TV – Especial | A autorreferência em Supernatural

Dean e Sam em meio às garotas: elenco do episódio FanFiction, número 200 da série

Eu tinha começado a escrever este post há pelo menos um ano e larguei o arquivo inacabado. Coisa feia. O grande gancho para eu retomá-lo foi, mais uma vez, a brincadeira autorreferente que constituiu o grande mote do episódio ducentésimo de Supernatural, intitulado FanFiction, que foi ao ar nos Estados Unidos na semana passada. E, mais uma vez, a ousadia criativa da equipe de roteiristas resultou em algo extremamente interessante.

Tornou-se muito comum o uso da metalinguagem como recurso diferencial em filmes e livros. Entretanto, em Supernatural, algo ainda mais peculiar vem ocorrendo: a autorreferência na história (perdoem a redundância, mas ela é necessária!). Bem, antes de entrar em detalhes, vamos a algumas definições:

Metalinguagem
“Metalinguagem é a propriedade que tem a língua de voltar-se para si mesma, é a forma de expressão dos dicionários e das gramáticas. O significado do termo, entretanto, ampliou-se e hoje o encontramos associado aos vários tipos de linguagem. […] O discurso metalinguístico tem sido largamente usado nos quadrinhos e na publicidade em busca ora de uma organização lúdica do pensamento ora de um trocadilho bem-humorado, capaz de capturar a atenção de um eventual consumidor.” (Thaís Nicoleti, consultora de Língua Portuguesa)

Autorreferência
“Autorreferência é um fenômeno em língua natural ou linguagem formal que consiste de uma oração ou fórmula que refere-se a si mesma diretamente ou através de alguma oração ou fórmula intermediária, ou por meio de alguma codificação. […] A autorreferência também ocorre na literatura quando um autor refere-se a sua obra no contexto do próprio trabalho. Exemplos famosos incluem Don Quixote de Cervantes, Jacques le fataliste et son maître de Denis Diderot, Se una notte d’inverno un viaggiatore de Italo Calvino, muitas histórias de Nikolai Gogol, Lost in the Funhouse de John Barth e Sei Personaggi in Cerca d’Autore de Luigi Pirandello.” (Wikipédia)

Ou seja, quando saímos daquele universo da atriz da novela das 9 que diz “ah, fulana, mas isso é coisa de novela, agora é só aguardar as cenas do próximo capítulo”, ou seja, metalinguagem (exemplo bobo e simples, eu sei, mas com ele fica facinho de entender a ideia) e entramos no mundo que cita a si mesmo dentro de seu próprio contexto, chegamos à autorreferência, cujo exemplo mais do que eficiente existe aos montes em Supernatural.

Pelas minhas contas – sou um pouco esquecida, mas creio que seja mais ou menos isso –, na terceira temporada da série, surgiu um personagem-chave nesse negócio da autorreferência: trata-se de Chuck Shurley, o profeta do Apocalipse. Chuck – que fez, inclusive, participação especial no episódio 200 – tem visões e as registra. O caso é que, sob o pseudônimo de Carver Edlund, ele ganha dinheiro com uma série de livros que tem como enredo… as aventuras dos irmãos Winchester, ou seja, os protagonistas da série. Isso mesmo, Supernatural existe dentro da série – com este nome, inclusive – numa série de livros muito bem vendida entre os nerds aficionados por histórias de terror, graças às narrativas de Chuck, que correspondem ao que acontece nas vidas de Sam e Dean (que também têm esses nomes nos livros).

O personagem Chuck transforma a vida dos irmãos Winchesters em livro

Resumindo: na série, Sam e Dean são, ao mesmo tempo, personagens fictícios para a instância dos espectadores, e “fictícios-fictícios” na instância dos personagens da própria série, pois os irmãos veem a si mesmos como ícones da literatura geek em livros populares no mundo retratado na série. Será que consegui me fazer entender?

Capa de um dos volumes escritos por Chuck sob o pseudônimo de Caver Edlund

O interessante é observar o impacto estrondoso que a descoberta de que suas vidas são o enredo de uma série de livros tem nos protagonistas. É como se Sam e Dean se sentissem “invadidos” por terem episódios de suas vidas narrados para toda uma comunidade de fãs que não só os “acompanham” ao longo de vários volumes escritos e publicados por Chuck, como também aguardam ansiosamente pelo próximo livro. E isso acontece paralelamente à espera que nós, espectadores, temos em relação aos personagens. É a ficção da ficção, pode-se dizer.

Só que nada disso é tão incrível ou novo. Por exemplo, quem lê os livros de Arthur Conan Doyle sobre Sherlock Holmes sabe que seu fiel amigo John Watson costuma registrar de forma escrita as aventuras do famoso detetive. Contudo, o efeito é diferente em relação a Supernatural, porque Holmes não se vê como um personagem nas mãos de quem lê as narrativas de Watson, coisa que acontece com os Winchesters. Ou seja, a dimensão da autorreferência na série tem uma profundidade muito maior e arriscada, porque, apesar da complexidade de tudo isso, o espectador não se confunde.

O caso é que não posso deixar de notar a extrema habilidade que a equipe de roteiristas de Supernatural tem por conseguir montar uma “história dentro da outra”, ou seja, uma que dialoga com o espectador e outra que dialoga com os próprios “espectadores ficcionais”, personagens da própria série criados para ser fãs do Dean e do Sam dos livros.

Um reflexo disso fica muito claro no episódio “Time for wedding!”, da sétima temporada, quando Becky Rosen, uma fã incondicional da série de livros de Chuck apaixonada por Sam, sequestra o caçula dos Winchesters e se casa com ele, fazendo uso de uma poção para dominá-lo. Além de hilário, esse episódio é bastante elucidativo em relação às diferentes dimensões da autorreferência, pois Becky demora para entender que o Sam personagem dos livros, pelo qual ela criou uma paixão idealizada, não poderia correspondê-la na esfera da “vida de verdade”.

Eu acho tudo isso muito curioso, criativo e inteligente. Um artifício e tanto dos roteiristas. No último volume de Supernatural que Chuck publicou (isso até o momento), percebemos que ele registrou a trajetória de Sam e Dean apenas até o momento em que o irmão mais velho vai parar no inferno, ou seja, o equivalente ao fim da terceira temporada. No entanto, agora, no aniversário da série, os roteiristas prepararam uma nova “armadilha” para os espectadores, fazendo com que um grupo de garotas de um colégio apenas para meninas transformassem a trajetória dos Winchesters em uma peça teatral. FanFiction gira em torno da subversão do gênero dos protagonistas, que são encenados pelas alunas, da forma como elas interpretam aquilo que leram ao longo dos livros publicados por Chuck e, é claro, de um “monstro” que precisa ser combatido para que a peça possa ser encenada.

Dean e Sam com as alunas que os interpretam na peça escolar de FanFiction

O episódio ducentésimo da série é especial por vários motivos. Pela ousadia de fazê-lo protagonizado por meninas, algo que não é usual no universo de Supernatural; pela sensibilidade que não se transforma em pieguice na história; e pela reconciliação tão inusitada e tão necessária para os Winchesters – ninguém percebeu que eu gostei do episódio, né? Chega de spoilers! Paro por aqui 🙂

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