Café Literário | Cemitério de Pianos

 

Neste breve comentário, já começo ressaltando que a série de Cafés Literários com minha querida amiga Elis Marchioni não poderia ter começado de melhor maneira. Cemitério de Pianos, livro do escritor português José Luís Peixoto, escolhido para a nossa primeira “reunião literária”, tornou-se rapidamente, à medida que a leitura ia fluindo, um dos meus livros favoritos.

A obra é um rico enredo, cheio de nuances, uma leitura desafiadora, repleta de sentidos abertos, sobre os quais o leitor pode inferir e refletir enquanto acompanha a saga da família de Francisco Lázaro, em uma narrativa que passa de geração à geração, do avô, para o pai, para o filho, todos com o mesmo nome, numa clara referência ao Lázaro bíblico, o homem ressuscitado por Jesus. Daí já se percebe que a ideia de imortalidade persegue o livro, onde o tempo é cíclico e o protagonista parece “permanecer vivo” a cada geração. Determinados acontecimentos se repetem na história da família, sem, contudo, deixar a impressão de mera repetição – esta é apenas uma das características que poderiam pôr o livro a perder, mas que acabam tendo efeito contrário, revelando um domínio da linguagem por parte do autor realmente admirável.

O prazer que tive ao ler este livro de José Luís Peixoto, o qual a Elis ainda frisou que não é o principal título deste autor, acabou me lembrando da satisfação semelhante que tenho sempre que leio algo do Milton Hatoum. Diferenças à parte, ambos os escritores conseguem ser profundamente poéticos e foi este principal traço que me chamou a atenção para relacioná-los. Um ótimo exemplo está na bela descrição que o “Francisco avô” faz do “Francisco pai”:

“O Francisco deixava devagar de ser um rapaz e principiava devagar a ser um homem. A sua idade era como a hora difusa em que a tarde começa a misturar-se com a noite, parece ser tarde, parece ser noite, e já não é a tarde, e ainda não é a noite.” (pág. 282)

O avô, o pai e o filho formam uma trindade na história de uma família profundamente patriarcalista, na qual as mulheres parecem destinadas a sofrer com casamentos infelizes e em que a história também se repete no destino do tio caolho que se transforma no irmão caolho, banido e solitário por ser o único a se rebelar contra a ignorância do chefe do clã.

A surpresa, no entanto, está em Íris, a neta que, tão pequena, constitui o elo entre a avó viúva e o avô morto. Não é à toa que seu nome é uma parte tão importante do olho. Também na história da família Lázaro, Íris ajuda a colorir os dias, passando longos períodos com a avó, com a qual dorme a sesta e divide dilemas inconscientes, e protagoniza discussões fundamentais com o avô morto em pleno cemitério de pianos, na oficina da família, enfrentando-o com o status de uma mulher capaz de enxergar o passado e o presente, assim como Francisco Lázaro. Livro simplesmente fascinante e recomendado!

Cemitério de Pianos

José Luís Peixoto
Record
303 páginas
2008
R$ 42,90

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