TV | Observações sobre “Sherlock” (BBC) e “Elementary”

 

Eu esperava ter mais informações sobre os episódios finais da primeira temporada de Elementary – releitura em forma de série norte-americana sobre Sherlock Holmes atualmente em exibição na TV a cabo – para escrever sobre esse assunto, mas, após 12 episódios assistidos, creio já ter uma pequena base para me manifestar.

De início, é muito interessante pensar que essas diversas interpretações sobre o detetive mais famoso da literatura não deixam de ser um estímulo para aqueles que nunca leram suas histórias – acho muito válido quando as releituras feitas para o cinema ou a TV fazem esse papel e esse é o caso dos dois seriados em questão, principalmente se confrontados um com o outro.

Passando essa fase, a observação de alguns detalhes muito fortes tanto no Sherlock britânico (protagonizado por Benedict Cumberbatch) quanto no norte-americano (protagonizado por Jonny Lee Miller) podem revelar traços muito interessantes sobre o que as respectivas audiências pensam sobre o Sherlock literário, ou seja, original – principalmente porque ambas se dedicam a reinterpretá-lo nos dias de hoje.

Para mim, o ponto forte da versão britânica é a forma brilhante pela qual eles conseguiram inserir no universo sherlockiano a questão tecnológica. Um viva para a equipe, que conseguiu aliar um ritmo aceleradíssimo com tramas dominadas pelos recursos atuais. Esse cuidado especial na hora de conceitualizar a maneira como o detetive interagiria com o celular, o computador, os avanços da ciência, parece mostrar que os ingleses temiam o anacronismo do raciocínio maquinal que Sherlock sempre demonstrou nos livros. E eles se saíram bem.

Em relação à versão norte-americana, não posso deixar de admirar a coragem demonstrada pela sua equipe, ao tomar a difícil decisão de transformar John Watson em Joan Watson (Lucy Liu). Entretanto, a admiração inicial se transformou em preocupação quando parei para pensar que isso nada mais poderia ser do que uma atitude para afastar a hipótese da homossexualidade de Holmes, assunto tão discutido pela crítica e por muitos leitores de suas histórias originais. Essa possível homofobia velada me deixou bem preocupada. Especialmente pelo fato de que, em vários episódios, os roteiristas deixam pistas muito claras da masculinidade do detetive, ainda que suas “necessidades sexuais” sejam saciadas apenas para o seu bem-estar fisiológico, como ele mesmo chega a comentar.

Não me parece que o objetivo de “Elementary” seja focar um bizarro romance entre Holmes e Watson, mas transformar o melhor amigo do detetive em melhor amiga revela uma inquietude dos norte-americanos em relação à figura de um herói que eles mesmos poderiam considerar menor ou não tão valioso, se ele não fosse heterossexual. Um capricho com o qual os ingleses não perderam seu tempo, ainda bem.

Quanto às fraquezas de Holmes – como a droga, por exemplo –, a versão americana tomou uma postura muito mais aberta, mesmo porque a inserção de Joan Watson na história como uma “ex-médica acompanhante de pessoas em processo de reabilitação” dependia disso. Nesse contexto, Watson entra na trama como uma peça fundamental, sem a qual Holmes não pode realizar o seu trabalho na polícia, ou mesmo viver fora da clínica. Já os ingleses limitaram o seu Sherlock ao uso de adesivos para deixar de fumar e a outros cuidados mais independentes e politicamente corretos, porque, provavelmente, seria incoerente que uma mente tão poderosa não conseguisse controlar seus próprios instintos destrutivos. No cenário da série britânica, John Watson (o ótimo Martin Freeman) também é uma figura fundamental, porém, por razões diferentes (ele é praticamente o único amigo de Holmes, por ser praticamente o único a conseguir, de alguma forma, aproximar-se dele), e aproxima-se mais do personagem original dos livros, equilibrando os episódios com a humanidade que muitas vezes falta ao seu melhor amigo.

Em relação aos enredos, as diferenças se refletem nas escolhas dos roteiristas. Os ingleses conseguiram, com bastante cuidado e inteligência, valorizar mais as tramas de Conan Doyle, transpondo as histórias dos livros para episódios de 90 minutos cheios de atualidade, recursos de direção de arte e edição elogiáveis. Todos os três episódios da primeira temporada são ótimos exemplos de quão difícil foi alcançar o alto nível exigido pela emissora britânica – algo apenas atingido nos três capítulos da segunda temporada, todos superiores em qualidade técnica e em enredo em relação aos da primeira.

Os norte-americanos, por sua vez, optaram por não seguir as histórias originais e não conseguiram ser tão felizes até o momento. Dos 12 episódios aos quais assisti, quase a metade foi previsível e os demais se mostraram muito mais CSI do que Sherlock Holmes (será que eles não veem a diferença?).

Quanto aos protagonistas… é difícil dizer qualquer coisa, quando Benedict Cumberbatch personifica de maneira fantástica um Holmes ao mesmo tempo inteligente, introspectivo e sarcástico – algumas das principais qualidades do personagem original. Jonny Lee Miller, no entanto, deixou-se dominar por uma máscara caricata, que predispõe o gênio ao necessariamente maluco, incapaz de impor respeito – e essa é a fraqueza de seu Sherlock.

Como fã que sou, para mim, é impossível não acompanhar os dois seriados. Fico intrigada com as soluções que as duas equipes de roteiristas terão de tomar em relação a personagens tão importantes no universo de Holmes, como Prof. Moriarty, Irene Adler e Mycroft Holmes, seu irmão mais velho. Na série britânica, todos eles já apareceram em algum momento da trama (na série norte-americana, nem todos), mas não de forma a se esgotarem na história. Como há a expectativa de que ambas sejam renovadas, as próximas temporadas tanto de “Sherlock” quanto de “Elementary” ainda devem revelar muitas surpresas. Resta saber se elas serão boas ou más.

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2 comentários sobre “TV | Observações sobre “Sherlock” (BBC) e “Elementary”

  1. Deixei de acompanhar desde o oitavo episódio dos dois seriados, quando sair vários, um monte mesmo, eu vou reunir uma coleção melhor. Sobre a questão homossexual, eu nem sabia que pensavam nisso, nossa!

  2. Mas Samuel o Sherlock da BBC só tem 6 episódios ( 3 da primeira temporada e 3 da segunda temporada). Acho que vc deixou de acompanhar foi o oitavo episódio do Elementary…
    Essa questão da homossexualidade nem me incomoda, mas o Steven Moffat, co-criador da série da britânica, afirmou que o Sherlock na verdade é assexuado, mas mostrou-se ser hetero ao se interessar pela Irene Adler 😉

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