Breves comentários – Agatha Christie: O cavalo amarelo

 

– E a morte?

– A morte? – repetiu Thyrza com um risinho perturbador. – O senhor se interessa pela morte?

– Como todo o mundo. – respondi.

– Será mesmo? – perguntou, sorrindo com um olhar perscrutador que me surpreendeu. – Sempre houve mais intercâmbio com a morte do que com o amor. Antigamente, porém, faziam tanta encenação. Veja os Borgias e os venenos secretos. Sabe o que eles usavam? Arsênico comum, como qualquer mulher que deseja se ver livre do marido. Hoje em dia, porém, já estamos mais adiantados. A ciência expandiu nossas fronteiras.

– Venenos que não deixam vestígios? – perguntei num tom cético.

– Venenos! Bah! Isto é para amadores. Vieux jeu, mona mi. Existem novos caminhos.” (p. 68)

Este é, sem dúvida, um dos melhores livros que já li da Dama do Crime. E não é apenas pela “aura” misteriosa que existe em torno de O Cavalo Amarelo – no início da década de 1970, este livro teria auxiliado um médico a fornecer pistas corretas para a polícia capturar um assassino serial na Inglaterra –, mas pela engenhosidade da autora. É fascinante como Agatha Christie, ao longo de todo o livro, vai oferecendo todas as pistas que o leitor poderia precisar para desvendar a trama, mas, habilmente, conduz o olhar de quem lê para pontos totalmente diferentes, levando à elaboração de teorias totalmente distintas. Ou seja, sabe-se de tudo o tempo todo, apenas não se enxerga a solução.

Há muitas curiosidades em torno deste livro, cuja leitura é algo arrebatadora (eu, que sou uma leitora vagarosa, devorei a história em pouquíssimo tempo). Uma delas é o fato de Agatha não precisar lançar mão de Poirot, Miss Marple, ou Tommy e Tuppence Beresford para ter uma figura forte nas investigações. Neste livro, o enredo é tão bem elaborado, que não é preciso um grande detetive; a trama, por si só, já segura o leitor e pede um protagonista tímido, preocupado e desconfiado como o pesquisador Mark Easterbrook. Bem, para não dizer que a aventura deste livro se passa totalmente fora do “Universo Agatha Christie”, a intrépida escritora Ariadne Oliver faz uma “ponta” e dá uma dica-chave para ajudar Mark a desvendar o mistério.

Finalmente, não se pode esquecer que todo o ceticismo de Dame Agatha é posto à prova, numa trama com os dois pés no ocultismo, no inconsciente, na religião e na sugestão hipnótica.

– Estou começando a compreender – disse eu vagarosamente.

– Para destruir a vítima precisa-se exercer um certo poder sobre o ‘eu’ inconsciente. Deve-se estimular o desejo de morte. Percebe agora? – perguntou ela entusiasmada. – Uma doença verdadeira poderá ser induzida, causada pelo próprio desejo de autodestruição. Uma pessoa deseja ficar doente, deseja morrer, portanto fica doente e morre.” (p. 69)

Entretanto, as mortes são bem concretas, diferentes entre si, e a forma como Agatha Christie estrutura toda a história não é apenas inteligente, mas o tempo todo questionadora, desafiadora, com um desfecho brilhante, ousado e que, mesmo mesclando ciência e esoterismo, não é tolo.

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