Tag Livros | A improvável jornada de Harold Fry

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Eu realmente queria ter escrito esta resenha assim que finalizei a leitura da saga de Harold Fry, mas a desorganização pessoal me impediu, infelizmente.

O fato interessante da experiência da leitura desse livro foi que comecei a lê-lo sem a menor expectativa, mas eu realmente gostei do Harold. Fiz amizade com ele e, à medida que as páginas eram ultrapassadas, eu me peguei discutindo comigo mesma (e com Harold também) o conceito de jornada, as dores do processo de autoconhecimento e também a importância de não virar as costas para as pessoas que de fato importam pra nós. É claro que, à primeira vista, isso é bastante piegas, mas todas essas coisas parecem fazer parte de ser humano, especificamente porque elas não se referem apenas a nós; a empreitada de Harold não dizia respeito somente a ele mesmo, mas também a uma série de outras pessoas direta ou indiretamente envolvidas nesse processo.

Ele entendeu que, ao caminhar para se redimir dos erros passados, estava também em uma jornada de aceitação das estranhezas alheias. Como transeunte, ele estava em um lugar onde tudo, não só a terra, era aberto. As pessoas se sentiam livres para falar, e ele se sentia livre para ouvir. E carregar um pouquinho deles junto ao seguir seu rumo. Ele negligenciara tantas coisas que devia este tantinho de generosidade a Queenie e ao passado.” (pág. 74)

O mérito do livro de Rachel Joyce não está apenas na narrativa (ela nos reserva algumas surpresas que de fato quebram as pernas do leitor), mas também na riqueza da construção de Harold Fry. Trata-se de um personagem extremamente interessante e coerente. Durante todo o livro, ele é fiel aos seus princípios (ainda que isso beire certa previsibilidade), chega a parecer um homem muito fraco, mas sua jornada revela-o bastante forte – forte o suficiente para atravessar uma porção de cidades país afora (muitas cidades mesmo) em uma caminhada para rever sua melhor amiga, Queenie Hennessy, depois de um hiato de 20 anos em sua amizade e logo após receber a notícia de que ela está enfrentando um câncer em estado terminal.

Todos esses fatores poderiam indicar uma leitura profundamente depressiva, mas o caso é que eu ri bastante com Harold durante a sua jornada. E chorei também – mas isso eu já imaginava que aconteceria antes mesmo de começar a leitura. E não pelo fato de Queenie estar com câncer, ou de que Harold já vivia uma vida vazia muito antes de receber notícias de sua amiga, mas principalmente porque Rachel é muito hábil na maneira de apresentar os fatos da história. Em termos práticos, ela guarda “trunfos na manga”. Durante a leitura, quando pensamos já ter o domínio sobre a dinâmica da história e que, dali em diante, tudo será previsível e fraco literariamente falando, Rachel põe uma nova carta na mesa capaz de mudar não apenas o curso da história, como também o pensamento do leitor em relação ao livro – isso acontece especialmente em relação ao filho único de Harold e de sua esposa Maureen.

Em relação à leitura que fiz, a ironia está no fato de que, na sequência da história de Harold Fry, eu li Sidarta, clássico de Hermann Hesse que também bate na tecla da jornada enquanto processo de autoconhecimento (não apenas do protagonista, mas também do leitor) e tudo mais. Curiosamente, creio que aprendi mais sobre esse assunto com Harold do que com Sidarta. Ainda assim, as duas leituras valem muito a pena e são altamente recomendáveis para quem deseja obter diferentes perspectivas sobre os efeitos da jornada na literatura.

A improvável jornada de Harold Fry
Rachel Joyce
Suma de Letras
2013
247 páginas

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