Poirot por Sophie Hannah | Caixão fechado

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Sinceramente, eu não esperava que os herdeiros de Agatha Christie encomendassem a Sophie Hannah uma segunda aventura com Poirot. Obviamente, fui ingênua. O ineditismo de Os crimes do monograma (já comentado aqui), serviu de estímulo para uma segunda empreitada envolvendo o maior detetive de Agatha Christie. Mesmo bastante surpresa com a notícia, fui atrás do livro.

A leitura de Caixão fechado foi mais positiva do que a d’Os crimes do monograma. Provavelmente, tive essa impressão pelo fato de, dessa vez, Sophie ter arquitetado uma trama mais plausível. Frágil, porém mais plausível do que o enredo de sua primeira aventura com Poirot.

Desta vez, a milionária Athelinda Playford convida algumas pessoas para um fim de semana em sua propriedade, entre eles, Poirot e Catchpool. Logo de início, já são dadas as pistas de que os investigadores estão entre os convidados com o objetivo de impedir um assassinato. Entretanto, o crime acontece e, a partir daí, desenrola-se uma trama que, a princípio, apresenta diálogos excêntricos e personagens afetados. Isso é levemente atenuado no decorrer do livro, mas não o suficiente para esconder as falhas da trama – aliás, as características exageradas da maioria dos personagens apenas ressaltam os problemas do enredo.

Eu gostaria muito de saber como são as reuniões que a autora tem com os herdeiros de Agatha para tratar sobre o livro. Porque alguns questionamentos são tão básicos, que me recuso a acreditar que eles não tenham sido feitos. Por exemplo: porque Sophie insiste em usar Edward Catchpool – o personagem criado por ela para trabalhar em parceria com Poirot – como uma espécie de “muleta”, uma forma mais fácil de contar a história? Confesso que isso me incomoda, especialmente pelo fato de que, como personagem, Catchpool tem vários problemas de coerência – afinal, como o leitor pode aceitar que um inspetor da Scotland Yard precise receber lições básicas de Hercule Poirot sobre como conduzir uma investigação?

… Antes gostaria de perguntar o que você está fazendo, Catchpool. O que fez desde que deixei Lillioak?

Eu. Bem… Não muita coisa, de fato. Na verdade, tirei uma soneca maravilhosa esta tarde depois do almoço. Foi muito reparadora. Afora isso… tentei me manter arredio. Isto aqui não é muito alegre sem você para animar o lugar. Quando volta?

Eu sabia! Pare imediatamente de se manter arredio! Faça o contrário. Encontre ocasiões para iniciar conversas com as pessoas, inclusive com os criados. Fale, ouça e preste atenção ao que lhe é dito, cada palavra. Quanto mais as pessoas falam, mais revelam. Você não pode desperdiçar a oportunidade, Catchpool. Quanto a mim, não desperdiço um momento. Tenho falado e escutado. (pp. 192-193)

O enredo de Caixão fechado parece-me mais interessante do que o de Os crimes do monograma. Ocorre apenas que ele se mantém tão frágil quanto seu predecessor. Sophie Hannah constrói uma trama que só pode ser desenvolvida a partir de pequenas atitudes completamente inaceitáveis para um assassino tão sofisticado – neste ponto, há problemas graves de coerência. Não quero dar spoilers aqui, mas confesso que não sei como os herdeiros da Dama do Crime entenderam a história.

É muito claro que a autora conhece a obra de Agatha Christie muito bem, no que se refere à trajetória de Poirot – há, inclusive, a referência discreta sobre Os quatro grandes no decorrer de Caixão fechado, mas tive a forte impressão de que a relação Poirot-Catchpool seria a relação Agatha Christie-Sophie Hannah, caso ambas tivessem sido contemporâneas.

Com Os crimes do monograma, Sophie recebeu várias críticas negativas. Muitos leitores reclamaram do excesso de detalhes do enredo e da execução mirabolante dos crimes. Em Caixão fechado, também tive a impressão de que a autora se aproveitou de um diálogo entre Lady Playford (que, na história, também é uma escritora de livros policiais) e Poirot para dar uma resposta aos seus leitores:

… Essa é, aliás a principal crítica dirigida a meus livros de Shrimp: que eles são por vezes complicados demais. Asneira e absurdo! Isto é, se minhas tramas fossem mais simples, as pessoas adivinhariam, não é? E você não pode deixar que as pessoas adivinhem. Escrevo para aqueles capazes de se elevar à altura de um desafio intelectual.” (p. 210)

Caixão fechado
Sophie Hannah
Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges
Editora Nova Fronteira
267 páginas

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