Leitura | Quem matou Roland Barthes?

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Roland Barthes, brilhante filósofo, sociólogo, semiólogo etc.

Preciso, ainda que brevemente, fazer um registro da leitura desse excelente livro. Confesso até que me senti constrangida durante sua leitura. Primeiro, porque, mesmo tendo lido algumas sinopses sobre ele previamente, eu o subestimei. Segundo, porque se trata de um livro que vai muito além de uma mera trama policial.

O que me chamou a atenção foi o insight do jovem autor francês Laurent Binet de transformar personalidades reais em protagonistas de um romance. O nome de Roland Barthes na capa já me motivou à leitura. E saber que teóricos como Julia Kristeva, Michel Foucault, Roman Jakobson, Jacques Derrida, Umberto Eco, entre tantos outros estudiosos com os quais me deparei em meus estudos de pós-graduação e mestrado, faziam parte do enredo me deixou ainda mais intrigada.

Binet encarou o desafio com muita competência. Com seu livro, fez não apenas uma homenagem à história recente da França – questões sociais e políticas permeiam toda a história, e dados reais sustentam a trama de Binet –, mas também soube abordar (até onde me compete dizer) tópicos da Linguística e transformá-los em substrato consistente de seu livro.

A história

O ponto de partida do romance de Binet se dá com um fato real: o atropelamento que viria a ser a causa da morte de Roland Barthes (1915-1980). O motivo: a possível existência de uma sétima função da linguagem, a qual estaria em posse de Barthes naquele momento – aí Binet começa a escrever a ficção em cima da realidade.

A suposta sétima função seria a mais poderosa de todas e estaria diretamente relacionada à arte da retórica – o Clube Logos, um dos pontos fortes do livro, responsável por sequências memoráveis da história, também foi uma grande homenagem a Aristóteles – e daria ao seu detentor possibilidades inimagináveis. Aí Binet confere à arte do discurso o status de maior arma de todas, e não apenas na esfera política.

A trama do livro viaja entre países – França, Itália, Estados Unidos – e mostra, de forma até um tanto satírica, a elite da intelectualidade mundial daquela época (início dos anos de 1980). A prosa de Binet é rica em referências, e a leitura do livro me motivou a buscar novamente, entre as minhas coisas, reportagens, livros de Roland Barthes, entrevistas de Julia Kristeva, minhas anotações sobre Linguística, bem como os livros de Aristóteles e de Umberto Eco. Seria possível passar meses e meses debruçando-se sobre seu tema. Trata-se de um livro publicado no centenário de nascimento de Barthes (ótimo tributo) e que não se esgota em si mesmo, mas estimula o leitor à pesquisa sobre vários pontos de sua trama.

Quem matou Roland Barthes?
Laurent Binet
Companhia das Letras
Tradução de Rosa Freire d’Aguiar
2016
416 páginas

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