Cinema | Caçadores de obras-primas

Acho muito bom quando um filme estimula o questionamento do espectador, quando o estimula a refletir. Como este foi o caso de Caçadores de obras-primas, já considerei válida a minha ida ao cinema. Depois de ler algumas resenhas que se limitavam a comparar este filme ao blockbuster Onze homens e um segredo, apenas pelo fato de ambos serem estrelados por George Clooney e Matt Damon, fiquei muito aliviada por não ter me pegado pensando nesta estreita comparação enquanto o assistia.

Caçadores de recompensa é um filme que trata da missão de pessoas encarregadas de proteger obras-primas durante a Segunda Guerra Mundial. O nazismo pilhou milhares de obras por toda a Europa, durante a ascensão de Hitler, portanto, não se tratava de uma tarefa fácil rastreá-las e tentar restituí-las aos seus donos.

George Clooney é Frank Stokes, um professor especializado em arte, que forma e lidera uma equipe para viajar à Europa depois da rendição na Normandia (o Dia D). Entretanto, isso não tornou mais fácil a missão de Stokes e de seus colegas, pois nem toda a Europa estava já livre da opressão da guerra e a escolha entre salvar vidas e salvar obras de arte fazia com que comandantes de várias divisões do exército americano decidissem não empreender muitos esforços para auxiliar Stokes e sua equipe.

Aliás, para mim, esta foi a grande questão proposta pelo filme: até que ponto ia a importância da tarefa de Stokes e seus homens, em meio a um cenário de mortes e destruição? Um comandante americano chega a dizer ao personagem de George Clooney que não se esforçaria para impedir que derrubassem um prédio importante, se isso o fizesse arriscar vidas. Por outro lado, conservar a arte significava conservar a história e a identidade de várias nações. Durante todo o filme, há um conflito constante entre a questão imediata de salvar vidas e a indagação perene de lutar pela conservação de obras-primas que representam os tesouros de muitos povos dominados pelo nazismo durante a Segunda Guerra.

Cate Blanchett é Claire Simone, uma mulher francesa que, na Paris tomada pelos nazistas, é obrigada a secretariar um oficial alemão da SS que, essencialmente, tem a tarefa de comandar equipes alemãs de pilhagem de obras de arte para vendê-las, ou estocá-las em minas espalhadas pela região da França, a fim de compor o acervo daquilo que seria o Museu do Füher, ou seja, o museu de Adolf Hitler, um artista frustrado, recusado pela Academia de Arte de Viena em sua juventude. Aí se apresenta o problema de um homem que deseja para si quase todo o patrimônio artístico da Europa.

Claire perde um irmão na luta pela resistência e dedica-se a montar um caderno precioso, com informações específicas de milhares de obras roubadas, bem como detalhes sobre o seu paradeiro. Seu trabalho é precioso para ajudar a equipe de Stokes a recuperar milhares de obras.

Vidas são perdidas, no decorrer do filme. A morte estúpida de Jean-Claude (o professor da escola de arte francesa vivido por Jean Dujardin) foi o grande exemplo da fragilidade de uma equipe montada para atuar em um contexto de guerra, mas que não era composta por homens acostumados a matar. Aliás, as mortes dos dois amigos de Stokes foram filmadas de maneiras diferentes, porém igualmente curiosas. O inglês Donald Jeffries, interpretado pelo ótimo Hugh Boneville (de Downton Abbey) morre ao ser baleado tentando impedir que alemães roubem a Madonna e o menino, de Michelangelo, a única de suas esculturas fora da Itália, de acordo com o que é passado no filme. Neste caso, trata-se de uma morte que funciona como uma rendição, pois, até ser escalado por Stokes, Jeffries era um oficial dominado pelo vício da bebida e que não passava de uma decepção para sua família.

Já Jean-Claude morre deixando esposa e dois filhos, ao ser baleado porque quis parar para ver um belo cavalo pastoreando. A ingenuidade de Jean-Claude e de sua morte quase que sem propósito contrapõe-se a uma morte “pela causa”, no caso de Jeffries.

Se em vários momentos uma trilha sonora mais alegre e mesmo situações mais descontraídas entre os protagonistas conferem leveza a Caçadores de obras-primas, o filme não perde a sua seriedade, nem o seu caráter um pouco documentarista. A produção foi baseada no livro de Robert Edsel, que foi escrito a partir de fatos reais.

Ficha técnica
Caçadores de obras-primas
Direção: George Clooney
Ano: 2014
País: EUA / Alemanha
Gênero: Drama / Guerra
Duração: 118 minutos
Elenco: George Clooney; Matt Damon; Cate Blanchett; John Goodman; Hugh Boneville; Bill Murray; Jean Dujardin; Bob Balaban; Dimitri Leônidas; Justus von Dohnányi, Holger Handtke

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