Projeto Hitchcock | A Dama Oculta (1938)

Este é o penúltimo filme da fase inglesa da produção de Hitchcock e confesso que, em vários aspectos, ele me lembrou Os 39 Degraus. A Dama Oculta, rodado poucos anos depois desse filme, também usa a “fórmula” do casal briguento e provocante, além da trama que mescla o mistério com pitadas de humor e de sarcasmo – tudo isso embalado em uma atmosfera cult, preto e branco, com ritmo acelerado (boa parte do filme se passa em um trem) e muito agradável.

O que me chamou a atenção neste filme em relação aos demais que vi, dentre as produções de Hitchcock até agora, foram as tramas paralelas. No geral, os filmes desse diretor inglês têm um centro muito bem definido, sustentado por protagonistas cuidadosamente criados, e sem grandes interferências de tramas paralelas. No caso de A Dama Oculta, entretanto, há uma pequena porção de personagens periféricos com universos próprios e de importância para o enredo do filme.

Iris, interpretada por Margaret Lockwood, é a protagonista da história, com perfil de moça mimada, rica e teimosa. A trama começa de fato quando ela, de férias em alguma parte da Europa (Itália, talvez), faz amizade com a Sra. Froy (May Whitty), uma simpática mulher que, na verdade, é uma agente da Inglaterra disfarçada de preceptora. Quando Froy desaparece do vagão de trem onde fazia companhia para Iris, entra em cena Michael Redgrave, que faz o papel do irreverente músico Gilbert, a única pessoa em todo o trem a acreditar – depois de muita insistência – que a Sra. Froy havia sido efetivamente raptada.

A meu ver, o grande mérito de A Dama Oculta está em questionar a aparente ordem preestabelecida. Não há dúvidas de que é a fantástica teimosia de Iris, interpretada com muita tenacidade por Margaret Lockwood, que empurra adiante o enredo – sua forte crença de que algo de obscuro estaria por trás do desaparecimento da Sra. Froy e, acima de tudo, a fé em sua própria lucidez (Iris tinha batido a cabeça acidentalmente momentos antes de entrar no trem) conduziram-na a uma busca incessante, ainda que a possibilidade de que a bonachona Sra. Froy fosse uma agente jamais tivesse lhe passado pela cabeça. Em seu universo mimado e burguês, Iris possivelmente insistiu em procurar por sua companheira de viagem muito mais para provar a certeza de sua teoria do que propriamente por suspeitar de que Froy pudesse ajudar a nação inglesa com o seu trabalho arriscado.

Nesse processo de “investigação” é que ganha corpo a relação de Iris e Gilbert, transformando seu primeiro contato hostil em uma parceria engraçada e, ao mesmo tempo, com surpreendente grau de cumplicidade.

Vale destacar a técnica tão bem desenvolvida pelo diretor nas cenas com o trem em movimento e a composição muito bem cuidada de alguns enquadramentos, como, por exemplo, o de Iris e Gilbert no banco do trem, após terem sido “supostamente” envenenados.

Certamente, o roteiro muito bem-feito desta produção de Hitchcock serviu de inspiração a filmes da contemporaneidade não tão brilhantes nem tão cult quanto ele, mas que claramente “beberam desta fonte”, como Plano de Voo, com Jodie Foster, por exemplo.

A Dama Oculta
1938
Produção: Edward Black
Roteiro: Sidney Gilliat e Frank Launder, baseado no romance The Wheel Spins, de Ethel Lina White
95 minutos
Inglaterra

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

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