Arquivo mensal: maio 2017

Leitura | Big Loira e outras histórias de Nova York

2f6f8ddaa8b2664aa17cabca2a209d22a66af32a

Há tempos Dorothy Parker (1893-1967) aguardava a sua vez em minha estante. Pacientemente, ela ficou lá durante anos. Diga-se de passagem, apenas eu perdi com isso, porque demorei mais a ter contato com uma prosa inteligente, irônica e espirituosa. Os contos reunidos neste volume, selecionados e traduzidos por Ruy Castro, são pequenos recortes de momentos de uma sociedade às vezes vazia, às vezes densa, às vezes cômica, se não fosse trágica.

Foi uma amiga que conheci na época da pós-graduação que me apresentou o nome de Dorothy, dizendo mil maravilhas sobre seus contos. Na hora, anotei a dica. Anos depois, encontrei Big Loira e outras histórias de Nova York em excelente estado no sebo da USP.

Estrutura

O livro é composto pelos contos:

– A Valsa;
– Arranjo em preto e branco;
– Os sexos;
– Você estava ótimo;
– O padrão de vida;
– Um telefonema;
– Primo Larry;
– E aqui estamos;
– Diário de uma dondoca de Nova York;
– Big Loira;
– O último chá;
– Nova York chamando Detroit;
– Só mais uma;
– A visita da verdade;
– De noite, na cama;
– Em função das visitas;
– As brumas antes dos fogos;
– Coração em creme;
– Soldados da República;
– Que pena.

No ótimo prefácio de Ruy Castro, um panorama da Nova York do tempo de Dorothy e detalhes sobre a personalidade da autora servem para contextualizar e preparar o leitor para os contos que vêm a seguir. Em suas reflexões, Castro exagera, posicionando Dorothy acima de Virginia Woolf e de Gertrude Stein. Não me parece uma questão de pôr alguém em cima de alguém em termos literários, mas, apesar de ainda não ter lido Gertrude Stein, alguns contos de Dorothy me remeteram, na verdade, a Katherine Mansfield. Comparações à parte, o leitor nada perde em beber em cada uma dessas ótimas fontes.

Os contos

Sem dúvida, muito antes de ler o livro, eu já conhecia de nome e já tinha ouvido muitos comentários sobre “A Valsa”, o conto que abre o volume e que, pela opinião geral, é o melhor de Dorothy. Trata-se de um ótimo texto, totalmente irônico, contado durante o espaço de uma dança em uma festa, mas, a meu ver, não é o melhor do livro. Cheguei a pensar se todas as pessoas que consideram “A Valsa” o melhor de Dorothy Parker pararam a leitura do livro no primeiro conto. Fato é que, para mim, os verdadeiros momentos altos da prosa da autora estão mais para o meio do volume, com a densidade de “Big Loira”, a crítica familiar de “A visita da verdade” e os simplesmente excelentes “Soldados da República”, resultado da viagem de Dorothy à Espanha, em 1938, para apoiar os republicanos durante a Guerra Civil Espanhola, e “Que pena”, texto no qual a autora mostra toda a sua sensibilidade para contar, de forma singela, a história da dissolução de um casamento morno.

Dorothy Parker foi uma exímia retratista social de seu tempo e, apesar de alguns de seus textos reunidos neste livro me causarem a sensação de repetição de assunto, ou de recorte narrativo, todo leitor que gosta de contos não pode deixar de conhecer o seu trabalho.

Big Loira e outras histórias de Nova York
Dorothy Parker
Tradução de Ruy Castro

Companhia das Letras
1987
227 páginas

Anúncios

Projeto Hitchcock | Sabotagem/O marido era o culpado (1936)

20323974

Achei bastante curioso o fato de um mesmo filme ser conhecido por dois títulos diferentes. Internacionalmente, Sabotage é o nome utilizado na filmografia de Hitchcock; aqui no Brasil, O marido era o culpado é outro título pelo qual esta mesma produção é conhecida, embora eu não saiba a razão disso. Uma coisa é certa: O marido era o culpado é simplesmente um título ridículo, que depõe contra esse trabalho interessante, realizado por Hitchcock na década de 1930, durante a “Fase Inglesa” de sua filmografia.

Joseph Conrad

O roteiro do filme foi desenvolvido a partir do romance O Agente Secreto, de autoria do escritor britânico Joseph Conrad (1857-1924). Infelizmente, não li o livro antes de assistir ao filme (mas fiquei bastante curiosa para fazer isso), então não tenho parâmetros para avaliar questões de adaptação da história. Entretanto, a atmosfera criada pelo diretor é muito sugestiva. Trabalha com elementos acessórios para criar um efeito generalizado ao espectador, uma vez que o principal fator já é revelado nas primeiras cenas do filme: como um dos títulos sugere, o marido de Sylvia Verloc, de fato, é mostrado em atitude suspeita. Por isso, de antemão, já se sabe que se trata de um sabotador, mas a motivação do Sr. Verloc, bem como a organização para qual ele trabalha, uma possível colaboração de sua esposa nessa “operação” são pontos que se tornam os principais no desenvolvimento do filme.

zzsabotagem5
Ted (John Loder) e Sra. Verloc (Sylvia Sydney)

Assim como desde cedo se sabe que o Sr. Verloc está desenvolvendo uma atividade ilícita, o filme de Hitchcock também mostra logo de início que Ted, um suposto empregado da quitanda que funciona vizinha ao cinema do casal Verloc, é mais do que um simples quitandeiro. Suas ações revelam, talvez prematuramente, que ele é um investigador no rastro de Verloc – seu comportamento no sofisticado Restaurante Simpsons, em companhia da Sra. Verloc e de seu irmão, Stevie é uma prova de que ele não é quem diz ser. Assim como o espectador, Ted quer saber se a Sra. Verloc tem conhecimento do trabalho secreto de seu marido e quais são os próximos passos do sabotador.

Definitivamente, Sabotagem não é um filme badalado entre as produções da Fase Inglesa de Alfred Hitchcock, mas é uma trama interessante, sem muitos recursos de impacto (cenas de ação, por exemplo), porém com uma história instigante. Stevie, o irmão caçula da Sra. Verloc, adquire uma importância inesperada no enredo, com um suspense crescente, o que contribui para dar força ao desfecho do filme.

Sabotagem/O marido era o culpado
1936
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Charles Benett, Ian Hay, Helen Simpson, baseado no romance de Joseph Conrad, The Secret Agent
Duração: 76 minutos
Elenco: Sylvia Sydney (Sylvia), Oskar Homolka (Sr. Verloc), John Loder (Ted), Desmond Tencer (Stevie)

 

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

Leitura | A mulher que escreveu a Bíblia

37_biblia

Primeiro ponto: o título desse livro me fisgou. Definitivamente, me deixou motivada para a leitura. Quem gosta de ler sabe que alguns títulos têm esse poder.

A segunda coisa que me agradou bastante foi a narração em primeira pessoa, feita pela protagonista da história: uma mulher inteligente, espirituosa e… feia. Este último detalhe até poderia ser algo negativo, se essa protagonista não soubesse usar todos os seus pontos fortes a seu favor. Seu poder não vem de sua aparência (e nem poderia!) – como ocorre com muitas belas mulheres que, favorecidas fisicamente, esquecem-se de que astúcia e inteligência são fundamentais – onde está Vinícius de Moraes numa hora dessas?

O caso é que a premissa do livro é, pode-se dizer, revolucionária, do ponto de vista religioso/social: uma mulher teria escrito o Velho Testamento – em razão da falta de capacidade de um grupo de selecionados escribas –, determinando, inclusive, como ocorreu o Gênesis (tudo isso em um jogo cronológico que mescla presente e passado).

Além disso, a trama apresenta traços marcantes do pós-modernismo, como a narrativa fragmentada, a posição da mulher como protagonista, a subversão conceitual de um clássico (a Bíblia), enfim, fatores que não apenas contribuem para a renovação de uma obra tradicional, como também executam um papel importante na releitura oferecida pelo autor.

A mulher na perspectiva masculina

Mais uma vez – isso também me ocorreu quando li Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos (resenhado aqui), o narrador em primeira pessoa precisa ultrapassar o lugar social do autor para dar veracidade à história.

Se, em seu livro, Villalobos construiu um narrador que era uma criança, o desafio de Moacyr Scliar foi o de constituir um narrador-personagem feminino e repleto de peculiaridades do universo das mulheres. E ele foi bem-sucedido nesse processo. Este é apenas um dos aspectos interessantes da história…

Problematizando os profetas

O livro tem várias ótimas passagens, e uma das melhores delas refere-se ao momento em que a protagonista (que não tem nome para nós, leitores – outro aspecto pós-moderno) problematiza o ato de profetizar e, por consequência, o papel dos profetas. E se dá conta de que não apenas é capaz de fazer isso, como também já o está fazendo, vendo e registrando momentos cruciais da crença religiosa ocidental. Simplesmente brilhante.

Como os profetas, eu estava vendo, com meridiana clareza, o que aconteceria daí em diante, não nos meses ou anos seguintes, mas nos séculos seguintes; um relato que poderia dar origem a muitos livros (e eu até imaginava um nome para esses livros, um nome grego, porque grego seria uma língua importante: Bíblia). Animada por uma força misteriosa minha mão escrevia, escrevia febrilmente.” (pág. 159)

São muitas e delicadas as questões as quais o autor não se furta a discutir. A mulher que escreveu a Bíblia é um livro reflexivo e muito rico no que se refere a questões sobre gênero, classe, religião (é claro!) e poder. Sua protagonista, inclusive, mostra/prova que o poder está diretamente relacionado ao conhecimento – ela é feia, mas domina a escrita e a leitura, o que a torna diferente de todas as outras mulheres. A mensagem passada por meio dela transcende a beleza física e se consolida na mensagem das palavras.

A mulher que escreveu a Bíblia
Moacyr Scliar
Coleção Folha Literatura Ibero-Americana – Volume 15
2012
176 páginas

Maigret | Maigret e seu morto

f1119_8525404772_p

Essa aventura do comissário Maigret foi lida em um processo diferenciado. Pela primeira vez, tive acesso aos quadrinhos do comissário da polícia judiciária francesa, em um traço elegante de Philippe Wurm e um roteiro dinâmico, elaborado por Odile Reynaud. Sem dúvida, foi uma experiência interessante e criativa, muito embora a imagem de Maigret pelas mãos de Wurm não corresponda em nada à ideia que eu sempre fiz do comissário – continuo imaginando-o como o ator francês Daniel Cremer, que o viveu nas telas, em um seriado produzido para a televisão francesa.

Até então, meu conhecimento sobre Maigret se resumia à tradução da prosa eficiente de Simenon. E é claro que a leitura em HQ de Maigret e seu morto me motivou a querer ler o texto em prosa. Mesmo porque essa história apresenta uma especificidade em relação às outras aventuras do comissário que li até o momento: aqui, a Sra. Maigret participa bastante da trama, opinando, aconselhando Maigret durante a investigação, e isso deu um toque especial ao enredo, porque ela funciona como um contraponto ao jeito caladão e sóbrio de Maigret em um caso de ritmo dinâmico, repleto de perseguições, violência, desencontros e momentos bem delicados.

O comissário nas telas

Outro ponto bem enriquecedor foi que, logo após a leitura, eu tive a oportunidade de ver o segundo episódio na nova série de Maigret produzida pelo canal iTV, protagonizada por Rowan Atkinson, o famoso Mr. Bean.

Maigret e seu morto foi o segundo episódio da série e eu o assisti assim que finalizei os quadrinhos. Não sabia absolutamente o que esperar, porque estava com várias reservas em relação a como poderia ser a atuação de Atkinson como Maigret, mas devo admitir que fiquei surpresa com o esforço do ator. Seu trabalho é sério e busca persistentemente a sobriedade do personagem das histórias de Simenon, apesar de, em vários momentos, ele se mostrar muito mais sensível do que o Maigret dos livros – li algumas resenhas e entrevistas nas quais Rowan Atkinson afirma que esse traço de sua interpretação foi proposital, para a elaboração de sua releitura de Maigret.

A produção, em si, da iTV é muito boa. O episódio foi muito bem tratado em termos visuais, de ambientes, figurinos, direção de arte e fotografia. Acho que Simenon ficaria contente com esse resultado – só não saberia dizer o que ele pensaria de seu protagonista na pele de Rowan Atkinson.

A história foi bem adaptada para a TV. Notei uma forte preocupação em manter os pontos principais conforme o enredo original, apenas uma ou outra pitada para criar mais efeito na telona. O casal Maigret pareceu-me bem mais jovem em relação ao livro, mas isso não me incomodou. Assim como no livro, também no episódio para a TV a Sra. Maigret tem uma participação relevante e dá um pequeno toque feminino à história (principalmente em relação aos primeiros livros, nos quais ela mal aparece).

i160317_112819_167901otexttrmrmmglpict000084997538o
Rowan Atkinson como Maigret

Maigret nunca pega casos fáceis. Suas investigações geralmente conduzem-no a dilemas morais, violência e contrapontos entre vida e morte. Nesse caso não foi diferente, mas, mais uma vez ele se saiu bem sem tentar soluções mirabolantes e sem tentar bancar o super-homem. O morto da história lhe chega ainda nas primeiras páginas da história, mas Maigret realiza seu trabalho com bastante perseverança – algo bem conservado no episódio da TV –, confiando em sua intuição (e na de sua esposa também) para chegar ao âmago do caso. Uma lição de boa investigação.

Maigret e seu morto (HQ)
Georges Simenon
Adaptação e roteiro de Odile Reynaud
Ilustrações de Philippe Wurm
Tradução de Moacyr Gomes Jr.
L&PM Editores
1995 – 48 páginas

Maigret e seu morto (Segundo episódio da série iTV)
Rowan Atkinson como Maigret
Uma produção ITV (Inglaterra)
2016 – 1h28min

Galeria | A Noite Estrelada

800px-van_gogh_-_starry_night_-_google_art_project

Este quadro, além de um dos mais belos trabalhos de Van Gogh, é também um tributo à memória. Sua produção, em si, já foi um processo bastante interessante de concepção artística.

Em sua temporada em Arles, na França, o artista holandês desenvolveu vários estudos e quadros sobre perspectivas noturnas, trabalhos estes que enviava a seu irmão Theo, que trabalhava como marchand, para venda.

A Noite Estrelada foi concebida enquanto Van Gogh estava em no hospital psiquiátrico de Saint-Paul-de-Mausole. O interessante foi que a paisagem do quadro foi inteiramente recuperada da memória do pintor: ela era a vista da janela de seu quarto no sanatório. Ele passava a noite observando para pintá-la durante o dia. Um exercício de memória e de execução técnica precursor do Expressionismo.

É fácil perceber que a paisagem do quadro ganhou os contornos especiais da interpretação de Van Gogh, com pinceladas que conferem um movimento peculiar de cores e formas. Vários estudos ressaltam o tom de melancolia da obra, mas, a meu ver, esse quadro é especialmente interessante, justamente porque o movimento das pinceladas me passa uma sensação alegre, mais dinâmica, com tons de azul, amarelo e laranja que evocam uma energia muito especial para uma paisagem noturna.

A Noite Estrelada
Artista: Vincent Van Gogh
Localização: Museu de Arte de Nova York – MoMA (EUA)
Ano: 1889