Projeto Hitchcock | Janela Indiscreta (1954)

Quando tive a chance de ler o conto original do jornalista Cornell Woolrich que inspirou esta obra-prima de Hitchcock, entendi perfeitamente o porquê da indicação ao Oscar de melhor roteiro para este filme. O texto de Woolrich é muito bom realmente, mas preciso admitir que as mudanças empreendidas pelo roteirista John Michael Hayes para a adaptação para o cinema mudaram o enredo original para melhor.

Os méritos cinematográficos de Janela Indiscreta são profundamente conhecidos – este é um dos filmes mais famosos e reconhecidos do mestre Hitchcock –, por isso, não pretendo me ater, nesta breve resenha, a aspectos visuais e outros pontos neste estilo.

Também já li outras resenhas muito mais bem elaboradas do que esta, levantando o interessantíssimo ponto de vista da metalinguagem, pois o enredo gira em torno do protagonista Jeff (o excelente James Stewart), um premiado fotógrafo em convalescença de uma perna quebrada, distraindo-se na observação dos vizinhos do prédio em frente ao seu. Ou seja, enquanto Jeff é atentamente observado por nós, telespectadores, ele se dedica a observar seus vizinhos. Aparentemente simples, este é o mote de Janela Indiscreta. E seria uma história bastante singela e sem graça, se não fosse tão bem filmada e se Hayes não tivesse sido tão feliz nas alterações promovidas sobre o texto. O roteiro do filme é superior ao conto de Woolrich.

A meu ver, o grande mérito dessa história – e que foi muito bem conservado na adaptação e transposição para o cinema – é a carga psicológica. Basicamente, Janela Indiscreta tem apenas um cenário, o apartamento de Jeff. E todo o desenvolvimento do filme ocorre a partir, mais precisamente, da sala do protagonista. O ritmo é lento, mas isso não fica evidente, pois há tantos detalhes em jogo na composição da trama, que se torna secundário esperar cenas de ação. A estrutura do filme vale muito mais do que isso.

Se no livro Jeff é auxiliado por um serviçal chamado Sam, um rapaz introvertido e resmungão, e o conto depende extensivamente da relação de confiança entre Jeff e seu empregado; no filme, a boa sacada foi substituí-lo pela eficiente Stella (Thelma Ritter), que não apenas banca a enfermeira, fazendo até mesmo massagem nas costas de Jeff, como também monta seu café da manhã e ainda dá pitacos na investigação do fotógrafo. A troca de gênero e mesmo de natureza dessas personagens foi bastante benéfica para estabelecer uma fragilidade necessária para Janela Indiscreta. A partir do momento em que Jeff se convence de que, de fato, houve um assassinato no apartamento do prédio da frente, o fato de o protagonista ser auxiliado por mulheres, e não por um rapaz, aumenta o temor do espectador pela vida de Jeff e isso funciona muito bem para a lógica cinematográfica.

Bem, eu mencionei que Jeff é auxiliado por mulheres, mas citei apenas Stella. A outra mulher em questão – também inexistente no conto original – é Lisa Carol Fremont, a bela namorada do protagonista. Interpretada pela fascinante Grace Kelly, ela dá ao filme não apenas um toque de beleza e requinte – o figurino de Lisa é simplesmente espetacular, pois ela trabalha em uma revista de moda – como também põe em xeque a suposta fragilidade feminina. Lisa é intrépida, corajosa e se dispõe a fazer aquilo que a condição física de Jeff o impede: a investigação de campo. Uma das cenas mais angustiantes e temerosas do filme é quando Lisa invade o apartamento do suposto assassino, em busca de pistas de seu delito. O fato de Jeff acompanhar toda a investida por meio de sua lente de observação só aumenta a tensão do espectador. Simplesmente brilhante!

Suponho que essas mudanças substanciais na trama tiveram por objetivo não tornar o filme uma produção enfadonha. No livro, a dimensão psicológica é extremamente bem explorada, mas o conto (de 46 páginas) acaba perdendo um pouco o ritmo por causa do vazio causado pela falta de Lisa – algo corrigido com muita competência por Hitchcock e sua equipe.

Não há dúvidas de que Janela Indiscreta é um dos filmes mais brilhantes do mestre do suspense. A leitura do conto original foi extremamente esclarecedora e me permitiu refletir em busca de pistas sobre as razões das mudanças que ressaltei neste texto. Obviamente, a ideia original de Cornell Woolrich já era ótima; Hitchcock direcionou sua equipe para transformá-la em algo fantástico.

Janela Indiscreta
1954
Roteiro: John Michael Hayes, baseado no conto de Cornell Woolrich
112 minutos
Estados Unidos

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

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2 comentários sobre “Projeto Hitchcock | Janela Indiscreta (1954)

  1. Não sabia que era baseado em um conto, vou procurar esse conto.

    Gosto deste filme, mas não vejo ele como um dos melhores do Diretor, acho Vertigo [altamente Superior] e The Rope [o meu favorito] bem melhores.

    Não conhecia o seu blog. Vou dar uma volta pelos posts antigos.

    Bjos

  2. Meu caro, “Vertigo” é um dos meus favoritos! Uma trama simplesmente espetacular!
    “Festim diabólico” eu ainda não tive o prazer de assistir, mas pretendo corrigir isso em breve! Beijos!

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