Leitura | Festa no covil

Este livro chegou às minhas mãos por meio da gentileza da Editora Companhia das Letras, que enviou para mim um exemplar para leitura e avaliação. Eu não conhecia o autor, o mexicano autor de contos, crônicas e críticas de cinema e livros Juan Pablo Villalobos, e também não tinha expectativa alguma em relação a este título. Contudo, fico muito feliz em registrar, aqui, que a leitura de Festa no Covil foi uma grata surpresa.

Com uma narrativa dinâmica e de alta qualidade, Villalobos constrói um enredo contado pela ótica de um menino filho de um poderoso chefe do narcotráfico, chamado por ele de Yolcaut. A questão dos nomes, aliás, é um ponto muito interessante da história, pois, em vários momentos, eles são trocados pelo narrador, o que me fez pensar sobre a importância da identidade de cada um, versus o papel que cada pessoa representa na vida do protagonista. A vulnerabilidade dos nomes traz consigo a vulnerabilidade dos referenciais também.

Tochtli é um garotinho muito esperto, que vive recluso na mansão do pai, praticamente isolado da sociedade, e que conta, com uma naturalidade impressionante, todo o tipo de violências que lhe chegam pela TV, pelos relatos dos empregados de seu pai e, principalmente, de seu professor particular, o politizado Mazatzin. Curiosa é a forma como fica evidente, no desenrolar do enredo, a banalização atual de conceitos como a verdade, a mentira, a violência e, até mesmo, o amor.

O garoto tem exatamente tudo o que de melhor o dinheiro pode comprar. O dinheiro sujo que seu pai lucra com o tráfico de drogas, mas que, de certa maneira, se purifica quando se transforma em bens para uma criança que, mesmo a par da realidade de sua situação – a lucidez de Tochtli é notável –, conserva a inevitável inocência da infância. A mistura desses elementos resulta em um discurso literário muito interessante, inteligente e, acredite, agradabilíssimo.

Na tevê tem um escândalo porque mostraram a foto da cabeça cortada do policial. Mas não é por causa do penteado [Tochtli tem fascinação por penteados e chapéus]. O escândalo é assim: uns acham que a tevê não devia mostrar imagens de cabeças cortadas. Nem de cadáveres. Outros acham que sim, que todo mundo tem o direito de ver a verdade. O Yolcaut acha graça desse escândalo e diz que é mais uma babaquice pra distrair as pessoas. Eu não digo nada. Apesar de achar que não são babaquices. O Yolcaut acha que são babaquices porque ele não liga para as verdades e as mentiras. Eu quase falei pra ele que os bandos também tratam de dizer a verdade, mas fiquei quieto. Acontece que virei mudo. E também parei de me chamar Tochtli. Agora me chamo Usagi [coelho, em japonês], e sou um mudo japonês.” (p. 38)

Foi com a leitura de Festa no Covil que tive contato, pela primeira vez, com o termo “narcoliteratura”. Eu nem sabia que já existia uma nomenclatura específica para se referir a esta literatura que trata substancialmente de armas, tráfico e mulheres, conforme as observações do posfácio de Adam Thirlwell. Entretanto, a forte presença de Tochtli e a característica predominante da ótica infantil pelo qual o enredo violento criado por Villalobos ganha força, não permite que pensemos diretamente em narcoliteratura. Na verdade, o que o autor mexicano faz é uma subversão de padrões literários com muita propriedade e coerência, por mais difícil que se possa conceber essa combinação.

O maior sonho do pequeno Tochtli era adquirir um hipopótamo anão da Libéria, um país localizado na África. A questão curiosa é que o pequeno narrador quer um exemplar de uma espécie em extinção, muito difícil de ser, até mesmo, contrabandeada. Durante a minha leitura, foi inevitável pensar que Villalobos faz do hipopótamo anão da Libéria uma brilhante metáfora da busca abstrata de Tochtli por aquilo que, na verdade, ele não sabe do que se trata, mas que, para o leitor, fica mais do que claro: amor. O pequeno e poderoso herdeiro da fortuna do tráfico de drogas tem problemas intestinais ocasionados pela pressão psicológica que sofre veladamente, ao ter consciência de que seu modo de vida peculiar provém das atividades escusas do pai, e sente terrivelmente a falta de ter uma família normal – a ponto de contar quantas pessoas conhece: 

O problema é que não conheço muita gente. Conheço no máximo umas treze ou catorze pessoas, e quatro delas dizem que sou muito precoce. Dizem que eu pareço mais velho. Ou o contrário, que sou muito novo pra essas coisas. Ou o contrário do contrário, às vezes até pensam que sou anão.” (p. 9)

A experiência da leitura deste livro foi não apenas enriquecedora, mas também bastante reflexiva. Achei fantástica a forma como ele transpôs uma realidade caótica para a perspectiva tão original de uma criança – fantástico mesmo, na realidade, é a verossimilhança que ele consegue conferir ao relato. O livro é instigante; apenas no final eu tomei consciência da relação entre título e enredo – provavelmente isso aconteceu pelo fato de eu ter me deixado encantar pela narrativa de Tochtli, pois há tantos aspectos a se considerar nesta obra de Villalobos, que uma segunda e, eventualmente, uma terceira leitura são ótimas pedidas!

Livro recomendado!

Festa no Covil
Juan Pablo Villalobos
Tradução de Andréia Moroni (revisada pelo autor)
Companhia das Letras
88 páginas
R$ 29,50

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