Poirot por Sophie Hannah | Os crimes do monograma

Capa da edição brasileira: muita gente achou que, logo de cara, a ilustração já fosse um spoiler, mas não é bem assim…

Foi depois de assistir à entrevista de Sophie Hannah e também a uma matéria explicando o processo de criação de Os crimes do monograma, no programa Globo News Literatura, que eu resolvi dar uma chance a uma nova aventura com Poirot, mas desta vez escrita por alguém que não é Agatha Christie. Os fatos de os herdeiros de seu espólio não apenas terem feito a Sophie Hannah o desafio de trazer novamente Hercule Poirot “à ativa” em uma aventura inédita e também de terem aprovado o resultado me credenciaram a ler esse livro.

Muito bem, este é o primeiro ponto a ser considerado e que não deve, de forma alguma, ser esquecido: Sophie Hannah não é Agatha Christie. Logo, é preciso segurar o nível de exigência. A pressão que Sophie deve estar sofrendo com a repercussão do livro já me parece grande o suficiente. Comparações inúteis à parte, vamos ao livro 🙂

Detetives famosos de Agatha Christie

Primeiro, uma contextualização: por causa do meu “Projeto Agatha Christie”, tenho lido com muita frequência os títulos da Dama do Crime. Nunca li tantos como neste ano! E, imediatamente antes de iniciar a leitura de Os crimes do monograma, eu tinha finalizado o último livro de 2014, que será brevemente comentado neste mês: O cavalo amarelo. Trata-se simplesmente de uma das obras mais brilhantes de Agatha Christie – seguramente, uma das maiores, mais bem elaboradas e escritas. Com uma interessante curiosidade: não conta com Poirot, ou Miss Marple. Ou seja, a própria Agatha Christie fez o exercício bem-sucedido de escrever um livro de literatura policial de alto nível, sem utilizar qualquer um de seus detetives famosos. O cavalo amarelo é apenas um excelente exemplo a ser tomado.

Dito isso, vamos à trama desenvolvida por Sophie Hannah, que tem como ponto central três assassinatos ocorridos em um curto espaço de tempo em quartos diferentes do Bloxham Hotel, em Londres na primeira metade do século XX. Desde o início, é bom ressaltar que a riqueza de detalhes é uma constante em todo o livro. Tudo é muito bem planejado e fica muito claro que há uma série de pequenas informações que, juntas, vão formar um grande quebra-cabeças. E um grande quebra-cabeças exige muitas explicações e, por que não, dois em vez de apenas um detetive? Pensando nisso, em lugar apenas de Hercule Poirot como grande estrela das investigações, temos também Edward Catchpool, personagem criado por Sophie: um jovem e bastante inseguro detetive da Scotland Yard. Catchpool narra toda a história.

Catchpool e Poirot

Logo cedo, o leitor já tem a informação de que Catchpool será um coadjuvante cuja pouca elaboração de raciocínio chega a causar irritação. Para mim, este é um dos pontos fracos de Os crimes do monograma. Sophie Hannah não precisava ter criado um detetive tão bobo para justificar o brilhantismo de Poirot. Vale lembrar que a própria Agatha Christie chegou a publicar aventuras nas quais Hercule Poirot entra na história em fase já relativamente avançada e conta com a perspicácia de algum outro esperto personagem para conduzir suas investigações – o ótimo Depois do Funeral é um bom exemplo disso.

Muito está sendo dito sobre a forma como Sophie Hannah “manipulou” Poirot, ou seja, se o comportamento do personagem em seu livro está coerente com o que conhecemos do genuíno Poirot, de Agatha Christie. Neste ponto, creio que há altos e baixos a serem analisados. Há momentos em que Sophie usa de forma bastante eficiente características marcantes do detetive, como sua necessidade de organização, sua metodologia de raciocínio e também o modo como ele se apresenta perante os demais (sua figura impecável, limpa, bem vestida e arrumada, com o enorme bigode como sua marca registrada). Entretanto, em outras passagens de Os crimes do monograma, notei uma “sensibilidade amorosa” não tão condizente com Poirot – como, por exemplo, quando o detetive suja a mão de lama para desenhar uma flor no túmulo do casal Ive. É provável que sensações como essa tenham ocorrido aos leitores de Agatha Christie, pelo fato de Sophie Hannah ter aceitado o risco de exacerbar as características fundamentais de Poirot, na tentativa de torná-lo o mais verossímil possível. E, nesse processo, esse tipo de problema é sempre um risco e me parece que Sophie foi bastante corajosa em aceitá-lo.

Não quero dar spoilers em relação aos pontos-chave de Os crimes do monograma, mas não posso deixar de tomar como um ponto positivo o fato de as pistas estarem à vista do leitor o tempo todo. Como um bom livro de literatura policial, é oferecida a quem lê a chance de desvendar o mistério, embora isso não pareça muito possível, pela quantidade de detalhes que compõem a motivação, a execução e a resolução dos crimes. Aliás, essa excessiva elaboração talvez tenha colaborado para complicar um pouco a recepção do livro entre os leitores. Muita gente se irritou por não ter conseguido desvendar o mistério. Contudo, não me parece esse o ponto mais importante aqui e sim o fato de, no fim da leitura, surgir aquele questionamento inevitável: “será que era preciso tudo isso? Agatha Christie já fez enredos brilhantes e de maneira muito mais simples”. O fato, meus caros, é que, como eu disse no início desta resenha, Sophie Hannah não é Agatha Christie. Mesmo assim, vale a leitura 😀

Os crimes do monograma
Sophie Hannah
Tradução de Alyne Azuma
Editora Nova Fronteira
286 páginas

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