Projeto Hitchcock | Os Pássaros (1963)

Nem preciso falar da minha expectativa em torno desse filme, por ele ser, é claro, uma das maiores e mais famosas produções do mestre Hitchcock. E, após assisti-lo, é impossível não passar bastante tempo refletindo, pois sem dúvida, há muito a ser dito sobre ele.

Produzido logo após o estrondoso sucesso de Psicose, com Os Pássaros, Hitchcock tinha a missão de se superar em termos de crítica, público e também como cineasta. Não sei ainda se isso aconteceu, pois, apesar de já estar com Psicose em mãos, ainda não o assisti, pela vontade de, antes, ler o livro que inspirou esse filme. Entretanto, de acordo com a crítica especializada, Hitchcock conseguiu vencer o desafio com louvor. E tudo a partir da ideia central de um conto escrito pela inglesa Daphne du Maurier (1907-1989) em 1952. Hitchcock escolheu outros trabalhos dessa autora para o enredo de seus filmes, como Rebecca (1940), que ainda será resenhado neste blog e Marnie, Confissões de uma ladra (1964), sobre o qual já falei.

Concordo com o Bruno, do excelente blog Cine Análise, quando ele diz que Os Pássaros é uma história de pessoas, e não de animais (não humanos). Certamente. É também uma história do medo cuja causa é conhecida – em algumas passagens do filme, fica claro que o medo que atormenta as pessoas é um medo do conhecido (medo dos pássaros e de seus ataques) e, em alguns casos, o medo daquilo que não é visto pelas pessoas, mas é conhecido por elas. Isso acontece, por exemplo, quando se ouve o barulho dos pássaros, mas eles não aparecem efetivamente na cena. Seria algo mais ou menos no estilo de O Coração das Trevas, de Conrad. O terror é velado, por isso é tão genial. A sutileza de Hitchcock, em várias de suas obras-primas reside, a meu ver, justamente no fato de que ele não precisa ser apelativo para inspirar as mais diversas sensações no espectador. Ele é engenhoso demais para se render a artifícios cinematográficos óbvios, daí a alta qualidade de seu trabalho. Contudo, acho muito importante estabelecer essa diferença entre o medo do desconhecido e o medo daquilo que se conhece, mas, em alguns momentos, não se vê. São coisas bem distintas uma da outra.

Em Os Pássaros, o enredo é, aparentemente, muito simples. A socialite Melanie Daniels (a então estreante Tippi Hedren) conhece o advogado Mitch Brenner (Rod Taylor) em uma loja de aves em San Francisco. Neste primeiro encontro, estabelece-se uma tensão emocional entre ambos, que motiva a ida de Melanie até a casa da família de Mitch, em Bodega Bay, Califórnia. De quebra, constitui-se o fio simbólico que vai mediar a relação de Melanie e Mitch durante todo o filme: os pássaros. Em Bodega Bay, estranhos casos de ataques de aves a pessoas começam a ser notados após a chegada de Melanie, que leva um casal de pássaros de presente de aniversário para a irmã de Mitch.

Abrilhantam a qualidade do filme, a atuação obscura e até misteriosa de Lydia (a ótima Jessica Tandy), a possessiva mãe de Mitch e a presença marcante de Suzanne Pleshette como Anne Hayworth, professora e ex-namorada do protagonista. Eu cheguei até a cogitar se não teria sido mais interessante trocar os papéis entre as atrizes, com Pleshette como a protagonista Melanie e Hedren como Anne. No entanto, creio ter falado mais alto a predileção de Hitchcock pelas loiras, além do fato de que, no fim do filme, fica claro que Melanie tinha uma sensibilidade intrínseca, até uma certa fragilidade, que Tippi Hedren conseguiu imprimir muito bem ao papel, e que talvez Suzanne Pleshette não o fizesse com tanta eficiência, justamente por ter um magnetismo muito forte.

Embora Rod Taylor não tenha me agradado muito como parceiro da protagonista – acho que estou me viciando em James Stewart e Cary Grant nos papéis principais –, reconheço que ele se saiu bem nas sequências de ação de Os Pássaros. O que não me convenceu muito foi a “pinta” de garanhão que o papel de Mitch Ros exigia. Enfim.

Uma coisa que me ocorreu, em relação à trama de Os Pássaros, além dos muitos pontos já falados e discutidos pela crítica – como a inversão dos papéis da cadeia alimentar, com humanos “engaiolados”, procurando se proteger dos ataques das aves como suas predadoras, a consolidação de uma outra conotação de medo, diferente daquela causada no espectador por Psicose, por exemplo, as técnicas cinematográficas, que foram tão importantes para a execução e o sucesso do filme – foi a ideia de “castigo divino” e até de alguma espécie de “maldição”. Castigo divino, no que se refere ao troco do tratamento precário imposto pela humanidade às outras espécies vivas, e maldição, ou estigma, do personagem de Melanie, pois, apesar de nada ficar muito claro para quem assiste ao filme, “a rebelião” das aves contra as pessoas começa quando a socialite chega a Bodega Bay.

Vale lembrar também que, na sequência final, quando Mitch abre a porta de casa para levar Melanie ao hospital – desculpem os spoilers! –, o advogado vê uma quantidade assustadora de pássaros espalhados até onde é possível enxergar e, surpreendentemente, as aves não se voltam contra ele. Percebendo que Melanie está sendo levada embora dali, elas simplesmente assistem à cena sem investir contra Mitch, que carrega a moça nos braços, sua mãe e sua irmã. É como se tivessem conseguido alcançar o seu objetivo: tirar Melanie da cidade.

Tudo isso são conjecturas, é claro. A trama de Os Pássaros tem um fim até, como eu poderia dizer, excessivamente simples para ser assistido nos dias de hoje, quando os blockbusters hollywoodianos apresentam desfechos tão faraônicos. Contudo, parece-me que é nas indagações deixadas para os espectadores que reside a força não apenas do filme em si, mas do efeito causado pela exibição desta obra-prima de Hitchcock.

É simplista dizer que essa produção merece ser assistida por causa da perfeição dos ataques dos pássaros – o que não deixa de ter o seu valor cinematográfico, que fique bem claro. No entanto, é na conduta e nas justificativas dos personagens diante da rebelião das aves que, a meu ver, reside a principal chave de interpretação para o sentido do filme e para as discussões que ele propõe. Não são as respostas; são as perguntas.

Os Pássaros
1963
Roteiro: Evan Hunter, baseado no conto de Daphne Du Maurier
119 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

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