Releitura | Manu, a menina que sabia ouvir

manu

Um dos objetivos de 2014 é a releitura de um livro por semestre. Resolvi começar esse projeto com um livro que li há mais de 20 anos: Manu, a menina que sabia ouvir, do autor alemão Michael Ende.

Quando tirei este livro da estante, as únicas coisas de que me lembrava era do fato de Manu ter chegado à cidade dizendo que tinha 102 anos e da tartaruga Cassiopéia, que é maravilhosa!

O mais curioso de um processo de releitura é a forma diferente como a gente passa a ver o texto. Em Manu, há um paradoxo muito claro entre a simplicidade das ideias do autor – algo fantástico, pois dessa simplicidade de ver o mundo depende diretamente a essência humana – e a complexidade de pôr em prática valores básicos, como se importar com as outras pessoas e ouvir o próximo, por exemplo.

“Na verdade, Manu não tinha bons conselhos para dar às pessoas, e nem sempre encontrava palavras certas para dizer. Ela não era também uma pessoa divertida que cantava ou dançava ou tocava algum instrumento. Nem tinha poderes mágicos para ver o futuro.

O que Manu sabia fazer, melhor do que qualquer outra pessoa, era ouvir. Seria um erro supor que isso é coisa que qualquer um pode fazer. Ao contrário, muito poucas pessoas sabem ouvir de fato. E a maneira como Manu ouvia era realmente fora do comum.

Manu ouvia de um jeito que fazia as pessoas pouco inteligentes terem repentinamente ideias brilhantes. Ela não dizia, nem perguntava, nada que pudesse pôr tais ideias na cabeça das pessoas: ela ficava simplesmente ali sentada, ouvindo com atenção e toda a simpatia.” (p. 15-16)

No livro, Manu luta contra os homens cinzentos, ladrões do tempo que a humanidade poupa exaustivamente, sem questionar o porquê de sua atitude, sem se dar conta de que sua economia não torna sua vida mais feliz, nem lhe permite ter mais tempo para fazer aquilo de que gosta, ou estar junto de quem ama.

Em tempos de massificação de ideias, de intermediação do contato humano e de pouco tempo para todas as coisas simples da vida, reler esse livro foi a maior lição que eu poderia resgatar da minha infância. Foi uma leitura emocionante, reflexiva, de efeitos inigualáveis sobre a pessoa que sou hoje.

Esta leitura foi muito preciosa para mim, que vivo pensando em formas de não perder tempo e de conseguir fazer mais coisas em um mesmo dia. O que Manu deixa bem claro, com toda a sua espontaneidade, é que não podemos perder de vista aquilo que realmente importa. E, geralmente, o que realmente importa é o que está mais próximo da gente e o que não pode ser comprado.

Manu, a menina que sabia ouvir
Michael Ende
Tradução de Vera Pacheco Jordão e Lúcia Jordão Villela
Círculo do Livro
1973

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4 comentários sobre “Releitura | Manu, a menina que sabia ouvir

  1. Miga, livro de 1973 e é incrível como ele é atual. Algo antes de nós nascermos que traz um aprendizado maravilhoso. Amo muito esse livro que você me apresentou.
    Por isso temos dois ouvidos e uma boca: falar menos e ouvir mais. Tô penando nessa lição! rsrs
    O que importa e quem importa tem que estar sempre perto, por isso estamos sempre juntas! 🙂

  2. Li esse livro com 8 anos. E a releitura está mexendo muito comigo. O lidar com o tempo eos brinquedos que as crianças não conseguem brincar… Recomendo a leitura.

  3. Em alemão o livro se chama Momo e existe um filme com este nome. Achei ele em alemão, inglês e espanhol. Vale a pena assistir. É um filme meio surreal, feito em 1986.

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