Leitura | Pigmaleão

Pigmaleão faz parte de uma lenda grega de um homem que, na tentativa de esculpir a estátua da mulher ideal, acabou se apaixonando por sua criação. Eu não conhecia essa lenda e só o fato de ter contato com ela – o título da obra de Shaw é uma clara referência ao episódio da cultura grega – já me valeu a leitura dessa peça.

Ler Pigmaleão de Shaw foi uma experiência no mínimo curiosa. A primeira metade do livro foi uma leitura sem nenhum atrativo – enfadonha, até. Elisa Doolittle é uma florista sem modos e inculta, que acaba por se tornar uma “experiência nas mãos de Higgins, um eminente filólogo, e Pickering, um coronel aposentado que se interessa pelo desafio de transformar Elisa em uma princesa.

Esta primeira parte metade do livro é um pouco chata, por transcrever ao pé da letra a fala afetada e incorreta dos personagens da periferia – um trabalho e tanto também para o tradutor brasileiro da obra, ninguém mais, ninguém menos, do que Millôr Fernandes.

Entretanto, a reviravolta se dá na segunda metade do livro, quando Elisa começa a se comportar como uma moça da alta sociedade, falando corretamente e portando-se de forma irrepreensível. A leitura torna-se muito fluida, porque já não é tão afetada pelas falas incorretas dos personagens, o que a torna mais agradável.

Já neste ponto, não é o fato de Elisa ter “ascendido” culturalmentea questão – ela sempre se mostrou uma moça inteligente e que aprende rápido –, mas a transformação de sua relação com Higgins e Pickering (principalmente com o primeiro) o fato interessante a ser analisado.

Com a “evolução” de Elisa, o leitor é previsivelmente conduzido a pensar e até a esperar que ela e Higgins formem um casal – afinal, a devoção dele à tarefa de torná-la uma dama e a dela em ajudá-lo neste processo parece inevitavelmente a encaminhar a história para isso. No entanto, Shaw é brilhante por subverter essa expectativa. No fim da peça, há um ótimo ensaio do autor, no qual ele explica o desfecho dos principais personagens da história e como a lógica de cada um deles os levou a tal fim.

Não gosto de dar spoilers em resenhas, embora eu infelizmente já tenha incorrido nisso neste texto, mas posso dizer categoricamente que Pigmaleão vale pela sólida e elaborada construção de personagens, como Higgins, “um estranho enigma”, nas palavras do próprio autor, e pelo Sr. Doolittle, pai de Elisa, um brilhante homem da periferia que Shaw utiliza com maestria para fazer uma eficiente crítica social. Enfim, a peça é um primor, não à toa tida como a obra-prima da carreira literária de Bernard Shaw.

Pigmaleão
George Bernard Shaw
Tradução de Millôr Fernandes
L&PM Pocket
173 páginas

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Um comentário sobre “Leitura | Pigmaleão

  1. Eu só conheci esse livro por conta do Chapollin, tenho muita curiosidade de ler. Mas nunca encontrei, vou colocar na minha lista de livros de 2015

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