Leitura | O túnel (Ernesto Sábato)

A leitura deste livro foi rápida, intensa e densa. Narrado pelo próprio protagonista, trata-se de um enredo frenético, que, apesar de já começar com um anticlímax, pode-se dizer, pois logo de cara temos o protagonista confessando um assassinato, ainda assim, prende o leitor do início ao fim.

O grande lance deste livro não é apenas a admissão, por parte do narrador-protagonista, do assassinato de seu grande amor (cada um tem sua concepção sobre o amor, não?), mas de tentar entender como isso aconteceu. O porquê já vai se desenhando aos poucos, pois é possível perceber rapidamente que se trata de um homem obsessivo e tomado pela loucura.

Juan Pablo Castels – o protagonista – é um reconhecido e talentoso pintor que se vê imediatamente envolvido pela atmosfera de mistério que ronda a bela María Iribarne, uma mulher casada e de pensamento muito liberal, com a qual desenvolve uma relação no mínimo doentia.

Diante disso, já fica fácil presumir que Castels assassine María – isso seria inevitável. A pergunta que me perseguiu durante toda a leitura foi: como é que María, sabendo que isso poderia acontecer a qualquer instante, permitiu-se relacionar com seu potencial assassino? E aí entra uma variável que eu, até então, não havia considerado: ela não apenas esperava por esse fim, como talvez o desejasse. Digo talvez porque, como todo bom livro, este escrito de Sábato deixa ótimas questões no ar, todas elas combustíveis para muitas horas de discussão.

María vive confortavelmente com seu marido e tem acesso a uma vida boa em termos materiais. Entretanto, parece que lhe falta algo que sobra em Castels, embora eu ainda não saiba do que se trate. Uma busca incessante pela felicidade, talvez? Ainda que Castels demonstre claramente uma visão doentia de seu estado de felicidade, os seus esforços por ela – ainda que movidos por seu espírito obsessivo – são muito mais intensos do que os de María.

A linguagem metafórica, presente no título do livro, inclusive, é uma constante na narrativa e é muito eficiente a maneira pela qual o autor passa isso para o leitor. As imagens se sobrepõem, parecem um caleidoscópio girando rapidamente, daí a sensação de frenesi que me marcou muito durante a leitura.

O túnel
1948
Ernesto Sábato Tradução Sérgio Molina
Coleção Folha Literatura Ibero-Americana – Vol. 5 MEDIAfashion / Folha de S.Paulo

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