Leitura | A outra volta do parafuso

Esta foi a minha primeira leitura de Henry James. Simplesmente adorei.

Do ponto de vista da construção do texto, a aparentemente singela história da jovem governanta que aceita o cargo de preceptora de duas crianças órfãs em uma mansão bastante antiga é espetacular. James é cuidadoso na escolha das palavras (e a Companhia das Letras foi mais cuidadosa ainda, ao escolher um tradutor habilidoso como Paulo Henriques Britto, para preservar ao máximo as nuances e a escrita elegante de James), elabora com esmero os ganchos no final de cada capítulo e sabe como ninguém criar uma sensação de incômodo ao longo da leitura.

E as pistas vão surgindo de maneira bem discreta, porém eficiente. A informação de que a jovem professora é filha de um pároco, sua capacidade de enxergar de forma tão nítida as aparições dos criados mortos e a relação que ela vai construindo aos poucos, ou melhor, o quebra-cabeça que ela vai construindo com as peças oferecidas pelo autor fazem de A outra volta do parafuso um livro intrigante. Intrigante porque, acima de tudo, quando o leitor se convence de que a protagonista não passa de uma lunática, fica a questão incômoda (mais uma vez esta palavra!): se ela está imaginando, como conseguiu descrever os fantasmas da forma como eles eram em vida? A pobre sra. Grose, velha empregada da mansão, atesta claramente que as figuras descritas pela moça correspondiam aos empregados mortos: srta. Jessel, a antiga preceptora, e Peter Quint, o criado particular do patrão.

A partir daí, tudo se torna obscuro. A suposta influência dos mortos sobre as crianças órfãs, o entendimento que a governanta atual tem sobre esse assunto, bem como a sua também suposta “missão” de salvar os pequenos dessa relação maligna e por aí vai. Não dá para deixar observar uma aura inquisidora na postura da jovem professora e em sua visão maniqueísta da situação. Aliás, a narrativa em primeira pessoa criada por James – a protagonista narra a maior parte da história, em uma relação de metalinguagem literária – é zelosamente criada de forma brilhante pelo autor.

A reta final do livro é como um soco no estômago. Aquela sensação evidente de que algo vai dar errado, apesar de todos os esforços em contrário é algo que vai levando o leitor a um grau de ansiedade que penso que poucos autores conseguem alcançar por meio de seus livros. E, mesmo chegando a um final no qual algo de fato dá errado, fica uma atmosfera de coisa inacabada, uma vontade intensa de que a história continue, porque é muito fácil concluir que um escritor talentoso como James sempre terá algo de muito interessante a dizer – e a forma como ele é capaz de fazer isso é que é o grande diferencial de sua prosa.

A outra volta do parafuso
Henry James
Tradução de Paulo Henriques Britto
Penguin Companhia das Letras
2011

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Um comentário sobre “Leitura | A outra volta do parafuso

  1. Eu adoro esse livro, comprei esta mesma edição da Penguin. Achei maravilhoso como a editora trabalhou as notas de rodapé e aquele extra ao final do livro.
    Mas falando do livro, ele é um deleite, fácil de devorar. Senti a mesma coisa que você sentiu, em especial na parte que ela começa a agarrar o menino.

    Bjos

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