Livro & Filme | O Falcão Maltês

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Considerada uma das obras-primas do universo da literatura policial, O Falcão Maltês é, certamente, uma das principais referências do gênero em termos mundiais. O livro escrito por Dashiell Hammett em 1929 traz consigo toda a verossimilhança proporcionada pela experiência do autor, que trabalhou oito anos como policial e serviu nas duas guerras mundiais.

Seu protagonista, Sam Spade, é um dos ícones entre os detetives da ficção literária. Seu perfil poderoso impressiona seus clientes e também seus inimigos. O autor o descreve quase como um semideus, com olhos diabólicos, físico privilegiado, galanteador e dono de uma personalidade marcante.

Achei bastante interessante o universo noir que Hammett consegue imprimir à sua história. Mais do que a trama em si, a leitura de O Falcão Maltês é válida pela rotina da década de 1930, homens e mulheres com chapéus, casacos, comprando jornais para se manterem informados e fazendo ligações de saguões de hotéis para incrementar a trama. O charme da época valoriza também os diálogos, em um tempo no qual a tecnologia ficava a cargo de telefones no máximo. Nesse cenário, Sam Spade é um detetive com direito a escritório, secretária e advogado para livrá-lo de eventuais encrencas. E o autor capricha na elaborada rede de intrigas que ronda a perseguição à relíquia do Falcão de Malta, herança histórica omitida nos livros de História.

– Lá vem ela de novo! – disse o detetive, com resignação jocosa.

– Mas você sabe que é verdade – insistiu a moça.

– Não, eu não sei de nada. – Ele bateu de leve na mão que mexia no botão do seu paletó. – O que nos trouxe aqui foi a minha busca de motivos para eu confiar em você. Não vamos confundir as coisas. Você não precisa confiar em mim, no final das contas, contanto que consiga me persuadir a confiar em você.” (pág. 88)

Durante a perseguição ao rico artefato, Dashiell Hammett estrutura uma narrativa eletrizante para contar o jogo de influências, disputa de confiança, dinheiro e reputações. A leitura é fluida, dividida em capítulos não muito extensos e povoada por personagens misteriosos. Sam Spade é hábil em pisar em territórios desconhecidos, enquanto identifica possíveis aliados e inimigos. Para tanto, se vale de um discurso confiante, muitas vezes na base do blefe, para conseguir as respostas que precisa:

– Bem, senhor, existem outros meios de persuasão além de matar e ameaçar matar.

– Claro – concordou Spade –, mas eles não adiantam grande coisa se por trás de tudo não estiver a ameaça de morte para manter a vítima sob o seu poder. Entende o que digo? Se você tentar qualquer coisa que não me agrade, não vou colaborar. Vou criar uma situação em que você vai ter de desistir ou então vai ter de me matar, ciente de que não pode se dar ao luxo de me matar.” (pág. 246)

No decorrer da minha experiência de leitura de O Falcão Maltês, consultei vários rankings de melhores livros e filmes. Em vários deles figurava a obra de Dashiell Hammett e a produção dirigida por John Huston. Sam Spade consagrou-se não apenas nas páginas da literatura, como também nas telas de cinema.

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Minha surpresa ao ver o filme foi constatar o altíssimo grau de fidelidade em relação ao livro. Praticamente nenhum evento foi cortado na versão cinematográfica. Huston estruturou cenas e diálogos com exata semelhança à trama de Hammett. Sua versão, a terceira para o cinema (outras duas foram feitas em 1930 e em 1936 e não foram muito fiéis ao texto original), é considerada pela crítica a adaptação definitiva do texto literário de O Falcão Maltês. O fluxo do roteiro é tão fluido quanto os capítulos do livro.

O que me deixou um pouco perdida foi Humphrey Bogart como Sam Spade e Mary Astor como Brigid O’Shaughnessy. Apesar de muito bem interpretados, o perfil físico dos personagens no livro em nada combina com o dos atores escalados para os papéis, o que tornou ainda mais difícil a missão de Bogart e de Astor, os quais tiveram de caprichar na atmosfera sentimental e na construção da personalidade em suas atuações para superar esse obstáculo.

A estreia do filme foi em 3 de outubro de 1941, com êxito de público e de crítica. Os estúdios da Warner, produtora do filme, tentaram aproveitar a onda do sucesso cinematográfico da obra de Hammett e chegaram a oferecer 5 mil dólares para que o autor escrevesse uma continuação. Entretanto, o criador de O Falcão Maltês queria uma oferta mais alta, e a falta de entendimento entre ambas as partes frustrou o projeto.

O filme merece todo o mérito, por ter conseguido valorizar ainda mais a reputação da obra de Dashiell Hammett. Seu ritmo é tão eletrizante quanto o do livro, o corte das cenas é dinâmico, e a edição muitas vezes consegue ser tão sugestiva quanto à do texto do livro. Tive essa impressão muito provavelmente por causa do tanto de acontecimentos que o filme consegue trazer com tão pouco tempo de duração, preservando ao máximo o enredo original. Um clássico caso de uma transposição bem-sucedida para as telas do cinema!

O Falcão Maltês (livro)
Dashiell Hammett
Companhia das Letras
2001 – 293 páginas

O Falcão Maltês (filme)
Direção: John Huston
Roteiro: John Huston, baseado no romance de Dashiell Hammett
Ano: 1941
País: Estados Unidos
Gênero: Policial/Suspense/Filme Noir
Duração: 100 minutos
Elenco: Humphrey Bogart (Sam Spade); Mary Astor (Brigid O’Shaughnessy); Peter Lorre (Joel Cairo); Gladys George (Ivã Archer); Barton MacLane (Tenente Dundy); Lee Patrick (Effie Perine); Sydney Greenstreet (Kasper Gutman); Ward Bond (Detetive Tom Polhaus); Jerome Cowan (Miles Archer)

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