Leitura | A mulher que escreveu a Bíblia

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Primeiro ponto: o título desse livro me fisgou. Definitivamente, me deixou motivada para a leitura. Quem gosta de ler sabe que alguns títulos têm esse poder.

A segunda coisa que me agradou bastante foi a narração em primeira pessoa, feita pela protagonista da história: uma mulher inteligente, espirituosa e… feia. Este último detalhe até poderia ser algo negativo, se essa protagonista não soubesse usar todos os seus pontos fortes a seu favor. Seu poder não vem de sua aparência (e nem poderia!) – como ocorre com muitas belas mulheres que, favorecidas fisicamente, esquecem-se de que astúcia e inteligência são fundamentais – onde está Vinícius de Moraes numa hora dessas?

O caso é que a premissa do livro é, pode-se dizer, revolucionária, do ponto de vista religioso/social: uma mulher teria escrito o Velho Testamento – em razão da falta de capacidade de um grupo de selecionados escribas –, determinando, inclusive, como ocorreu o Gênesis (tudo isso em um jogo cronológico que mescla presente e passado).

Além disso, a trama apresenta traços marcantes do pós-modernismo, como a narrativa fragmentada, a posição da mulher como protagonista, a subversão conceitual de um clássico (a Bíblia), enfim, fatores que não apenas contribuem para a renovação de uma obra tradicional, como também executam um papel importante na releitura oferecida pelo autor.

A mulher na perspectiva masculina

Mais uma vez – isso também me ocorreu quando li Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos (resenhado aqui), o narrador em primeira pessoa precisa ultrapassar o lugar social do autor para dar veracidade à história.

Se, em seu livro, Villalobos construiu um narrador que era uma criança, o desafio de Moacyr Scliar foi o de constituir um narrador-personagem feminino e repleto de peculiaridades do universo das mulheres. E ele foi bem-sucedido nesse processo. Este é apenas um dos aspectos interessantes da história…

Problematizando os profetas

O livro tem várias ótimas passagens, e uma das melhores delas refere-se ao momento em que a protagonista (que não tem nome para nós, leitores – outro aspecto pós-moderno) problematiza o ato de profetizar e, por consequência, o papel dos profetas. E se dá conta de que não apenas é capaz de fazer isso, como também já o está fazendo, vendo e registrando momentos cruciais da crença religiosa ocidental. Simplesmente brilhante.

Como os profetas, eu estava vendo, com meridiana clareza, o que aconteceria daí em diante, não nos meses ou anos seguintes, mas nos séculos seguintes; um relato que poderia dar origem a muitos livros (e eu até imaginava um nome para esses livros, um nome grego, porque grego seria uma língua importante: Bíblia). Animada por uma força misteriosa minha mão escrevia, escrevia febrilmente.” (pág. 159)

São muitas e delicadas as questões as quais o autor não se furta a discutir. A mulher que escreveu a Bíblia é um livro reflexivo e muito rico no que se refere a questões sobre gênero, classe, religião (é claro!) e poder. Sua protagonista, inclusive, mostra/prova que o poder está diretamente relacionado ao conhecimento – ela é feia, mas domina a escrita e a leitura, o que a torna diferente de todas as outras mulheres. A mensagem passada por meio dela transcende a beleza física e se consolida na mensagem das palavras.

A mulher que escreveu a Bíblia
Moacyr Scliar
Coleção Folha Literatura Ibero-Americana – Volume 15
2012
176 páginas

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