Maigret | O enforcado de Saint-Pholien

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Ah, agora sim. Simenon conseguiu ousar, mudar a dinâmica reinante até então. Nesta terceira aventura do comissário Jules Maigret, o ritmo é diferente, logo de início, o leitor se depara com um Maigret capaz de ousar, de “sair do riscado” e agir impulsivamente. Só essa transformação – o Maigret que vi nos dois primeiros livros me pareceu um cara bastante contido –, já me deu fôlego para encarar essa terceira incursão do comissário e também para esperar algo de diferente em relação ao ritmo truncado das investigações de Maigret. Como sempre digo, é um desafio ler Simenon. Não no sentido de grau de dificuldade da leitura, mas no sentido de seus enredos culminarem em situações para as quais as reações de Maigret me deixam bastante contrariada. Mesmo sendo grande fã do estilo policial, Maigret, para mim, significa sair da zona de conforto.

Desta vez, no entanto, o enredo me deixou mais satisfeita. Simenon consegue manter o grau de interesse ao longo de todo o livro e a trama é intrigante. Há menos pistas do que nos dois primeiros casos investigados por Maigret e – um ponto muito positivo – o título, desta vez, não funciona como um spoiler direto.

Há uma evolução em relação aos dois primeiros livros. Em O enforcado de Saint-Pholien, Maigret se depara com um caso que parece não despontar nunca, deixa-o frustrado, e o autor mostra isso de maneira muito eficiente. Ainda que essa falibilidade desafie duramente os princípios de Maigret (sua atitude impulsiva resulta em um suicídio põe em xeque a sua tática profissional), penso que é justamente essa dificuldade que enriquece a história. O comissário também precisa lidar com os seus demônios internos, e não apenas os criminosos, como seria pressuposto. Isso pode ser perfeitamente esperado tratando-se de um anti-herói, mas não no caso de um personagem correto como Maigret.

Fiquei muito mais otimista em relação ao que esperar dos livros de Maigret depois dessa leitura. Este terceiro caso chega mais longe do que seus antecessores, no que se refere ao inesperado. É menos previsível, portanto, mais interessante. E que venha O cachorro amarelo!

O enforcado de Saint-Pholien
Georges Simenon
Tradução de André Telles
Companhia das Letras
2014 – 135 páginas

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