Café Literário | Pelos olhos de Maisie (Henry James)

Existe uma categoria de livros a qual um mero resumo do enredo não é capaz de fazer jus à sua grandeza. Este me parece ser exatamente o caso de Pelos olhos de Maisie (1897), de Henry James. Dizer apenas que se trata de um livro cuja protagonista é uma garotinha de uns 7 anos que vivencia a separação e, posteriormente, o desgaste de todas as relações familiares, assistindo ao combate emocional entre pai e mãe, que a usam para atingir um ao outro, é fazer pouco desse livro.

A experiência de leitura oferecida pelo texto de Henry James é simplesmente notável. Maisie é uma personagem adorável, mas me incomodou o fato de o narrador interceder tanto, falando tanto por ela. O livro é muito mais estruturado com base no discurso indireto do que no direto, e isso, a meu ver, é um ponto que enfraquece a estrutura do enredo.

O narrador onisciente não me pareceu a melhor opção para esse livro, muito embora ele seja capaz de, em alguns momentos, exprimir com bastante clareza e de forma dramática os acontecimentos à volta da criança. Entretanto, ao mesmo tempo, ele atua como uma barreira que impede o leitor de chegar de fato até Maisie e de constatar o que, na verdade, ela sabia, como sugere o título original da obra: What Maisie knew. Narrar as ações da criança e descrever seus pensamentos é muito diferente de deixá-la falar por si só, por isso arrisco dizer que as melhores passagens do livro ocorrem quando a palavra está com Maisie.

Tradução brasileira

A despeito da tradução brasileira, feita por Paulo Henriques Britto, é preciso ressaltar, ao mesmo tempo, o excelente trabalho com o texto, mas a não tão boa tarefa de adaptação do título. Parece-me extremamente delicado nomeá-lo como Pelos olhos de Maisie, diante do fato de termos um narrador que chega a se contradizer durante o livro, oras descrevendo os pensamentos da menina, ora fazendo uso do discurso direto.

Ainda que muito bem escrito – o texto de James é caprichado, sofisticado e dá gosto de ler –, creio que o título brasileiro seria adequado, se a protagonista narrasse a história. Reconheço que isso poderia pôr a perder vários aspectos relativos aos personagens adultos que rodeiam Maisie, os quais os juízos do narrador contribuem para uma eficaz descrição do ponto de vista de um leitor adulto. Por outro lado, é preciso reconhecer que muito se perde na veracidade de Maisie, pelo fato de ela própria não relatar para o leitor os acontecimentos do livro. Na maior parte do tempo, fica-se à mercê da versão do narrador para os acontecimentos.

Construção e desconstrução

Aspectos estruturais à parte, o esmero de James na construção de figuras masculinas e femininas tão diferentes entre si é um ponto muito positivo para o livro. Aliás, o ponto alto de todo o enredo, em minha opinião, é a relação de Maisie com o seu padrasto, Sir Claude. A introdução e as resenhas que acompanham a edição da Penguin/Companhia descrevem-no como um homem fraco, algo com o que também discordo. Para analisar Sir Claude, acredito que seja preciso pensar se respeitar o limite da consanguinidade é um sinal de fraqueza. Será que a crítica o pontua como um personagem fraco por ele declarar abertamente ter medo de Ida (mãe de Maisie) e, posteriormente, da Sra. Beale (sua madrasta)? O fato é que Sir Claude parece fazer por Maisie muito mais do que sua condição e as circunstâncias de seu casamento com Ida tradicionalmente lhe permitiriam, e isso faz com que eu o enxergue como um homem bastante corajoso.

Contudo, é a desconstrução da figura materna que parece ser o ponto central do livro. Henry James simplesmente fraciona o papel de mãe entre Ida, a Sra. Beale (sua antiga governanta e posteriormente a mulher de seu pai) e a Sra. Wix, a governanta contratada por Ida para assumir o lugar deixado pela Sra. Beale, anteriormente chamada de Srta. Overmore.

A Sra. Wix é uma mulher velha, judiada pela vida, viúva, e que lamenta a perda de sua filhinha até se deparar com Maisie, pela qual lutará com unhas e dentes para manter “íntegra”, em meio ao caos de relações que se instala ao redor da menina, com os matrimônios posteriores de seus pais com Sir Claude e a Srta. Overmore, e a dissolução dessas relações, com sua mãe e seu pai adquirindo novos parceiros, e Sir Claude e a Sra. Beale tornando-se amantes.

A batalha de Maisie x a batalha por Maisie

Este é o contexto que põe em xeque a figura maternal na vida de Maisie. Para a menina, a presença de Sir Claude parece sobrepor a importância de qualquer mãe em seu cotidiano. A relação franca, afetuosa e cúmplice que a protagonista passa a desenvolver com o padrasto atinge seu ápice justamente quando ele a leva para a França, disposto a organizar a sua vida para assumir a criação da menina. No entanto, o embate paralelo entre Ida, a Sra. Beale e a Sra. Wix confere o clímax ao enredo. É quando o leitor começa a entender que Sir Claude não será capaz de suprir todas as carências afetivas de Maisie e que, portanto, é o duelo entre as mulheres que definirá a felicidade da criança. Como seu aliado, a menina tem Sir Claude, que, mesmo confuso entre a grande responsabilidade de criá-la e seus sentimentos pela Sra. Beale, ainda apresenta lucidez suficiente para lutar pelo que é melhor para Maisie.

Esse ponto da leitura ressalta o egoísmo dos adultos e a fragilidade da menina, que se vê o tempo todo massacrada por todos e, ainda assim, consegue mostrar-se incrivelmente equilibrada. É cruel a maneira como Maisie simplesmente não é poupada pelo orgulho de Ida; a indiferença do Sr. Farrange, seu pai; os dilemas de Sir Claude; os caprichos da Sra. Beale; e a opressão da Sra. Wix.

Li algumas críticas que classificam Pelos olhos de Maisie como maçante. De fato, trata-se de um texto extenso, mas, ao deixar-se envolver pelos encantos da menina, o leitor não apenas passa a torcer desesperadamente por sua felicidade, como também mergulha na leitura de forma que a consciência literária de James o conduz ao fim antes mesmo que ele perceba.

Pelos olhos de Maisie
1897
Henry James Tradução de Paulo Henriques Britto
Penguin/Companhia

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