Projeto Hitchcock | Psicose

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Propositalmente eu demorei bastante para chegar à obra mais badalada da cinematografia de Alfred Hitchcock. E também propositalmente eu quis ler o livro de Robert Bloch antes de assistir ao filme. E talvez esse tenha sido o meu erro.

É inegável que o filme tem muitos méritos e que se trata de um dos maiores trabalhos de Hitchcock, mas para que essa imagem se consolide, é melhor você não ler o livro de Bloch. Caso contrário, a decepção é certa. Afinal, o livro é muito melhor.

Diferentemente do que aconteceu com Janela Indiscreta, quando Hitchcock conseguiu melhorar o conto de Cornell Woolrich que originou o roteiro do filme, em Psicose, a matéria-prima literária já era de uma qualidade impressionante. E é muito difícil melhorar algo que já é, em sua essência, excelente.

O roteiro perdeu força em relação ao livro notadamente porque as mudanças para a Sétima Arte não foram bem-sucedidas. Norman não se parece com o Norman do livro, Lila não se parece com a Lila do livro e Marion – que, no livro, é Mary – definitivamente não se parece com a personagem do livro. Por isso é prejudicial a leitura do livro antes de conhecer o filme. A escrita de Bloch é tão boa, que se torna inevitável para o leitor não formar mentalmente a imagem dos personagens de acordo com as descrições do autor. Descrições estas que mudaram significativamente para o cinema.

A cena do chuveiro

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Não posso deixar de dizer que até mesmo a tão famosa sequência da morte de Marion no chuveiro é extremamente fraca perante sua descrição no livro. Nem mesmo os sete dias de filmagem, as 70 posições de câmera e os 45 segundos de duração conseguem ser mais incisivos do que a brutalidade da narração de Robert Bloch.

O refinamento literário de um texto extremamente representativo da literatura de suspense e terror põe abaixo as tomadas de Hitchcock, infelizmente. Talvez não houvesse tantos recursos visuais naquela época para reconstruir fielmente a cena narrada por Bloch, mas Hitchcock, uma vez comprado o desafio da adaptação, deveria ter construído melhor essa passagem-chave do filme. Fica clara a sua intenção de não ser apelativo, porém sua adaptação, em vários momentos, beira a infantilidade. Não se trata de uma sequência ruim; ela é apenas decepcionante na comparação com o livro. Contudo, como 90% dos espectadores do filme não leram o livro, méritos para Hitchcock.

Reconheço que nenhum outro diretor seria capaz de reproduzir no cinema a classe da trama de Robert Bloch. Hitchcock fez tudo o que podia. E o resultado foi bom, alguns recursos para situar o espectador em relação à trama foram muito bem pensados; as vozes dos atores constituindo os diálogos povoando os pensamentos de Marion enquanto a moça pega a estrada e mesmo elaboração da personagem da mãe de Norman para o filme foram interessantes. Entretanto, a leitura da obra-prima de Robert Bloch é indispensável para conhecer todas as dimensões de Psicose.

Psicose (livro)
Robert Bloch
Darkside
2013 – 237 páginas

Psicose (filme)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Joseph Stefano, baseado no livro de Robert Bloch
Ano: 1960
País: Estados Unidos
Gênero: Suspense/Terror
Duração: 100 minutos
Elenco: Janet Leigh (Marion Crane); Anthony Perkins (Norman Bates); John Gavin (Sam Loomis); Vera Miles (Lila Crane); Martin Balsam (Detetive Arbogast); John McIntire (xerife Al Chambers); Simon Oakland (Dr. Richmond); Vaughn Taylor (George Lowery)

 

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