Tag Livros | Desonra

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Quando abri a caixa que a Tag Experiências Literárias enviou aos seus assinantes no mês de fevereiro, eu soube que iria sofrer. Afinal, o que esperar de um livro chamado “Desonra” – que palavra forte! – e que, em sua sinopse, mencionava a realidade sul-africana pós-Apartheid? Pois bem.

E foi exatamente o que aconteceu. A prosa fluida e bem estruturada de Coetzee acabou comigo. David Lurie, seu protagonista, é controverso. Um professor de poesia que entra em uma espiral de eventos grotescos, impactantes, e que demora tanto tempo quanto eu, leitora, demorei para processar seus conflitos e pensar em como lidar com eles.

Esse livro oferece tantas possibilidades de análise, que me deixou com uma “ressaca literária” de alguns dias. Fiquei analisando vários pontos interessantes (e estou certa de que muitos deles me escaparam). Por exemplo, a primeira vez em que a palavra “desonra” é empregada no livro. Essa ocorrência se dá justamente quando Lurie se refere aos cachorros abandonados e sacrificados na clínica de Bev Shaw, uma grande amiga de sua filha Lucy – ambas residentes na localidade interiorana de Georgetown. Bev realiza “sacrifícios humanitários” em animais rejeitados e abandonados. Essa primeira ocorrência me parece bastante emblemática, uma vez que Coetzee é vegano, ou seja, não consome nenhum tipo de produto que envolva exploração animal. Diante disso, discutir não apenas o abandono, a morte, mas também o destino dos corpos dos animais depois de sacrificados e, pegando carona nessa questão, problematizar uma existência digna torna-se um processo complexo e, ao mesmo tempo, revelador.

Não bastasse a densidade da leitura, Coetzee afunda o dedo em todas as questões de gênero. Seja nos profundos conflitos de sua filha Lucy – homossexual que, durante a invasão de sua fazenda, é estuprada por três homens –, seja na derrocada que Lurie experimenta amargamente, ao ser afastado de seu cargo na Universidade do Cabo, por se envolver com uma aluna. Mesmo a estudante sendo maior de idade e mesmo a relação tendo sido consensual, a aluna é apresentada como a parte mais fraca, e o fato chega a ser enquadrado como crime de direitos humanos (tudo isso é muito sugestivo). O questionamento que fica diante dessa situação é: até que ponto esse patriarcalismo enraizado, já tão naturalizado, que o próprio David Lurie não enxerga e apenas começa a desconfiar de sua existência quando seus conflitos com sua filha começam a distanciá-los cada vez mais, deve ser encarado como cerne de todas as principais indagações que envolvem a decadência existencial do protagonista?

Durante a leitura, fica claro que Lurie ultrapassa o limiar que o separa de sua até então bem-sucedida identidade de homem, branco, professor universitário e desimpedido quando entra em cena a problematização de sua dignidade enquanto ser humano (atingida principalmente pelas transformações na vida de sua única filha – a sua “fraqueza”) – aí chegamos à desonra (no original em inglês, “disgrace”). A honra do protagonista foi terrivelmente afetada durante todo esse processo, e o sacrifício dos cachorros abandonados, bem como o destino de seus corpos, constitui uma metáfora para tocar profundamente essa questão que envolve honra, valores, dignidade e posição social de forma universal – não há como não estender os questionamentos para fora dos limites do livro. Nesse contexto, o que significa a existência de cada um de nós? Existir por existir? O que nos preenche, o faz de nós seres humanos?

E não se trata de perguntas de teor filosófico, muito pelo contrário. São os termos práticos que estão em jogo aqui. A posição social de cada um, com todos os bônus e ônus que ela encerra em si mesma.

Desonra é um livro que, mesmo depois de lido, continua a propor questões e a estimular muitas reflexões. É provocador, revoltante, e parece-me que o seu maior mérito é justamente esse: fazer com que a cabeça do leitor não seja mais a mesma depois de finalizada a sua leitura.

Desonra
J.M. Coetzee
Companhia das Letras
2000
246 páginas

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