Leitura | Big Loira e outras histórias de Nova York

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Há tempos Dorothy Parker (1893-1967) aguardava a sua vez em minha estante. Pacientemente, ela ficou lá durante anos. Diga-se de passagem, apenas eu perdi com isso, porque demorei mais a ter contato com uma prosa inteligente, irônica e espirituosa. Os contos reunidos neste volume, selecionados e traduzidos por Ruy Castro, são pequenos recortes de momentos de uma sociedade às vezes vazia, às vezes densa, às vezes cômica, se não fosse trágica.

Foi uma amiga que conheci na época da pós-graduação que me apresentou o nome de Dorothy, dizendo mil maravilhas sobre seus contos. Na hora, anotei a dica. Anos depois, encontrei Big Loira e outras histórias de Nova York em excelente estado no sebo da USP.

Estrutura

O livro é composto pelos contos:

– A Valsa;
– Arranjo em preto e branco;
– Os sexos;
– Você estava ótimo;
– O padrão de vida;
– Um telefonema;
– Primo Larry;
– E aqui estamos;
– Diário de uma dondoca de Nova York;
– Big Loira;
– O último chá;
– Nova York chamando Detroit;
– Só mais uma;
– A visita da verdade;
– De noite, na cama;
– Em função das visitas;
– As brumas antes dos fogos;
– Coração em creme;
– Soldados da República;
– Que pena.

No ótimo prefácio de Ruy Castro, um panorama da Nova York do tempo de Dorothy e detalhes sobre a personalidade da autora servem para contextualizar e preparar o leitor para os contos que vêm a seguir. Em suas reflexões, Castro exagera, posicionando Dorothy acima de Virginia Woolf e de Gertrude Stein. Não me parece uma questão de pôr alguém em cima de alguém em termos literários, mas, apesar de ainda não ter lido Gertrude Stein, alguns contos de Dorothy me remeteram, na verdade, a Katherine Mansfield. Comparações à parte, o leitor nada perde em beber em cada uma dessas ótimas fontes.

Os contos

Sem dúvida, muito antes de ler o livro, eu já conhecia de nome e já tinha ouvido muitos comentários sobre “A Valsa”, o conto que abre o volume e que, pela opinião geral, é o melhor de Dorothy. Trata-se de um ótimo texto, totalmente irônico, contado durante o espaço de uma dança em uma festa, mas, a meu ver, não é o melhor do livro. Cheguei a pensar se todas as pessoas que consideram “A Valsa” o melhor de Dorothy Parker pararam a leitura do livro no primeiro conto. Fato é que, para mim, os verdadeiros momentos altos da prosa da autora estão mais para o meio do volume, com a densidade de “Big Loira”, a crítica familiar de “A visita da verdade” e os simplesmente excelentes “Soldados da República”, resultado da viagem de Dorothy à Espanha, em 1938, para apoiar os republicanos durante a Guerra Civil Espanhola, e “Que pena”, texto no qual a autora mostra toda a sua sensibilidade para contar, de forma singela, a história da dissolução de um casamento morno.

Dorothy Parker foi uma exímia retratista social de seu tempo e, apesar de alguns de seus textos reunidos neste livro me causarem a sensação de repetição de assunto, ou de recorte narrativo, todo leitor que gosta de contos não pode deixar de conhecer o seu trabalho.

Big Loira e outras histórias de Nova York
Dorothy Parker
Tradução de Ruy Castro

Companhia das Letras
1987
227 páginas

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