistas ao logo dos séculos. Algo bem despretensioso, vale pontuar.

Para começar, não escolhi um quadro, nem uma escultura. Entretanto, fico abismada quando vejo as listas de “10 obras mais influentes do mundo das artes” e coisa e tal em revistas e sites e percebo que O Homem Vitruviano sempre é preterido. Para mim, esse desenho não é apenas uma obra de arte, é um ponto de partida. Um dos estudos de proporção mais perfeitos e completos que conheço; sua concepção é muito mais abrangente do que meramente a figura humana dentro de um círculo e de um quadrado. A ideia de Marco Vitrúvio Pollio (80-70 a.C.-15 a.C), o arquiteto que, inicialmente, elaborou todo o conceito, foi justamente mostrar que o homem concentrava em si todas as formas do universo: o círculo, o triângulo, enfim, as formas geométricas usadas naquela época para a elaboração de plantas, maquetes, o esboço de obras de arte e tantas outras atividades.

O caso é que Marco Vitrúvio pensou O Homem Vitruviano (já deu pra perceber o porquê do nome, né?) alguns anos antes de Cristo (o arquiteto era um tremendo visionário, embora, naquela época ninguém tenha se dado conta da genialidade do conceito criado por ele) e somente vários séculos depois Leonardo da Vinci (1452-1519) resgatou essa ideia e conferiu a esse desenho toda a glória e a técnica que conhecemos hoje. O mestre florentino desenhou O Homem Vitruviano em uma das folhas de seu caderno de esboços. Ao longo dos séculos, o caderno desapareceu, mas esta preciosa folha foi conservada. Hoje, além de seu valor artístico, O Homem Vitruviano transformou-se em um ícone visual, estampando sacolas, camisetas e até cases de celular.

No ano passado, encontrei um excelente livro sobre esse desenho, resultado de anos de pesquisa do historiador Toby Lester: O fantasma de Da Vinci – A história desconhecida do desenho mais famoso do mundo. Reproduzo a seguir o trecho que descreve como Da Vinci fez O Homem Vitruviano:

“Leonardo Da Vinci fez o desenho em uma folha de papel que mede aproximadamente 34 centímetros por 24 centímetros. As dimensões são pouco maiores do que hoje seria uma folha de papel carta. Ele usou uma porção de instrumentos para trabalhar: compasso e esquadro [para definir o círculo e o quadrado e conferir as várias medidas]; talvez um estilete de ponta metálica [predecessor do lápis, que ainda não havia sido inventado, para traçar as linhas iniciais do desenho]. Parece ter desenhado o círculo e o quadrado primeiro, efetuando doze furos de compasso na página nesse processo; depois, colocou o homem dentro dessas duas formas; em seguida, inseriu a escala abaixo, dividida em unidades de dedos e palmos; e, finalmente, acrescentou os dois parágrafos de texto, o primeiro acima do desenho, o segundo abaixo.” (págs. 210-220)

Os dois parágrafos referidos por Toby Lester são escritos em técnica espelhada (típica de Leonardo da Vinci) e comentam as noções de proporção adotadas por Vitrúvio em sua forma original, mas, a verdade é que o mestre de Florença alterou a maior parte das medidas originais da figura, corrigindo eventuais problemas de proporção e conferindo a esse desenho o status de uma verdadeira obra-prima.

O Homem Vitruviano
Artistas: Marco Vitrúvio Pollio/Leonardo da Vinci
Localização: Academia de Artes de Veneza, Itália
Ano: 1490