Breves comentários – Agatha Christie: Hora Zero

Um livro brilhante. Notei, neste enredo, talvez até mais do que em outros que já li, um cuidado especial de Agatha Christie na montagem do “cenário psicológico” que envolve o crime – cuidadosamente premeditado. Há uma riqueza de detalhes simplesmente impressionante. Em alguns momentos, talvez até mesmo pelo fato de não contar com Hercule Poirot e Miss Marple – fica a cargo do competente e também já conhecido, porém não tão prestigiado, Superintendente Battle a missão de desvendar o elaborado caso –, lembrou-me a leitura do ótimo Punição para a Inocência, já comentado aqui.

Contudo, os estereótipos que aparecem “inofensivamente” no decorrer da história não deixam de espantar o leitor:

O senhor não tem ideia de como são terríveis, na maioria, as damas de companhia. Criaturas enfadonhas e fúteis. Chego a me exasperar com a inatividade delas. São damas de companhia só porque não servem para outra coisa melhor. É maravilhoso poder ter Mary, uma mulher inteligente e culta. Possui realmente um cérebro de primeira classe: um cérebro de homem. Ela leu muito aprofundadamente, hão havendo o que não possa discutir. É esperta tanto no ponto de vista doméstico, como no intelectual.” (p. 70)

A meu ver, o maior mérito de Hora Zero é a não banalização morte e a valorização da dimensão psicológica. Já perto da página 100 é que ocorre um assassinato, de uma sutileza notável, uma peça importante no quebra-cabeça que vai compor um quadro muito maior. Uma lição de pesquisa a respeito da mente humana.

– Você sempre esteve apaixonado por Kay?
– Sim, sempre.
– E ela?
– Pensei que sim. Até o dia em que Nevile apareceu.
– E você ainda está apaixonado por ela? – perguntou com delicadeza.
– Acho que isto está evidente, não está?
– Não seria melhor para você ir embora daqui? – perguntou ela amável.
– Por que seria?
– Porque você está se expondo a maiores tristezas.
Ele a olhou e riu.
– Você é uma boa pessoa, mas pouco sabe a respeito dos animais que podem rondar seu pequeno mundo fechado. Num futuro bem próximo, muitas coisas podem acontecer.” (p. 84)

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