Projeto Hitchcock | O Homem que Sabia Demais (1956)

Eu resolvi esperar um pouco para escrever esta resenha, pelo fato de que assistir a esse filme provocou alguns sentimentos contraditórios em mim. Por exemplo: como uma trama tão bem dirigida pode apresentar tantos fatos improváveis no roteiro? De início, já posso dizer que as várias falhas no enredo tiram o brilho de O Homem que Sabia Demais.

Talvez o que mais tenha me decepcionado seja o fato de eu ter gostado tanto do casal protagonista, em contraponto a um mau aproveitamento de ambos, em decorrência de personagens pouco consistentes.

A produção de 1956 de O Homem que Sabia Demais é, na verdade, uma versão do original dirigido por Hitchcock em 1934. Eu não vi a primeira, logo, tenho apenas a segunda como parâmetro.

O caso é que, desde o início deste projeto, este foi um dos filmes sobre os quais eu ouvi mais coisas positivas. E confesso que isso acabou por aumentar o meu nível de exigência. O filme conta com alguns diferenciais, de fato, como a sequência no Albert Hall, já no fim do filme, em que o encadeamento de cenas consegue perfeitamente passar a angústia que Jo McKenna (a ótima Doris Day) está sentindo, mas, na “conta geral”, não me parece suficiente para superar a decepção.

O enredo do filme gira em torno da família composta pelo médico Ben McKenna (James Stewart), sua esposa Jo, uma cantora temporariamente afastada dos palcos para se dedicar à família, e seu filho, um garoto de uns 8 anos, em viagem pelo Marrocos. A estada da família, de apenas 3 dias, torna-se um pesadelo quando, em um mercado marroquino, eles presenciam o assassinato de um homem conhecido no dia anterior, na chegada da família. Na ocasião da morte, o homem misterioso confia a Ben um segredo tão valioso, que acarreta o sequestro do filho do casal, em troca das informações obtidas pelo médico (mais uma vez, aquela coisa toda de intrigas internacionais, assassinatos políticos e coisa e tal).

Contando dessa forma, o mote de O Homem que Sabia Demais parece bastante intrigante e promissor. E é. O problema, por exemplo, é a súbita transformação da personalidade esperta, desconfiada e ágil de Jo, que, após, o sequestro do filho, torna-se lenta, chorona e pouco astuta. Mesmo abalada pelo sumiço da criança, é de se notar a uma mudança tão drástica.

Em vez de se empenhar para auxiliar o marido, Jo acaba por se tornar um peso durante o processo, contribuindo muito menos do que poderia nesse processo. Vale ressaltar que, no início do filme, é Jo quem tudo observa, desconfia das pessoas misteriosas do Marrocos e faz comentários bastante inteligentes. Seu marido é confiado, pouco atento e sociável. A partir do momento em que a criança é sequestrada, as características básicas de Jo são subvertidas, o que contribui para tornar a construção de seu personagem fraca. Esta é uma das falhas que mais incomodam no roteiro de O Homem que Sabia Demais.

Outro ponto, não menos importante, que enfraquece o filme é grande quantidade de vezes que os sequestradores da criança McKenna têm a chance de matá-la e não o fazem por motivos muito pouco plausíveis. Isso faz com que, a partir de um determinado momento, o espectador já saiba que tudo vai acabar bem – desculpem o spoiler –, já que poderia ter dado errado há bastante tempo e isso não aconteceu.

Para compensar as falhas do roteiro, Hitchcock capricha em sequências memoráveis e também com a trilha sonora original da canção vencedora do Oscar e interpretada por Doris Day, Que sera, sera (Whatever Will be, Will be). Para mim, foi uma grande surpresa ver Doris Day estrelando um filme de Hitchcock – mesmo com todos os problemas desta produção cinematográfica –, pois eu cresci assistindo aos divertidos musicais dessa atriz. E um dos méritos do diretor inglês foi o de saber extrair, do talento de Doris, uma interpretação muito boa, ainda que seu personagem apresente uma série de inconsistências.

O Homem que Sabia Demais
1956
Roteiro: John Michael Hayes, baseado no livro de Charles Bennett e D.B. Wyndham-Lewis
Elenco: James Stewart (Ben McKenna); Doris Day (Jo McKenna); Daniel Gélin (Louis); Bernard Miles (Sr. Drayton), Brenda De Banzie (Sra. Drayton)
120 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

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2 comentários sobre “Projeto Hitchcock | O Homem que Sabia Demais (1956)

  1. James Stewart grande ator…gosto muito do trabalho dele, mas esse filme eu não vi. Vou colocar na lista, uma pena que o canal a cabo TCM não é mais o mesmo

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