Tag Livros | A balada de Adam Henry

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Eu não estou lendo na ordem em que recebi os livros da Tag Experiências Literárias ao longo deste um ano de assinatura. Mas todos eles serão lidos e, possivelmente, comentados aqui no blog.

Ian McEwan é um autor com o qual somente agora, com a Tag, eu tive a oportunidade de entrar em contato. A balada de Adam Henry foi o livro indicado pelo curador do mês de junho deste ano, o ex-diplomata e tradutor Jorio Dauster. Trata-se de um livro sucinto e escrito de maneira elegante – há todo um cuidado na escolha das palavras por parte do autor e, definitivamente, as situações do enredo não são retratadas de forma banalizada, o que contribui para uma leitura prazerosa e, do ponto de vista técnico literário, para uma obra muito bem executada.

Adam Henry é um garoto de 17 anos, portador de leucemia. Não haveria nada de excepcional até aí, não fosse o fato de sua família ser seguidora da religião dos testemunhas de Jeová, que recusam transfusões de sangue como tratamento médico. Diante disso, caberá à protagonista Fiona Maye, brilhante juíza do Tribunal Superior especialista em Direito de Família, o destino do rapaz.

Fiona é uma personagem bastante interessante: forte por fora, porém desabando emocionalmente por dentro em razão de seu fracassado casamento. Trata-se de uma mulher sem filhos e totalmente envolvida por seu trabalho. Em consequência disso, é fácil pensar que Adam Henry será um assunto e tanto para distraí-la de sua crise conjugal.

O livro é estruturado e contado de forma bastante inteligente e perspicaz. As cartas estão na mesa logo no início, e o leitor não é privado de nenhuma informação. Entretanto, há um sentimento de mistério (não sei se essa seria a melhor palavra para definir essa experiência) que perpassa a leitura, no que diz respeito à ansiedade por saber o que Fiona decidirá a respeito de Adam, o encantador rapaz que conquista todos à sua volta, das enfermeiras até mesmo à juíza.

Neste romance ambientado predominantemente em tribunais e entre advogados, promotores e juízes, mesmo depois da decisão de Fiona a respeito do caso Adam, fica a interrogação do leitor a respeito de como se estabelecerão as relações entre os protagonistas a partir daquele ponto. Não é nada óbvio o que vai acontecer uma vez dada a sentença, e isso torna a leitura bastante interessante.

É um livro aparentemente simples e bem sóbrio; contudo, McEwan consegue conduzir os acontecimentos de forma não apenas dinâmica (a leitura flui), como também de certa maneira insinuante. Há o perigo de uma atração não compreendida entre ambos, o que poderia comprometer sobremaneira a posição de Fiona, e também a expectativa de verificar quão forte uma mulher pode ser para enfrentar o julgamento da sociedade. Seria Fiona definida pela sobrevivência ou não de seu casamento? Paralelamente, sua relação com os colegas também constituem episódios interessantes no decorrer da história.

Li uma anedota maravilhosa no novo livro de Stephen Sedley. Bem ao seu estilo. É de um julgamento em Massachussetts. Um advogado insistente demais pergunta a um patologista se ele está mesmo convencido de que certo paciente estava morto antes de ser iniciada a autópsia. O patologista diz que estava mesmo certo. Ah, mas como o senhor pode estar tão certo? Porque, responde o patologista, o cérebro dele se encontrava num recipiente em cima da minha mesa. Mas, retoma o advogado, o paciente ainda poderia estar vivo apesar disso? Bom, foi a resposta, é possível que ele estivesse vivo e atuando como advogado em algum lugar.” (pág. 54)

Trata-se de um livro que instiga o leitor com diversas perguntas. Durante a experiência da leitura, nós nos vemos na contingência de também decidir e julgar o destino não apenas de Adam como também o de Fiona. O autor é muito hábil em pôr cheque também as nossas convicções a respeito do que é certo e errado, culminando com um fim interessante porque mantém forte conexão com a realidade e, ao mesmo tempo, funcional para a estrutura do livro. Digamos que Ian McEwan sabe a hora de insinuar a polêmica, mas também conhece a hora certa de restabelecer os termos do socialmente aceito.

A balada de Adam Henry
Ian McEwan
Companhia das Letras
2014 – 1ª edição
196 páginas

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