Série Vaga-lume | Deus me livre!

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– É a chamada especulação imobiliária, disfarçada em explosão demográfica. Com a desculpa de que não há moradias para todos, os poderosos ditam a regra, engaiolando o povo em apertamentos, em vez de apartamentos – Eduardo continuou.

 – É a crise. Fé nela e pau na gente… – desabafei.” (pág. 89)

Esse diálogo, tão atual, foi escrito em 1984, quando o Brasil, ainda sob o governo do General Figueiredo – o último dos militares a governar o País –, sofria para lidar com uma inflação totalmente descontrolada, que arroxava os salários da população e comprometia ferozmente a qualidade de vida de seu povo. É incrível como, lido isoladamente, esses fatores: explosão demográfica, especulação e moradia – ainda se mostram como problemas sociais no Brasil de hoje.

Esse é o mote central da trama de Deus me livre!, ótima história de Luiz Puntel para a Série Vaga-Lume. O livro conta a história de Tinho, injustiçado por causa de uma atitude impensada e que vai precisar de toda a fé em Deus e nas pessoas dispostas a ajudá-lo para provar a sua inocência e retomar a sua vida.

Como praticamente todo enredo da Vaga-Lume, a leitura é ágil, repleta de elementos muito ricos para o universo infantojuvenil, com direito até mesmo à função metalinguística, quando o protagonista, aparece na biblioteca lendo O mistério dos cinco estrelas, outro famoso título da Série Vaga-Lume de autoria de Marcos Rey (e já comentado aqui).

Além da atualidade dos problemas tratados em Deus me livre!, como a posse da terra, a crise da moradia e as desigualdades sociais, também chamam a atenção a trama bem amarrada criada por Luiz Puntel, que envolve elementos bíblicos e da mitologia egípcia, tudo “temperado” com uma linguagem muito clara e bem desenvolvida, com pitadas de inocência típica da juventude brasileira da década de 1980.

Trata-se de uma leitura mais do que recomendada, repleta de temas transversais para desenvolvimento em sala de aula ainda nos dias de hoje. Assim como outros livros infantojuvenis que venho resenhando neste espaço do blog, Deus me livre! Não foge à regra e dilui, no decorrer de sua leitura, diversas informações que tornam sua experiência literária muito bem aproveitada. Um exemplo disso é quando um dos personagens dá explicações sobre uma das históricas pirâmides do Egito:

– Imagino o porquê do seu espanto, menina. Você está diante da foto da Grande Pirâmide, um monumento de mais 130 metros de altura… – e o doutor Mustarela apontou o pôster.

– Tudo isso, doutor?! – exclamou Graziela, sabendo que demonstrar interesse é a melhor psicologia para ganhar a simpatia de alguém.

– Exatamente. É o mesmo que um prédio de quarenta e quatro andares, meninas. São dois milhões e trezentos mil metros cúbicos de blocos de pedra, simetricamente colocados uns sobre os outros. A base da Grande Pirâmide é equivalente a dois campos de futebol e, se o volume dela fosse de pedra britada, daria para fazer uma estrada de cinco metros e meio de largura, trinta centímetros de espessura, indo de Roraima a Porto Alegre.” (pág. 78)

Quando foi lançado, em 1984, Deus me livre! recebeu o prêmio da Biblioteca Internacional para a Juventude, de Munique, na Alemanha, que, anualmente, seleciona as publicações mais importantes de cada país, conforme informações na folha de rosto deste volume da Série Vaga-Lume. Precisa dizer mais?

Deus me livre!
Luiz Puntel
Editora Ática
1984 – 96 páginas

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