Releitura | A marca do Zorro

É simplesmente incrível como eu me lembrava de tão poucas coisas de um livro do qual gostei tanto. Poucas coisas mesmo. Tudo bem que faz mais de quinze anos que o li pela primeira vez, mas A marca do Zorro, do escritor norte-americano Johnston McCulley, é um livro irreverente, divertido e um ótimo passatempo, com algumas interessantes críticas à sociedade que habitava a missão de San Juan Capistrano, onde se localizava Pueblo de la Reina de Los Angeles, parte do México controlada pela Espanha na primeira metade do século XIX.

O caso é que cresci assistindo ao seriado Zorro que a Disney produziu no fim da década de 1950. E adorava tudo, principalmente o ótimo e lindo Guy Williams (1924-1989), é claro! No texto introdutório desta edição que li da Panda Books, há, inclusive, um bom texto introdutório com a informação de que Williams é considerado o melhor Zorro de todos os tempos, superando até mesmo Douglas Fairbanks, astro que protagonizou a primeira montagem do personagem para o cinema.

Na história original, Zorro é o alter ego de Don Diego Vega, herdeiro de um dos clãs mais poderosos da região. Don Diego decide vestir o “manto da raposa” para lutar contra as injustiças cometidas pelos militares espanhóis em sua região, coisa não muito fácil de ser feita quando se é membro da alta “aristocracia” e tem uma história de família pela qual zelar.

Guy Williams como Don Diego e Zorro

No caso do Zorro, vale destacar algumas críticas abertas às administrações corruptas, ao tratamento dos religiosos no cenário de colonização, da suposta superioridade dos mexicanos de ascendência europeia em relação aos demais e também aos índios nativos, fatos dos quais, enfim, eu não lembrava. É claro que McCulley precisava compor um contexto ideal para justificar a criação de um herói com a digna função de lutar contra a opressão, mas creio que, em minha primeira leitura, nada disso tenha me marcado profundamente. Eu tinha lembranças realmente muito superficiais de Zorro, possivelmente muito influenciadas pelo seriado da Disney, que eu adorava na adolescência. Agora, não vejo o livro de forma tão básica. Em uma segunda e mais atenciosa leitura, torna-se perceptível que os estereótipos e os preconceitos arraigados em uma sociedade de mentalidade colonizada tiram um pouco do brilho do herói de capa e espada, mas, ao mesmo tempo, justificam a sua existência.

 “Era uma concessão perguntar a ela, e Lolita percebeu que essa rara oportunidade estava sendo concedida por causa da corte de Don Diego. Ela hesitou um pouco antes de responder.

– Acho que será bom – disse ela. – Gostaria de visitar o povoado, pois raramente vemos alguém aqui na fazenda. Mas as pessoas poderão fazer comentários sobre mim e Don Diego.

– Bobagem! – exclamou Don Carlos. – Poderia haver algo mais natural do que visitarmos os Vega, uma vez que nosso sangue é quase tão bom quanto o deles e melhor que o dos outros?” (p. 82)

 

Heroísmos e aventuras fantasiosas à parte, o mérito da criação da “Maldição de Capistrano” – outra forma pela qual Zorro é constantemente referido na história – é levantar questões relacionadas à colonização espanhola no México, ao choque religioso e à opressão vivida pelos índios e também pelos missionários da região.

 

“Pouco tempo depois, Don Diego partiu. Bernardo cavalgava uma mula, logo atrás dele. Correram pela estrada principal e logo alcançaram uma pequena carroça ao lado da qual caminhavam dois franciscanos. Levavam frei Felipe, que tentava esconder gemidos de dor.

Don Diego colocou-se ao lado do veículo quando este parou. Subiu nele e apertou as mãos de frei Felipe nas suas.

– Meu pobre amigo – disse ele.

– É apenas mais um exemplo de injustiça – disse o frei. – Por vinte anos, nós, das missões, estivemos sujeitos a ela, e essa perversidade só está aumentando. O santificado Junipero Serra invadiu essa terra quando outros homens e, em San Diego de Alcála, construiu a primeira de muitas missões, deixando assim um império ao mundo. Nosso erro foi termos prosperado. Fizemos o trabalho e outros colheram os frutos.” (p. 131-132)

 

Embora a história criada por Johnston McCulley não tenha forte cunho histórico, nem conte com uma grande pesquisa – pois a ideia primordial, que motivou o surgimento de Zorro, foi a criação de leitura para rápido consumo, com o intuito de levar entretenimento para leitores da década de 1920, ainda muito fragilizados pelos estragos da Primeira Guerra Mundial –, o personagem Zorro tem grande valor no contexto da cultura de massa da primeira metade do século XX, por abrir espaço para uma série de heróis que, mais tarde, fariam estrondoso sucesso como mascarados em busca de justiça e proteção ao povo, nas histórias em quadrinhos, na televisão e também no cinema.

A marca do Zorro
Johnston McCulley
Tradução de Lilian Somavilla Bomfin e Y. Cecília E.V. Levy
Panda Books
2000

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s