Mangá | Gourmet

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Gourmet
é um mangá com cuidado estético de graphic novel e argumento tão bom quanto o de uma graphic novel (eu li a versão em volume único e com capa dupla). Trata-se de uma história criada por Jiro Taniguchi – o primeiro japonês a receber o Prêmio Angoulême – e com o traço refinado de Masayuki Qusumi.

Do original Kodoku no Gurume (Gourmet solitário), o mangá é composto por 18 capítulos, que podem ser lidos de forma independente, nos quais o protagonista se ocupa em provar diferentes pratos da culinária japonesa, durante suas andanças por diferentes províncias do país. Inogashira é um jovem comerciante de produtos importados que, apesar da vida solitária, não é, absolutamente, uma pessoa amarga, ou infeliz. Li algumas resenhas nas quais se dizia que o nome do personagem não aparece em momento nenhum da história, mas, logo nos primeiros capítulos, pouco depois da página 30, se não me engano, uma cliente o chama de Sr. Inogashira e, no posfácio, Taniguchi refere-se a ele como Goro Inogashira.

O tom de nostalgia percorre todo o mangá, já que com muita frequência Inogashira associa suas refeições a lembranças, seja ao lado de uma antiga namorada, seja de sua época de estudante e por aí vai, ligando os pratos escolhidos às situações relacionadas a eles. O interessante disso tudo é que há uma sensibilidade latente capítulo a capítulo. O fato de o protagonista encarar o ato de comer como um ritual de celebração a um momento todo especial, e não como uma circunstância mecânica e corrida, já confere a Gourmet um nível de reflexão que me deixou bastante satisfeita.

Os capítulos têm naturezas bastante distintas, o que torna a leitura mais dinâmica. Por exemplo, o capítulo 7, do takoyaki em Osaka, é engraçadíssimo, sem ser forçado. As brincadeiras dos clientes da barraca de rua contrastam com o frio da época na qual Inogashira está fazendo a sua refeição. Por outro lado, no capítulo 12, os maus-tratos constantes do cozinheiro de um restaurante na área industrial de Kanagawa ao seu assistente fazem com que o protagonista perca o apetite e abandone a refeição pela metade, não sem antes confrontar o dono. A busca pela humanidade e pelo prazer (o personagem não deixa de desejar um “bom apetite” a si mesmo, antes de começar a refeição) em um ato aparentemente tão banal quanto comer alguma coisa na rua – em apenas um capítulo Inogashira come sozinho, em sua casa, a comida comprada em uma loja de conveniência – dá um tom especial a Gourmet. Trata-se de um mangá voltado para adultos, não por conter algum tipo de sacanagem, mas por estimular uma análise emocional que envolve a escolha do que se quer comer, o local da refeição (em um parque, Inogashira procura um banco, ou um canto no qual se sinta bem para, aí sim, comer), a aparência da comida, o aroma, o paladar, enfim, uma gama de sensações que não tem por finalidade apenas cumprir uma necessidade fisiológica, está além disso.

O traço delicado e refinado de Masayuki Qusumi combina muito bem com a proposta de Taniguchi. É sério, mas, ao mesmo tempo, não é denso, mesmo nos planos de cenários repletos de detalhes. Na maior parte das vezes, os enquadramentos são muito limpos, o que permite, inclusive, distinguir muitos detalhes dos pratos degustados por Inogashira.

O posfácio escrito por Jiro Taniguchi é revelador. No texto, o mangaka explica uma porção de dificuldades encontradas por ele na hora de entrar em restaurantes, pedir pratos e lidar com a presença ou não de outros clientes nos estabelecimentos. Isso explica muita coisa, pois seu protagonista não apenas passa por todas essas situações no decorrer dos 18 capítulos de Gourmet, como também o leitor é instigado a questionar, em um ponto ou outro da leitura, como um personagem como Inogashira pode ter sido criado.

O glossário no final do mangá é uma ajuda e tanto para quem não conhece todos os vários pratos que aparecem no decorrer da história. Uma ressalva para a revisão de texto, que deixou passar pequenos deslizes que tiram um pouco do brilho de Gourmet. Mesmo assim, vale a leitura. É uma história bastante simples e, talvez por isso mesmo, tão bacana.

Gourmet
Jiro Taniguchi (argumento) & Masayuki Qusume (traço)
Conrad
200 páginas

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