Projeto Hitchcock | Festim Diabólico (1948)

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Desde que comecei a assistir aos filmes do mestre Alfred Hitchcock, eu ouço falar (sempre de forma positiva) em Festim Diabólico (Rope, no título original). Esta é, sem dúvida, uma das produções mais famosas e também mais celebradas de toda a filmografia de Hitchcock. Entretanto, preciso dizer que vejo muito mais méritos técnicos nessa produção do que um enredo envolvente, inteligente e bem amarrado – com o perdão do trocadilho, é claro.

A questão técnica

A direção muito bem-sucedida de Hitchcock, o desafio dos planos-sequência extensos, o praticamente completo desenvolvimento da trama em apenas um ambiente, tudo isso faz de Festim Diabólico uma obra-prima. Os recursos parecem ser bastante “reduzidos” – talvez “controlados” seja uma palavra mais adequada para esse contexto do filme, que repousa em uma ideia totalmente dependente de movimentos previamente estudados –, e o toque especial do filme é dado pelas excelentes atuações de James Stewart (professor Rupert Cadell), John Dall (Brandon Shaw) e Farley Granger (Phillip Morgan), que teria a sua melhor atuação sob a direção de Hitchcock no excelente Pacto Sinistro, já resenhado aqui.

As ligações externas

Apenas depois de assistir ao filme eu soube de todas as suas inspirações externas. A história real que serviu de ideia central ao filme, ocorrida em Chicago, em 1924 (saiba mais sobre isso clicando aqui) e o conceito teórico do homem superior desenvolvido por Nietzsche (um pouco sobre isso também pode ser lido aqui) definitivamente enriquecem Festim Diabólico como produto cultural. Além disso, essas referências justificam o ponto alto da produção: o forte caráter psicológico da trama, que enlaça o espectador e o angustia, na medida em que o joga em lados opostos, brincando com suas emoções – se, por um lado, torcemos para que o corpo de David, o colega morto pela dupla de protagonistas, não seja descoberto enquanto seu pai (Sr. Kentley) está na casa de um dos assassinos, por receio de que o velhinho não resista ao choque, por outro lado, a torcida é para que a perspicácia de Rupert Cadell desmascare os dois jovens mimados que querem brincar de deus.

O tempo todo, o espectador é o único a compartilhar de todos os segredos de todos os personagens em questão. Ele sabe de tudo, embora não possa alertar nenhum deles, daí a intensa sensação de angústia. A forma como Hitchcock consegue levar esse conteúdo para quem assiste ao filme é simplesmente brilhante. Desde o início, todas as cartas estão na mesa. Resta saber para aonde a conduta dos personagens é capaz de levar a história. E este é o segredo do filme.

Uma das cenas iniciais da produção (que é o primeiro filme em cores da filmografia de Hitchcock), o assassinato de David me pareceu executado de forma muito estranha. Em minha opinião, trata-se de uma cena que não convence, não tem um toque de realidade, por isso a minha incredulidade inicial em relação a Festim Diabólico. A história em si, pareceu-me excessivamente amparada em questões de ego e isso enfraqueceu o conceito do roteiro – porém, o caráter do improvável me fez cair da cadeira ao saber da história verídica. Hitchcock, como sempre, surpreendendo! Não entrou para a minha lista de favoritos, mas, sem dúvida, deve ser assistido.

Festim Diabólico
1948
Direção: Alfred Hitchcock Roteiro: Hume Cronyn / Arthur Laurents
77 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

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