Distopias | Fahrenheit 451

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Foi há coisa de uns três meses, com o lançamento da revista de livros Quatro cinco um (comentada aqui), que eu me lembrei de que tinha na estante o livro que inspirou o título da revista – ainda não lido.

Resolvi ler o livro antes de me dedicar ao primeiro número da revista e a leitura do clássico escrito por Ray Bradbury me deixou tão embevecida, que passei a agradecer pelo lançamento da Quatro cinco um só pelo fato de isso ter me motivado à leitura de um livro há dois anos esquecido na minha estante.

Trata-se de um enredo envolvendo uma sociedade distópica, resultado de um governo totalitário, que oprime os cidadãos que mantêm o gosto pela leitura e, principalmente, que dispõem de exemplares em suas casas. Nesse contexto sociopolítico que associa a infelicidade aos questionamentos proporcionados pelo hábito da leitura, os bombeiros constituem o elemento opressor, responsável por incendiar os livros apreendidos (vizinhos, conhecidos e mesmo parentes denunciam-se uns aos outros) e prender os leitores.

Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma.” (pág. 76)

Momento histórico

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Bradbury escreveu sua obra-prima no cenário mundial pós-Segunda Guerra em 1953. Originalmente chamado The fireman, o livro veio depois dos aclamados Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (publicado em 1932), e de 1984, de George Orwell (de 1949).

Contudo, o pai dos romances distópicos não é nenhum desses tão famosos autores. Nós, escrito pelo russo Yevgeny Zamyatin (1884-1937) entre os anos de 1920 e 1930, é o primeiro livro conhecido desse gênero. Além desses, outros enredos distópicos também viriam ao conhecimento do público mais tarde, como Metropolis (pelo filme de Fritz Lang, em 1927), Laranja Mecânica (pelo livro de Anthony Burgess, de 1962, e transformado em filme por Stanley Kubrick dez anos depois) e O Conto da Aia, de Margaret Atwood, publicado em 1985.

Montag, o bombeiro

As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo, mas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver, noventa e nove por cento delas está num livro. Não peça garantias. E não espere ser salvo por uma coisa, uma pessoa, máquina ou biblioteca. Trate de agarrar a sua própria tábua e, se você se afogar, pelo menos morra sabendo que estava no rumo da costa.” (pág. 107)

Um bombeiro que começa a se interessar pelos livros que deveria incendiar é o ponto de partida para a revolução na sociedade até então tão controlada do enredo de Ray Bradbury. Os questionamentos de Guy Montag ultrapassam o nível do aceitável, quando o bombeiro começa a se dar conta do vazio que tomava conta de seu casamento, bem como de sua falta de perspectiva em relação à sua profissão – tudo isso a partir de pequenos diálogos estabelecidos com sua vizinha Clarisse no trem, ou andando pelo bairro, diariamente, na volta do trabalho. Afinal, qual era o sentido de queimar livros e de viver com uma mulher que nem se lembra de quando o conheceu?

A versão de Truffaut

Mais de dez anos depois, o prestigiado François Truffaut levou para as telas do cinema a adaptação do romance de Bradbury. A produção vale pelo caráter de divulgação e de estímulo ao interesse do público pelo texto original, sem dúvida. Entretanto, o cinema sofre pela concisão necessária a obras que pedem um alto grau de complexidade de construção, como é o caso de Fahrenheit 451.

É incrível como o livro consegue transmitir mais emoção do que o filme no ápice da trama, com a fuga de Montag. Outra grande perda foi o fato de Truffaut ter suprimido da versão cinematográfica o Sabujo, a temida criatura robótica algoz de todos aqueles que contrariavam os interesses da ordem dominante. Mesmo assim, é interessante ver como o diretor francês transformou em imagens alguns signos interessantes do livro de Bradbury, como o carro dos bombeiros, por exemplo.

Obra-prima

Sem dúvida, Fahrenheit 451 foi uma de minhas melhores leituras neste ano. É um livro notável, capaz de falar ao coração de todo aquele que ama a Literatura, dá valor aos livros e encara o processo de leitura como um momento de abertura de perspectivas, de incremento da visão de mundo e de problematização das questões da existência.

Para mim, o ponto alto da história foi a maneira encontrada pelo autor de preservar os livros em um contexto totalitário. Trabalhar o pensamento e a reflexão sobre aquilo que se lê, tendo como ponto de partida a assimilação das obras clássicas da Literatura mundial, constitui o objetivo que deveria nortear qualquer atividade de leitura. Não se trata apenas de ler, mas de buscar maneiras de refletir sobre o que foi lido, de empregar um tempo precioso para aperfeiçoar o pensamento. É isso. E muito mais, é claro!

Fahrenheit 451 (livro)
Ray Bradbury
Globo de Bolso
2014 – 214 páginas

Fahrenheit 451 (filme)
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut e Jean-Louis Richard, a partir do romance de Ray Bradbury
Ano: 1966
País: Estados Unidos
Gênero: Ficção científica
Duração: 112 minutos
Elenco: Oskar Werner (Guy Montag); Julie Christie (Linda Montag/Clarisse); Cyril Cusack (Capitão); Anton Diffring (Fabian); Alex Scott (homem-livro)

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