Projeto Hitchcock | Suspeita (1941)

Preciso confessar que este filme não é do tipo que empolga, mas ele tem outra virtude que talvez seja até mais compensadora do que exatamente causar aquele frenesi no espectador: é daquele tipo que você termina de assistir e é capaz de ficar horas e horas remoendo cenas, falas, e refletindo sobre o que parecia ser, sem ter a plena certeza do que é de fato. Confuso? Bem, trata-se de uma obra aberta no melhor sentido da expressão.

Em Suspeita, o ótimo Cary Grant interpreta Johnnie Aysgarth, um completo bon vivant: boa pinta, de papo envolvente, jovial, olhar sedutor, mas nenhum centavo no bolso. Tudo seria completamente clichê, se sobre Aysgarth não pairasse a suspeita de que ele seria capaz de matar para viver uma vida de luxos fáceis. Afinal, bon vivant, ou assassino?

Este é o mote do filme. Bem simplista, contado dessa forma. O caso é que tudo o que mestre Hitchcock põe a mão ganha uma pitada de mágica e com este filme não é diferente.

A escolha de Joan Fontaine (que, um ano antes, protagonizou Rebecca, também dirigida por Hitchcock) para viver o par romântico de Grant não poderia ter sido mais bem-feita. Ela tinha uma fragilidade no olhar que Grace Kelly ou Tippi Hedren (outras musas constantes de Hitchcock) não seriam capazes de reproduzir. Joan foi a escolha perfeita para viver a rica Lina McLaidlaw, uma solteirona que se torna uma esposa apaixonada e, na mesma proporção, amedrontada, à medida que vai juntando peças sobre o caráter dúbio do marido.

O que achei bem interessante no filme foi a questão dos ícones, dos índices sugestivos deixados pelo diretor ao longo da trama. Logo na volta da lua de mel, quando Johnnie não hesita em vender o par de tradicionais cadeiras de madeira nobre que o pai de Lina envia como presente de casamento, fica clara a ideia de que o protagonista é capaz de passar por cima de um símbolo de sua união com Lina para garantir seus prazeres, como pagar suas dívidas de jogo para continuar a apostar em cavalos, por exemplo. O fato de o presente ser um par de cadeiras fortes, trabalhadas, presentes há várias gerações na família de Lina é sugestivo de que o pai da moça anseia que a união de ambos seja duradoura; a atitude de Johnnie, por outro lado, põe tudo a perder e mostra quão frágil era a relação de ambos. Contudo, mais tarde, quando o personagem de Grant usa o dinheiro roubado da empresa do capitão Melbeck para reaver as cadeiras no antiquário, há uma sutil esperança de que Lina pode fazer com que Johnnie mude, por mais difícil que isso possa parecer.

A meu ver, apesar de não se tratar de um momento de ação do filme – como a sequência final, do carro em alta velocidade nas curvas sinuosas do caminho para a casa da mãe de Lina – o ápice de Suspeita é um momento que também gira em torno de um índice mais do que sugestivo: um copo de leite.

Após um jantar sinistro, no qual o principal assunto foi um debate acalorado sobre venenos, Hitchcock prepara uma sequência de planos bastante escura, na qual Johnnie sobe lentamente as escadas de sua mansão levando uma pequena bandeja com um copo de leite para Lina, que já se encontra muito fragilizada e altamente desconfiada das intenções assassinas de seu marido. Esta parte do filme é simplesmente excelente, não apenas por criar uma angústia terrível em relação à Lina, como também pela plasticidade da cena – li no blog Degustando Hitchcock que o diretor pôs uma lâmpada dentro do copo, para ressaltá-lo na escuridão. Engenhoso!

A possibilidade de Johnnie ter matado seu melhor amigo, o alegre e abobalhado Beaky (Nigel Bruce) é o fato que passa a, definitivamente, aterrorizar Lina em relação a Johnnie. O mais notável disso tudo é que não é a morte em si de Beaky que a assusta, mas sim a frieza por trás daquela morte, indicando que, possivelmente, não haja formas de conter seu marido. Conjecturas.

O mais interessante do filme não é o que é dito, mas exatamente aquilo que é “sugerido”. O diálogo final de Johnnie com sua esposa não é nada brilhante, mas a dúvida que continua a pairar sobre ele (mesmo depois do que ele diz) é o toque magistral de Suspeita. Em outros blogs, li que esta foi uma das produções de Hitchcock na qual o estúdio determinou uma mudança no roteiro, em função, inclusive, das reações do público das prévias. Enfim, ainda que isso tenha acontecido, por meio da fala final de Johnnie, eu confesso que não fiquei convencida (esta é a mágica de Hitchcock), por isso creio que o título do filme não poderia ter sido mais bem escolhido.

Suspeita
1941
Roteiro: Samson Raphaelson, Joan Harrison e Alma Reville, baseado no romance Before the fact, de Anthony Berkeley
99 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

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Um comentário sobre “Projeto Hitchcock | Suspeita (1941)

  1. Este filme eu não cheguei a ver! Adorei as interpretações que você colocou sobre os objetos! Me deu muita vontade de ver, uma pena que o canal TCM está cada dia pior e a locadora de filmes clássicos fechou! Vou ter que procurar o dvd por ai. Bjos e belo post

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