Café literário | Se vivêssemos em um lugar normal

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Mais de dois anos depois de ter lido Festa no covil, volto à prosa criativa e muito bacana de Juan Pablo Villalobos. Seu primeiro livro foi uma grata surpresa para mim – grata mesmo! – e confesso que isso aumentou muito o peso da responsabilidade sobre esse segundo livro.

Como leitora, acho que falhei em vários momentos, pois, para mim, foi difícil me desprender da magia que Festa no covil ainda exerce sobre mim para enxergar de maneira mais independente as qualidades de Se vivêssemos em um lugar normal. Isso deixa muito claro em minha cabeça que esse livro merece uma releitura mais adiante. É preciso que eu consiga me desfazer das impressões do primeiro livro de Villalobos para encarar este segundo e isso foi algo que definitivamente eu não consegui fazer.

Muito provavelmente por causa dessa “sombra” provocada por uma estreia tão boa, eu não achei que este segundo livro “aconteceu” da forma esperada aos meus olhos de leitora. Mais uma vez, o texto é muito bom, mas há algumas passagens que me pareceram forçadas e não sei, mas penso que não consegui participar dessa fantasia tão necessária para entender essa trama. Novamente, vejo, aqui, como algo primordial investigar mais e escrever sobre a questão do pacto de leitura. Porque eu senti que não fui tão firme no pacto quanto seria preciso para achar este segundo livro de Juan Pablo Villalobos tão bom. Por outro lado, fica aqui o questionamento: será que ele é, de fato, tão bom?

É inegável que as ideias desse autor mexicano me agradam, a forma como é conduzido o desenvolvimento da história mescla uma sutileza e uma sensibilidade que tornam a sua prosa singular e isso é mantido nesta sua segunda incursão. O problema é que isso tudo já existia em Festa no covil (olhem eu aqui, fazendo novas comparações; no momento, não me sinto capaz de evitar isso) e o que há de diferente em Se vivêssemos… não me convenceu. Pareceu-me forçado na maior parte do tempo.

Sempre que leio uma história que precisa de um pacto de leitura firme para sustentar a sua fantasia, ou o seu realismo mágico, sinto que preciso ser levada pela própria história a me manter firme nesse processo, e não foi isso o que aconteceu durante essa leitura. Apesar do final maravilhoso, sugestivo, e das metáforas espetaculares que Villalobos consegue fazer quando discute a noção de casa, de identidade, e de tudo o que se refere à afirmação de um povo representado na figura de seu protagonista (o engajamento social sugerido pela história é excelente!), creio que as passagens que envolvem os seus irmãos (apesar de claramente eles representarem papéis que vão além de sua posição familiar) carregam uma dose de artificialidade que tiram um pouco do brilho do livro, chegando a me incomodar em alguns momentos.

Ainda assim, é Juan Pablo Villalobos e, ainda assim, é muito bom. Mas, a considerar o que já vi desse autor até o momento, meu nível de exigência em relação a ele é muito alto, o que talvez prejudique o meu entendimento em relação a sua obra. Como eu disse, uma releitura é necessária. Mais adiante e antes da leitura de seu terceiro livro, Te vendo um cachorro. Contudo, em definitivo, trata-se de um autor que me instiga e que me move no sentido de sempre achar necessário ler tudo o que ele produz. Villalobos é, em minha opinião, um dos maiores nomes da contemporaneidade nas Américas.

Se vivêssemos em um lugar normal
Juan Pablo Villalobos
Tradução de Andreia Moroni
Companhia das Letras
153 páginas

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