Discworld | O fabuloso Maurício e seus roedores letrados (2001)

fabulosomauricio

Prosopopeia, personificação. Um Apólogo, Machado de Assis. O conto d’O Flautista de Hamelin, Irmãos Grimm. Fábulas. Essas são apenas algumas das referências que me ocorreram durante a leitura de mais esse volume do Universo Discworld, criado por Terry Pratchett, uma das grandes mentes criativas do universo literário das últimas décadas.

Não faz muito tempo, eu meu deparei com a seguinte declaração do escritor Luiz Ruffato: “Um grande livro é aquele que você não consegue dizer sobre o que ele é”. Pois bem, isso se aplica perfeitamente a’O fabuloso Maurício e seus roedores letrados. Isso porque esse livro abrange tantos assuntos (a quantidade de referências que a leitura evoca já é um indício disso), e de forma tão inteligente, que torna até difícil tentar resumi-lo.

Vou me limitar a enumerar alguns aspectos que me chamaram a atenção durante a leitura. Terry Pratchett subverte e amplia a profundidade da linguagem da fábula, porque seu enredo não se trata apenas de um gato e de alguns ratos que se apropriam da fala humana e tentam tirar vantagem dessa característica. Há algo a mais, porque não apenas o gato, como também os ratos adquirem o dom da fala, do pensamento crítico, da inteligência peculiar dos humanos, e se dão conta de que seus pares – outros gatos e outros ratos – não apresentam tais capacidades. Diante disso, não se trata meramente da fábula tradicional, de uma mera aplicação da prosopopeia propriamente dita e de um pacto de leitura que encara como normal a diferença de um perante os demais, mas de mexer com as estruturas de uma forma literária consolidada para usá-la de maneira extremamente crítica. Há um gato que pensa e fala, enquanto todos os outros gatos são apenas gatos. Há um grupo de ratos que pensa e fala, enquanto todos os outros ratos são apenas ratos. Quais são as consequências dessa sensível diferença?

A partir disso, a genialidade do autor se vê livre para brincar com essa nova estrutura, apropriando-se e ressignificando, por exemplo, a lenda d’O Flautista de Hamelin e, de quebra, faz uma série de brilhantes críticas sociais. O volume de O fabuloso Maurício e seus roedores letrados é situado como uma lenda do Universo Discworld, mas está claro que essa história é uma espécie de “alegoria de luxo”, que se aplica, assim como tudo o que acontece no Discworld – por mais exuberante que possa ser – à nossa realidade, de uma maneira ou de outra. Seja pela megalomania das superpotências, seja pela batalha ainda em curso entre os gêneros, seja pela cada vez mais polêmica dominação das espécies animais não humanas pela espécie animal humana e assim por diante. A violência, o preconceito, a intolerância e a ganância são magistralmente criticadas por Pratchett em seu universo de ficção, e seus paralelos com a realidade são simplesmente inevitáveis.

– Não sei nada a respeito de espécies inteligentes. Aqui, estamos lidando com humanos – interrompeu Maurício. – Você já ouviu falar de guerras? São muito populares entre os humanos. Eles lutam com outros humanos. Não são muito bons em questões de laços comuns.” (pág. 233)

Eu não esperava tanta reflexão de um livro que, a começar pelo título, transpira irreverência e informalidade. Mas eu já devia ter me acostumado com o fato de que Terry Pratchett sempre surpreende. E surpreende positivamente, o que é melhor.

O fabuloso Maurício e seus roedores letrados
Terry Pratchett
Tradução de Ricardo Gouveia
Conrad Editora
247 páginas

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