Café Literário | O Mestre e Margarida (Mikhail Bulgákov)

No encontro de abril, discutimos a respeito do ótimo romance de autoria do russo (ucraniano, de acordo com o mapa-múndi de hoje) Mikhail Bulgákov.

A trama é surreal: uma visita do diabo e de seu séquito a Moscou das primeiras décadas do século XX. Por onde ele passa, fica um rastro de destruição, é claro. Entretanto, nem tudo é óbvio no enredo de Bulgákov. Aliás, “óbvio” é o adjetivo que menos se encaixa nesta história brilhante de mais de 400 páginas.

Quando comecei a leitura, lembro que muito me intrigava o título escolhido pelo autor. A meu ver, parecia faltar alguma coisa, um artigo talvez. “O Mestre e a Margarida”? Será que não seria mais apropriado? Pois bem, o caso foi que, à medida que eu avançava páginas adentro na história, não apenas percebi a coerência do título, como também minha preocupação tornou-se outra: queria saber quem seria o bendito mestre do título. Na reunião, lembro que minha amiga até disse que pensava ser o diabo, mas eu não cogitava isso. Afinal, diabo é diabo e penso que Bulgákov não se furtaria a nomeá-lo no título, já que o que ele mais faz, no decorrer da história, é mencioná-lo claramente e também “subliminarmente”. É muito comum aparecer na fala dos personagens expressões como “com os diabos!”, ou mesmo o narrador mencionar algo do tipo “e bem que ela gostaria de saber que diabo significava aquilo tudo”. Bulgákov estrutura a história com um narrador onisciente e de maneira que, implícita ou explicitamente, o diabo sempre se mostra ciente e diretamente envolvido em todas as situações.

Algo brilhante – se é que isso pode ser dito – foi o sentimento de “Síndrome de Estocolmo” que tive durante a leitura. Inicialmente, repudiei totalmente as ações do diabo e de seu séquito; porém, do meio do livro em diante, eu simplesmente me peguei torcendo por eles! A meu ver, o mérito dessa transformação tão drástica é do talento de Bulgákov, que tão bem vai mostrando, ao longo do desenvolvimento da história, como bem e mal são, no fundo, uma força só e como ambos decidem juntos o rumo de todas as coisas.

Parece-me uma visão essencialmente ocidental a de que bem e mal são forças diametralmente opostas. No Oriente, a linha que os separa é tão tênue, que não há como não pensar que ambos precisam coexistir, pois é muito claro que um só tem sentido na contraposição ao outro. Bulgákov mostra isso com muita eficiência, ao estabelecer os diálogos do diabo com os enviados de Deus. Aliás, guardadas as devidas proporções, a leitura de O Mestre e Margarida muito me lembrou a do Livro de Jó, do Antigo Testamento da Bíblia.

Tanto o Mestre quanto Margarida – o atormentado casal que dá nome ao título – parecem personificar os conflitos e os dilemas típicos do ser humano, do homem enquanto criatura, ser imperfeito e que, no entanto, se enxerga como dono do mundo. O Mestre se vê angustiado e à beira da loucura, após escrever um intrincado romance sobre Pôncio Pilatos – e mais uma vez a história bíblica se faz presente! – e larga tudo, inclusive o seu relacionamento clandestino com Margarida, para se internar em uma clínica psiquiátrica. Ela, por sua vez, não perde tempo e barganha com o diabo a possibilidade de revê-lo.

O mais interessante de tudo é como Margarida se mostra equilibrada, mesmo diante do desaparecimento repentino do Mestre, e toma decisões sensatas, por mais difíceis que elas sejam. Minha “Síndrome de Estocolmo” se fez presente a partir do momento em que o diabo, a seu modo, começa a ajudar o casal a permanecer unido, fazendo, para tanto, até mesmo um acordo com Deus.

O texto do posfácio da edição que li, elaborado por Boris Sokolov, professor da Universidade de Moscou, é muito esclarecedor quanto às referências reais utilizadas pelo autor em seu livro. De acordo com ele, a duração dos eventos narrados em O Mestre e Margarida compreende exatamente a duração do martírio de Jesus e também a de um momento-chave da Rússia da época de Bulgákov: o agravamento da crise política do regime vigente. É incrível como o autor consegue amarrar tão bem os fios de cada um desses assuntos e como deixa pistas políticas em meio a um enredo tão surreal.

Outra coisa que passou a me intrigar, ainda pouco antes de alcançar a metade do livro, foi a curiosidade de saber como o autor terminaria a parte da história relativa a Pôncio Pilatos. Eu pensava o tempo todo que Bulgákov se “enrolaria” nesta parte do romance e que este seria o meu trunfo para terminar a leitura e dizer “ah, mas ele quis fantasiar demais e se perdeu”. Só que me enganei. A solução encontrada por ele para o desfecho do destino de Pilatos foi simplesmente impressionante! Sem dúvida, trata-se de um livro que vou reler assim que puder.

O Mestre e Margarida
1941
Mikhail Bulgákov
Tradução direta do russo de Konstantin G. Asryantz
Posfácio de Boris Sokolov
Editora Ars Poetica
442 páginas

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